A
Liturgia da Palavra do 13.º domingo do Tempo Comum, no Ano A, apresenta-nos uma
reflexão sobre a marca do discipulado e da sua aceitação por quem o professa e
pelos destinatários da palavra e do testemunho. O discípulo é todo/a aquele/a
que, pelo Batismo, se identifica com Jesus, faz de Jesus a sua referência e O
segue; a sua missão é tornar presente, na História e no tempo, o desígnio de
salvação de Deus para os homens; e quem escutar a palavra e interiorizar o
testemunho gestual do discípulo receberá o ónus e a recompensa de discípulo.
***
A
primeira leitura (2Rs 4,8-11.14-16a) mostra como todos podem colaborar
na realização do desígnio salvador de Deus. De forma direta (Eliseu) ou de
forma indireta (a mulher sunamita), todos têm um papel a desempenhar para que Deus
Se torne presente no Mundo e interpele os homens.
Após
a morte de Salomão (932 a.C.), o povo de Deus dividiu-se em dois reinos: o de
Israel, no Norte, e o de Judá, no Sul, que passaram a ter histórias separadas
e, por vezes, antagónicas.
O
trecho em apreço remete para o reino de Israel, em meados do século IX a.C., no
reinado de Jorão (853-842 a.C.), com Israel a estabelecer relações económicas,
políticas e culturais com outros países, as quais o tornam vulnerável a
influências religiosas estrangeiras e favorecem a entrada de cultos diversos no
país – uma época de sincretismo e de confusão.
Eliseu,
discípulo de Elias, continua a obra do mestre, lutando contra o sincretismo
religioso e procurando trazer, de novo, os israelitas às sendas da fidelidade à
aliança. Faz parte de uma comunidade de filhos de profetas (“benê nebi’im”),
isto é, seguidores incondicionais de Javé, que vivem na absoluta fidelidade aos
mandamentos de Deus e não se deixam contaminar pelos valores religiosos
estrangeiros. Vivem pobremente e são, regularmente, consultados pelo Povo, que
neles busca apoio, face aos abusos dos poderosos.
Eliseu
é chamado o “homem de Deus” (‘ish Elohim), ou seja, o homem que é intérprete da
Palavra de Javé junto dos outros homens. A Palavra que transmite é uma Palavra
poderosa, que opera maravilhas e que tem a capacidade de transformar a
realidade. Os milagres atribuídos a Eliseu (o grande milagreiro do Antigo
Testamento) são a expressão viva da força de Deus, que intervém, pelo profeta,
na História, e salva os pobres.
O
episódio em causa situa-nos em Sunam – pequena cidade do Sul da Galileia, não
longe de Meggido, à entrada da planície de Yezre’el, em casa de uma mulher rica
e sem filhos – e tem duas partes distintas: a descrição da hospitalidade que a
mulher oferece ao profeta, pelo que é recompensada com o anúncio do nascimento
de um filho; e a repentina doença e morte do filho, que exigirá nova
intervenção do profeta para lhe devolver a vida. A leitura desta dominga apresenta-nos
a primeira parte.
Estamos,
pois, ante a generosa hospitalidade que Eliseu encontra em casa da mulher
sunamita, que não se limita a oferecer-lhe uma refeição, sempre que este
passava por Sunam, nas suas idas ao monte Carmelo e nas respetivas vindas, como
também manda construir, expressamente, para ele, um quarto no terraço da sua
casa e o mobila adequadamente. O seu gesto não se limita a levar até às últimas
consequências o sacramento da hospitalidade, tão relevante entre os povos do
Crescente Fértil, mas significa o reconhecimento de que Eliseu é um homem de
Deus, pelo qual Deus age no Mundo. Ajudando Eliseu, a mulher mostra a sua
adesão a Javé e a sua disponibilidade para colaborar com Deus no projeto de
salvação. Em resposta à generosidade da mulher, Eliseu anuncia-lhe o nascimento
de um filho. Esta promessa tem valor especial, dada a quase impossibilidade de
ter filhos que pesa sobre o casal, devido à avançada idade do marido.
