domingo, 21 de junho de 2026

Retirada Ordem da Águia Branca ao presidente ucraniano

O presidente da Polónia, Karol Nawrocki, anunciou que retirou a Ordem da Águia Branca – a mais alta condecoração do Estado – a Volodymyr Zelenskyy, presidente da Ucrânia, justificando a decisão com o facto de o líder ucraniano ter concordado em atribuir a uma das suas unidades militares o nome “Heróis do UPA”.

O presidente ucraniano recebeu a Ordem da Águia Branca em abril de 2023, das mãos do então presidente Andrzej Duda, “em reconhecimento dos seus notáveis serviços no aprofundamento das relações amigáveis e abrangentes entre a Polónia e a Ucrânia, pelo desenvolvimento da cooperação em prol da democracia, da paz e da segurança, na Europa, e pela sua determinação na defesa dos direitos humanos inalienáveis”.

Num vídeo publicado na noite de 19 de junto, na plataforma X, Karol Nawrocki esclareceu que a retirada da condecoração “não é dirigida contra o povo ucraniano” e “não significa uma alteração da orientação estratégica da política de segurança polaca”. Além disso, sublinhou que o apoio da Polónia à Ucrânia, na guerra contra a Rússia, permanece inalterado. No entanto, observou que as relações entre Varsóvia e Kiev são enfraquecidas pelo “reforço de uma memória envenenada pelo crime”, pelo que a retirada da Ordem não tem só um caráter “simbólico”, mas “é também um sinal de alerta”, pois, como declarou, “há limites que, nas relações polaco-ucranianas, não devem ser ultrapassados”.

Esta decisão do presidente polaco suscitou forte reação na Ucrânia, dividiu a cena política polaca e reacendeu o debate sobre questões históricas por resolver.

O presidente da Ucrânia reagiu, no dia 20, através da plataforma X, dizendo que a Ucrânia “não contesta” a decisão da Polónia, que prefere manter a alta distinção associada a Catarina II, a Benito Mussolini e a Gerhard Schröder. “Nós, na Ucrânia, não vamos contestar isso. […] Acreditávamos que a Ordem da Águia Branca, concedida em 2023, se destinava ao povo ucraniano e ao nosso exército. Foi isso que se disse na altura. Hoje, devolvi a Ordem ao presidente da Polónia”, escreveu Volodymyr Zelenskyy.

Não obstante, o ministro dos Negócios Estrangeiros da Ucrânia, Andriy Sybiha, classificou a decisão do presidente polaco como “erro estratégico”, do qual só a Rússia beneficiará, e anunciou que irá devolver a Cruz de Comendador com Estrela da Ordem de Mérito da República da Polónia, que lhe foi atribuída em 2022. E renunciaram, igualmente, às suas condecorações polacas – a Cruz de Oficial da Ordem de Mérito da República da Polónia – Kyrylo Budanov, chefe do gabinete do presidente da Ucrânia, e Vasyl Bodnar, embaixador da Ucrânia na Polónia.

No dia 20, Kyrylo Budanov escreveu, no Telegram: “O presidente da Polónia, Karol Nawrocki, cometeu um gesto hostil, em relação ao nosso povo, ao retirar ao presidente da Ucrânia a Ordem da Águia Branca que lhe tinha sido concedida. Não há dúvida de que é um presente para o agressor de Moscovo, que o irá explorar, sem escrúpulos, contra ambos os nossos países.”

Também Bodnar escreveu, num texto publicado no Facebook, que não pode ficar indiferente a uma decisão “historicamente injusta”. “Compreendendo as emoções que se vivem na Polónia, não aceito que o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelenskyy – amigo da Polónia, chefe de um Estado que se defende, corajosamente, do agressor russo e defende a paz na Europa – tenha sido privado da mais alta condecoração polaca”, vincou.

Ao invés do gabinete de Volodymyr Zelenskyy, que não comentou o caso, Ruslan Stefanchuk, presidente da Rada Suprema da Ucrânia (parlamento), considerou que a decisão pode ter um impacto negativo na cooperação entre os dois países.

