quinta-feira, 28 de maio de 2026

Guerra no Médio Oriente avança entre ameaças, acordos e ações bélicas

 As Forças Armadas dos Estados Unidos América (EUA) informaram, na noite de 27 para 28 de maio, que realizaram novos “ataques defensivos” contra o Irão, depois de Donald Trump, ter afirmado que Teerão está “a negociar no limite”.

Segundo o Comando Central norte-americano (Centcom), foram atingidos quatro drones iranianos de ataque unidirecional, que representavam uma ameaça na zona do estreito de Ormuz e uma estação de controlo terrestre iraniana, em Bandar Abbas, que se preparava para lançar um quinto drone. Este novo ataque, o segundo em três dias, ocorre no contexto do cessar-fogo frágil, que dura há várias semanas, e de conversações para pôr termo à guerra, que dura há quase três meses, e para chegar a um acordo que permita reabrir o estreito de Ormuz.

Pormenores do ataque surgiram depois de o inquilino da Casa Branca, numa reunião de governo, ter manifestado confiança de que a sua administração está a fazer progressos para pôr fim à guerra, embora tenha avisado, mais tarde, que os EUA “terão de acabar o trabalho”, se as conversações falharem. “Eles querem muito chegar a um acordo. […] Até agora, ainda não chegaram lá. Não estamos satisfeitos, mas vamos ficar. Ou isso ou teremos, simplesmente, de acabar o trabalho”, prometeu o presidente dos EUA.

Os ataques de 27 para 28 de maio surgem também numa altura em que o líder norte-americano acelera a campanha, antes das eleições intercalares de novembro, nos EUA, e em que os republicanos receiam que o aumento dos custos e dos preços dos combustíveis esteja a deteriorar o estado de espírito do eleitorado. E alguns analistas sustentam que Trump procura um argumento credível para convencer o eleitorado de que foi suficientemente reduzida a capacidade nuclear do Irão e para declarar vitória, encerrando um conflito politicamente impopular. Todavia, como as coisas estão, o presidente dos EUA arrisca-se a descobrir que o desfecho da guerra que escolheu travar poderá ser pouco satisfatório.

Alguns pormenores do acordo em preparação já expuseram o presidente norte-americano a duras críticas, inclusive de alguns dos seus apoiantes, segundo as quais os dirigentes da chamada linha dura do Irão sairão do conflito abalados, mas fortalecidos.

Donald Trump rejeitou a ideia de que as próximas eleições possam moldar a sua estratégia para o Irão e declarou que não quer saber das eleições intercalares. Ao mesmo tempo, insiste que o acordo está ao alcance, apesar das aparentes diferenças significativas entre os EUA e o Irão, em várias questões-chave, entre as quais o destino das reservas iranianas de urânio e a guerra de Israel contra o Hezbollah, no Líbano, que Teerão quer ver terminada.

No âmbito do possível acordo, Teerão aceitaria abdicar das suas reservas de urânio altamente enriquecido – a exigência central de Trump – em troca de um alívio das sanções. O presidente dos EUA afirmou, no dia 27, que “não ficaria confortável”, se fosse a Rússia ou a China a receber as reservas iranianas de urânio altamente enriquecido. Porém, estes dois países mantêm as relações mais estreitas com Teerão e analistas nucleares têm defendido que poderiam ser um terceiro interveniente aceitável para a República Islâmica receber o urânio enriquecido, no quadro de um eventual acordo.

Segundo a Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA), o Irão possui 440,9 quilos de urânio enriquecido até 60% de pureza, a um pequeno passo técnico dos níveis de 90% exigidos para armamento nuclear. E Teerão não se comprometeu, publicamente, a abdicar do seu urânio.

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Entretanto, um responsável da Marinha da Guarda Revolucionária do Irão ameaçou transformar “a zona entre Chabahar e Mahshahr num cemitério para agressores”, ou seja, transformar toda a costa iraniana do Golfo num campo de morte, se os EUA retomassem os ataques, embora mediadores digam que as partes estão mais perto de um acordo inicial do que em qualquer momento, desde o cessar-fogo de abril.

Chabahar e Mahshahr, entre as quais se situa o Estreito de Ormuz, são cidades portuárias iranianas em extremos opostos da longa linha costeira do país, que se estende por cerca de 1500 quilómetros, desde o golfo de Omã até ao fim do Golfo Pérsico.

“Os nossos combatentes trazem, hoje, no peito o desejo de travar combate corpo a corpo com o inimigo”, declarou, citado pela agência noticiosa Tasnim, o adjunto político da Marinha da Guarda Revolucionária, Mohammad Akbarzadeh, vincando que as forças armadas iranianas se encontram em plena prontidão e descrevendo como remota a possibilidade de uma nova guerra, atribuindo-a ao que qualificou de “fraqueza” do lado adversário, que sofreu, na ótica de Teerão, uma derrota estratégica no estreito de Ormuz.

“Afirmaram que conseguiriam reabrir o Estreito de Ormuz, mas, depois do encerramento desta via marítima, mesmo com todo o seu poder, não conseguiram fazer nada”, prosseguiu Mohammad Akbarzadeh, explicitando: “Os Americanos pensam que podem falar com a República Islâmica na linguagem da força, mas, ao que parece, ainda não aprenderam que não se deve falar com os Iranianos na linguagem das ameaças.”

