domingo, 31 de maio de 2026

Calor extremo atinge a Europa com vários países a chegarem aos 40º C

 

Em artigo intitulado “Europa sufoca com calor extremo e vários países chegam aos 40º C”, publicado, a 31 de maio, pela Euronews, Jesus Maturana considera que “o verão chegou mais cedo”, mas “de forma desigual”, à Europa, enquanto se prevê calor estável, na Espanha, e países, como Portugal, a Itália e a Grécia enfrentam alertas de saúde pública.

De acordo com a Agência Estatal de Meteorologia Espanhola (AEMET), a Espanha previa, para fins de maio e para o início de junho, generalizada estabilidade atmosférica, com cenário dominado por céu limpo. No entanto, nos Pirenéus e no sistema Ibérico oriental, a evolução diurna favorece os aguaceiros e trovoadas localmente fortes, ao fim das tardes.

Em termos térmicos, os valores mantêm-se elevados, mas dentro dos intervalos previstos para a época, no Norte e no centro da Península Ibérica, com máximas entre 30 graus centígrados (30º C) e 34° C, ao passo que, nas depressões do Nordeste e no Interior da metade Sul, o episódio será mais severo, com temperaturas a superar, generalizadamente, os 36° C e a ultrapassar o limiar dos 40° C, no vale do Guadalquivir. As temperaturas mínimas deverão dar ligeiro alívio, no quadrante Noroeste, atenuando as noites tropicais registadas nos últimos dias. Já as previsões para os meses de junho, julho e agosto apontam para temperaturas acima do normal.

Na parte ocidental da Península Ibérica e no restante arco mediterrânico, regista-se um aumento térmico muito mais acentuado, com calor extremo invulgar, para o início do período estival.

Portugal registou valores históricos que superam os 40° C, nos distritos do Interior e do Sul, como o Alentejo, pelo que o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) elevou os níveis de risco e endureceu as restrições às atividades ao ar livre, nas horas centrais do dia. Contudo, a primeira semana de junho deverá ser menos quente do que a anterior, em particular, nas zonas do Litoral. Porém, o Interior registará temperaturas máximas elevadas. O anticiclone dos Açores deslocar-se-á, ao longo da semana, a Oeste do arquipélago, devendo estender-se em crista para a Península Ibérica, com o fluxo a ser predominantemente do quadrante Oeste, originando precipitação fraca, em especial, no Litoral Norte e Centro.

As temperaturas estarão acima da média prevista para esta altura do ano, com a temperatura máxima entre 21° C e 31° C, nas regiões do Interior Norte e Centro, e variando, no Sul, entre 27° C e 35° C, enquanto, no Litoral, as temperaturas máximas oscilam entre os 19° C e 29° C, na região Ocidental, e entre os 23º C e 34º C, no Litoral Sul.

Na Itália, as altas pressões e o ar saariano bloquearam a circulação atmosférica e o Ministério da Saúde emitiu, a 28 de maio, alerta vermelho para Roma e para outras quatro capitais provinciais, devido à persistência de temperaturas a rondar os 38° C, em áreas urbanas densas.

Na França, as temperaturas máximas, na última fase do torneio de Roland Garros, em Paris, tornaram muito difícil, para atletas e adeptos, acompanharem os encontros, e levaram muitos Parisienses a estrear o Sena como piscina natural, apesar de saberem dos problemas de salubridade que isso pode implicar.

Situação similar afeta a Grécia, dado que a combinação de ventos secos e termómetros acima dos 39° C, nas planícies centrais, fez disparar os alarmes, pelo impacto na saúde pública e pelo stresse hídrico acumulado nas suas infraestruturas energéticas.

