Em
artigo intitulado “Europa sufoca com calor extremo e vários países chegam aos
40º C”, publicado, a 31 de maio, pela Euronews, Jesus Maturana considera
que “o verão chegou mais cedo”, mas “de forma desigual”, à Europa, enquanto se prevê
calor estável, na Espanha, e países, como Portugal, a Itália e a Grécia
enfrentam alertas de saúde pública.
De
acordo com a Agência Estatal de Meteorologia Espanhola (AEMET), a Espanha previa,
para fins de maio e para o início de junho, generalizada estabilidade
atmosférica, com cenário dominado por céu limpo. No entanto, nos Pirenéus e no sistema
Ibérico oriental, a evolução diurna favorece os aguaceiros e trovoadas localmente
fortes, ao fim das tardes.
Em
termos térmicos, os valores mantêm-se elevados, mas dentro dos intervalos
previstos para a época, no Norte e no centro da Península Ibérica, com máximas
entre 30 graus centígrados (30º C) e 34° C, ao passo que, nas depressões do Nordeste
e no Interior da metade Sul, o episódio será mais severo, com temperaturas a
superar, generalizadamente, os 36° C e a ultrapassar o limiar dos 40° C, no
vale do Guadalquivir. As temperaturas mínimas deverão dar ligeiro alívio, no
quadrante Noroeste, atenuando as noites tropicais registadas nos últimos dias.
Já as previsões para os meses de junho, julho e agosto apontam para
temperaturas acima do normal.
Na
parte ocidental da Península Ibérica e no restante arco mediterrânico, regista-se
um aumento térmico muito mais acentuado, com calor extremo invulgar, para o
início do período estival.
Portugal
registou valores históricos que superam os 40° C, nos distritos do Interior
e do Sul, como o Alentejo, pelo que o Instituto Português do Mar e da Atmosfera
(IPMA) elevou os níveis de risco e endureceu as restrições às atividades ao ar
livre, nas horas centrais do dia. Contudo, a primeira semana de junho deverá
ser menos quente do que a anterior, em particular, nas zonas do Litoral. Porém,
o Interior registará temperaturas máximas elevadas. O anticiclone dos Açores
deslocar-se-á, ao longo da semana, a Oeste do arquipélago, devendo estender-se
em crista para a Península Ibérica, com o fluxo a ser predominantemente do
quadrante Oeste, originando precipitação fraca, em especial, no Litoral Norte e
Centro.
As
temperaturas estarão acima da média prevista para esta altura do ano, com a
temperatura máxima entre 21° C e 31° C, nas regiões do Interior Norte e Centro,
e variando, no Sul, entre 27° C e 35° C, enquanto, no Litoral, as temperaturas
máximas oscilam entre os 19° C e 29° C, na região Ocidental, e entre os 23º C e
34º C, no Litoral Sul.
Na Itália,
as altas pressões e o ar saariano bloquearam a circulação atmosférica e o
Ministério da Saúde emitiu, a 28 de maio, alerta vermelho para Roma e
para outras quatro capitais provinciais, devido à persistência
de temperaturas a rondar os 38° C, em áreas urbanas densas.
Na
França, as temperaturas máximas, na última fase do torneio de Roland Garros, em
Paris, tornaram muito difícil, para atletas e adeptos, acompanharem os
encontros, e levaram muitos Parisienses a estrear o Sena como piscina natural,
apesar de saberem dos problemas de salubridade que isso pode implicar.
Situação
similar afeta a Grécia, dado que a combinação de ventos secos e
termómetros acima dos 39° C, nas planícies centrais, fez disparar os alarmes,
pelo impacto na saúde pública e pelo stresse hídrico acumulado nas suas
infraestruturas energéticas.
A
persistência de temperaturas tão elevadas, no início do período estival, está ligada
a uma cúpula de calor, fenómeno meteorológico que prende o ar quente sob um
sistema de altas pressões estáveis, impedindo a entrada de frentes atlânticas
que arrefeçam a superfície terrestre e potenciando a radiação solar sobre o
solo europeu. Tal conjuntura aumenta o risco de incêndios florestais, em
toda a bacia do Mediterrâneo, devido às trovoadas secas. E a rápida perda de
humidade do solo, com presença de abundante vegetação fina na reta final da
primavera, põe os índices de ignição em níveis muito elevados ou extremos,
mantendo em alerta os serviços de combate a incêndios e de emergência, da
Península Ibérica aos Balcãs.
