segunda-feira, 8 de junho de 2026

A guerra no Médio Oriente está a complicar-se

 

Não bastava o bloqueio do Estreito de Ormuz aos navios que deviam transitar por ali, para virem, agora, os rebeldes houthis do Iémen decretar uma interdição à navegação israelita no mar Vermelho, pondo em risco esta via marítima, bem como o golfo de Áden e o estreito de Bab el-Mandeb, que os liga, o que, juntamente com o anúncio, a 8 de junho de um ataque com mísseis a Israel, dá entender que se juntaram, formalmente, de novo, a Terão na guerra contra Israel. Esta arremetida ameaça um terço do petróleo e de gás enviados por mar.

Durante a guerra entre Israel e o Hamas, em Gaza, os Houthis atacaram navios de carga nesta rota marítima vital, por onde passavam, todos os anos, bens avaliados em cerca de um bilião de dólares (866 mil milhões de euros), com perto de 200 incidentes, obrigando muitas empresas a um longo desvio em torno do extremo sul de África.

O desvio em causa adiciona, em geral, cerca de 14 dias e custos significativos às viagens entre a Ásia e a Europa. O volume de petróleo que atravessa o estreito de Bab el-Mandeb desceu de 8,8 milhões para cerca de quatro milhões de barris, por dia, durante a campanha.

Os Houthis suspenderam os ataques após o cessar-fogo, em Gaza, em outubro de 2025, mas avisaram que os retomariam, se a guerra do Irão escalasse. Agora, o presente anúncio surge numa altura em que o estreito de Ormuz, porta de entrada para o Golfo e para os seus exportadores de energia, continua bloqueado por Teerão, colocando, simultaneamente, sob ameaça dois dos pontos de estrangulamento marítimo mais críticos do Mundo.

O Bab el-Mandeb, com apenas 26 quilómetros de largura, no seu ponto mais estreito, liga o mar Vermelho ao golfo de Áden e ao mais vasto oceano Índico. Cerca de 12% do comércio marítimo mundial passa por ali. Por sua vez, o Estreito de Ormuz é a rota de cerca de um quinto do petróleo e do gás transportados por mar em todo o Mundo, além de outras cargas.

Não obstante, num comunicado das forças armadas dos Houthis, lê-se: “Declaramos uma proibição completa e total da navegação marítima israelita no mar Vermelho. […] Consideramos todos os movimentos do inimigo alvos militares legítimos para as nossas forças armadas, a partir do momento em que este comunicado é divulgado.”

Os Houthis, que, em março aderiram, formalmente, à guerra do Irão, em apoio de Teerão, não anunciavam um ataque com mísseis contra Israel, desde o início do frágil cessar-fogo, em 8 de abril. Desta vez, afirmaram ter lançado uma barragem de mísseis contra alvos sensíveis do inimigo israelita e que as investidas atingiram os objetivos, com precisão.

Antes do anúncio, o exército israelita escreveu, na rede social Telegram, que “identificou o lançamento de um míssil, a partir do Iémen, em direção a território israelita e que os sistemas de defesa aérea estão a operar para intercetar a ameaça”.

O ataque dos Houthis ocorreu, a 6 de junho, enquanto Israel e o Irão trocavam fogo, colocando o cessar-fogo sob nova pressão e ameaçando as esperanças de um acordo de paz.

Os Houthis e o Hezbollah, sediado no Líbano, integram o Eixo da Resistência, apoiado, treinado e armado por Teerão, que inclui o Hamas e milícias no Iraque. Oficialmente designados por Ansar Allah, os Houthis, que são um grupo político e militar xiita zaydita sediado no Iémen, formado na década de 1990, para resistir à influência ocidental e para combater o wahabismo (movimento fundamentalista do islamismo sunita, originado no século XVIII, na Península Arábica), controlam grande parte do país, há mais de uma década, após terem tomado a capital Sanaa e derrubado o governo em setembro de 2014.

