Não
bastava o bloqueio do Estreito de Ormuz aos navios que deviam transitar por
ali, para virem, agora, os rebeldes houthis do Iémen decretar uma interdição à
navegação israelita no mar Vermelho, pondo em risco esta via marítima, bem como
o golfo de Áden e o estreito de Bab el-Mandeb, que os liga, o que, juntamente
com o anúncio, a 8 de junho de um ataque com mísseis a Israel, dá entender que
se juntaram, formalmente, de novo, a Terão na guerra contra Israel. Esta
arremetida ameaça um terço do petróleo e de gás enviados por mar.
Durante
a guerra entre Israel e o Hamas, em Gaza, os Houthis atacaram navios de carga
nesta rota marítima vital, por onde passavam, todos os anos, bens avaliados em
cerca de um bilião de dólares (866 mil milhões de euros), com perto de 200
incidentes, obrigando muitas empresas a um longo desvio em torno do extremo sul
de África.
O
desvio em causa adiciona, em geral, cerca de 14 dias e custos significativos às
viagens entre a Ásia e a Europa. O volume de petróleo que atravessa o estreito
de Bab el-Mandeb desceu de 8,8 milhões para cerca de quatro milhões de barris,
por dia, durante a campanha.
Os
Houthis suspenderam os ataques após o cessar-fogo, em Gaza, em outubro de 2025,
mas avisaram que os retomariam, se a guerra do Irão escalasse. Agora, o
presente anúncio surge numa altura em que o estreito de Ormuz, porta de entrada
para o Golfo e para os seus exportadores de energia, continua bloqueado por
Teerão, colocando, simultaneamente, sob ameaça dois dos pontos de
estrangulamento marítimo mais críticos do Mundo.
O
Bab el-Mandeb, com apenas 26 quilómetros de largura, no seu ponto mais
estreito, liga o mar Vermelho ao golfo de Áden e ao mais vasto oceano Índico.
Cerca de 12% do comércio marítimo mundial passa por ali. Por sua vez, o Estreito
de Ormuz é a rota de cerca de um quinto do petróleo e do gás transportados por
mar em todo o Mundo, além de outras cargas.
Não
obstante, num comunicado das forças armadas dos Houthis, lê-se: “Declaramos uma
proibição completa e total da navegação marítima israelita no mar Vermelho. […]
Consideramos todos os movimentos do inimigo alvos militares legítimos para as
nossas forças armadas, a partir do momento em que este comunicado é divulgado.”
Os
Houthis, que, em março aderiram, formalmente, à guerra do Irão, em apoio de
Teerão, não anunciavam um ataque com mísseis contra Israel, desde o início do
frágil cessar-fogo, em 8 de abril. Desta vez, afirmaram ter lançado uma
barragem de mísseis contra alvos sensíveis do inimigo israelita e que as
investidas atingiram os objetivos, com precisão.
Antes
do anúncio, o exército israelita escreveu, na rede social Telegram, que “identificou
o lançamento de um míssil, a partir do Iémen, em direção a território israelita
e que os sistemas de defesa aérea estão a operar para intercetar a ameaça”.
O
ataque dos Houthis ocorreu, a 6 de junho, enquanto Israel e o Irão trocavam
fogo, colocando o cessar-fogo sob nova pressão e ameaçando as esperanças de um
acordo de paz.
Os
Houthis e o Hezbollah, sediado no Líbano, integram o Eixo da Resistência,
apoiado, treinado e armado por Teerão, que inclui o Hamas e milícias no Iraque.
Oficialmente designados por Ansar Allah, os Houthis, que são um grupo político
e militar xiita zaydita sediado no Iémen, formado na década de 1990, para
resistir à influência ocidental e para combater o wahabismo (movimento
fundamentalista do islamismo sunita, originado no século XVIII, na Península
Arábica), controlam grande parte do país, há mais de uma década, após terem
tomado a capital Sanaa e derrubado o governo em setembro de 2014.