***
A
28 de maio, uma crista anticiclónica vinda do Norte de África retinha o ar
quente sobre a Europa Ocidental. Badajoz chegou aos 38º C, Santander somava
recordes e França registava mortes. É o novo padrão. O mês de maio começou muito
fresco. Porém, desde 19 de maio, os termómetros têm subido até atingirem
valores que, em condições normais, corresponderiam ao pico do verão. Isto resulta
do sistema de altas pressões que se estende do Norte de África às Ilhas
Britânicas e que os meteorologistas designam por dorsal anticiclónica ou cúpula
de calor.
O
anticiclone faz de tampa que impede a renovação do ar, o obriga a descer e, ao
comprimir-se, o aquece ainda mais. Daí resulta um ambiente sufocante que não dá
tréguas, durante dias, e que, nalguns pontos, representa uma anomalia de
até 15º C, face aos valores habituais, para esta altura do ano. Assim, o calor
que seria de esperar para julho ou para agosto veio dois meses antes. Esta
anomalia não olha a geografias: o episódio atinge por igual o Sudoeste
peninsular, o Norte cantábrico, o vale do Ebro e grande parte da Europa
ocidental.
A
AEMET recordou que, no aeroporto de Santander, com dados desde 1954, apenas em
dois dias, se tinham ultrapassado os 30º C, antes de junho. Já são seis, neste
ano. No observatório de Badajoz-Aeroporto, com 71 anos de registos, os 38º
C foram ultrapassados, em maio, pela primeira vez, em toda a série
histórica.
Na
Espanha, o calor distribui-se de forma desigual, mas com poucos locais a salvo.
O quadrante Sudoeste soma vários dias com máximas entre 37º C e 39º C e,
nalguns pontos do Sul, os 40º C poderão ser atingidos na segunda metade da
semana, surgindo Badajoz, Sevilha, Córdoba, Jaén, Toledo e Saragoça entre as
províncias mais fustigadas. O vale do Ebro, com fama de ser um dos grandes
fornos da Península, confirma-a. E, surpreendentemente, no Norte, Bilbau
aproxima-se das temperaturas mais altas, alguma vez, registadas ali, em maio. A
Cantábria, as Astúrias e o Interior da Galiza estão também em níveis pouco
habituais.
Prevê-se
ligeira descida, no extremo Noroeste, e o reforço do calor, mais a Leste. No
dia 29, registaram-se 36º C, em Madrid, 38º C, em Sevilha, e até 39º C, em
Lleida e em Saragoça. Um dos fatores que os especialistas sublinham são as
noites tropicais, em que o termómetro não desce dos 20º C. Em províncias, como
Cádis, Sevilha ou Barcelona, as mínimas rondarão ou superarão esse limiar,
durante vários dias seguidos. O problema não é só desconforto. Quando o corpo
não recupera durante o sono, o stresse térmico acumula-se dia após dia. Por isso,
os médicos alertam que são essas noites sem alívio, mais do que os picos
diurnos, que têm maior impacto na saúde pública, sobretudo entre idosos e
doentes crónicos.
O
fenómeno não topa fronteiras. No Reino Unido, onde temperaturas deste nível são
muito mais excecionais do que no Sul da Europa, os termómetros chegaram aos
34,8º C, em Kew Gardens, em Londres, superando o anterior recorde de maio, de
32,8º C, estabelecido, em 1922, e igualado, em 1944. No dia seguinte, o valor
voltou a ser batido, com 35,1º C, e o país encadeou vários dias com noites
tropicais, algo quase sem precedentes para este mês.