***

Entretanto, o Irão ameaçou atacar infraestruturas energéticas, em países vizinhos e no resto da região, se continuarem os ataques israelitas contra instalações energéticas iranianas, numa altura em que os dois lados trocaram ataques contra complexos petroquímicos, também a 6 de junho.

Uma fonte não identificada, próxima da Guarda Revolucionária do Irão, declarou à agência noticiosa Fars que qualquer novo ataque contra instalações energéticas do Irão desencadearia ataques contra ativos energéticos dos Estados Unidos da América (EUA), de Israel e dos respetivos parceiros regionais. E sublinhou que as petrolíferas e empresas de energia a operar na região com acionistas norte-americanos ou com israelitas eram consideradas alvos legítimos.

Antes dessa declaração, os meios de comunicação iranianos noticiaram que Israel atacara a fábrica petroquímica de Karun, situada na cidade portuária de Mahshahr, na província de Khuzestan, no Sudoeste do Irão, uma das principais zonas petroquímicas e industriais do país.

Na verdade, o complexo de Karun é um dos maiores produtores de etileno do Irão e um elemento crucial da infraestrutura de exportação química do país.

Cerca de uma hora depois, a Guarda Revolucionária afirmou que a sua força aeroespacial atacara, em retaliação, instalações petroquímicas em Haifa, o principal porto industrial de Israel e o centro do seu setor petroquímico, acolhendo a refinaria da Bazan Group, a maior do país, bem como várias fábricas químicas e terminais de armazenamento.

Os ataques à zona industrial de Haifa implicam significativos riscos para civis e para o ambiente, dada a concentração de materiais perigosos ali armazenados. Porém, a Guarda Revolucionária do Irão disse que os ataques visavam “instalações industriais semelhantes” às atingidas no Irão e acusou Israel de ter lançado “um jogo perigoso”, ao visar infraestruturas energéticas civis. Por seu turno, as forças israelitas indicaram, em separado, ter atacado alvos militares no Oeste e Centro do Irão, horas depois de o Irão lançar mísseis contra Israel, em resposta a um ataque israelita anterior aos subúrbios sul de Beirute.

Na conferência de imprensa semanal de 8 de junho, o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros do Irão, Esmaeil Baghaei, rejeitou, diretamente, a alegação de Donald Trump de que Washington tentara impedir os ataques israelitas. “Ninguém acredita que [Israel] tome qualquer iniciativa sem coordenação com os Estados Unidos da América”, afirmou Baghaei, acrescentando que o Comando Central dos EUA estava “totalmente alinhado” com Israel, “tanto nas operações ofensivas como nas defensivas”.

Baghaei afirmou que as vertentes militar e diplomática do Irão decorriam em paralelo, que as forças armadas iranianas atuarão, “sempre que necessário”, e que o ataque de retaliação do Irão foi realizado ao abrigo do artigo 51.º da Carta da Organização das Nações Unidas (ONU), que consagra o direito dos estados-membros à autodefesa individual ou coletiva, em resposta a um ataque armado.

Responsabilizou, diretamente, os EUA pelas ações israelitas, dizendo que Washington assumia responsabilidade, como parte no cessar-fogo de 8 de abril, e que “qualquer desenvolvimento na região que resulte numa violação do cessar-fogo implica responsabilidade direta dos EUA”.

No sinal diplomático mais significativo do briefing, Baghaei referiu, pela primeira vez, que o stock de urânio enriquecido do Irão poderia ser incluído numa segunda fase de negociações, uma mudança notável face à posição anterior de Teerão de que o tema não era negociável.

“Qualquer discussão sobre vários aspetos do programa nuclear do Irão, incluindo o seu stock de urânio enriquecido, é, nesta fase, puramente especulativa”, declarou, observando que, “se esta fase chegar a uma conclusão bem-sucedida, essa questão será um dos temas a discutir na próxima fase de negociações”. E acrescentou que as conversações atuais continuam centradas no fim da guerra, não estando, por agora, em cima da mesa uma troca de prisioneiros com os EUA.