Por sua vez, um responsável do Pentágono avaliou que o bloqueio naval norte-americano prejudicou receitas petrolíferas do Irão no valor de cerca de cinco mil milhões de dólares.

As negociações entre Teerão e Washington sobre um acordo preliminar estarão, agora, mais próximas de uma conclusão do que em qualquer outro momento, desde a entrada em vigor do cessar-fogo, a 8 de abril, embora o controlo do Estreito de Ormuz e a questão nuclear continuem a ser as duas áreas em que nenhum dos lados cedeu nas suas exigências.

A falar a partir de Moscovo, onde participou numa conferência sobre segurança, o secretário-adjunto do Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irão, Ali Bagheri Kani, afirmou que as duas partes ainda não tinham chegado a acordo sobre o levantamento do bloqueio. E disse que as reservas de urânio enriquecido de Teerão não estavam em cima da mesa das negociações e confirmou que o Irão e Omã mantinham conversações separadas, sobre um novo procedimento de passagem de navios pelo Estreito de Ormuz.

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O presidente dos EUA diz estar insatisfeito com as propostas de Teerão, mas sem pressa, enquanto a Casa Branca qualificou como “pura invenção” uma notícia da televisão estatal iraniana sobre um rascunho de acordo.

Numa reunião com a administração na Casa Branca, Donald Trump frisou que não tem pressa em chegar a um entendimento para terminar a guerra no Irão, apesar de ter dito, a 23 de maio, que um acordo estava próximo e de continuar a fazer pressão.

O Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) reagiu mais cedo às ameaças de retomar as operações militares lançadas pelos EUA e por Israel a 28 de fevereiro e suspensas em abril, afirmando que transformaria a sua costa num “cemitério para os agressores”.

Donald Trump diz que o Irão está “a negociar já sem fôlego”. A televisão estatal iraniana referiu que o esboço de um memorando de entendimento com Washington inclui o compromisso de levantar o bloqueio naval ao Irão, de restabelecer o tráfego no Estreito de Ormuz e de retirar as forças norte-americanas do Golfo Pérsico, o que os EUA classificam de “pura invenção”.

Trump afirmou que “ninguém”, incluindo Teerão, controlará o Estreito de Ormuz e rejeitou notícias de que o Irão e o sultanato de Omã poderiam gerir um sistema de portagens para aquela via marítima estratégica.

O líder norte-americano, que faz 80 anos, em junho, chegou a dizer que “Omã vai portar-se como todos os outros ou teremos de os fazer explodir”, num comentário aparentemente dirigido ao Irão, e sugeriu que um eventual acordo com o Irão poderá ficar dependente da sua pressão para que a Arábia Saudita e outros países assinem os Acordos de Abraão, que normalizam relações com Israel. “Não sei se devemos fazer o acordo se eles não assinarem”, disse Trump.

Os Acordos de Abraão ou Pacto Abraâmico são acordos bilaterais sobre a normalização árabe-israelita, assinados entre Israel e os Emirados Árabes Unidos (EAU) e o Bahrein, a 15 de setembro de 2020. Mediado pelos EUA, o anúncio inicial de 13 de agosto de 2020 dizia respeito apenas a Israel e aos EAU, antes do anúncio de um acordo de acompanhamento entre Israel e o Bahrein, a 11 de setembro de 2020. O acordo inicial de Israel com os EAU marcou a primeira vez que Israel estabeleceu relações diplomáticas com um país árabe, desde 1994, quando entrou em vigor o Tratado de Paz Israel-Jordânia.

O inquilino da Casa Branca pretende que todos aqueles países integrem os Acordos de Abraão, porque devem isso aos EUA. 

É de lembrar que o presidente dos EUA tem repetido que lançou a guerra no Irão, para impedir Teerão de obter uma arma nuclear. Por outro lado, pareceu confirmar informações de que o acordo em discussão pode adiar a questão das reservas de urânio enriquecido do Irão, ao mesmo tempo que abre o Estreito de Ormuz, crucial para o tráfego de petróleo. “Sim, em parte aceitaria isso”, disse Trump, ao ser questionado se aceitaria, para já, um acordo que apenas preveja novas negociações sobre o urânio, “porque é um memorando de entendimento para acelerar o processo”.

O secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, sentado ao lado de Trump, disse que houve “alguns progressos e algum interesse” nas conversações com o Irão. “Veremos, nas próximas horas e dias, se é possível avançar”, salientou.

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Outra frente da guerra norte-americana é Omã, aliada dos EUA, que Donald Trump ameaça fazer explodir Omã, caso este país se alie ao Irão, no controlo sobre Ormuz. É, efetivamente, desta forma que o líder norte-americano reage às negociações entre Mascate e Teerão por mecanismos regulatórios na via estratégica que escoa cerca de um quinto do petróleo global.

