segunda-feira, 22 de junho de 2026

Panorama geral do Reino Unido após dez anos de Brexit

 

A 23 de junho de 2016 (já lá vão dez anos), em referendo, o Reino Unido (UK) votou, por estreita margem, a saída da União Europeia (UE), com 52% dos eleitores que foram às urnas a optarem pela saída e 48% a preferirem a permanência. A expressão popular de tal opção, conhecida por Brexit, foi seguida de três anos e meio de negociações penosas e de turbulência política no UK, até o país deixar, oficialmente, o bloco, no início de 2020.

Passada uma década, algumas das asserções contraditórias sobre se o Brexit seria uma vantagem ou um desastre para o país mantêm-se.

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Desde o referendo, nenhum primeiro-ministro britânico terminou o seu mandato. Nos últimos dez anos, já passaram seis pelo número 10 de Downing Street e o sétimo está a caminho, após a demissão do trabalhista Keir Starmer.

David Cameron foi o primeiro-ministro conservador que prometeu, no manifesto eleitoral, em 2015, o referendo do Brexit e fez campanha para continuar na UE. Porém, demitiu-se após os britânicos terem votado a saída. Tinha assumido a liderança do governo em 2010, em coligação com os liberais-democratas, após a demissão de Gordon Brown. Em 2015, depois de um mandato completo (foi o último a cumprir um) obteve a maioria com a promessa do referendo, mas acabou por anunciar a demissão a 24 de junho de 2016 (um dia depois da corrida às urnas sobre o Brexit). Saiu a 13 de julho.

Theresa May, ex-ministra do Interior concorreu à liderança dos Tories (conservadores) e foi aclamada após a adversária, Andrea Leadsom, desistir, antes de os militantes conservadores serem chamados a votar. O mandato foi marcado pelas negociações para concretizar o Brexit. À procura de legitimidade, convocou eleições para junho de 2017, que resultaram num parlamento dividido (ficando dependente do apoio dos Unionistas da Irlanda do Norte). Sem fazer passar o acordo do Brexit no Parlamento, anunciou a demissão, a 24 de maio de 2019, tendo saído a 24 de julho.

Boris Johnson, antigo mayor (presidente da câmara) de Londres foi um dos rostos da campanha do Brexit e concorreu à sucessão com a promessa de conseguir o “divórcio” da UE. Foi eleito pelos conservadores com 66% dos votos, derrotando Jeremy Hunt. Em dezembro de 2019, cinco meses após tomar posse, conseguiu uma maioria sólida nas eleições que convocou para cumprir a promessa. O Brexit concretizou-se a 31 de janeiro de 2020. Contudo, a pandemia e as polémicas festas e outros escândalos levaram-no à demissão, a 7 de julho de 2022.

Liz Truss, com o recorde de mais curto mandato (49 dias), ficou no cargo de 6 de setembro de 2022, após derrotar Rishi Sunak nas eleições internas, com 57% dos votos, a 25 de outubro de 2022. Entretanto, morreu a rainha Isabel II, a 8 de setembro, e foi aclamado Carlos III. Para a História, ressalta o facto de ser a primeira-ministra quando Isabel II morreu e o seu controverso miniorçamento, causando o caos nos mercados financeiros e levando-a à demissão.

Rishi Sunak, o segundo na corrida à liderança, com Liz Truss, foi aclamado, depois de os adversários desistirem. Foi o primeiro chefe do governo britânico de origem asiática (os pais são de origem indiana). Logrou, como prometeu, cortar a inflação e impulsionar o crescimento económico, mas falhou nas promessas de redução da dívida pública, de diminuição das listas de espera no serviço nacional de saúde e do veto à entrada de imigrantes ilegais. Demitiu-se da liderança dos conservadores, depois de perder as eleições de 2024.

O trabalhista Keir Starmer chegou ao poder nas eleições de 4 de julho de 2024, reconstruindo o partido, após a derrota de 2019, para alcançar expressiva maioria (só ficou aquém da de Tony Blair, em 1997). Porém, liderar a maioria parlamentar e o Reino Unido não se revelou fácil, com queixas de que não ouvia os deputados e de que não era capaz de decisão rápida. Foi eleito com a promessa de mudança, mas os eleitores não a sentiram. E não resistiu à pressão interna, anunciando a demissão a 22 de junho de 2026.

O próximo primeiro-ministro, Andy Burham, o sétimo, desde o referendo do Brexit, será eleito ou aclamado pelos trabalhistas, menos de uma semana após ter vencido as eleições em Makerfield, que lhe permitiram regressar ao Parlamento (tomou posse, a 22 de junho), e já anunciou que quer ser eleito líder do partido e assumir a chefia do governo. A dúvida é saber se o “Rei do Norte”, como é conhecido, após ter sido autarca da região de Grande Manchester, terá adversários. Se não tiver, haverá uma “coroação”, podendo entrar no número 10 de Downing Street no prazo de um mês.