Assim,
ficamos a saber que a colaboração com Deus na realização do seu plano de
salvação-libertação é fonte de vida e de bênção. Ou seja, Deus não deixa de
recompensar todos/as aqueles/as que colaboram com Ele.
***
O
Evangelho (Mt 10,37-42) é uma catequese sobre o discipulado. Num
primeiro passo, define o caminho do discípulo: o discípulo tem de ser capaz de
fazer de Jesus a sua opção fundamental e de seguir o mestre na via do amor e da
entrega da vida. Num segundo passo, sugere que toda a comunidade é chamada a
testemunhar a Boa Nova. E, no terceiro passo, garante recompensa àqueles/as que
acolherem, com generosidade e amor, os/as missionários/as do Reino.
O
trecho em análise apresenta-nos a parte final de um discurso atribuído a Jesus
e que teria sido pronunciado pouco antes do envio dos discípulos em missão.
Na
década de 80, Mateus escreve para uma comunidade onde a tradição missionária
estava bem enraizada, mas as condições políticas do final do século I (reinado
de Domiciano e hostilidade crescente do império em relação ao cristianismo)
trazem a comunidade confusa. Face a esta situação, o evangelista compõe então
uma espécie de “manual do missionário cristã”, para revitalizar a opção
missionária da comunidade. Nesse sentido, enuncia um conjunto de valores e de
atitudes que devem orientar a ação dos missionários cristãos.
O
excerto pode dividir-se em duas partes. Na primeira (vv. 37-39), temos
um conjunto de exigências radicais para quem quer seguir Jesus; na segunda
parte (vv. 40-42), aprendemos que toda a comunidade deve anunciar Jesus
e que terão recompensa destinada aqueles/as que acolherem os mensageiros do
Evangelho, como sucedeu com Eliseu e com a sunamita.
O
seguimento de Jesus não é caminho fácil e consensual, ladeado por aplausos e
encorajamentos. Mas é caminho radical que pode obrigar a ruturas e a opções
exigentes. Quando se trata de escolher entre Jesus e outros valores, a opção do
cristão teve ter, sempre, como prioridade a lealdade para com Jesus. Se a
alternativa for escolher entre Jesus e a própria família, a escolha do
discípulo deve recair em Jesus (a família era a estrutura social que dava
sentido à vida dos indivíduos; e a rutura com a família era uma medida extrema,
que supunha um desenraizamento social quase completo). O discípulo,
necessariamente, de cortar relações com a família para seguir Jesus, mas não
pode deixar que a família ou os afetos o impeçam de responder, com coerência e
radicalidade, ao desafio do Reino.
Se
a alternativa for escolher entre Jesus e as próprias seguranças, a escolha do
discípulo deve ser tomar a cruz (o que a Simão Pedro custou a entender) e
seguir Jesus. Com efeito, fazer da vida dom total a Deus e aos homens significa
romper com todos os esquemas que, na perspetiva dos homens, dão comodidade,
bem-estar, realização, felicidade, êxito.
Porém,
escolher Jesus e segui-Lo até à cruz não é caminho de fracasso e de morte, mas
caminho de vida. Efetivamente, se o homem está muito preocupado em proteger os
seus esquemas de seguranças humanas e se fecha no seu egoísmo e na sua
autossuficiência, perde a vida verdadeira; e, se o homem aceita viver na
obediência ao desígnio de Deus e fazer da sua vida um dom de amor aos irmãos,
encontra a vida definitiva.
