quinta-feira, 18 de junho de 2026

Debate com o primeiro-ministro dominado pelo pacote laboral e pela PSU

A 17 de junho, o primeiro-ministro (PM), Luís Montenegro, abriu o debate quinzenal às 14h00, uma hora mais cedo do que é habitual, por alteração decidida pela Assembleia da República (AR), devido à estreia de Portugal no Mundial de Futebol a defrontar a República Democrática do Congo, em Houston, no Texas, às 18h00 de Lisboa. A parte do debate expressamente dedicada ao pacote laboral teve a representação do governo confiada à ministra do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, Maria do Rosário Palma Ramalho.

Na véspera, tinha havido uma reunião do PM e líder do Partido Social Democrata (PSD) com o líder do partido do Chega, André Ventura, que foi inconclusiva, mas com a garantia de que as negociações prosseguiriam.

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O PM começou com uma referência aos exames nacionais para milhares de estudantes, mas, logo, orientou o discurso para o pacote laboral, vincando que é preciso “incentivar o trabalho, premiar o mérito e proporcionar aos portugueses condições para atingirem as suas ambições”. Disse que “temos de transformar Portugal” e que “foi com esta determinação que o governo aprovou a proposta de revisão do Código do Trabalho”, reforma crucial para aumento da competitividade, do crescimento económico e do emprego, mas, sobretudo, para “melhores salários”. “Ao longo dos anos, o diagnóstico repete-se: Portugal é dos estados-membros da OCDE [Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico] com mais baixa taxa de produtividade, com maior rigidez da legislação laboral e [com] nível elevado de desemprego jovem”, frisou.

O chefe do governo sustentou que “mudar isto exige coragem e espírito de concertação”, pelo que os deputados decidirão se querem estar “do lado da ambição e da valorização do trabalho ou do lado do imobilismo e da mediania”. E disse que ainda anda “muita gente falar da proposta laboral de forma desinformada e superficial”.

Apontou a prestação social única (PSU) como uma forma de fazer um Estado social mais forte e que “quebra a armadilha da pobreza”, incentivando o trabalho e apoiando a construção de projetos de vida “com dignidade”, mas com fiscalização, para evitar abusos e fraudes.

E terminou a sua primeira intervenção, falando da necessidade de preparação para os incêndios florestais, congratulando-se com a eleição de Portugal para o Conselho de Segurança das Nações Unidas e apontando a Seleção de Portugal como assunto que não divide a AR.

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António Mendonça Mendes, do Partido Socialista (PS), recordou o aumento da taxa de inflação com principal enfoque no preço dos combustíveis. Como exemplo, referiu que, antes de a AD (Aliança Democrática) chegar ao governo, abastecer 50 litros de gasóleo custava 80 euros, ao passo que, “hoje, custa 93 euros”. Em seguida, apontou o aumento do “imposto sobre os produtos petrolíferos e energéticos (ISP), defendendo que o ISP deve baixar, e recordou a medida tomada pelo PS. Em resposta, o PM disse que o deputado repetiu as declarações de José Luís Carneiro, entendendo que “a repetição pode ser o método para mudar a realidade e a verdade”. Os governos do PSD “não aumentaram [em] 1% um único imposto”. Para Montenegro, o governo agiu com prudência e com responsabilidade e acompanhou “a evolução dos acontecimentos”.

Mariana Viera da Silva, também deputada do PS, focou-se na área da saúde, recordando que “mais de 80 mil portugueses não têm médicos de família”, e nos atrasos nas cirurgias, nomeadamente, as oncológicas, ao que o PM respondeu, acentuando que o Serviço Nacional de Saúde (SNS) deixado pelo PS “estava completamente encharcado”. E, admitindo a falta de médicos de família, sublinhou a entrada de mais de 350 mil novos utentes no SNS. 

