quinta-feira, 25 de junho de 2026

Ultrarricos, na Europa, aumentaram 26%, nos últimos cinco anos

 

As desigualdades de riqueza entre e dentro dos países europeus continuam muito acentuadas. Segundo o relatório mais recente do Banco Central Europeu (BCE), de 2023, o património líquido mediano dos agregados familiares, na área do euro, era de 123500 euros e variava entre dois mil euros, para os 20% mais pobres da população, e 1,01 milhões de euros, para os 20% mais ricos. E o UBS Global Wealth Report 2026, da Knight Frank, classifica o grupo de UHNWI (ultra high net worth individuals) ou “pessoas com património líquido ultraelevado”.

Ao mesmo tempo, o número de ultrarricos cresce, rapidamente, em todo o continente. O número de pessoas com património de, pelo menos, 30 milhões de dólares (25,7 milhões de euros) aumentou 26%, nos últimos cinco anos. Em média, mais de 20 pessoas entram, por dia, no clube dos patrimónios acima de 30 milhões de dólares, enquanto 89, em todo o Mundo, ultrapassam esse limiar. O número passou de 146525, em 2021, para 183 953, em 2026.

Ao longo destes cinco anos, na Europa, 37428 pessoas (aumento médio de 7486 membros, por ano) juntaram-se a este grupo exclusivo, ou seja, cerca de 20,5 novos entrantes, por dia.

A Alemanha regista o maior aumento diário de pessoas que entram no clube dos 30 milhões de dólares, na Europa. O número de UHNWI subiu, neste país, de 28942, em 2021, para 38215, em 2026, mais 9273, em cinco anos. Em média, todos os dias, cinco pessoas, na Alemanha, ultrapassam o limiar dos 30 milhões de dólares em património. É óbvio que não acumulam tal fortuna num dia; os seus ativos vão crescendo, até passarem tal fasquia.

Segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI), a Alemanha, a maior economia da Europa, é a terceira do Mundo em termos de produto interno bruto (PIB), a seguir aos Estados Unidos da América (EUA) e à China. E, em 2026, acolhe o maior número de pessoas (38215) com património líquido ultraelevado (UHNWI), na Europa, seguida do Reino Unido (27876) e da França (21518).

Entre 2021 e 2026, a França ganhou, em média 2,1, novos membros, por dia, no clube dos 30 milhões de dólares. A sua população de UHNWI aumentou em 3781, para 21518.

Na Suíça, o número de ultrarricos aumentou ao ritmo equivalente a 2,7 pessoas, por dia. E, nos últimos cinco anos, cresceu em 4968, para um total de 17692.

Outras grandes economias europeias surgem logo a seguir. O aumento diário é de 1,6 no Reino Unido e na Itália, seguido da Espanha, com 1,5. Na Turquia, o valor é de 1,1.

Destes sete países, cinco figuram entre as maiores economias da Europa. A Suíça e a Turquia são os únicos outros países da região em que o número de pessoas com, pelo menos, 30 milhões de dólares em riqueza aumenta, em média, pelo menos, mais uma pessoa, por dia.

O aumento diário é de 0,9, na Polónia; de 0,5, tanto na Chéquia como na Áustria; de 0,4, na Dinamarca e em Portugal; e de 0,3, nos Países Baixos, na Irlanda e na Suécia.

Os EUA albergam, de longe, o maior número de pessoas com, pelo menos, 30 milhões de dólares em riqueza, com 251352 UHNWI, em 2026, entrando uma média de 36,7 pessoas, todos os dias, no clube dos 30 milhões de dólares, isto é, um novo membro, a cada 90 minutos. A China surge em segundo lugar, com 121677, acrescentando cerca de 12,5 novos membros, por dia. A Alemanha é o terceiro país do Mundo, enquanto a Índia (4,2) e a Austrália (2,2) são os únicos outros países não europeus no top 10 global.