A
França enfrenta a vertente mais severa deste episódio. O mercúrio atingiu os
35º C, perto de Londres, e chegou aos 39º C, em algumas zonas da França e da
Espanha. As autoridades francesas colocaram vários departamentos do Oeste do
país em alerta laranja, algo inédito em maio. Na França, morreram duas pessoas,
enquanto praticavam desporto. Na Itália, também se registaram, como se disse,
temperaturas máximas em maio.
O
horizonte temporal de 25 a 31 de maio de 2026 pode ficar na História do clima
da Europa pelos valores térmicos atingidos, muito acima até dos típicos picos
de verão. Os meteorologistas alertam que as temperaturas disparam entre
12º C e 16º C, acima das normas climatológicas de longo prazo, enquanto os
gases com efeito de estufa (GEE) continuam a aquecer o planeta.
As
ondas de calor da primavera sempre existiram, mas a sua intensidade, extensão e
duração são, agora, diferentes. Os estudos de atribuição climática estimam que
as ondas de calor de junho, na Europa, são, hoje, cerca de dez vezes
mais prováveis do que em condições pré-industriais, e a tendência começa a
tornar-se visível em maio. O que antes eram breves incursões de calor
primaveril está a transformar-se no novo ponto de partida.
***
Com
os termómetros a aproximarem-se dos 40º C, em alguns distritos de
Portugal, os serviços de saúde têm registado maior procura, o que levou o
governo ativar o plano de contingência para garantir pronta assistência
à população. “Neste momento, já temos o INEM [Instituto Nacional de Emergência
Médica] com um número muito considerável de chamadas, de pedidos de apoio, por
causa do excesso de temperatura que se está a verificar”, afirmou, a 27 de maio,
a ministra da Saúde, Ana Paula Martins, citada pela Lusa, adiantando que
o executivo acionou “um alerta de nível 1, em termos do plano de
contingência”.
Em
declarações aos jornalistas, à saída da sessão de apresentação do Índice de
Saúde Sustentável no Centro Cultural de Belém (CCB), em Lisboa, a governante
admitiu estar preocupada com as consequências do calor extremo, mas deixou
claro que o país tem capacidade de resposta. “Estamos preparados, naturalmente,
muito vigilantes e, hora a hora, a acompanhar a situação”, assegurou.
Em
semana de temperaturas muito elevadas, o IPMA pôs, no dia 28, quase todos os
distritos do território continental sob aviso amarelo, exceto Aveiro, Leiria,
Lisboa e Faro.
Por
sua vez, face à vaga de calor, a Direção-Geral da Saúde (DGS) publicou recomendações a
seguir (válidas para situações análogas), alertando para os perigos da “desidratação
ou de descompensação de doenças crónicas”.
Foi
pedido à população que bebesse água com frequência (pelo menos 1,5 litros, por dia),
que procurasse ambientes frescos ou climatizados, pelo menos, durante duas a
três horas, por dia, e que evitasse a exposição direta ao sol, sobretudo, entre
as 11h00 e as 17h00, com recomendação do uso de roupas de cor clara, leves e
largas, que cubram a maior parte do corpo, bem como de chapéu e óculos de sol
com proteção ultravioleta. Também foi feito apelo a que seja dada atenção
especial aos grupos mais vulneráveis ao calor: crianças, idosos, doentes
crónicos, grávidas ou trabalhadores com atividade no exterior.
***
A
onda de calor de maio levou Organização da Nações Unidas (ONU) a apelar à
transição para energia limpa, alertando que o principal responsável
pelas temperaturas escaldantes, na Europa, é a “dependência” mundial da queima
de combustíveis fósseis (carvão, petróleo e gás), pelo que é preciso acabar com
tal dependência. A isto acrescenta-se a destruição de sumidouros de carbono
vitais, como as florestas, que é urgente evitar.
Os
meteorologistas alertam que vários países estão presos sob uma “cúpula de calor
altamente anómala e poderosa” – padrão atmosférico que fixa as ondas de calor e
que se torna mais frequente, devido às alterações climáticas provocadas pelo
ser humano. Na verdade, dezenas de cidades europeias registaram temperaturas
muito acima do máximo climatológico normal para esta época do ano, com Londres
(+16° C) e Paris (+14° C) a serem as mais atingidas. Tanto a França como o
Reino Unido declararam, na última semana de maio, o dia de maio mais quente de
que há registo. E, mesmo regiões tipicamente mais frescas, como Oslo, viram os
termómetros subir até aos 18° C, mais 3° C do que a média para o fim de maio.
