domingo, 28 de junho de 2026

Devem ser aceites a palavra e o testemunho daquele/a que segue Jesus

 

 

A Liturgia da Palavra do 13.º domingo do Tempo Comum, no Ano A, apresenta-nos uma reflexão sobre a marca do discipulado e da sua aceitação por quem o professa e pelos destinatários da palavra e do testemunho. O discípulo é todo/a aquele/a que, pelo Batismo, se identifica com Jesus, faz de Jesus a sua referência e O segue; a sua missão é tornar presente, na História e no tempo, o desígnio de salvação de Deus para os homens; e quem escutar a palavra e interiorizar o testemunho gestual do discípulo receberá o ónus e a recompensa de discípulo.

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A primeira leitura (2Rs 4,8-11.14-16a) mostra como todos podem colaborar na realização do desígnio salvador de Deus. De forma direta (Eliseu) ou de forma indireta (a mulher sunamita), todos têm um papel a desempenhar para que Deus Se torne presente no Mundo e interpele os homens.

Após a morte de Salomão (932 a.C.), o povo de Deus dividiu-se em dois reinos: o de Israel, no Norte, e o de Judá, no Sul, que passaram a ter histórias separadas e, por vezes, antagónicas.

O trecho em apreço remete para o reino de Israel, em meados do século IX a.C., no reinado de Jorão (853-842 a.C.), com Israel a estabelecer relações económicas, políticas e culturais com outros países, as quais o tornam vulnerável a influências religiosas estrangeiras e favorecem a entrada de cultos diversos no país – uma época de sincretismo e de confusão.

Eliseu, discípulo de Elias, continua a obra do mestre, lutando contra o sincretismo religioso e procurando trazer, de novo, os israelitas às sendas da fidelidade à aliança. Faz parte de uma comunidade de filhos de profetas (“benê nebi’im”), isto é, seguidores incondicionais de Javé, que vivem na absoluta fidelidade aos mandamentos de Deus e não se deixam contaminar pelos valores religiosos estrangeiros. Vivem pobremente e são, regularmente, consultados pelo Povo, que neles busca apoio, face aos abusos dos poderosos.

Eliseu é chamado o “homem de Deus” (‘ish Elohim), ou seja, o homem que é intérprete da Palavra de Javé junto dos outros homens. A Palavra que transmite é uma Palavra poderosa, que opera maravilhas e que tem a capacidade de transformar a realidade. Os milagres atribuídos a Eliseu (o grande milagreiro do Antigo Testamento) são a expressão viva da força de Deus, que intervém, pelo profeta, na História, e salva os pobres.

O episódio em causa situa-nos em Sunam – pequena cidade do Sul da Galileia, não longe de Meggido, à entrada da planície de Yezre’el, em casa de uma mulher rica e sem filhos – e tem duas partes distintas: a descrição da hospitalidade que a mulher oferece ao profeta, pelo que é recompensada com o anúncio do nascimento de um filho; e a repentina doença e morte do filho, que exigirá nova intervenção do profeta para lhe devolver a vida. A leitura desta dominga apresenta-nos a primeira parte.

Estamos, pois, ante a generosa hospitalidade que Eliseu encontra em casa da mulher sunamita, que não se limita a oferecer-lhe uma refeição, sempre que este passava por Sunam, nas suas idas ao monte Carmelo e nas respetivas vindas, como também manda construir, expressamente, para ele, um quarto no terraço da sua casa e o mobila adequadamente. O seu gesto não se limita a levar até às últimas consequências o sacramento da hospitalidade, tão relevante entre os povos do Crescente Fértil, mas significa o reconhecimento de que Eliseu é um homem de Deus, pelo qual Deus age no Mundo. Ajudando Eliseu, a mulher mostra a sua adesão a Javé e a sua disponibilidade para colaborar com Deus no projeto de salvação. Em resposta à generosidade da mulher, Eliseu anuncia-lhe o nascimento de um filho. Esta promessa tem valor especial, dada a quase impossibilidade de ter filhos que pesa sobre o casal, devido à avançada idade do marido.