À escala mundial, o número de UHNWI aumentou em 162191, entre 2021 e 2026, o equivalente a 89 novos membros, por dia, passando o total global para 713626. “Estamos a assistir a uma das mudanças mais significativas na distribuição da riqueza mundial na História recente”, afirmou Liam Bailey, diretor global de investigação da Knight Frank, relevando que os EUA continuam a ser o motor dominante, mas que está a crescer a força da Índia e de um conjunto de economias em rápida maturação que moldam o panorama global.

O património médio, por adulto, também variava muito, na Europa, segundo o UBS Global Wealth Report 2025. Em 2024, os valores variavam entre 29923 euros, na Turquia, e 634584 euros, na Suíça, num conjunto de 31 países europeus.

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Por sua vez, Portugal, que tem assistido a expressivo crescimento do número de ultrarricos, graças a fatores, como o investimento imobiliário, a mobilidade internacional de capitais e a atratividade do estilo de vida português, que levaram ao ganho de 725 ultrarricos, em cinco anos.

Publicado em abril deste ano, o Índice Imobiliário Internacional (Prime International Residential Index – PIRI), da empresa britânica Knight Frank, revelou que o número de UHNWI ou ultrarricos, isto é, pessoas com património líquido superior a cerca de 25 milhões de euros, aumentou em Portugal, nos últimos cinco anos, em quase 50%. Em 2021, Portugal tinha 1462 ultrarricos, mas, em 2026, o número ascende a 2187.

Uma parte significativa destes ultrarricos é composta por estrangeiros que escolheram Portugal para viver ou investir. Além da qualidade de vida, do clima, da segurança e do estilo de vida, Portugal começou por ser atrativo devido aos incentivos fiscais que existiram nos últimos anos, como os vistos gold e o regime de residente não habitual (RNH).

O RNH, criado em 2009, concedia benefícios fiscais, durante 10 anos, para atrair profissionais qualificados e pensionistas estrangeiros. Hoje, aplica-se apenas a determinadas atividades científicas e de elevada qualificação. Quanto aos vistos gold, a aquisição de imóveis deixou de ser elegível para obtenção de autorização de residência, através deste programa, o que pode atenuar a procura internacional, mas sem a comprometer.

Entre os indivíduos com património superior a 25 milhões de euros (no relatório original, 30 milhões de dólares) encontram-se muitos portugueses, sobretudo empresários. “Um indivíduo com um património destes tem como principais preocupações a proteção do património, a fiscalidade e a sucessão”, diz Helena Seruca, diretora coordenadora de Banca Privada do Banco Carregosa, instituição financeira especializada em gestão de património (wealth management), focada em clientes com elevado património, cujo perfil de cliente predominante é o empresário português do Norte e do Centro, ligado a setores industriais, como o calçado, o têxtil, o vidro, o plástico a madeira, as novas tecnologias e os serviços.

O aumento dos UHNWI, nos últimos cinco anos, foi potenciado pelo período pós-pandemia, que foi um momento decisivo para a criação de nova riqueza, sobretudo, devido à venda de empresas em que tinha ocorrido a entrada massiva de fundos de capital de risco.

Os fundos de private equity, que investem em empresas não cotadas, com o objetivo de aumentar o seu valor a médio e longo prazo, ganharam forte expressão no mercado português, nos últimos anos, e têm contribuído para o aumento do número de ultrarricos no país. Com efeito, muitos donos de empresas vendem participações, para financiarem a expansão dos negócios ou para entrarem em novos mercados, sem recorrerem a capital próprio. Como explica Bruno Minoya Perez, diretor de Private Banking do Banco Carregosa, um negócio de private equity consiste em tomar posição numa empresa através de um fundo de capital de risco, que pode ter intervenção na gestão ou não, dependendo da participação adquirida e da ambição do investidor.

Também o envelhecimento dos proprietários tem impulsionado operações deste género, como a venda integral de empresas. Efetivamente, há pessoas que já não pretendem continuar à frente do negócio ou que, recebendo propostas muito atrativas, optam por vender.

