sábado, 27 de junho de 2026

Ministros da Energia da UE reforçam papel na rede elétrica

 

No termo da Presidência semestral rotativa cipriota do Conselho da União Europeia (UE), os ministros da Energia garantiram, no Luxemburgo, um papel relevante no planeamento do futuro sistema elétrico europeu, depois de lançarem intensa campanha política contra a proposta da Comissão Europeia para reforçar o controlo sobre a rede elétrica da UE. O acordo ora alcançado abre caminho a negociações entre o Parlamento Europeu (PE) e o Conselho.

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Em dezembro de 2025, a Comissão Europeia identificou oito projetos-chave no domínio da energia, no âmbito do “Pacote das Redes”, que anunciou e que visa aumentar o transporte de eletricidade na UE27. Ao mesmo tempo, prometeu apoio a projetos de armazenamento e de hidrogénio. É um investimento de cerca de 1,2 mil milhões de euros, com vista a ajudar os estados-membros da UE a acelerar as licenças para infraestruturas de rede, projetos de energias renováveis e armazenamento, na tentativa de modernizar a rede elétrica da UE.

O atual sistema de planeamento e de licenciamento da rede é criticado por fragmentação e por inadequação ao ritmo da expansão necessária, representando significativo obstáculo à integração das energias renováveis. Por isso, os estados-membros e os intervenientes da indústria vêm apelando ao executivo da UE para acelerar o processo de licenciamento, visto que os projetos de energias renováveis podem levar até nove anos a serem adjudicados, o que provoca atrasos e custos adicionais.

No âmbito do plano de renovação da rede elétrica, o executivo da UE identificou oito projetos – que incluem interconexões elétricas, armazenamento e hidrogénio – para “reforçar as estruturas existentes” e para “assegurar recursos”, a fim de ver “progressos concretos”, em breve.

O plano centra-se nas ligações à rede, pelos Pirenéus, para melhor integrar a Península Ibérica, na ligação de Chipre à Europa continental e na ligação dos Estados Bálticos, pela Lituânia e pela Polónia. E a Comissão apoiará o desenvolvimento de uma plataforma de interconexão offshore na Dinamarca, porque vê, ali, potencial de expansão e de ligação a outros pontos do Báltico.

A Comissão pretende reforçar as capacidades de armazenamento de energia, no Sudeste, e promover a coordenação para desenvolver o corredor meridional de hidrogénio que liga a Tunísia, a Itália, a Áustria e a Alemanha. E será objeto de forte coordenação e de apoio político, por parte da Comissão, o corredor de hidrogénio entre Portugal e a Alemanha.

A UE, que tem a obrigação de atingir a neutralidade climática, até 2050, tem investido fortemente na produção de energias renováveis, mas a infraestrutura obsoleta de transporte de energia elétrica está a atrasar os projetos de energias renováveis que aguardam ligação à rede e a prejudicar a transição climática. Assim, em dezembro, a UE27 não estava no bom caminho para atingir os objetivos de interligação da rede, de 15%, até 2030, pois 14 estados-membros ainda não tinham atingido esse objetivo. Por conseguinte, a Comissão visa combater as infraestruturas obsoletas, sobretudo, no atinente à capacidade de transmissão entre os estados-membros, e melhorar a digitalização, para garantir a adaptação das infraestruturas à futura procura de eletricidade e às necessidades da transição energética.

Se o plano se concretizar, facilitará a integração das energias renováveis, reduzirá os custos da energia, ao longo do tempo – os preços da eletricidade, na UE, são duas a três vezes superiores aos dos Estados Unidos da América (EUA), de acordo com os relatórios Draghi e Letta –, poderá evitar incidentes, como o apagão de 28 de abril de 2025, na Península Ibérica, que afetou mais de 60 milhões de pessoas, e pode ajudar as regiões a beneficiarem de ligações transfronteiriças e de melhor integração da produção local de energia solar ou eólica, bem como a aumentar a eficiência das importações e exportações.

Para evitar contratempos, a organização não governamental (ONG) verde recomenda aos decisores políticos prioridade à implementação da lei das energias renováveis, à digitalização dos processos de licenciamento e à dotação de pessoal e de financiamento adequados às autoridades de licenciamento nacionais e locais. E Kristian Ruby, secretário-geral da Eurelectric, associação comercial representativa da indústria da eletricidade, instou os decisores políticos da UE a considerarem “indispensável” a energia hidroelétrica por bombagem, pois representa mais de 90% da capacidade global de armazenamento de eletricidade.

O executivo da UE, que estimou um investimento gigantesco de 1,2 mil milhões de euros para renovar a infraestrutura da rede elétrica do bloco, até 2040, sustenta que serão necessários cerca de 730 mil milhões de euros, para investimentos na rede de distribuição, e 477 mil milhões de euros, para as redes de transporte. Para tanto, a UE terá de recorrer a uma série de opções, incluindo fundos comunitários, orçamentos nacionais, investimento privado e partilha de custos, especialmente, tendo em conta a grande escala do investimento. E a Eurelectric apelou à Comissão para que criasse um mecanismo de rede descentralizada no orçamento plurianual do bloco, abrangendo o período entre 2028 e 2034, entre outros, e que alocasse parte dos fundos à eletrificação, à modernização, à atualização ou à expansão da rede de distribuição.