Baghaei negou ainda que o Irão tivesse atacado a base aérea Prince Sultan, na Arábia Saudita, após relatos de um ataque desse tipo. “As nossas forças armadas anunciam, abertamente e com coragem, qualquer alvo que atinjam, no quadro do legítimo direito de autodefesa do Irão. Neste caso, não recebemos qualquer declaração ou anúncio desse teor, por parte das nossas forças armadas”, porfiou.

Acusou, igualmente, o diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA), Rafael Grossi, de adotar uma abordagem “completamente parcial, não técnica e política”, em relação ao dossiê nuclear iraniano, o mais recente episódio numa série de críticas públicas iranianas à forma como Grossi tem conduzido a supervisão da agência, desde o início da guerra.

A troca de ataques ocorre apesar de um cessar-fogo entre o Irão e os EUA em vigor desde 8 de abril. Teerão insiste que o acordo abrange todas as frentes, incluindo o Líbano e as operações israelitas, posição rejeitada por Washington e por Israel.

Relatos e imagens divulgadas nas redes sociais, a partir do Irão, indicavam que os ataques israelitas contra Teerão e contra outras grandes cidades continuavam, com os sistemas de defesa aérea acionados para intercetar ameaças em aproximação.

***

Enquanto sucede tudo isto, é de recordar que o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, anunciou, a 7 de junho, que as suas forças armadas bombardearam os subúrbios do Sul de Beirute, indicando que foi o primeiro ataque contra a capital libanesa, desde o acordo do novo cessar-fogo alcançado em Washington, a 4 de junho.

“De acordo com as instruções do primeiro-ministro Netanyahu e do ministro da Defesa Katz, as forças de defesa de Israel [FDI, o exército] atacaram o quartel-general terrorista no bairro de Dahye, em Beirute, em resposta aos disparos do Hezbollah contra território israelita”, referiu o comunicado do gabinete do governante israelita, criado pela agência de notícias espanhola EFE.

Os subúrbios do sul de Beirute bombardeados por Israel são conhecidos como Dahye e constituem um bastião do grupo xiita Hezbollah.

Segundo avançou a agência de notícias Associated Press (AP), citando o comunicado de imprensa do primeiro-ministro, os ataques constituíram uma retaliação aos disparos efetuados, anteriormente, pelo grupo militante Hezbollah contra o Norte de Israel. Porém, o Hezbollah não reivindicou, imediatamente, a responsabilidade por esses ataques.

Israel atacou os extensos bairros urbanos, duas vezes, desde que o primeiro acordo entre o Líbano e Israel entrou em vigor a 17 de abril. Os ataques sobre o sul do Líbano, continuam diariamente, onde combatentes do Hezbollah e tropas israelitas também entraram em confronto. Segundo a AP, os residentes ouviram três explosões na área, mas não há notícias de vítimas.

***

Também guerra a Ucrânia prossegue, como diria Camilo Castelo Branco, “convenientemente”.

O comandante das Forças Armadas ucranianas, Oleksandr Syrsky, garantiu que a Ucrânia recuperou cerca de 100 quilómetros quadrados de território, no mês de maio.

Numa publicação, no Telegram, Syrsky aponta que, “na sequência das operações realizadas em maio”, o saldo entre território recuperado e perdido foi favorável à Ucrânia, em cerca de 100 quilómetros quadrados. Segundo o chefe militar, mais de 600 quilómetros quadrados de território ucraniano foram libertados, desde o início do ano.