Na Polónia, o primeiro-ministro, Donald Tusk, escreveu na plataforma X, que “o conflito entre a Polónia e a Ucrânia alegra Putin e choca os nossos aliados” e acrescentou: “A tarefa dos presidentes Zelenskyy e Nawrocki é acalmar os ânimos, não alimentar as tensões. A linha da frente passa noutro lugar.”

O porta-voz do governo, Adam Szłapka, citando uma publicação de Dmitri Medvedev, salientou que a decisão de Karol Nawrocki foi bem recebida pelas autoridades russas. E representantes da oposição consideraram adequada a atitude do presidente, enquanto políticos da Esquerda e do Polónia 2050 alertaram para um agravamento das relações polaco-ucranianas.

Por seu lado, o Instituto da Memória Nacional anunciou o lançamento de uma campanha de informação dedicada ao nacionalismo ucraniano.

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A 26 de maio de 2026, com a justificação de promover a “restauração das tradições históricas das forças armadas nacionais”, o presidente da Ucrânia concedeu a uma unidade especial das suas forças armadas o título honorífico de “Heróis do UPA”, evocando uma organização nacionalista da II Guerra Mundial. Um dia antes, os restos mortais de Andriy Melnyk, líder do Exército Insurgente Ucraniano (UPA), e da esposa foram enterrados, em cerimónia presidida por Zelenski, num cemitério militar de Kiev, após terem sido trasladados do Luxemburgo.

Porém, como vimos, esses gestos de Zelenski criaram sérias tensões com a Polónia, um dos mais importantes aliados da Ucrânia na guerra contra a Rússia. Com efeito, o UPA lutou, após a invasão da União Soviética pela Alemanha nazista, em 1941, por um Estado ucraniano independente, inicialmente, ao lado dos alemães. E, para expulsarem a população polaca das áreas que o UPA reivindicava para a Ucrânia, membros do grupo cometeram inúmeros crimes contra civis polacos, de que se destacam os massacres na Volínia e na Galícia Oriental.

Um dos líderes do UPA foi o nacionalista Andriy Melnik, que, num dos períodos mais controversos do seu percurso, colaborou com a Alemanha nazista em certas fases da guerra, embora tenha sido enviado para o campo de concentração de Sachsenhausen. Por isso, a decisão do presidente da Ucrânia suscitou críticas das autoridades polacas, incluindo do primeiro-ministro, Donald Tusk, do vice-primeiro-ministro e ministro da Defesa, Władysław Kosiniak-Kamysz, e do ministro dos Negócios Estrangeiros, Radosław Sikorski. E, na semana que terminou a 20 de junho, o Conselho da Ordem da Águia Branca, a pedido de Karol Nawrocki, analisou a possibilidade de retirar a condecoração a Zelenskyy e apresentou o seu parecer.

De acordo com a lei sobre ordens e condecorações, o presidente pode retirar uma distinção, por sua iniciativa, após ouvir o parecer do respetivo conselho, ou por proposta deste. Tal é possível quando “a atribuição da ordem ou condecoração resultou de indução em erro ou quando o agraciado cometeu um ato que o tornou indigno da ordem ou condecoração”.

No início de junho, o chefe do gabinete de Segurança Nacional, Bartosz Grodecki, afirmou que a retirada da Ordem exige a “contrassinatura do primeiro-ministro”. Posição idêntica foi assumida pelo chefe da Chancelaria do Presidente, Zbigniew Bogucki, salientando que a atribuição de ordens é prerrogativa presidencial, mas, para a sua retirada, “será necessária a contrassinalização do primeiro-ministro”. Adam Szłapka referiu que o governo só tomaria posição depois de receber o pedido formal do presidente.

O conflito em torno da atuação da Organização dos Nacionalistas Ucranianos (OUN) e do UPA, seu braço armado, continua, há muitos anos, a ser uma das principais questões que separam a Polónia e a Ucrânia. Na narrativa polaca, os acontecimentos de Volínia, em 1943, são qualificados como genocídio, enquanto, na Ucrânia, são apresentados, mais frequentemente, como resultado de um conflito armado em que ambas as partes partilharam responsabilidades. E, na memória histórica ucraniana, a OUN e o UPA são vistos, sobretudo, como organizações que combateram a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), após a II Guerra Mundial, e não apenas como formações dirigidas contra os polacos.