O socialista Luís Testa falou da crise da habitação, criticando as respostas do governo da AD aos problemas da habitação, ao que o líder do PSD retorquiu, defendendo que o socialista se esqueceu de dizer que o licenciamento de construção de fogos cresceu.

E o secretário-geral socialista, José Luís Carneiro, pediu a Luís Montenegro que “não continue a transformar Portugal, porque Portugal está cada vez pior”; acusou o governo de propor à AR “a desvalorização do trabalho e das condições dos trabalhadores”; e disse esperar que o PM não fuja do tema da diminuição da idade da reforma, preconizada pelo Chega, frisando que significa retirar ao Fundo de Estabilização 4,5 mil milhões de euros, o que implicará aumentar impostos ou reduzir pensões.

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André Ventura, líder do Chega, assinalando o nono aniversário do incêndio florestal de Pedrógão Grande, disse que “foram nove anos de falhas do Estado” e, aludindo ao convite da Federação Portuguesa de Futebol (FPF) aos dirigentes partidários para assistirem ao Portugal-República Democrática do Congo, propôs que tais bilhetes sejam oferecidos a “pais de crianças internadas no Instituto Português de Oncologia” e “a ex-combatentes que vivem na miséria”.

Sobre o pacote laboral, disse que “esta foi uma má lei laboral, um mau desenho para os trabalhadores”. E questionou se o governo está disponível para “corrigir coisas em áreas fundamentais”, como a amamentação, a introdução da licença de assistência de avós que cuidam dos netos, a valorização do trabalho por turnos e a reposição das férias que foram tiradas aos trabalhadores, aquando da troika. “O PS falou muito, mas não fez nada; a esquerda falou muito, mas não fez nada”, considerou o líder do Chega, exigindo a reposição dos 25 dias úteis de férias, no setor público e no privado, e apelou a uma maioria AD-Chega, dizendo que a esquerda não tem votos para isso, mas o Chega tem.

O PM disse não concordar com o termo “corrigir”, frisando que é preciso “enriquecer a proposta”, e afirmou que o governo tem disponibilidade para o reforço do direito de amamentação, da conjugação da vida profissional com a familiar, bem como abertura para a proposta sobre os avós. Porém, assinalou que só haverá “oportunidade de fazer essa aproximação, esse diálogo, e de ser consequente com ele, se este instrumento for viabilizado” na AR.

A líder da Iniciativa Liberal (IL), Mariana Leitão, disse que o PM centrou a negociação do pacote laboral nas centrais sindicais que representam “uma ínfima parte dos jovens trabalhadores”, entregando-lhe o seu futuro “aos interesses instalados”. E, acusando-o de ter falhado aos jovens, perguntou “se vai ceder ao Chega”, na descida da idade da reforma.

O chefe do governo respondeu que a IL subestima a concertação social, realçando que o diálogo do executivo tanto foi com as centrais sindicais como com as confederações empresariais, e declarou que não defende a diminuição da idade para a reforma.

O líder parlamentar do partido do Centro Democrático Social - Partido Popular (CDS-PP), Paulo Núncio, defendeu que o debate mostrou que “a esquerda não aprende mesmo nada”, tendo em conta ao imobilismo da esquerda no pacote laboral, realçando a posição do PS, ao recorrer, em questões de economia ao “reformado” Mário Centeno.

Em resposta, o PM observou que, em oito anos de governação do PS, “as reformas ficaram cativadas”, até 2024, ano a partir do qual o país “vem cumprindo um programa de transformação que começa a produzir os seus efeitos”. E, retomando a expressão do líder parlamentar do CDS-PP, referiu que a estratégia dos “partidos do contra”, do lado esquerdo do hemiciclo, está a fazer com que o PS se torne “um partido irrelevante”.

A seguir, Paulo Núncio, defendendo que a solução para a crise da habitação passa por mais construção e pela confiança no arrendamento, perguntou ao PM se há condições para esperar que se construam mais casas – o que o interpelado confirmou, mencionando a simplificação de licenciamento e da fiscalidade amiga do investimento como fatores relevantes.