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Entretanto, cinco países – a Bulgária, a Finlândia, a França, a Polónia e a Suécia – opuseram-se ao plano da Comissão, devido à visão cada vez mais centralizada para planear o futuro da eletricidade, na UE, aduzindo que a transição verde da União corre o risco de se tornar mais lenta, mais cara e menos segura, se Bruxelas tentar comandar o desenvolvimento da rede, a partir do centro, pelo que propõem uma Europa de regiões coordenadas.

À criação de um cenário central para orientar o investimento, a longo prazo, os signatários opõem a ideia de que tal abordagem não compreende o funcionamento dos sistemas energéticos no terreno, que são demasiado complexos, muito específicos a nível regional, e muito sensíveis, do ponto de vista político, para serem concebidos através de um modelo único liderado por Bruxelas. Por outro lado, sustentam que as empresas nacionais responsáveis pela exploração da rede elétrica de alta tensão e as autoridades regionais têm o conhecimento operacional necessário para identificarem os verdadeiros estrangulamentos, as vulnerabilidades de segurança e as prioridades de investimento, ao passo que o controlo conduzido pela Comissão pode produzir infraestruturas que parecem eficientes, mas que são economicamente inúteis.

As empresas nacionais do transporte de energia, como a Réseau de Transport d’Électricité ou a Svenska kraftnät, devem continuar a ser as arquitetas técnicas do planeamento, enquanto a Comissão deve atuar como coordenadora e não como diretora.

A Suécia, um dos países que mais se tem manifestado contra o plano da Comissão, anunciou, recentemente, planos para suspender a construção de um novo cabo elétrico para a Dinamarca, em resposta à proposta da Comissão de utilizar as receitas das taxas de congestionamento da eletricidade para renovar a infraestrutura elétrica da UE.

A 11 de maio, a ministra sueca da Energia, Ebba Busch, disse que “a UE não deve receber o dinheiro da eletricidade dos suecos”, que o texto legislativo, em negociação, restringe mais a utilização das receitas do congestionamento pelos estados-membros do que a lei atual e que o governo sueco considera a possibilidade de avançar com novos cabos para a Finlândia.

As negociações do “Pacote das Redes” vão além das redes e dos cabos. São um teste à forma como a UE equilibra a coordenação estratégica com o controlo nacional na transição climática. Porém, os cinco países acusam a Comissão de ir além da coordenação e de se aproximar do controlo político sobre o planeamento do investimento. Demasiado controversa é a ideia de que Bruxelas pode iniciar projetos fora dos mecanismos de planeamento nacionais existentes – linha vermelha para os signatários, segundo os quais os países da UE devem manter a autoridade política sobre as escolhas energéticas, especialmente, no respeitante aos cabazes energéticos nacionais e às prioridades estratégicas em matéria de infraestruturas.

A eurodeputada Tsvetelina Penkova (S&D/Bulgária), que lidera o dossiê legislativo no PE apoia um sistema de planeamento de infraestruturas energéticas mais centralizado, embora tente preservar alguns contributos nacionais e salvaguardas de transparência.

A Presidência cipriota da UE, que vem mediando os dossiês políticos entre os 27 Estados-membros, teve em conta “muitas alterações ao texto, para refletir as suas preocupações e necessidades”. “Estamos, agora, a avançar para um compromisso equilibrado e – o que é importante – estamos perto de chegar a um acordo”, disse o porta-voz da Presidência, vincando “a importância deste dossiê”.

A presidente da Comissão, Ursula von der Leyen, instou os colegisladores da UE (o Conselho e o PE) a acelerarem o acordo político sobre o pacote das redes elétricas, antes do verão. Todavia, devido a lutas políticas internas, com os países a necessitarem de financiamento para a interconexão e com os contribuintes líquidos preocupados com a redistribuição, é provável que o dossier transite para a Presidência irlandesa da UE, a iniciar a 1 de julho.

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Dois temas politicamente sensíveis do plano da UE para renovar a rede elétrica foram debatidos pelos ministros da Energia, no Luxemburgo, a 26 de junho: o novo cenário de planeamento centralizado para os futuros investimentos na rede; e o esforço alargado para acelerar os procedimentos de licenciamento de projetos de energia limpa, que demoram, normalmente, cinco a 10 anos a ser aprovados.

Apesar de a Europa liderar na produção de energia limpa, tem dificuldade em a transportar, devido a infraestruturas envelhecidas. Parques eólicos no Mar do Norte, centrais solares no Sul, produção de hidrogénio e indústrias eletrificadas exigem redes de transporte mais extensas, inteligentes e muito mais interligadas do que o atual sistema fragmentado.

A política energética da UE tem-se concentrado na expansão da produção renovável, que tem estrangulado a rede. Assim, os analistas defendem que a Europa tem investimento renovável planeado suficiente para cobrir grande parte das necessidades futuras, mas que lhe falta capacidade de transporte para levar a eletricidade aonde ela é necessária.