***
Entretanto,
o Irão ameaçou atacar infraestruturas energéticas, em países vizinhos e no
resto da região, se continuarem os ataques israelitas contra instalações
energéticas iranianas, numa altura em que os dois lados trocaram ataques contra
complexos petroquímicos, também a 6 de junho.
Uma
fonte não identificada, próxima da Guarda Revolucionária do Irão, declarou à
agência noticiosa Fars que qualquer novo ataque contra instalações
energéticas do Irão desencadearia ataques contra ativos energéticos dos Estados
Unidos da América (EUA), de Israel e dos respetivos parceiros regionais. E
sublinhou que as petrolíferas e empresas de energia a operar na região com
acionistas norte-americanos ou com israelitas eram consideradas alvos
legítimos.
Antes
dessa declaração, os meios de comunicação iranianos noticiaram que Israel
atacara a fábrica petroquímica de Karun, situada na cidade portuária de
Mahshahr, na província de Khuzestan, no Sudoeste do Irão, uma das principais
zonas petroquímicas e industriais do país.
Na
verdade, o complexo de Karun é um dos maiores produtores de etileno do Irão e
um elemento crucial da infraestrutura de exportação química do país.
Cerca
de uma hora depois, a Guarda Revolucionária afirmou que a sua força aeroespacial
atacara, em retaliação, instalações petroquímicas em Haifa, o principal porto
industrial de Israel e o centro do seu setor petroquímico, acolhendo a
refinaria da Bazan Group, a maior do país, bem como várias fábricas químicas e
terminais de armazenamento.
Os
ataques à zona industrial de Haifa implicam significativos riscos para civis e
para o ambiente, dada a concentração de materiais perigosos ali armazenados.
Porém, a Guarda Revolucionária do Irão disse que os ataques visavam “instalações
industriais semelhantes” às atingidas no Irão e acusou Israel de ter lançado “um
jogo perigoso”, ao visar infraestruturas energéticas civis. Por seu turno, as
forças israelitas indicaram, em separado, ter atacado alvos militares no Oeste
e Centro do Irão, horas depois de o Irão lançar mísseis contra Israel, em
resposta a um ataque israelita anterior aos subúrbios sul de Beirute.
Na
conferência de imprensa semanal de 8 de junho, o porta-voz do Ministério dos
Negócios Estrangeiros do Irão, Esmaeil Baghaei, rejeitou, diretamente, a
alegação de Donald Trump de que Washington tentara impedir os ataques
israelitas. “Ninguém acredita que [Israel] tome qualquer iniciativa sem
coordenação com os Estados Unidos da América”, afirmou Baghaei, acrescentando
que o Comando Central dos EUA estava “totalmente alinhado” com Israel, “tanto
nas operações ofensivas como nas defensivas”.
Baghaei
afirmou que as vertentes militar e diplomática do Irão decorriam em paralelo,
que as forças armadas iranianas atuarão, “sempre que necessário”, e que o
ataque de retaliação do Irão foi realizado ao abrigo do artigo 51.º da Carta da
Organização das Nações Unidas (ONU), que consagra o direito dos estados-membros
à autodefesa individual ou coletiva, em resposta a um ataque armado.
Responsabilizou,
diretamente, os EUA pelas ações israelitas, dizendo que Washington assumia
responsabilidade, como parte no cessar-fogo de 8 de abril, e que “qualquer
desenvolvimento na região que resulte numa violação do cessar-fogo implica
responsabilidade direta dos EUA”.
No
sinal diplomático mais significativo do briefing, Baghaei referiu, pela
primeira vez, que o stock de urânio enriquecido do Irão poderia ser
incluído numa segunda fase de negociações, uma mudança notável face à posição
anterior de Teerão de que o tema não era negociável.
“Qualquer
discussão sobre vários aspetos do programa nuclear do Irão, incluindo o seu stock
de urânio enriquecido, é, nesta fase, puramente especulativa”, declarou,
observando que, “se esta fase chegar a uma conclusão bem-sucedida, essa questão
será um dos temas a discutir na próxima fase de negociações”. E acrescentou que
as conversações atuais continuam centradas no fim da guerra, não estando, por
agora, em cima da mesa uma troca de prisioneiros com os EUA.