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Da economia à imigração, passando pela fronteira irlandesa e pela segurança, continua o debate sobre se a saída do UK da UE foi benéfica, embora as sondagens mostrem que a maioria da população considera o Brexit um fracasso. A campanha pela permanência insistia que sair da UE causaria danos significativos à economia britânica, deixando o país mais pobre e os cidadãos em pior situação. E afirmavam-no políticos e ativistas de primeiro plano.

Em maio de 2016, o então ministro das Finanças, George Osborne, afirmou que o voto para sair representaria choque imediato e profundo para economia e empurrá-la-ia para uma recessão que levaria a um aumento do desemprego na ordem das 500 mil pessoas. “O PIB [produto interno bruto] seria 3,6% mais baixo, os salários reais médios seriam menores, a inflação mais alta, a libra mais fraca, os preços das casas seriam afetados e o endividamento público subiria em comparação com um voto para permanecer”, explicitou.

Uma década depois, isso aconteceu, de forma gradual, e não por queda abrupta. Segundo o Gabinete para a Responsabilidade Orçamental (OBR), a produtividade do país caiu 4%; as exportações e importações britânicas com a UE serão, a longo prazo, 15% mais baixas; e os novos acordos comerciais com países fora da UE não tiveram impacto relevante.

Mark English, conselheiro de políticas do European Movement UK, sustenta que “as estimativas centrais vão de o Reino Unido ser 4% mais pobre do que seria sem o Brexit até 8% mais pobre”. E Jonathan Portes, professor de economia e políticas públicas no King’s College London, expressou opinião semelhante, embora menos pesada. “O consenso entre os economistas era que o Brexit prejudicaria a economia do Reino Unido, e isso revelou-se correto. Há várias estimativas sobre a dimensão desses danos, mas existe um consenso de que o impacto foi significativo e duradouro. As estimativas apontam até para 8% do PIB, embora, na minha opinião, isso seja exagerado, mas é, certamente, plausível dizer que o Brexit custou à economia britânica talvez entre 3% e 5% do PIB”, afirmou.

Especialistas referem que houve alguns benefícios marginais, no sentido em que o UK pôde concluir um acordo de comércio livre com a Índia, uma das economias que mais cresce no Mundo, antes da UE. Porém, como indicou o OBR, tais acordos não tiveram significativo impacto na economia britânica. Além disso, é de lembrar que, após a saída do Reino Unido da UE, a economia mundial foi abalada por crises sucessivas, como a pandemia de covid-19 e a invasão em grande escala da Ucrânia pela Rússia.

Embora seja difícil separar os efeitos do Brexit destes outros choques económicos, os números apontam, claramente, para um efeito negativo nas finanças. Há bastantes estudos diferentes, com métodos distintos, mas a apontar na mesma direção. “Os danos foram significativos, embora os números exatos variem, e, dadas as incertezas, nunca saberemos com precisão quais foram os impactos do Brexit, porque a situação é muito complexa. […] Não temos um mundo alternativo em que o Brexit não aconteceu, mas podemos estar razoavelmente certos de que o Brexit causou danos económicos significativos”, diz Jonathan Portes.

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A imigração foi um dos principais campos de batalha na campanha de 2016, com destacados defensores da saída a argumentar que deixar a UE permitiria ao Reino Unido controlar totalmente as suas fronteiras e reduzir o número de migrantes que chegavam ao país. E aos eleitores foi assegurado que a imigração líquida poderia ser reduzida para dezenas de milhares. Essa promessa era impossível de cumprir enquanto o UK fosse membro da UE, e o facto de não ser cumprida corroía a confiança do público na política. Ora, a imigração oriunda da UE caiu, drasticamente, com o fim da liberdade de circulação, mas os números provenientes de fora do bloco aumentaram, levando os níveis de imigração a valores recorde, em 2023.

Segundo o Migration Observatory da Universidade de Oxford, a imigração líquida proveniente da UE é negativa, desde 2022, com mais 42 mil pessoas a sair do que a entrar, em 2025. É mudança significativa, face ao período antecedente. Já a imigração líquida total atingiu 944 mil pessoas, no ano terminado em março de 2023, antes de cair para 171 mil, em 2025, aproximando-se dos níveis registados antes do novo sistema de imigração pós-Brexit.

Contudo, as promessas dos defensores do Brexit de acabarem com a livre circulação de pessoas de outros países europeus e de introduzir um sistema baseado em competências e em salários foram cumpridas, mas a forte impressão de que isso levaria à redução significativa da imigração não se confirma. E isso não se deveu só ao Brexit, pois a maioria dos outros países europeus também registou aumento significativo de imigração de fora da UE, após a pandemia, em consequência das carências de mão de obra que surgiram. No conjunto, o aumento da imigração de fora da UE mais do que compensou a diminuição da imigração oriunda da UE. Assim, o Brexit levou ao aumento da imigração, e não à sua diminuição.

Importa recordar que o UK, tal como todos os outros países da UE, sempre teve poder para afastar do seu território cidadãos europeus, em determinadas condições, apesar de os defensores da saída afirmarem que a liberdade de circulação significava acesso total e irrestrito às costas britânicas. Porém, a Diretiva relativa à livre circulação na UE estabelece, repetidamente, que os estados-membros podem expulsar cidadãos da UE que se tornem “encargo injustificado” para os seus sistemas de assistência social.