Por exemplo, o dono de uma empresa de panificação vendeu-a a um grande grupo francês que pretendia reforçar a sua presença em Portugal, tendo recebido, de repente, 100 milhões de euros, o que mostra, segundo Bruno Perez, como uma única operação pode ser suficiente para colocar alguém na lista dos ultrarricos, algo que sucede em setores, como agências funerárias e escritórios de advogados, onde grupos maiores têm vindo a adquirir operadores de menor dimensão para aumento de quota de mercado.

Por sua vez, Helena Seruca refere a mobilidade dos profissionais, os chamados “nómadas digitais”, cujo número aumentou com o trabalho remoto, durante a pandemia, bem como o crescente peso do investimento estrangeiro em setores estratégicos.

Por outro lado, empresários que vivem em Portugal e têm cá a sua sede de riqueza têm tido clientes que vêm investir no imobiliário, sobretudo clientes israelitas e turcos ligados ao setor imobiliário, nos seus países, pois encontram boas oportunidades para comprarem e para recuperarem imóveis, especialmente, em cidades como Lisboa e Porto. E alguns destes ultrarricos acabam por ficar em Portugal, a tempo inteiro ou parcial, enquanto outros só investem.

O país é um destino interessante para investimento imobiliário, devido ao estilo de vida, incluindo lazer, como o golfe. Alguns vêm a Portugal, só para fins de semana, especialmente para jogar golfe em zonas, como Cascais, a Comporta e o Algarve. Alguns chegam em jatos privados, passam poucos dias, gostam da experiência e acabam por comprar casas.

Também o mais recente estudo global da Christie’s International Real Estate, uma das redes imobiliárias de luxo presente em quase 50 países, conclui que Portugal ocupa posição de destaque no mercado internacional do imobiliário de luxo. E João Cília, CEO da Porta da Frente Christie’s em Portugal, sustenta que o mercado de luxo atrai patrimónios elevados que procuram tanto residência principal como segunda residência ou diversificação de património e que se diferenciam, consoante os segmentos.

No imobiliário, distingue-se a gama alta do ultraluxo: um apartamento de entrada na gama alta custa cerca de 6494 euros por metro quadrado (m²). O segmento do luxo, que representa só 2% do mercado e cujos valores rondam os 11 mil euros por m². E o ultraluxo carateriza-se por localizações premium, como Cascais, centro de Lisboa, a Comporta e o “triângulo dourado do Algarve” (Vilamoura, Vale do Lobo e Quinta do Lago). Já a gama alta tem mais oferta e inclui imóveis modernos, com áreas mais compactas, e não necessariamente adquiridos por ultrarricos.

Em termos de imóveis de entrada de gama alta, neste momento, há 95% de clientes portugueses, mas, só nos segmentos de luxo e de ultraluxo, haverá cerca de 65% de estrangeiros, na sua maioria, norte-americanos e brasileiros.

No mercado do ultraluxo imobiliário, a percentagem de portugueses é mais reduzida (cerca de 35%) e são, essencialmente, empresários com empresas de média dimensão, com 10 a 15 anos de atividade e resultados líquidos relevantes, podendo fazer parte desta fatia a comunidade de jogadores de futebol.

Segundo João Cília, muitos compradores estrangeiros não veem Portugal apenas como local para residir, mas também como destino de investimento, começando a ter cá bastante património, o que “aumenta a sua fidelização a Portugal”. Por outro lado, o fim do RNH não teve o impacto negativo que se previa. “Apesar de já não ser fiscalmente tão competitivo como no passado, quando comparado com outros países europeus, ainda conseguimos fixar cá pessoas”, observa o CEO da Porta da Frente Christie’s em Portugal.