Assim, ficamos a saber que a colaboração com Deus na realização do seu plano de salvação-libertação é fonte de vida e de bênção. Ou seja, Deus não deixa de recompensar todos/as aqueles/as que colaboram com Ele.

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O Evangelho (Mt 10,37-42) é uma catequese sobre o discipulado. Num primeiro passo, define o caminho do discípulo: o discípulo tem de ser capaz de fazer de Jesus a sua opção fundamental e de seguir o mestre na via do amor e da entrega da vida. Num segundo passo, sugere que toda a comunidade é chamada a testemunhar a Boa Nova. E, no terceiro passo, garante recompensa àqueles/as que acolherem, com generosidade e amor, os/as missionários/as do Reino.

O trecho em análise apresenta-nos a parte final de um discurso atribuído a Jesus e que teria sido pronunciado pouco antes do envio dos discípulos em missão.

Na década de 80, Mateus escreve para uma comunidade onde a tradição missionária estava bem enraizada, mas as condições políticas do final do século I (reinado de Domiciano e hostilidade crescente do império em relação ao cristianismo) trazem a comunidade confusa. Face a esta situação, o evangelista compõe então uma espécie de “manual do missionário cristã”, para revitalizar a opção missionária da comunidade. Nesse sentido, enuncia um conjunto de valores e de atitudes que devem orientar a ação dos missionários cristãos.

O excerto pode dividir-se em duas partes. Na primeira (vv. 37-39), temos um conjunto de exigências radicais para quem quer seguir Jesus; na segunda parte (vv. 40-42), aprendemos que toda a comunidade deve anunciar Jesus e que terão recompensa destinada aqueles/as que acolherem os mensageiros do Evangelho, como sucedeu com Eliseu e com a sunamita.

O seguimento de Jesus não é caminho fácil e consensual, ladeado por aplausos e encorajamentos. Mas é caminho radical que pode obrigar a ruturas e a opções exigentes. Quando se trata de escolher entre Jesus e outros valores, a opção do cristão teve ter, sempre, como prioridade a lealdade para com Jesus. Se a alternativa for escolher entre Jesus e a própria família, a escolha do discípulo deve recair em Jesus (a família era a estrutura social que dava sentido à vida dos indivíduos; e a rutura com a família era uma medida extrema, que supunha um desenraizamento social quase completo). O discípulo, necessariamente, de cortar relações com a família para seguir Jesus, mas não pode deixar que a família ou os afetos o impeçam de responder, com coerência e radicalidade, ao desafio do Reino.

Se a alternativa for escolher entre Jesus e as próprias seguranças, a escolha do discípulo deve ser tomar a cruz (o que a Simão Pedro custou a entender) e seguir Jesus. Com efeito, fazer da vida dom total a Deus e aos homens significa romper com todos os esquemas que, na perspetiva dos homens, dão comodidade, bem-estar, realização, felicidade, êxito.

Porém, escolher Jesus e segui-Lo até à cruz não é caminho de fracasso e de morte, mas caminho de vida. Efetivamente, se o homem está muito preocupado em proteger os seus esquemas de seguranças humanas e se fecha no seu egoísmo e na sua autossuficiência, perde a vida verdadeira; e, se o homem aceita viver na obediência ao desígnio de Deus e fazer da sua vida um dom de amor aos irmãos, encontra a vida definitiva.