Na
segunda, o evangelista refere-se à recompensa àqueles/as que acolhem os
mensageiros da Boa Nova de Jesus, distribuídos por quatro grupos de pessoas,
que integram a comunidade cristã e que têm a responsabilidade do testemunho: os
apóstolos, os profetas, os justos e os pequenos. A todos incumbe a missão
anunciar a Boa Nova de Jesus. Os apóstolos – os que acompanharam sempre Jesus –
são as testemunhas primordiais de Jesus, pois diz-se deles que quem os recebe a
Jesus recebe. Os profetas são os pregadores itinerantes que, em nome de Deus,
interpelam a comunidade e que a ajudam a ser coerente com os valores do
Evangelho. Os justos são, provavelmente, os cristãos procedentes do judaísmo,
que procuram viver, no seio da comunidade cristã, em coerência com a Lei de
Moisés. Os pequenos são os discípulos que não integram, de forma plena, a
comunidade, pois estão em processo de amadurecimento da sua opção (podem ser os
catecúmenos que estão a descobrir a fé, à espera do compromisso pleno com
Cristo e com a Boa Nova). Seja como for, todos estes grupos que formam a
comunidade cristã, têm por missão anunciar o Evangelho de Jesus.
Enfim,
a tarefa de anunciar o Evangelho pertence a todos os membros da comunidade
cristã; e os “missionários” que testemunham a Boa Nova e que entregam a vida ao
serviço do Reino devem ser acolhidos com entusiasmo, com generosidade e com
amor.
***
Leão
XIV vê, neste passo evangélico, “algumas exortações de Jesus para vivermos o
seguimento e sermos testemunhas do seu Reino”. Não se reporta a “uma ação
exterior”, mas à dedicação total a uma relação de amor com Ele, sendo que, para
dar fruto, “o amor requer, pelo menos, três coisas: desapego, perda e acolhimento”.
Quanto
ao desapego, Jesus diz: “Quem amar o pai ou a mãe mais do que a mim, não é
digno de mim. Quem amar o filho ou filha mais do que a mim, não é digno de mim.”
Ao enviar os apóstolos em missão, “o Senhor deseja que estejam livres de
qualquer vínculo”. E o Papa não acha isto demasiado, pois é o postulado das
grandes opções de vida. Por exemplo, só é possível viver, plenamente, a vida
matrimonial, deixando a casa dos pais, para uma dedicação à relação conjugal. E,
no atinente ao crescimento dos filhos, só é possível ajudá-los a realizarem-se
e a serem felizes, educando-os a “caminhar com as próprias pernas” e a fazer as
suas escolhas. Na verdade, como diz Santo Agostinho, “é doloroso separar-se do
que se ama, mas também o agricultor perde temporariamente o que semeia”. Só
“perdendo” aquela semente, lançada à terra, é que poderá vê-la florescer.
Neste
sentido, o amor é perda, o que é difícil compreender, num Mundo em que perder
parece uma fraqueza e em que se vive na obcecação por ter e possuir. Ao invés,
o amor, só produz fruto, ao doar-se: “quando estamos dispostos a perder um
pouco do nosso ‘eu’, para dar espaço ao outro, a perder um pouco de tempo para
escutar um amigo, a perder um pouco de conforto para compartilhar uma situação
complicada”. Segundo o Evangelho, “quem conserva a vida apenas para si mesmo,
na realidade, perde-a, porque ela não se abre à alegria do amor e torna-se
estéril”. Por isso, Jesus convida a abraçar a Cruz, pois Ele ofereceu-Se,
perdeu-Se a Si mesmo e, assim, “pudemos receber a sua vida em abundância”. Também,
se vivermos a lógica do dom, “seremos capazes de gerar vida nova nas nossas
relações”.
Por
fim, no respeitante ao acolhimento, é de sublinhar que o amor se expressa “em
escolhas e ações concretas, num empenho feito de pequenos gestos quotidianos,
como oferecer um copo de água a quem tem sede. E Jesus, ao enviar os discípulos,
pede-lhes que vão sem provisões, isto é, que sejam necessitados, para suscitarem
acolhimento naqueles que encontrarem. Assim, acolhendo quem vem em nome de
Jesus, acolhe-se a Ele e ao Pai celeste que O enviou. De facto, o amor ao
Senhor passa pelo acolhimento dos irmãos.
E
o Papa exorta a que “rezemos à Virgem Maria, que amou o seu Filho sabendo-O
também perder: que Ela nos ajude a ser testemunhas humildes e alegres do amor
de Cristo”.