Também estão em crescimento, em Portugal, as “branded residences”, que correspondem à componente residencial associada a marcas hoteleiras. Segundo o relatório da Christie’s International Real Estate, Portugal é líder europeu, neste segmento, com cerca de 1200 unidades, que representam 30% a 50% do mercado de luxo. E, como assegura João Cília, este produto atrai clientes estrangeiros que, na sua maioria, gostam de passar longas temporadas fora, o que lhes permite chegarem e terem as comodidades de hotel associadas ao seu apartamento e, ao saírem, porem o imóvel em exploração hoteleira, sem trabalho e podendo gerar rendimento”.

As propriedades de luxo atraem compradores UHNWI, com Lisboa e Cascais a terem um topo de mercado à escala europeia. Com efeito, dados recentes da rede Christie’s revelam que Lisboa e Cascais representam mais de 26% da oferta analisada na Europa, sendo Cascais o segundo mercado mais representado da rede na Europa, à frente de Londres e Madrid.

O mercado mais emergente, para João Cília, é o do Médio Oriente, principalmente, o do Qatar, que passou, desde a guerra entre os EUA, Israel e o Irão, a ver Portugal como potencial destino de investimento. “Eles procuram, neste momento, alternativas de investimento mais seguras e, quanto mais instabilidade houver a nível mundial, mais este mercado se torna importante, porque é um mercado em euros, politicamente estável, dentro da União Europeia [UE] e uma excelente alternativa a outros mercados mais instáveis”, explica o gestor.

Apesar da previsão de crescimento e da chegada de mais ultrarricos a Portugal, nos próximos anos, o CEO mostra-se preocupado com a escassez de oferta num mercado tão restrito, porque “este tipo de pessoas quer um tipo de construção completamente diferenciado, em zonas muito privilegiadas, e Portugal não é propriamente um país enorme”.

Entretanto, o Prime International Residential Index de 2025 estima que o número de UHNWI cresça ainda mais e que, em 2031, haja 2452 ultrarricos em Portugal. Com efeito, a deslocação constante destes ultrarricos, que vivem em vários países sem residência fixa, o chamado “dip-in, dip-out lifestyle”, também tem justificado este crescimento.

Por outro lado, segundo os responsáveis do Banco Carregosa, os investimentos estão muito mais acessíveis do que antes. Produtos, como private equity e ações, que eram apenas acessíveis a investidores muito ricos ou a profissionais, estão disponíveis para quase qualquer pessoa, através do telemóvel. “Antigamente, a pessoa, para fazer dinheiro em ações, tinha de ter um corretor e, agora, está à distância do telemóvel. Qualquer pessoa compra uma ação da Apple, da Meta, da Nvidia ou um ETF que replica um índice de ações”, exemplifica Bruno Pérez.

O número de ultrarricos em Portugal resulta da combinatória de fatores internos e externos, desde a qualidade de vida e a estabilidade até à crescente mobilidade internacional da riqueza. Apesar de as políticas fiscais terem perdido parte do peso atrativo, o país continua como um destino relevante no mapa global do investimento e do imobiliário de luxo.

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Não admira, pois, que os preços das casas subam, em toda a Europa. Assim, os valores do imobiliário prime estão em alta, nas cidades europeias. Estes imóveis, os mais procurados e os mais caros, numa determinada localização, correspondem aos 5% mais valiosos de cada mercado e têm, muitas vezes, forte componente internacional no perfil dos compradores.

Em mais de metade das cerca de 50 cidades acompanhadas pelo Wealth Report 2026 da Knight Frank, a subida anual dos preços ultrapassou os 3%, em 2025, com Praga a liderar o mercado imobiliário de topo, na Europa, com Londres a sofrer a maior queda e com Tóquio a dominar, a nível mundial, em subida de perto de 60%.

Enfim, isto é um ultraje à pobreza e aos pobres. Todavia, como reza uma das quadras joaninas deste ano, “Vivem ambos a sofrer / por dois trevos desiguais: / o pobre por nada ter, / o rico por não ter mais”.

2026.06.25 – Louro de Carvalho

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