terça-feira, 23 de junho de 2026

Aprovado euro digital para reduzir domínio dos EUA nos pagamentos

 

Para reforçar a autonomia europeia nos pagamentos, reduzindo a dependência da União Europeia (UE) dos sistemas de pagamento controlados pelos Estados Unidos da América (EUA), através do domínio do dólar norte-americano, a Comissão dos Assuntos Económicos e Monetários do Parlamento Europeu (PE) aprovou, a 23 de junho, por 43 votos a favor, 14 contra e uma abstenção, o aguardado euro digital, prevendo-se que seja lançado até 2029.

Em junho de 2023, a Comissão Europeia apresentou o Pacote Moeda Única, que inclui uma proposta que estabelece o quadro jurídico para a eventual introdução do euro digital, bem como uma proposta complementar relativa à sua eventual distribuição por prestadores de serviços de pagamento constituídos em estados-membros cuja moeda não é o euro.

Em 19 de dezembro de 2025, o Conselho da UE (ou, simplesmente, Conselho) adotou a sua posição sobre as principais propostas para reforçar a moeda do euro, através da introdução do euro digital. Agora que definiu a sua posição, o Conselho pode encetar negociações com o PE.

Depois de a proposta relativa ao estabelecimento do quadro jurídico ser adotada pelo PE e pelo Conselho, caberá, em última análise, ao Banco Central Europeu (BCE) decidir sobre a emissão do euro digital. E o BCE indicou que o euro digital poderia estar operacional em 2029.

Segundo o BCE, os gigantes norte-americanos Visa e Mastercard representam 61% dos pagamentos com cartão, na área do euro (Zona Euro), e quase todas as transações transfronteiriças com cartão.

O debate sobre a soberania financeira da Europa ganhou força numa altura de crescentes tensões geopolíticas e de preocupações com a dependência do bloco de infraestruturas de pagamento estrangeiras.

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O euro digital é o projeto da UE para introduzir uma forma digital de numerário. Será uma moeda do banco central em formato digital, emitida pelo BCE, e que poderá ser utilizada por todos os cidadãos na área do euro, pois virá complementar – e não substituir – as notas e moedas, dando às pessoas uma opção adicional para fazerem pagamentos, sem deixarem de ter o numerário como meio de pagamento.

Para compreender como funciona o euro digital, há que distinguir moeda do banco central e moeda privada. A primeira é uma moeda pública, na medida em que é emitida por um banco central e, como tal, representa um bem público, estando disponível, de momento, ao público, principalmente, sob a forma de notas e de moedas utilizadas para pagamentos em numerário. Já a moeda privada, criada por bancos comerciais, inclui o dinheiro depositado em contas bancárias e utilizado para pagamentos do dia a dia, como pagamentos com cartão ou por transferências em linha. Porém, na vida quotidiana, as pessoas convertem, regularmente, moeda privada em moeda pública (por exemplo, quando levantam dinheiro) e vice-versa.

O euro digital será complemento do numerário, e não substituto; é uma forma pública de moeda digital, pois será emitido pelo BCE, tal como o numerário; os cidadãos poderão utilizá-lo em toda a área do euro, nas lojas e junto de vendedores que aceitem pagamentos digitais; é de acesso básico gratuito, isto é, os serviços básicos, como a posse, o envio e a receção de euros digitais, serão gratuitos para os consumidores; é apoiado pelo BCE, que lhe garantirá o valor da mesma forma que garante o do numerário (o euro digital não será uma criptomoeda); está disponível fora de linha,  de modo que os cidadãos o poderão utilizar tanto em linha como fora de linha, sendo possível fazer pagamentos, mesmo sem ligação à Internet; oferece elevado grau de privacidade, visto que proporcionará elevado nível de privacidade para os pagamentos, sem deixar de cumprir as regras da UE, em matéria de prevenção de fraude e de branqueamento de capitais; e impulsionará a inovação e apoiará a digitalização da economia europeia.

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O euro digital é uma das medidas apresentadas para reforçar a autonomia estratégica da Europa. É uma forma digital da moeda, emitida e garantida pelo BCE, pensada para complementar o numerário e os serviços bancários existentes, e não para os substituir.

Nos termos da proposta formulada, os consumidores poderão deter euros digitais numa carteira dedicada, sujeita a um limite de detenção ainda por definir. E o sistema permitirá pagamentos em linha e fora de linha e pretende oferecer elevado grau de privacidade, sem que o BCE identifique, diretamente, os utilizadores, a partir dos respetivos dados de pagamento.

O BCE disponibilizará a infraestrutura de base, enquanto os bancos comerciais e os prestadores de serviços de pagamento oferecerão aos clientes serviços em euros digitais. As instituições financeiras serão compensadas pela participação no sistema, ao passo que os comerciantes pagarão comissões que se espera serem inferiores às associadas às atuais transações com cartão. Porém, a forma da compensação foi um dos temas mais controversos, antes das negociações com os estados-membros da UE, segundo fontes familiarizadas com as discussões.