***
A
segunda leitura (Rm 6,3-4. 8-11) recorda que o cristão é alguém que,
pelo Batismo, se identificou com Jesus. A partir daí, o cristão deve seguir
Jesus na senda do amor e do dom da vida e renunciar definitivamente ao pecado.
Fundamentalmente,
Paulo sugere aos crentes (divididos pela discussão acerca do caminho mais
correto para alcançar a salvação) que a salvação é sempre dom de Deus e não conquista
do homem. Se se pode falar de conquista da salvação, isso aplica-se a Jesus,
que nos oferece a salvação que conquistou pela sua paixão e morte na cruz, cujo
valor redentor foi validado pela ressurreição. Na verdade, apesar do pecado dos
homens, Deus a todos justifica e salva de forma gratuita e incondicional. Essa
salvação é oferecida aos homens através de Jesus Cristo.
Porém,
isto não significa que é indiferente pecar ou não pecar, pois, supostamente, a
obediência de Cristo a todos salva, de forma incondicional; que o cristão pode
pecar, tranquilamente, porque a graça da salvação oferecida por Cristo irá
sempre derramar-se sobre o pecador. É, antes de rejeitar o aforismo proclamado
em tempos e erradamente atribuído a Santo Agostinho: “Pecca fortiter, sed crede
fortius (“peca fortemente, mas crê com mais força ainda”). Não se pode brincar
à salvação.
Ao
ser batizado (isto é, ao aderir a Cristo e aceitar a oferta de salvação que
Cristo faz), o cristão renuncia ao egoísmo e ao pecado, a fim de viver na
dinâmica de vida nova. O pecado passa a incoerência e absurdo, uma vez que,
pelo Batismo, o cristão enxertou-se em Cristo, ou seja, passou a receber de
Cristo a vida que o anima e alimenta.
A
vida de Cristo – longe de ser marcada pelo egoísmo, pelo orgulho, pela
autossuficiência – foi vivida no amor, na partilha, no dom total de si a Deus e
aos homens. Ao viver uma vida segundo Deus, Cristo “matou” o pecado. E,
sobretudo, a cruz, enquanto expressão última da vida liberta do egoísmo e feita
dom radical, é o “golpe final” no pecado (que é egoísmo, autossuficiência e
fechamento em si próprio). A ressurreição mostra a vida nova emana do “não” ao
pecado.
Os
cristãos, pelo Batismo, são enxertados em Cristo, isto é, passam a fazer parte
do Corpo de Cristo e a receber de Cristo a vida que os alimenta. Se neles
circula a vida de Cristo, o pecado já não tem lugar: só tem lugar a vida de
dom, de amor, de entrega, de serviço que leva à ressurreição, à vida
definitiva. Ser batizado é sepultar o pecado e ressuscitar para uma dinâmica de
vida nova, de onde o pecado está tem de estar ausente.
***
Por
tudo, os crentes devem cantar a bondade do Senhor e o estatuto de nação santa:
“Eu
canto para sempre a bondade do Senhor.”
“Cantarei
eternamente as misericórdias do Senhor / e para sempre proclamarei a sua
fidelidade. / Vós dissestes: ‘A bondade está estabelecida para sempre’, / no
céu permanece firme a vossa fidelidade.
“Feliz
do povo que sabe aclamar-Vos / e caminha, Senhor, à luz do vosso rosto. / Todos
os dias aclama o vosso nome / e se gloria com a vossa justiça.
“Vós
sois a sua força, / com o vosso favor se exalta a nossa valentia. / Do Senhor é
o nosso escudo / e do Santo de Israel o nosso rei.”
“Aleluia.
Aleluia.”
“Vós
sois geração eleita, sacerdócio real, nação santa, / para anunciar os louvores
de Deus, / que vos chamou das trevas à sua luz admirável.”
2026.06.28
– Louro de Carvalho
Sem comentários:
Enviar um comentário