A persistência de temperaturas tão elevadas, no início do período estival, está ligada a uma cúpula de calor, fenómeno meteorológico que prende o ar quente sob um sistema de altas pressões estáveis, impedindo a entrada de frentes atlânticas que arrefeçam a superfície terrestre e potenciando a radiação solar sobre o solo europeu. Tal conjuntura aumenta o risco de incêndios florestais, em toda a bacia do Mediterrâneo, devido às trovoadas secas. E a rápida perda de humidade do solo, com presença de abundante vegetação fina na reta final da primavera, põe os índices de ignição em níveis muito elevados ou extremos, mantendo em alerta os serviços de combate a incêndios e de emergência, da Península Ibérica aos Balcãs.

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A 28 de maio, uma crista anticiclónica vinda do Norte de África retinha o ar quente sobre a Europa Ocidental. Badajoz chegou aos 38º C, Santander somava recordes e França registava mortes. É o novo padrão. O mês de maio começou muito fresco. Porém, desde 19 de maio, os termómetros têm subido até atingirem valores que, em condições normais, corresponderiam ao pico do verão. Isto resulta do sistema de altas pressões que se estende do Norte de África às Ilhas Britânicas e que os meteorologistas designam por dorsal anticiclónica ou cúpula de calor.

O anticiclone faz de tampa que impede a renovação do ar, o obriga a descer e, ao comprimir-se, o aquece ainda mais. Daí resulta um ambiente sufocante que não dá tréguas, durante dias, e que, nalguns pontos, representa uma anomalia de até 15º C, face aos valores habituais, para esta altura do ano. Assim, o calor que seria de esperar para julho ou para agosto veio dois meses antes. Esta anomalia não olha a geografias: o episódio atinge por igual o Sudoeste peninsular, o Norte cantábrico, o vale do Ebro e grande parte da Europa ocidental.

A AEMET recordou que, no aeroporto de Santander, com dados desde 1954, apenas em dois dias, se tinham ultrapassado os 30º C, antes de junho. Já são seis, neste ano. No observatório de Badajoz-Aeroporto, com 71 anos de registos, os 38º C foram ultrapassados, em maio, pela primeira vez, em toda a série histórica.

Na Espanha, o calor distribui-se de forma desigual, mas com poucos locais a salvo. O quadrante Sudoeste soma vários dias com máximas entre 37º C e 39º C e, nalguns pontos do Sul, os 40º C poderão ser atingidos na segunda metade da semana, surgindo Badajoz, Sevilha, Córdoba, Jaén, Toledo e Saragoça entre as províncias mais fustigadas. O vale do Ebro, com fama de ser um dos grandes fornos da Península, confirma-a. E, surpreendentemente, no Norte, Bilbau aproxima-se das temperaturas mais altas, alguma vez, registadas ali, em maio. A Cantábria, as Astúrias e o Interior da Galiza estão também em níveis pouco habituais.

Prevê-se ligeira descida, no extremo Noroeste, e o reforço do calor, mais a Leste. No dia 29, registaram-se 36º C, em Madrid, 38º C, em Sevilha, e até 39º C, em Lleida e em Saragoça. Um dos fatores que os especialistas sublinham são as noites tropicais, em que o termómetro não desce dos 20º C. Em províncias, como Cádis, Sevilha ou Barcelona, as mínimas rondarão ou superarão esse limiar, durante vários dias seguidos. O problema não é só desconforto. Quando o corpo não recupera durante o sono, o stresse térmico acumula-se dia após dia. Por isso, os médicos alertam que são essas noites sem alívio, mais do que os picos diurnos, que têm maior impacto na saúde pública, sobretudo entre idosos e doentes crónicos.

O fenómeno não topa fronteiras. No Reino Unido, onde temperaturas deste nível são muito mais excecionais do que no Sul da Europa, os termómetros chegaram aos 34,8º C, em Kew Gardens, em Londres, superando o anterior recorde de maio, de 32,8º C, estabelecido, em 1922, e igualado, em 1944. No dia seguinte, o valor voltou a ser batido, com 35,1º C, e o país encadeou vários dias com noites tropicais, algo quase sem precedentes para este mês.