“Saudamos o facto de a comissão ECON do Parlamento Europeu ter acordado a sua posição sobre o pacote da moeda única, que irá salvaguardar o numerário em euros como moeda de curso legal e, ao mesmo tempo, moldar o euro digital”, declarou o BCE, em comunicado.

o eurodeputado italiano Pasquale Tridico, que negociou o dossiê em nome do grupo A Esquerda, qualificando a votação de “histórica”, declarou: “A aprovação do regulamento sobre o euro digital é uma grande vitória para os cidadãos e para as pequenas empresas.”

A UE não está sozinha no desenvolvimento de uma moeda digital pública. A China já lançou o yuan digital, enquanto a Rússia anunciou que o rublo digital ficará operacional em setembro de 2026. Porém, os EUA seguiram uma via diferente, com o seu presidente a abandonar os planos para uma moeda digital de banco central emitida pela Reserva Federal (FED) e a passar a apoiar o desenvolvimento de stablecoins, criptoativos emitidos por entidades privadas e concebidos para manter um valor estável.

Como a esmagadora maioria das stablecoins globais está denominada em dólares norte-americanos, os defensores da tecnologia sustentam que esta poderá reforçar o papel internacional do dólar e alargar a sua utilização em pagamentos transfronteiriços. Em todo o caso, alguns responsáveis políticos e antigos dirigentes consideram que uma moeda digital de banco central dos EUA poderá ter de regressar à agenda.

Neste sentido,Timothy Massad, antigo presidente da Comissão de Negociação de Futuros de Mercadorias (CFTC), afirmou, em maio, ao CoinDesk, que as discussões continuam, em Washington, e sugeriu que poderá revelar-se inevitável um dólar digital.

Espera-se que o PE formalize a posição da comissão, numa votação, em plenário, em Estrasburgo, no início de julho. Depois, arrancarão as negociações com os 27 estados-membros da UE, com os eurodeputados a apontarem para o acordo final, antes do final do ano.

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O euro digital foi concebido de modo a ser fácil de utilizar e familiar, à imagem de outras soluções de pagamento digital. Os cidadãos poderão aceder-lhe, através de conta em euros digitais específica ou de carteira digital gratuita, disponibilizadas pelo seu banco ou por outro intermediário. Será, pois, necessário criar e utilizar uma carteira básica em euros digitais.

Com uma conta em euros digitais ou com a sua carteira digital, consoante o caso, as pessoas poderão: fazer pagamentos em lojas, tanto físicas como em linha; fazer pagamentos entre particulares, por exemplo, enviar dinheiro a amigos ou familiares; e utilizar o euro digital em linha e fora de linha, mesmo sem ligação à Internet.

A fim de salvaguardar a estabilidade financeira, haverá limites para o montante em euros digitais que as pessoas poderão deter na sua carteira digital, os quais garantirão que o euro digital seja utilizado, principalmente, como meio de pagamento e não como reserva de valor, e ajudarão a prevenir riscos para a estabilidade financeira.

Há diferença entre o euro digital e os cartões ou aplicações de pagamentos móveis. Com efeito, o euro digital não vem substituir os cartões ou as aplicações de pagamentos móveis, mas vem complementá-los, oferecendo uma forma adicional de pagamento digital.

Atualmente, muitos pagamentos digitais realizados na área do euro dependem de sistemas de pagamento operados fora da UE. Quando estes sistemas são utilizados, os pagamentos efetuados em euros podem ser processados através de infraestruturas de países terceiros, antes de chegarem ao vendedor, havendo fluxos de pagamento significativos e comissões conexas, bem como dados pessoais das transações, que são tratados por prestadores de serviços não europeus.

Com o euro digital, os pagamentos serão processados na UE, pois será uma moeda pública emitida pelo BCE, a instituição que emite e salvaguarda o euro, e permitirá às pessoas pagar, de forma digital, utilizando uma moeda do banco central, em toda a área do euro, oferecendo uma solução de pagamento europeia única que estará disponível em todos os países da área do euro. Já os cartões de débito e de crédito e as aplicações de pagamentos móveis dependem de moeda privada, emitida por bancos comerciais, e funcionam através de sistemas de pagamento privados, que implicam, muitas vezes, o pagamento de comissões.

Também há diferença entre o euro digital e os criptoativos. O euro digital não será um criptoativo. Como sucede com o numerário, o euro digital será apoiado pelo BCE, a instituição que emite e salvaguarda o euro. É uma moeda que terá sempre o seu valor nominal, isto é, um euro digital terá sempre o mesmo valor que uma moeda de um euro. Em contraponto, os criptoativos (por exemplo, as criptomoedas) não são apoiados nem geridos por uma autoridade central. O seu valor pode flutuar de forma significativa, o que os torna arriscados e instáveis. Além disso, não há garantia de que os criptoativos possam ser trocados por numerário ou utilizados como meio de pagamento, quando necessário.