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O líder parlamentar do PSD, Hugo Soares, augurou que Roberto Martinez pusesse em prática uma tática melhor do que a do PS, evitando, assim, um desastre da Seleção de Portugal na estreia no Mundial, mas farpeou André Ventura, tendo em conta o seu ataque a Mário Centeno por se ter reformado antes dos 60 anos, recordando que o líder do Chega tem defendido, desde há meses, a baixa na idade da reforma. Todavia, as maiores críticas foram dedicadas aos socialistas. “O PS tem sido de uma sonsice e de uma hipocrisia total”, acusou Hugo Soares, recordando que o líder parlamentar socialista, Eurico Brilhante Dias, estava contra a ideia “repulsiva” de um canal de denúncias associado à prestação social única (PSU), mas o secretário-geral José Luís Carneiro anunciou a criação de um canal de denúncias interno.

Mais tarde, Hugo Soares acusou o secretário-geral do PS de “fazer papel de Calimero”, sendo “mais radical do que Pedro Nuno Santos”, porque se pôs de fora em todas as reformas, achando que “o diálogo se faz através dos CTT”, numa alusão às cartas que envia ao governo. E voltou a apelar à bancada socialista para viabilizar o pacote laboral, na generalidade, em vez de ser “um partido dissimulado e mais radicalizado”.

Por sua vez, Luís Montenegro confessou ter “dificuldade em fazer análise política sobre os comportamentos dos partidos”, remetendo tal visão para o Congresso do PSD, no próximo fim de semana. Contudo, acusou o PS de não ter sentido “vontade e nível de convergência suficientes” para colaborar com o governo, admitindo que isso “é legítimo, mas tem de ser assumido e fundamentado”, o que contrasta com o “sentido de responsabilidade” da AD, numa AR em que, pelo menos, um dos dois maiores partidos da oposição se tem de abster, ressalvando que “são mais as vezes que se juntam do que se separam”. “Dizemos ao que vimos e até onde podemos ir”, garantiu o chefe do governo, recordando que até o Chega e o PS justificam as suas convergências de voto com o interesse das pessoas, das empresas ou do país.

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O co-porta-voz do Livre, Rui Tavares, observando que “a dignidade parlamentar exigiria” que o governo não viesse dizer que certos partidos não têm propostas na discussão do pacote laboral, enumerou as que o seu partido tem. E, perguntando ao chefe do executivo se tem disponibilidade para discutir “propostas sérias” apresentadas pelo Livre, ouviu-o perguntar se está disponível para se abster, na generalidade, da proposta de lei, assumindo que dará indicação à bancada do partido a que preside para ter reciprocidade de sentido de voto na proposta do Livre.

“Abstém-se ou vota a favor?”, perguntou Luís Montenegro ao co-porta-voz do Livre, que tomou a palavra para lembrar a distribuição de iniciativas legislativas dos partidos da esquerda para a reposição dos 25 dias de férias que tiveram voto contra da bancada do Chega, o que deu azo a uma intervenção do líder parlamentar do partido de André Ventura.

Rui Tavares acabou por dizer “marquem a data”, disponibilizando o Livre para uma reunião na residência oficial do primeiro-ministro, antes de anunciar que o partido fará as jornadas parlamentares em Leiria, com foco na preparação do Estado para fenómenos como os incêndios florestais.

O secretário-geral do Partido Comunista Português (PCP), Paulo Raimundo, avisou o primeiro-ministro de que André Ventura disputa com ele o “lugar de empregado do mês das confederações patronais”, no que toca ao pacote laboral. A isto o PM respondeu que o líder comunista está equivocado, pois, na realidade, há “uma coligação discursiva” entre o PCP e o Chega, na medida em que os dois partidos “prometem dar tudo a todos”, fazendo de André Ventura “o mais socialista dos deputados da bancada do Chega”, sendo, por vezes, comunista.