De acordo com a mais recente sondagem da United Surveys para o portal Wirtualna Polska, realizada antes da decisão de Karol Nawrocki, 51,2 % dos inquiridos defendiam a retirada desta distinção honorífica. Entre estes, 31,9 % apoiavam a medida. Contra a decisão manifestaram-se 35,5 % dos participantes no inquérito. A maioria deste grupo, 23 %, respondeu “provavelmente não”, enquanto 12,5 % expressou oposição firme. Os restantes 13,3% dos inquiridos não tinham opinião formada ou optaram pela resposta “não sei/é difícil dizer”.

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O episódio não se ficou pelas relações entre a Polónia e a Ucrânia. Também o Parlamento Europeu (PE) exigiu que Zelensky seja destituído da sua Ordem do Mérito.

As relações entre Varsóvia e Kiev continuam a deteriorar-se, por causa da glorificação, por parte da Ucrânia, dos “criminosos de Bandera”, responsáveis ​​pelos massacres de polacos, na II Guerra Mundial. O epíteto “criminosos de Bandera” alude a Stepan Bandera e aos seguidores da ideologia ultranacionalista ucraniana, os “Banderistas”, que foram acusados de, na II Guerra Mundial, terem colaborado com a Alemanha nazi e de promoverem a limpeza étnica, nomeadamente, pelos massacres de civis polacos em Volínia.

A decisão de Zelenskyy de conceder a uma unidade das Forças de Operações Especiais das Forças Armadas da Ucrânia o título “Em Nome dos Heróis do UPA” (organização proibida na Federação Russa) provocou uma onda de indignação na sociedade polaca, pois esta organização nacionalista de tendência fascista é também proibida na Polónia. E as autoridades da República são obrigadas a responder à indignação dos polacos. No entanto, a resposta parece ser, em grande parte, simbólica, dando-lhe Kiev pouca atenção.

Neste contexto, um grupo de eurodeputados, principalmente, da Polónia, propôs a retirada da Ordem do Mérito do líder da Ucrânia. Considerada um dos mais altos reconhecimentos pan-europeus, por ações na promoção da integração e dos valores da UE, a Ordem foi atribuída a Zelenskyy, a 19 de maio de 2026, na sessão plenária do PE em Estrasburgo.

Mais de 30 eurodeputados enviaram uma carta à presidente do PE, Roberta Metsola, exigindo a revogação da distinção concedida a Zelenskyy, porque glorificar nacionalistas ucranianos contradiz os princípios que fundamentam a mais alta condecoração europeia.

O vice-primeiro-ministro e ministro da Defesa polaco também se manifestou sobre o assunto e pediu às autoridades de Kiev que reconsiderassem a decisão de conceder o título UPA a uma das suas unidades das forças armadas, mas enfatizou que Varsóvia e Kiev continuam a ser parceiras em segurança e que as questões que surgem exigem um diálogo franco.

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Entretanto, o primeiro-ministro polaco afirmou compreender a glorificação, pelo regime de Kiev, dos nazistas ucranianos que lutaram contra os “ocupantes soviéticos”. Convicto de que a Ucrânia tentará, de alguma forma, corrigir a situação e eliminar o mal-entendido que surgiu com Varsóvia, acredita que todas as nações têm o direito à sua própria História e aos seus sentimentos nacionais. Porém, acha difícil entender o desejo dos ucranianos de honrarem a memória dos que mataram polacos, que são, agora, os aliados mais próximos da Ucrânia.