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Os defensores da saída alegavam que abandonar a UE significaria que o UK deixaria de estar vinculado à pesada burocracia europeia, eliminando regulamentos impeditivos, enquanto os partidários da permanência avisavam que tudo se tornaria mais lento. “Seria um regresso aos maus velhos tempos de formulários intermináveis e de burocracia pesada”, afirmou em março de 2016 o então primeiro-ministro David Cameron, defensor da permanência, vincando que sair da UE obrigaria as empresas britânicas a lidar com declarações aduaneiras, com verificações de regras de origem e com novos obstáculos às exportações.

Antes da criação do mercado único da UE, cada país tinha o seu próprio conjunto de regras, o que obrigava as empresas que queriam comerciar, em todo o continente, a garantir o cumprimento de cada uma delas. Ora, segundo alguns observadores, o UK esteve no centro da conceção do mercado único, que exigia às empresas o cumprimento de apenas um conjunto de regras e, assim, reduzia a burocracia. Neste sentido, o Brexit retirou às empresas britânicas a capacidade de venderem em todo o mercado, sem burocracia, enquanto as empresas da UE mantêm essa possibilidade, ficando em vantagem, em relação às empresas britânicas. Portanto, sair da UE levou a uma burocracia mais pesada.

Todavia, Londres não se afastou, de forma significativa, da regulamentação definida em Bruxelas, preservando as normas da UE, para evitar custos administrativos adicionais para as empresas, até porque o bloco continua a ser o seu maior parceiro comercial e está em vigor um acordo de cooperação. Assim, o Brexit não significou a eliminação maciça da regulamentação interna no Reino Unido, até porque os britânicos querem saber que os produtos que compram são seguros e que as empresas são devidamente reguladas.

Jonathan Portes afirmou que, em última análise, Cameron tinha razão, a curto prazo, visto que houve aumento significativo do trabalho da função pública e das áreas de política regulatória, no período de negociação e de implementação do Brexit. “Não é claro se houve um grande aumento ou diminuição, em qualquer sentido. O que é evidente é que não houve um grande retrocesso na regulamentação ou na burocracia, como consequência do Brexit. Provavelmente, hoje, temos mais regulamentos e mais funcionários do que antes do Brexit, embora, na minha opinião, isso se deva sobretudo a tendências mais amplas no Reino Unido”, observou.

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Theresa May, que supervisionou, inicialmente, o Brexit, sustentava que o Reino Unido ficaria mais exposto ao terrorismo, se deixasse a UE, enquanto os defensores da saída desvalorizavam estas preocupações como “Project Fear”. “O meu juízo, enquanto ministra do Interior, é que permanecer membro da União Europeia significa que estaremos mais protegidos contra o crime e o terrorismo”, afirmou, em abril de 2016, baseada no conjunto de bases de dados das quais o UK ficaria excluído, ao abandonar a UE, o que aconteceu.

Entre elas, contam-se: o Sistema de Informação de Schengen II, que permite aos países da UE partilhar alertas, em tempo real, sobre pessoas procuradas e sobre suspeitos de terrorismo; o Eurodac, base de dados de impressões digitais da UE para acompanhar passagens irregulares de fronteira; e o acesso direto aos sistemas de informação e às redes de informação estratégica da Europol e da Eurojust. Porém, os investigadores sustentam que, embora nada disto signifique que o Reino Unido esteja menos seguro, após a saída da UE, colocou obstáculos desnecessários à capacidade do país para combater o crime transfronteiriço.

Jonathan Portes afirmou que, tal como acontece com as barreiras comerciais pós-Brexit, a cooperação entre o Reino Unido e os restantes países europeus se tornou mais difícil. “Não é, certamente, uma ajuda, mas também não creio que tenha havido qualquer falha óbvia e catastrófica por causa disso. […] Na prática, a cooperação continua, apenas é um pouco mais pesada do ponto de vista burocrático”, comentou.

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A consequência mais recente do Brexit é a demissão do atual chefe do governo. Após muita especulação, chegou a confirmação, na manhã de 22 de junho: Keir Starmer apresentou a demissão. O primeiro-ministro anunciou a decisão, em frente ao número 10 de Downing Street, confirmando ter informado o rei Carlos III. Perante os jornalistas, o  líder trabalhista disse ter “ouvido a resposta” do seu partido sobre se era a pessoa mais indicada para liderar o país e os trabalhistas, durante as próximas eleições gerais. “Aceito essa resposta de bom grado”, afirmou, confirmando a decisão de deixar o executivo britânico e reforçando que todas as decisões que tomou tiveram como objetivo “colocar em primeiro lugar o país que amo”.

Por fim, revelou ter solicitado ao Comité Executivo Nacional do Partido Trabalhista que estabeleça um calendário para a corrida à liderança trabalhista, com o início do período de candidaturas a 9 de julho, que terminará a 16 de julho.

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Como todas as opções, o Brexit tem verso e reverso. Esta foi uma opção arriscada, mas foi a opção do povo. Caberá aos seus promotores a autocrítica e minimizar os danos.

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