Baghaei
negou ainda que o Irão tivesse atacado a base aérea Prince Sultan, na Arábia
Saudita, após relatos de um ataque desse tipo. “As nossas forças armadas
anunciam, abertamente e com coragem, qualquer alvo que atinjam, no quadro do
legítimo direito de autodefesa do Irão. Neste caso, não recebemos qualquer
declaração ou anúncio desse teor, por parte das nossas forças armadas”, porfiou.
Acusou,
igualmente, o diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA),
Rafael Grossi, de adotar uma abordagem “completamente parcial, não técnica e
política”, em relação ao dossiê nuclear iraniano, o mais recente episódio numa
série de críticas públicas iranianas à forma como Grossi tem conduzido a
supervisão da agência, desde o início da guerra.
A
troca de ataques ocorre apesar de um cessar-fogo entre o Irão e os EUA em vigor
desde 8 de abril. Teerão insiste que o acordo abrange todas as frentes,
incluindo o Líbano e as operações israelitas, posição rejeitada por Washington
e por Israel.
Relatos
e imagens divulgadas nas redes sociais, a partir do Irão, indicavam que os
ataques israelitas contra Teerão e contra outras grandes cidades continuavam,
com os sistemas de defesa aérea acionados para intercetar ameaças em
aproximação.
***
Enquanto
sucede tudo isto, é de recordar que o primeiro-ministro de Israel, Benjamin
Netanyahu, anunciou, a 7 de junho, que as suas forças armadas bombardearam os
subúrbios do Sul de Beirute, indicando que foi o primeiro ataque contra a
capital libanesa, desde o acordo do novo cessar-fogo alcançado em Washington, a
4 de junho.
“De
acordo com as instruções do primeiro-ministro Netanyahu e do ministro da Defesa
Katz, as forças de defesa de Israel [FDI, o exército] atacaram o
quartel-general terrorista no bairro de Dahye, em Beirute, em resposta aos
disparos do Hezbollah contra território israelita”, referiu o comunicado do
gabinete do governante israelita, criado pela agência de notícias espanhola EFE.
Os
subúrbios do sul de Beirute bombardeados por Israel são conhecidos como Dahye e
constituem um bastião do grupo xiita Hezbollah.
Segundo
avançou a agência de notícias Associated Press (AP), citando o
comunicado de imprensa do primeiro-ministro, os ataques constituíram uma
retaliação aos disparos efetuados, anteriormente, pelo grupo militante
Hezbollah contra o Norte de Israel. Porém, o Hezbollah não reivindicou,
imediatamente, a responsabilidade por esses ataques.
Israel
atacou os extensos bairros urbanos, duas vezes, desde que o primeiro acordo
entre o Líbano e Israel entrou em vigor a 17 de abril. Os ataques sobre o sul
do Líbano, continuam diariamente, onde combatentes do Hezbollah e tropas
israelitas também entraram em confronto. Segundo a AP, os residentes
ouviram três explosões na área, mas não há notícias de vítimas.
***
Também
guerra a Ucrânia prossegue, como diria Camilo Castelo Branco, “convenientemente”.
O
comandante das Forças Armadas ucranianas, Oleksandr Syrsky, garantiu que a
Ucrânia recuperou cerca de 100 quilómetros quadrados de território, no mês de
maio.
Numa
publicação, no Telegram, Syrsky aponta que, “na sequência das
operações realizadas em maio”, o saldo entre território recuperado e perdido
foi favorável à Ucrânia, em cerca de 100 quilómetros quadrados. Segundo o chefe
militar, mais de 600 quilómetros quadrados de território ucraniano foram
libertados, desde o início do ano.