“Omã vai comportar-se como todos os outros, ou teremos de os explodir. Eles entendem. Eles vão ficar bem”, comentou Donalda Trump, nestes termos, durante uma reunião, na Casa Branca, a ação do governo omanense, acrescentando: “Ninguém vai controlar isso. Vamos ficar de olho nele. Vamos monitorar, mas ninguém vai controlar. Isso faz parte da negociação que temos. Eles gostariam de controlá-lo [o Estreito de Ormuz].”

O alerta veio após relatos de que Mascate e Teerão estavam a discutir a implementação de um sistema de taxas para embarcações que transitam pelo Estreito.

Embora inicialmente houvesse especulação de um erro verbal na mensagem de Trump contra Omã, o Departamento de Estado norte-americano compartilhou uma transcrição oficial, nas suas redes sociais, validando a referência ao país árabe.

Omã havia atuado anteriormente como mediador-chave entre Washington e Teerão, procurando uma solução para a guerra que começou em 28 de fevereiro, quando os EUA e Israel lançaram os seus ataques contra o Irão. Em resposta à ofensiva, Teerão fechou o Estreito de Ormuz e impôs controlos mais rigorosos, após o anúncio dos EUA de um bloqueio naval dos seus portos, uma medida que o Irão condenou por ilegal e por ser um ato de pirataria marítima.

Entretanto, uma análise do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS) alerta que os EUA podem precisar de anos, para reconstruírem os seus arsenais de mísseis, esgotados durante a campanha militar de 40 dias contra o Irão, tendo essas carências criado uma “janela de vulnerabilidade”, ante um possível conflito no Pacífico Ocidental.

Segundo o estudo, reabastecer stocks-chave levará “meses e anos, dependendo do sistema de armas.” Estima-se que os mísseis de cruzeiro Tomahawk, cujos stocks só seriam recuperados no final de 2030 ou no início de 2031, foram implantados em mais de mil unidades, assim como, entre 190 e 290, intercetadores THAAD e, até 1430, mísseis Patriot foram usados, com entregas de substituição esperadas apenas em 2029.

O secretário da Defesa, Pete Hegseth, já havia anunciado essas preocupações. O CSIS enfatiza que “o problema, hoje, não é dinheiro, mas tempo”, devido à complexidade da expansão da capacidade produtiva e à demanda competitiva de aliados, como a Ucrânia, a Arábia Saudita e a Alemanha, que também complicam o reabastecimento.

Apenas sistemas, como o míssil PrSM e os mísseis ar-superfície JASSM, apresentariam uma recuperação mais rápida, no final de 2026 e em meados de 2027, respetivamente. Mísseis lançados a partir de navios, incluindo o SM-3 e o SM-6, poderiam ser recuperados até ao início de 2029, devido ao seu baixo uso, durante o conflito.

O fechamento do Estreito de Ormuz causou severas interrupções no fluxo global de energia e uma volatilidade significativa nos preços do petróleo bruto, afetando, diretamente, as economias ocidentais, incluindo os EUA, no meio de negociações que se arrastaram sem um resultado claro. A crise de munição enfrentada pelos EUA pode desempenhar um papel, na nova escalada das tensões entre os EUA e o Irão, com os dois novos ataques lançados pelas forças armadas norte-americanas a violar o cessar-fogo vigente.

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Sem meias medidas, o IRGC do Irão realizou, no dia 28, um ataque militar retaliatório contra posições estratégicas dos EUA, em resposta direta ao bombardeamento das forças norte-americanas contra o território iraniano, em nova escalada do conflito, durante as negociações, e teve como alvo uma base aérea dos EUA identificada como ponto de origem do ataque anterior de Washington à cidade de Bandar Abbas.

Segundo a emissora estatal iraniana IRIB, uma base norte-americana no Kuwait “serviu como fonte do ataque”. O exército do Kuwait confirmou que as suas defesas aéreas estavam a intercetar mísseis e drones, pouco antes das 6h00 da manhã, na cidade do Kuwait.

“Esta resposta constitui um aviso sério ao inimigo: nenhum ato de agressão ficará impune e, se for repetido, a nossa resposta será ainda mais contundente”, alertou o IRGC, em comunicado, citado pela agência Tasnim, sem maiores detalhes táticos sobre a operação.

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Em suma, a guerra no Médio Oriente prossegue ou faz pausa, de acordo com a vontade dos líderes de Washington e de Teerão, que parecem dar, nas negociações, um passo para a frente e dois para trás. Entre a esperança de êxito ou o ceticismo num acordo duradouro e as ações militares, sobressaem, como vimos, as ameaças de pulverização ou de mortandade. Aliás, Donald Trump chegou a prometer destruir, numa noite, toda uma civilização!

Entretanto, países ocidentais continuam a enviar armas para Israel, para a sua guerra com o Hezbollah, enquanto o acordo de pacificação de Israel com o Hamas está a marinar, sob a presença das tropas israelitas, que, de vez em quando, “dialogam” com o Hamas, em termos bélicos, sob acusações mútuas de quebra do acordo.

Está visto que os limites da guerra são demasiado ténues e as linhas vermelhas dificilmente são respeitadas. E parece que a multiplicação de negociações serve para distrair das ações bélicas.

2026.05.28 – Louro de Carvalho

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