Oleksandr Syrsky faz ainda um balanço das operações militares de maio, afirmando que as unidades de drones “atingiram mais de 88 mil alvos” e “neutralizaram mais de 30500 soldados russos”. Não obstante, de acordo com a Reuters, um ataque russo com drones contra a cidade de Zaporizhzhia, no Sudeste da Ucrânia, provocou a morte de duas pessoas e, pelo menos, 15 ficaram feridas, segundo o governador regional, Ivan Fedorov.

Mostrando-se o presidente dos EUA cansado com as negociais entre Washington e Moscovo, o Reino Unido, a França e a Alemanha estão a combinar, entre si e com o presidente ucraniano, a forma de colocar Moscovo e Kiev em conversações para obter o fim da guerra, o que Vladimir Putin vem pondo de parte, ao não ceder nos seus objetivos territoriais.

***

Por sua vez, Donald Trump avisou Israel e o Irão de que devem travar os ataques, imediatamente.

Em duas publicações nas redes sociais, o inquilino da Casa Branca exigiu que os dois lados parassem de “disparar”. Inicialmente, apenas o Irão anunciou o fim dos ataques, mas, após um telefonema entre o presidente norte-americano e o primeiro-ministro israelita, Israel terá concordado com a suspensão das hostilidades.

Depois de a Guarda Revolucionária do Irão ter anunciado que os seus ataques contra Israel poderiam continuar durante toda a semana, as forças armadas do Irão anunciaram o fim das operações militares contra Israel, mas avisaram, no entanto, que ataques “muito mais severos” ocorrerão, caso Israel retome as ofensivas contra o Sul do Líbano.

Mais tarde, foi a vez de uma autoridade israelita afirma ao canal 12 do país que também Israel vai cessar os ataques, a pedido do chefe de Estado norte-americano. Contudo, os ataques no Sul do Líbano prosseguirão, se o Hezbollah atacar Israel.

Após a mais recente troca de ataques entre o Irão e Israel, o chefe de Estado norte-americano continua a vincar que ambos os países “procuram um cessar-fogo imediato”.

O presidente dos EUA disse, em declarações aos jornalistas, que “não estava feliz” com os ataques de Teerão, mas que estes “não teriam qualquer impacto no acordo”. E insistiu que “quem dá as ordens” é o chefe de Estado norte-americano, e não Benjamin Netanyahu, com quem entrou em rota de colisão, recentemente.

Apesar de Trump afirmar que a paz está próxima, os sinais indicam que está a perder influência na crescente crise. O analista militar Michael Clarke referiu, em declarações à Sky News, que a administração norte-americana tem desenvolvido uma “diplomacia amadora”.

Por outro lado, o governo paquistanês, que tem empreendido esforços, enquanto mediador entre Israel e o Irão, não acredita que um acordo esteja próximo.

***

Vladimir Putin persiste na sua soberba ambição de hegemonia militar e de expansão territorial. Donald Trump continua convencido que pode ser o senhor da guerra e construtor da paz. Benjamin Netanyahu vê terroristas em qualquer esquina. Masoud Pezeshkian (presidente do Irão) e Mojtaba Khamenei (líder supremo do Irão) dizem que se limitam a responder a ataques armados.

Todos dizem querer a paz, mas nenhum abdica das suas ambições (armas nucleares, poderio militar, político e económico, terras raras, controlo do petróleo e dos seus derivados, domínio territorial, etc.).

Toda esta hipocrisia sanguinolenta me faz lembrar o epíteto “puñetero y desalmado”, com que “El Credo de la Misa Campesina” carateriza Pôncio Pilatos. Com efeito, porfiou que Jesus de Nazaré era inocente, mas, no entanto, mandou-o flagelar e coroar de espinhos e, lavando as mãos para se afirmar irresponsável pela sua morte, entregou-o à crucifixão.  

Não serão também verdadeiros “puñeteros y desalmados” estes senhores da guerra que, enquanto conversam, instigam à matança de tanta gente e à destruição de património e de ecossistemas?

2026.06.08 – Louro de Carvalho


Sem comentários:

Enviar um comentário