“Este
calor recorde tem as impressões digitais das alterações climáticas por todo o
lado”, afirma Friederike Otto, professora de Ciências do Clima no Imperial
College London, frisando: “Temperaturas desta ordem eram, antes, excecionais
até no auge do verão. Ver 35° C, no Reino Unido, na primavera, é absolutamente
surpreendente, mas a ciência é muito clara: as alterações climáticas tornam
estas ondas de calor mais intensas, mais longas e muito mais frequentes.”
Simon
Stiell, secretário executivo da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre
Alterações Climáticas (UNFCCC), descreve esta onda de calor como um
“lembrete brutal dos impactos em espiral da crise climática”.
Segundo
a ONU, os combustíveis fósseis são o maior contributo para as alterações
climáticas globais, respondendo por cerca de 68% das emissões mundiais de GEE e
por quase 90% de todas as emissões de dióxido de carbono (CO2). À
medida que as emissões de GEE envolvem a Terra, retêm o calor do sol, fazendo
subir as temperaturas e alterando os padrões meteorológicos. E esta onda de
calor provocada pelo clima é dupla ameaça, quando a recente guerra no Médio
Oriente (a própria guerra destrói ecossistemas e influencia o clima) evidencia
os custos galopantes da dependência das importações de combustíveis fósseis.
As
soluções são claras: a transição mais rápida para energia limpa, que, agora, é
mais barata do que os combustíveis fósseis e mais rápida de produzir, é crucial
para a acessibilidade da energia e para a segurança económica dos países. As
energias renováveis mostraram proteger as famílias do estrangulamento exercido
pelo Irão sobre o Estreito de Ormuz, um ponto de estrangulamento vital para
combustíveis fósseis que transporta cerca de um quinto do petróleo mundial. Só
a energia solar poupou à Europa três mil milhões de euros, em março.
Em
2025, a energia eólica e a solar geraram mais eletricidade, na UE, do que os
combustíveis fósseis, apesar da queda na hidroeletricidade e do aumento do gás.
O
boom das renováveis está a ajudar a reduzir as emissões, levando
alguns cientistas do clima a considerarem que já não é plausível uma subida
anteriormente projetada de 4,5° C, na temperatura do ar, até 2100. Porém, várias
potências da UE continuam atrasadas na transição. Em abril, a Itália foi
acusada de “negligência climática”, após anunciar que tenciona adiar o
encerramento definitivo das suas centrais de carvão – descritas como
a forma mais poluente de energia – até 2038, ou seja, 13 anos depois do prazo
inicial. Os Países Baixos, apesar de produzirem mais energia solar per
capita do que qualquer outro país da União Europeia (UE), continuam dependentes
dos combustíveis fósseis. O ritmo estagnado de instalação de parques eólicos de
grande escala significa que o país arrisca falhar a meta juridicamente
vinculativa de reduzir as emissões em 55%, até 2030, face aos níveis
pré-industriais.
“Proteger
vidas humanas, empresas e economias do calor extremo e dos muitos outros custos
crescentes das alterações climáticas é tarefa central de qualquer nação e
começa por acabar muito mais depressa com a dependência dos combustíveis
fósseis”, afirma Simon Stiell, vincando “a necessidade de investir mais na
construção de resiliência aos impactos climáticos”, como o calor extremo, as
megacheias, as tempestades de vento, os incêndios florestais e as secas, que
estão a afetar “a produção alimentar e os preços”, bem como (digo eu) a subsistência
das manchas florestais e agrícolas, a dos aglomerados habitacionais ou empresariais
ou a de equipamentos de utilização coletiva.
***
Porém,
a luta contra as alterações climáticas e seus efeitos parece estar em ponto
morto.
2026.05.31
– Louro de Carvalho
Sem comentários:
Enviar um comentário