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O Pacote Moeda Única, proposto pela Comissão Europeia e assumido peço Conselho inclui uma proposta relativa ao reforço do curso legal das notas e moedas, de forma que as notas e moedas de euro têm, em geral, de estar disponíveis e de ser aceites para pagar serviços e bens e para liquidar dívidas, sob reserva de exceções bem definidas e devidamente controladas.

Em 19 de dezembro de 2025, o Conselho definiu a sua posição com vista a clarificar estas regras, incluindo a forma como se articulam com o euro digital, a fim de assegurar a coerência entre as duas formas de moeda do banco central. As principais disposições da proposta visam: salvaguardar a aceitação de numerário, como método de pagamento, em toda a área do euro; e assegurar que as pessoas tenham acesso ao numerário e possam escolher, livremente, o método de pagamento que mais lhes convém.

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Piero Cipollone, membro do comité executivo do BCE, responsável pelos pagamentos, a 1 de abril, considerou que a Europa “precisa de reduzir as dependências em pagamentos e de evitar criar novas”, face ao crescimento do comércio eletrónico e a um momento de aumento das tensões geopolíticas, e que “o euro digital reduzirá a excessiva dependência da Europa de fornecedores não europeus”, porque garantirá que os europeus possam pagar com o seu dinheiro na economia digital, o dinheiro soberano emitido pelos seus bancos centrais, como pagam em dinheiro na economia física. Porém, é necessário que a UE conclua o processo legislativo.

Segundo Cipollone, o euro digital assegurará a capacidade da Europa de processar as transações dos seus cidadãos, sem depender da infraestrutura governada noutros lugares. Assim, a partir de setembro, o BCE – que publicou, a 31 de março, a nova estratégia de pagamentos com que pretende melhorar as infraestruturas de pagamentos, na Zona Euro, devido às mudanças tecnológicas – oferecerá dinheiro de banco central ‘tokenizado’, permitindo a liquidação em dinheiro de banco central de operações baseadas na tecnologia de registo distribuído.

A infraestrutura do euro digital estará distribuída em, pelo menos, três regiões geográficas, cada uma com múltiplos servidores. Por isso, se um fornecedor de serviços de pagamentos avariar, os utilizadores poderão aceder ao seu dinheiro e pagar através de outro fornecedor.

O euro digital permitirá aos utilizadores aceder ao seu dinheiro e gastá-lo sem interrupção; e poderá ser usado sem conexão à Internet, sem sinal telefónico ou sem acesso a uma máquina ATM (Automated Teller Machine), isto é, uma caixa automática.

O BCE e os bancos centrais nacionais não cobrarão comissões pelo uso do euro digital, o que reduzirá custos a comerciantes e a prestadores de serviços de pagamento.

Fortalecer a autonomia da Europa em pagamentos significa garantir que a Europa tem uma infraestrutura de pagamentos soberana em que os europeus podem confiar.

“Dois terços das transações com cartão, na Zona Euro [incluindo os três países bálticos] estão regidas pelas normas empresariais de companhias não europeias”, afirmou o responsável pelo euro digital no BCE, explicitando numa alusão, à Visa, à Mastercard ou à American Express, que dependem, completamente, de redes de cartões internacionais, para pagar nas lojas.

Agora, o dinheiro emitido pelo BCE está disponível apenas de forma física, em dinheiro, cujo uso nas transações diárias caiu de 68%, em 2019, para 40%, em 2025, com a mudança mais pronunciada nos países bálticos, que estão entre as economias mais digitalizadas da Zona Euro. Porém, o comércio eletrónico cresce e representa mais de um terço do valor das vendas a retalho, sem que haja, de momento, uma solução de pagamento digital pan-europeia, regida pela Europa que cubra toda a Zona Euro.

Os consumidores e os comerciantes na Europa devem cumprir os termos, preços e práticas de dados que algumas (poucas) empresas privadas não europeias estabelecem, pelo que têm margem limitada para negociarem ou para mudarem.

Entre 2018 e 2022, as taxas médias líquidas por serviços comerciais, na UE, quase duplicaram, apesar dos esforços regulatórios para as conter, porque os emissores de cartões internacionais cobram muitas comissões, que afetam os comerciantes a retalho.

Também, a 15 de junho, em Frankfurt, na conferência “Dinheiro em transição: digitalização e inovação nos pagamentos”, a presidente do BCE, Christine Lagarde, afirmou que o euro digital é uma oportunidade para acabar com a dependência da UE, em relação a sistemas de pagamento externos, e permitirá à UE dispor de “um instrumento de pagamento que funciona em toda a União”, reforçando a autonomia da infraestrutura financeira num contexto de crescentes tensões geopolíticas. “A propriedade da infraestrutura financeira é um instrumento de poder”, vincou, acrescentando que a soberania financeira ganhou importância estratégica, mas que é necessário um enquadramento robusto que garanta eficácia e segurança.

Assim, espera-se que o plenário do PE vote, em julho, a proposta de legislação necessária para que o BCE avance com o projeto e emita a moeda digital, ficando os cidadãos europeus com mais uma ferramenta de pagamento não Extra-UE.

2026.06.23 – Louro de Carvalho

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