Na segunda, o evangelista refere-se à recompensa àqueles/as que acolhem os mensageiros da Boa Nova de Jesus, distribuídos por quatro grupos de pessoas, que integram a comunidade cristã e que têm a responsabilidade do testemunho: os apóstolos, os profetas, os justos e os pequenos. A todos incumbe a missão anunciar a Boa Nova de Jesus. Os apóstolos – os que acompanharam sempre Jesus – são as testemunhas primordiais de Jesus, pois diz-se deles que quem os recebe a Jesus recebe. Os profetas são os pregadores itinerantes que, em nome de Deus, interpelam a comunidade e que a ajudam a ser coerente com os valores do Evangelho. Os justos são, provavelmente, os cristãos procedentes do judaísmo, que procuram viver, no seio da comunidade cristã, em coerência com a Lei de Moisés. Os pequenos são os discípulos que não integram, de forma plena, a comunidade, pois estão em processo de amadurecimento da sua opção (podem ser os catecúmenos que estão a descobrir a fé, à espera do compromisso pleno com Cristo e com a Boa Nova). Seja como for, todos estes grupos que formam a comunidade cristã, têm por missão anunciar o Evangelho de Jesus.

Enfim, a tarefa de anunciar o Evangelho pertence a todos os membros da comunidade cristã; e os “missionários” que testemunham a Boa Nova e que entregam a vida ao serviço do Reino devem ser acolhidos com entusiasmo, com generosidade e com amor.

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Leão XIV vê, neste passo evangélico, “algumas exortações de Jesus para vivermos o seguimento e sermos testemunhas do seu Reino”. Não se reporta a “uma ação exterior”, mas à dedicação total a uma relação de amor com Ele, sendo que, para dar fruto, “o amor requer, pelo menos, três coisas: desapego, perda e acolhimento”.

Quanto ao desapego, Jesus diz: “Quem amar o pai ou a mãe mais do que a mim, não é digno de mim. Quem amar o filho ou filha mais do que a mim, não é digno de mim.” Ao enviar os apóstolos em missão, “o Senhor deseja que estejam livres de qualquer vínculo”. E o Papa não acha isto demasiado, pois é o postulado das grandes opções de vida. Por exemplo, só é possível viver, plenamente, a vida matrimonial, deixando a casa dos pais, para uma dedicação à relação conjugal. E, no atinente ao crescimento dos filhos, só é possível ajudá-los a realizarem-se e a serem felizes, educando-os a “caminhar com as próprias pernas” e a fazer as suas escolhas. Na verdade, como diz Santo Agostinho, “é doloroso separar-se do que se ama, mas também o agricultor perde temporariamente o que semeia”. Só “perdendo” aquela semente, lançada à terra, é que poderá vê-la florescer.

Neste sentido, o amor é perda, o que é difícil compreender, num Mundo em que perder parece uma fraqueza e em que se vive na obcecação por ter e possuir. Ao invés, o amor, só produz fruto, ao doar-se: “quando estamos dispostos a perder um pouco do nosso ‘eu’, para dar espaço ao outro, a perder um pouco de tempo para escutar um amigo, a perder um pouco de conforto para compartilhar uma situação complicada”. Segundo o Evangelho, “quem conserva a vida apenas para si mesmo, na realidade, perde-a, porque ela não se abre à alegria do amor e torna-se estéril”. Por isso, Jesus convida a abraçar a Cruz, pois Ele ofereceu-Se, perdeu-Se a Si mesmo e, assim, “pudemos receber a sua vida em abundância”. Também, se vivermos a lógica do dom, “seremos capazes de gerar vida nova nas nossas relações”.

Por fim, no respeitante ao acolhimento, é de sublinhar que o amor se expressa “em escolhas e ações concretas, num empenho feito de pequenos gestos quotidianos, como oferecer um copo de água a quem tem sede. E Jesus, ao enviar os discípulos, pede-lhes que vão sem provisões, isto é, que sejam necessitados, para suscitarem acolhimento naqueles que encontrarem. Assim, acolhendo quem vem em nome de Jesus, acolhe-se a Ele e ao Pai celeste que O enviou. De facto, o amor ao Senhor passa pelo acolhimento dos irmãos.

E o Papa exorta a que “rezemos à Virgem Maria, que amou o seu Filho sabendo-O também perder: que Ela nos ajude a ser testemunhas humildes e alegres do amor de Cristo”.

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A segunda leitura (Rm 6,3-4. 8-11) recorda que o cristão é alguém que, pelo Batismo, se identificou com Jesus. A partir daí, o cristão deve seguir Jesus na senda do amor e do dom da vida e renunciar definitivamente ao pecado.