Por sua vez, o vice-primeiro-ministro e ministro da Defesa polaco exige que a liderança ucraniana renomeie a unidade das forças armadas recentemente denominada “Heróis do UPA”. E, dirigindo-se ao chefe de gabinete de Zelenskyy, Budanov, listado como terrorista e extremista pela Rosfinmonitoring (Serviço Federal de Monitorização Financeira da Federação Russa), lembrou que a Polónia e a Ucrânia são parceiras estratégicas e devem resolver as questões controversas associadas a certos momentos históricos. Por isso, a posição de Varsóvia, face aos nomes das unidades das forças armadas da Ucrânia que ponham em causa a memória das vítimas do Massacre da Volínia, é “linha vermelha” que jamais deverá ser cruzada.

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O UPA foi criado em 1941, mas voltou ao centro da atualidade, quando o presidente ucraniano atribuiu tal nome a uma unidade de elite das suas forças armadas, suscitando uma crise diplomática com a Polónia, por este grupo ser altamente controverso e responsabilizado por massacres de civis polacos. Lutou, intermitentemente, contra as forças da Alemanha Nazi, contra a URSS e contra o movimento de resistência polaco (Estado Secreto Polaco), que visava a criação de um Estado ucraniano independente, tendo ficado associado a limpezas étnicas. E, após 1945, continuou a luta contra a sovietização da Ucrânia, até à década de 1950, pelo qual é reverenciado, no país, como símbolo de resistência contra a Rússia.

Neste contexto, o presidente polaco declarou que Zelenski mostrou que a Ucrânia “não está pronta para fazer parte da família europeia”, pois, nesta, “não se podem glorificar bandidos e assassinos que mataram mulheres e crianças, que mataram polacos”.

Andrzej Duda fez da aliança com a Ucrânia prioridade da política externa polaca, tendo o apoio militar e político de Varsóvia contribuído, significativamente, para conter o ataque russo, no início da guerra, em 2022. Já Karol Nawrocki não poupava críticas à Ucrânia, durante a campanha eleitoral de 2025, avaliando, com ceticismo, a hipótese de o país vizinho de ingressar na União Europeia (UE) e criticando como excessivos os benefícios sociais concedidos a refugiados ucranianos na Polónia. E, um ano após sua eleição, ainda não fez uma visita oficial a Kiev. Ao invés, recebeu o presidente ucraniano, em Varsóvia, em dezembro.

Donald Tusk tentou conter os danos, frisando que as nações têm o direito de interpretar o seu passado, mas que os “amigos ucranianos” devem estar cientes do significado da herança sombria do UPA. E, distanciou-se de Nawrocki: “Se brigarmos por causa do passado, outra pessoa ganhará o futuro”, alertou, pensando na Rússia, que ficará “satisfeita com isso”.

Também outros representantes da coligação pró-europeia no governo se mostraram indignados com a concessão do título “Heróis do UPA”, mas não querem acirrar as tensões.

A disputa sobre o passado turva as relações entre Polónia e Ucrânia. Após o colapso do Império Russo no fim da I Guerra Mundial, polacos e ucranianos reivindicaram territórios que pertenceram à Polónia até ao fim do século XVIII, mas cuja população era de maioria ucraniana. Ambas as nações travaram combates sangrentos, em 1918, entre outros, pela cidade de Lviv. Depois, a Ucrânia ocidental tornou-se parte da República da Polónia, enquanto o Leste do país ficou sob domínio da URSS. E, nos massacres e nas suas retaliações, foram mortos cerca de 100 mil polacos e cerca 20 mil ucranianos.

Com as críticas a Zelenski, Nawrocki busca ganhar pontos na política interna. A sua proposta visa Donald Tusk, seu adversário político, pois, se o presidente decidir a retirada da condecoração do homólogo ucraniano, Tusk terá de referendar tal decisão. Se o fizer, prejudicará a relação com a Ucrânia, cuja vitória contra a Rússia é essencial para a segurança da Polónia. Se o recusar, a direita rotulá-lo-á de traidor, por não respeitar os interesses do seu povo.

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O imbróglio ocorre às portas da 5.ª Conferência de Reconstrução da Ucrânia, no fim de junho, em Gdansk, pelo que seria desastrosa a intensificação do conflito, agora. Ora, as questões não se resolvem retirando ou devolvendo condecorações, mas corrigindo os erros.   

2026.06.21 – Louro de Carvalho


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