Após a pressão de vários países da UE, nomeadamente, os cinco referidos, a Presidência cipriota da UE – cujo mandato termina a 30 de junho – suavizou a proposta da Comissão apresentada em dezembro, abrindo caminho ao apoio dado pelas capitais europeias.

Nestes termos, o acordo redireciona parte das receitas de congestionamento não utilizadas – verbas geradas quando as linhas de transporte de eletricidade são pontos de estrangulamento – para o financiamento de novos interconectores entre países da UE. “É com satisfação que posso dizer que, hoje, o ‘Pacote das Redes’ parece estar a seguir numa direção completamente diferente”, afirmou aos jornalistas a ministra sueca da Energia, falando de “grande vitória para a Europa, porque os estados-membros continuam a ter mais poder sobre o destino das suas receitas de congestionamento” e “sobre o tipo de investimentos de grande escala feitos na rede que irão afetar os países da UE”.

Por isso, a partir de janeiro de 2028, os operadores de sistemas de transporte de energia, como a francesa RTE (Réseau de Transport d’Électricité) ou a portuguesa REN (Redes Energéticas Nacionais), terão de afetar 10% das receitas anuais de congestionamento, que não tenham sido usadas em investimentos, à rede de projetos da UE, para reduzir o congestionamento nas interligações. Tal percentagem aumentará, gradualmente, para 25%, até 2031.

O comissário europeu Dan Jørgensen disse que o “Pacote das Redes” é um dos dossiês mais importantes do mandato. “Se não conseguirmos expandir, significativamente, as nossas redes mais depressa do que estamos a fazer hoje e se não as conseguirmos utilizar, de forma mais racional e eficiente, esse será um grande estrangulamento da tão precisa transição”, afirmou.

No final, os governos asseguraram papel forte no processo, garantindo que as autoridades nacionais verificarão os dados e as premissas do cenário central, e os planeadores terão em conta as especificidades nacionais e regionais e incorporarão os planos climáticos nacionais.

A evitar uma abordagem rígida e uniforme, o procedimento será complementado com análises de sensibilidade que avaliem combinações alternativas de fornecimento de energia, perfis de procura e tendências futuras. As análises testarão a robustez das premissas de planeamento e contemplarão diferentes vias para atingir os objetivos climáticos da UE. Além disso, haverá revisões regulares do cenário central, que será elaborado, pelo menos, de dois em dois anos, sendo a recolha de dados coordenada com outros reportes, para reduzir a burocracia.

Rheanna Johnston, conselheira sénior para a transição energética, no think tank independente sobre alterações climáticas E3G, afirmou que o acordo mostra que as redes elétricas interligadas são prioridade estratégica para os países da UE, de forma a trazer benefícios concretos para os europeus. Porem, na sua ótica, “o teste mais importante será saber se o acordo final sobre o ‘Pacote das Redes’ fornece o planeamento, a coordenação e os sinais de investimento de longo prazo necessários para acelerar a expansão das redes, em toda a Europa”.

Talvez a reforma com efeitos mais imediatos, no âmbito do “Pacote das Redes”, seja a tentativa de encurtar os prazos de aprovação. Para tanto, as medidas a tomar incluem balcões digitais únicos para licenciamento, presunção de que os projetos de eletricidade e de energias renováveis são de interesse público superior, possibilidade de aprovação tácita e procedimentos simplificados para infraestruturas renováveis. “Tenho plena consciência de que grande parte do que decidimos hoje (26 de junho) não será visível na realidade já amanhã”, afirmou Jørgensen, frisando que acelerar as licenças ajudará a baixar as faturas de eletricidade e que se trata de planeamento de longo prazo, mas que, “a médio prazo, fará uma diferença muito concreta”.

A comissão da Indústria do Parlamento Europeu votará o “Pacote das Redes” a 1 de julho, antes da votação em plenário. Uma vez aprovado, começarão as negociações políticas entre os colegisladores europeus, sob a próxima Presidência irlandesa.

Elisabeth Cremona, responsável pelas infraestruturas energéticas, no think tank Ember, afirmou que a legislação vinda de Bruxelas, por si só, não resolverá os problemas da rede: “Os estados-membros já podem e devem, com urgência, começar a aplicar soluções que respondam às consequências concretas de redes mal preparadas”, vincou.

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Por fim, é de referir que as baterias são essenciais para usar, eficientemente, a eletricidade de solar e eólica. E a maioria dos países procura diversificar as fontes de energia e reduzir a dependência dos combustíveis fósseis. Porém, nessa transição, as baterias são centrais, para as renováveis, pois delas depende quanta eletricidade o sistema de armazenamento consegue reter e injetar na rede elétrica. Ora, como tal capacidade varia muito, na Europa, alguns países já colocaram em operação capacidades de baterias, enquanto outros assumiram investimentos para as ampliar, dando a conhecer as respetivas carteiras de projetos. Portugal está quase na cauda.

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Todo este projeto deve ser desenvolvido em todas as componentes que o integram.

2026.06.27 – Louro de Carvalho

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