Oleksandr
Syrsky faz ainda um balanço das operações militares de maio, afirmando que as
unidades de drones “atingiram mais de 88 mil alvos” e “neutralizaram mais de
30500 soldados russos”. Não obstante, de acordo com a Reuters, um ataque
russo com drones contra a cidade de Zaporizhzhia, no Sudeste da Ucrânia,
provocou a morte de duas pessoas e, pelo menos, 15 ficaram feridas, segundo o
governador regional, Ivan Fedorov.
Mostrando-se
o presidente dos EUA cansado com as negociais entre Washington e Moscovo, o
Reino Unido, a França e a Alemanha estão a combinar, entre si e com o presidente
ucraniano, a forma de colocar Moscovo e Kiev em conversações para obter o fim
da guerra, o que Vladimir Putin vem pondo de parte, ao não ceder nos seus
objetivos territoriais.
***
Por
sua vez, Donald Trump avisou Israel e o Irão de que devem travar os ataques,
imediatamente.
Em
duas publicações nas redes sociais, o inquilino da Casa Branca exigiu que os
dois lados parassem de “disparar”. Inicialmente, apenas o Irão anunciou o fim
dos ataques, mas, após um telefonema entre o presidente norte-americano e o primeiro-ministro
israelita, Israel terá concordado com a suspensão das hostilidades.
Depois
de a Guarda Revolucionária do Irão ter anunciado que os seus ataques contra
Israel poderiam continuar durante toda a semana, as forças armadas do Irão
anunciaram o fim das operações militares contra Israel, mas avisaram, no
entanto, que ataques “muito mais severos” ocorrerão, caso Israel retome as
ofensivas contra o Sul do Líbano.
Mais
tarde, foi a vez de uma autoridade israelita afirma ao canal 12 do país
que também Israel vai cessar os ataques, a pedido do chefe de Estado
norte-americano. Contudo, os ataques no Sul do Líbano prosseguirão, se o
Hezbollah atacar Israel.
Após
a mais recente troca de ataques entre o Irão e Israel, o chefe de Estado
norte-americano continua a vincar que ambos os países “procuram um cessar-fogo
imediato”.
O
presidente dos EUA disse, em declarações aos jornalistas, que “não estava
feliz” com os ataques de Teerão, mas que estes “não teriam qualquer impacto no
acordo”. E insistiu que “quem dá as ordens” é o chefe de Estado
norte-americano, e não Benjamin Netanyahu, com quem entrou em rota de colisão, recentemente.
Apesar
de Trump afirmar que a paz está próxima, os sinais indicam que está a perder
influência na crescente crise. O analista militar Michael Clarke referiu, em
declarações à Sky News, que a administração norte-americana tem
desenvolvido uma “diplomacia amadora”.
Por
outro lado, o governo paquistanês, que tem empreendido esforços, enquanto
mediador entre Israel e o Irão, não acredita que um acordo esteja próximo.
***
Vladimir
Putin persiste na sua soberba ambição de hegemonia militar e de expansão territorial.
Donald Trump continua convencido que pode ser o senhor da guerra e construtor da
paz. Benjamin Netanyahu vê terroristas em qualquer esquina. Masoud Pezeshkian (presidente
do Irão) e Mojtaba Khamenei (líder supremo do Irão) dizem que se limitam a responder
a ataques armados.
Todos
dizem querer a paz, mas nenhum abdica das suas ambições (armas nucleares, poderio
militar, político e económico, terras raras, controlo do petróleo e dos seus
derivados, domínio territorial, etc.).
Toda
esta hipocrisia sanguinolenta me faz lembrar o epíteto “puñetero y desalmado”, com
que “El Credo de la Misa Campesina” carateriza Pôncio Pilatos. Com efeito, porfiou
que Jesus de Nazaré era inocente, mas, no entanto, mandou-o flagelar e coroar
de espinhos e, lavando as mãos para se afirmar irresponsável pela sua morte,
entregou-o à crucifixão.
Não
serão também verdadeiros “puñeteros y desalmados” estes senhores da guerra que,
enquanto conversam, instigam à matança de tanta gente e à destruição de património
e de ecossistemas?
2026.06.08
– Louro de Carvalho
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