A França enfrenta a vertente mais severa deste episódio. O mercúrio atingiu os 35º C, perto de Londres, e chegou aos 39º C, em algumas zonas da França e da Espanha. As autoridades francesas colocaram vários departamentos do Oeste do país em alerta laranja, algo inédito em maio. Na França, morreram duas pessoas, enquanto praticavam desporto. Na Itália, também se registaram, como se disse, temperaturas máximas em maio. 

O horizonte temporal de 25 a 31 de maio de 2026 pode ficar na História do clima da Europa pelos valores térmicos atingidos, muito acima até dos típicos picos de verão. Os meteorologistas alertam que as temperaturas disparam entre 12º C e 16º C, acima das normas climatológicas de longo prazo, enquanto os gases com efeito de estufa (GEE) continuam a aquecer o planeta.

As ondas de calor da primavera sempre existiram, mas a sua intensidade, extensão e duração são, agora, diferentes. Os estudos de atribuição climática estimam que as ondas de calor de junho, na Europa, são, hoje, cerca de dez vezes mais prováveis do que em condições pré-industriais, e a tendência começa a tornar-se visível em maio. O que antes eram breves incursões de calor primaveril está a transformar-se no novo ponto de partida.

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Com os termómetros a aproximarem-se dos 40º C, em alguns distritos de Portugal, os serviços de saúde têm registado maior procura, o que levou o governo ativar o plano de contingência para garantir pronta assistência à população. “Neste momento, já temos o INEM [Instituto Nacional de Emergência Médica] com um número muito considerável de chamadas, de pedidos de apoio, por causa do excesso de temperatura que se está a verificar”, afirmou, a 27 de maio, a ministra da Saúde, Ana Paula Martins, citada pela Lusa, adiantando que o executivo acionou “um alerta de nível 1, em termos do plano de contingência”.

Em declarações aos jornalistas, à saída da sessão de apresentação do Índice de Saúde Sustentável no Centro Cultural de Belém (CCB), em Lisboa, a governante admitiu estar preocupada com as consequências do calor extremo, mas deixou claro que o país tem capacidade de resposta. “Estamos preparados, naturalmente, muito vigilantes e, hora a hora, a acompanhar a situação”, assegurou.

Em semana de temperaturas muito elevadas, o IPMA pôs, no dia 28, quase todos os distritos do território continental sob aviso amarelo, exceto Aveiro, Leiria, Lisboa e Faro.

Por sua vez, face à vaga de calor, a Direção-Geral da Saúde (DGS) publicou recomendações a seguir (válidas para situações análogas), alertando para os perigos da “desidratação ou de descompensação de doenças crónicas”.

Foi pedido à população que bebesse água com frequência (pelo menos 1,5 litros, por dia), que procurasse ambientes frescos ou climatizados, pelo menos, durante duas a três horas, por dia, e que evitasse a exposição direta ao sol, sobretudo, entre as 11h00 e as 17h00, com recomendação do uso de roupas de cor clara, leves e largas, que cubram a maior parte do corpo, bem como de chapéu e óculos de sol com proteção ultravioleta. Também foi feito apelo a que seja dada atenção especial aos grupos mais vulneráveis ao calor: crianças, idosos, doentes crónicos, grávidas ou trabalhadores com atividade no exterior.

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A onda de calor de maio levou Organização da Nações Unidas (ONU) a apelar à transição para energia limpa, alertando que o principal responsável pelas temperaturas escaldantes, na Europa, é a “dependência” mundial da queima de combustíveis fósseis (carvão, petróleo e gás), pelo que é preciso acabar com tal dependência. A isto acrescenta-se a destruição de sumidouros de carbono vitais, como as florestas, que é urgente evitar.