Fundamentalmente, Paulo sugere aos crentes (divididos pela discussão acerca do caminho mais correto para alcançar a salvação) que a salvação é sempre dom de Deus e não conquista do homem. Se se pode falar de conquista da salvação, isso aplica-se a Jesus, que nos oferece a salvação que conquistou pela sua paixão e morte na cruz, cujo valor redentor foi validado pela ressurreição. Na verdade, apesar do pecado dos homens, Deus a todos justifica e salva de forma gratuita e incondicional. Essa salvação é oferecida aos homens através de Jesus Cristo.


O trecho em causa integra o bloco em que o epistológrafo descreve como a vida de Deus se comunica aos homens através de Jesus Cristo. Na perspetiva paulina, Cristo – ao contrário de Adão, o homem do orgulho e da autossuficiência – optou por viver na obediência a Deus e aos seus planos; e foi a sua obediência de Cristo, ou seja, o cumprimento incondicional da vontade do Pai, que fez chegar a todos os homens a graça da salvação.

Porém, isto não significa que é indiferente pecar ou não pecar, pois, supostamente, a obediência de Cristo a todos salva, de forma incondicional; que o cristão pode pecar, tranquilamente, porque a graça da salvação oferecida por Cristo irá sempre derramar-se sobre o pecador. É, antes de rejeitar o aforismo proclamado em tempos e erradamente atribuído a Santo Agostinho: “Pecca fortiter, sed crede fortius (“peca fortemente, mas crê com mais força ainda”). Não se pode brincar à salvação.

Ao ser batizado (isto é, ao aderir a Cristo e aceitar a oferta de salvação que Cristo faz), o cristão renuncia ao egoísmo e ao pecado, a fim de viver na dinâmica de vida nova. O pecado passa a incoerência e absurdo, uma vez que, pelo Batismo, o cristão enxertou-se em Cristo, ou seja, passou a receber de Cristo a vida que o anima e alimenta.

A vida de Cristo – longe de ser marcada pelo egoísmo, pelo orgulho, pela autossuficiência – foi vivida no amor, na partilha, no dom total de si a Deus e aos homens. Ao viver uma vida segundo Deus, Cristo “matou” o pecado. E, sobretudo, a cruz, enquanto expressão última da vida liberta do egoísmo e feita dom radical, é o “golpe final” no pecado (que é egoísmo, autossuficiência e fechamento em si próprio). A ressurreição mostra a vida nova emana do “não” ao pecado.

Os cristãos, pelo Batismo, são enxertados em Cristo, isto é, passam a fazer parte do Corpo de Cristo e a receber de Cristo a vida que os alimenta. Se neles circula a vida de Cristo, o pecado já não tem lugar: só tem lugar a vida de dom, de amor, de entrega, de serviço que leva à ressurreição, à vida definitiva. Ser batizado é sepultar o pecado e ressuscitar para uma dinâmica de vida nova, de onde o pecado está tem de estar ausente.

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Por tudo, os crentes devem cantar a bondade do Senhor e o estatuto de nação santa:

“Eu canto para sempre a bondade do Senhor.”

“Cantarei eternamente as misericórdias do Senhor / e para sempre proclamarei a sua fidelidade. / Vós dissestes: ‘A bondade está estabelecida para sempre’, / no céu permanece firme a vossa fidelidade.

“Feliz do povo que sabe aclamar-Vos / e caminha, Senhor, à luz do vosso rosto. / Todos os dias aclama o vosso nome / e se gloria com a vossa justiça.

“Vós sois a sua força, / com o vosso favor se exalta a nossa valentia. / Do Senhor é o nosso escudo / e do Santo de Israel o nosso rei.”

“Aleluia. Aleluia.”

“Vós sois geração eleita, sacerdócio real, nação santa, / para anunciar os louvores de Deus, / que vos chamou das trevas à sua luz admirável.”

2026.06.28 – Louro de Carvalho

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