O deputado único do Juntos pelo Povo (JPP), Filipe Sousa, reagiu a declarações do ministro da Presidência, António Leitão Amaro, que rotulou a aprovação das novas regras do subsídio social de mobilidade como “irresponsabilidade”, para perguntar quando as alterações legislativas entrarão em vigor e se será revelado o estudo do transporte marítimo entre regiões autónomas e Portugal Continental. O PM respondeu que, durante oito anos, não houve atualização das comparticipações e o sistema “tornou-se burocrático” e criou a injustiça de levar pessoas que viajam mais vezes “a adiantarem verbas significativas”. E, referindo-se às declarações de Leitão Amaro, aduziu que o fim do teto poderá levar ao aumento das tarifas aéreas.

A deputada única do partido Pessoas-animais-Natureza (PAN), Inês de Sousa Real, mencionou que Portugal “continua no banco dos suplentes”, em muitos indicadores, e que os portugueses “continuam a perder em muitos campeonatos”, levando o PM a dizer que, no atinente às alterações climáticas, a deputada não desconhece o empenho do governo nesse domínio e que será aprovada, em Conselho de Ministros, a Estratégia de Resposta às Alterações Climáticas, incluindo a proteção animal, mas sem se comprometer com a introdução de um dia de luto pela morte de animal de companhia, embora reconheça a importância da questão.

O deputado único do Bloco de Esquerda (BE), Fabian Figueiredo, invocou o empate obtido por Cabo Verde frente à Espanha, no Mundial de Futebol, como sinal do que pode acontecer, “quando os campos não estão inclinados”, eles estão inclinados em Portugal, onde alguns têm cada vez mais vantagens. E Luís Montenegro respondeu com uma metáfora futebolística, recordando que, “da última vez que fomos todos a jogo”, o BE apenas elegeu um deputado em 230.

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Numa segunda intervenção, André Ventura dirigiu-se à bancada socialista, que acusa de “ter estado a esbracejar”, dizendo que o partido está a “ficar a assobiar para o ar”, caricaturando o grupo de economistas reunido pelo partido para analisar o pacote laboral, incluindo Mário Centeno, “reformado antes dos 60 anos”.

Em seguida, retomou a interpelação ao PM, sobre a PSU em que o PSD e o Chega estarão a trabalhar em conjunto, dizendo a Luís Montenegro que quem não contribuiu para o sistema, em Portugal, não deverá ter direito a subsídios.

“É isso que está errado”, insistiu o primeiro-ministro, recomendando ao líder do Chega que “seja coerente” na PSU, apresentando um caso hipotético de uma família estrangeira sem contribuições sociais que veja morrer o chefe de família que tinha feito contribuições. E apelou ao “humanismo” da bancada de André Ventura.

Porém, o presidente do Chega desferiu novos ataques implícitos ao PS: “Sabemos que há um partido que não quer mudar nada e que quer comprar votos, dando tudo a todos. É tempo de dizer: ‘Não passarão’.”

Respondendo aos reptos de André Ventura, no atinente ao pacote laboral, o primeiro-ministro recordou o longo processo que envolveu meses de negociação em sede de concertação social, acabando por dizer que “há disponibilidade para enriquecer a proposta com contributos de todos os partidos”, advertindo que “a palavra final será sempre dos senhores deputados”. E distinguiu o Chega e a IL, que estão disponíveis para fazer alterações à proposta, das bancadas de esquerda, “que querem que tudo fique igual”. Enfim, como se esperava (“não” é “sim”), fez opção!

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Foi uma sessão sem novidades, com troca de muitos galhardetes irónicos (alguns insultuosos), com excessivas metáforas futebolísticas, com esquecimento de críticas da parte de quem esteve na oposição e de medidas insuficientes da parte de quem governou. Salvou-se a coerência dos pequenos partidos (à esquerda) e as boas razões de deputados únicos de três partidos.

2026.06.17 – Louro de Carvalho


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