Os meteorologistas alertam que vários países estão presos sob uma “cúpula de calor altamente anómala e poderosa” – padrão atmosférico que fixa as ondas de calor e que se torna mais frequente, devido às alterações climáticas provocadas pelo ser humano. Na verdade, dezenas de cidades europeias registaram temperaturas muito acima do máximo climatológico normal para esta época do ano, com Londres (+16° C) e Paris (+14° C) a serem as mais atingidas. Tanto a França como o Reino Unido declararam, na última semana de maio, o dia de maio mais quente de que há registo. E, mesmo regiões tipicamente mais frescas, como Oslo, viram os termómetros subir até aos 18° C, mais 3° C do que a média para o fim de maio.

“Este calor recorde tem as impressões digitais das alterações climáticas por todo o lado”, afirma Friederike Otto, professora de Ciências do Clima no Imperial College London, frisando: “Temperaturas desta ordem eram, antes, excecionais até no auge do verão. Ver 35° C, no Reino Unido, na primavera, é absolutamente surpreendente, mas a ciência é muito clara: as alterações climáticas tornam estas ondas de calor mais intensas, mais longas e muito mais frequentes.”

Simon Stiell, secretário executivo da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas (UNFCCC), descreve esta onda de calor como um “lembrete brutal dos impactos em espiral da crise climática”.

Segundo a ONU, os combustíveis fósseis são o maior contributo para as alterações climáticas globais, respondendo por cerca de 68% das emissões mundiais de GEE e por quase 90% de todas as emissões de dióxido de carbono (CO2). À medida que as emissões de GEE envolvem a Terra, retêm o calor do sol, fazendo subir as temperaturas e alterando os padrões meteorológicos. E esta onda de calor provocada pelo clima é dupla ameaça, quando a recente guerra no Médio Oriente (a própria guerra destrói ecossistemas e influencia o clima) evidencia os custos galopantes da dependência das importações de combustíveis fósseis.

As soluções são claras: a transição mais rápida para energia limpa, que, agora, é mais barata do que os combustíveis fósseis e mais rápida de produzir, é crucial para a acessibilidade da energia e para a segurança económica dos países. As energias renováveis mostraram proteger as famílias do estrangulamento exercido pelo Irão sobre o Estreito de Ormuz, um ponto de estrangulamento vital para combustíveis fósseis que transporta cerca de um quinto do petróleo mundial. Só a energia solar poupou à Europa três mil milhões de euros, em março.

Em 2025, a energia eólica e a solar geraram mais eletricidade, na UE, do que os combustíveis fósseis, apesar da queda na hidroeletricidade e do aumento do gás.

O boom das renováveis está a ajudar a reduzir as emissões, levando alguns cientistas do clima a considerarem que já não é plausível uma subida anteriormente projetada de 4,5° C, na temperatura do ar, até 2100. Porém, várias potências da UE continuam atrasadas na transição. Em abril, a Itália foi acusada de “negligência climática”, após anunciar que tenciona adiar o encerramento definitivo das suas centrais de carvão – descritas como a forma mais poluente de energia – até 2038, ou seja, 13 anos depois do prazo inicial. Os Países Baixos, apesar de produzirem mais energia solar per capita do que qualquer outro país da União Europeia (UE), continuam dependentes dos combustíveis fósseis. O ritmo estagnado de instalação de parques eólicos de grande escala significa que o país arrisca falhar a meta juridicamente vinculativa de reduzir as emissões em 55%, até 2030, face aos níveis pré-industriais.

“Proteger vidas humanas, empresas e economias do calor extremo e dos muitos outros custos crescentes das alterações climáticas é tarefa central de qualquer nação e começa por acabar muito mais depressa com a dependência dos combustíveis fósseis”, afirma Simon Stiell, vincando “a necessidade de investir mais na construção de resiliência aos impactos climáticos”, como o calor extremo, as megacheias, as tempestades de vento, os incêndios florestais e as secas, que estão a afetar “a produção alimentar e os preços”, bem como (digo eu) a subsistência das manchas florestais e agrícolas, a dos aglomerados habitacionais ou empresariais ou a de equipamentos de utilização coletiva.  

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Porém, a luta contra as alterações climáticas e seus efeitos parece estar em ponto morto.

2026.05.31 – Louro de Carvalho

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