segunda-feira, 11 de maio de 2026

Emirados Árabes Unidos (EAU) romperam com a OPEP

 

A insatisfação de décadas de submissão ao poderio da Arábia Saudita e a ânsia de produzir e de ganhar muito mais dinheiro, por conta própria, levaram à saída dos Emirados Árabes Unidos (EAU) do cartel da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) – o maior produtor mundial de crude – fundado em 1960, ao qual aderiram em 1967.

A Arábia Saudita, fundadora e líder da OPEP, defende um duro regime de quotas de produção, para manter elevados os preços do petróleo. Todavia, passados 59 anos, os EAU, o 7.º maior produtor mundial de petróleo, resolveram apostar num gigantesco fundo soberano, que lhes permite expandirem-se e fazerem crescer mais o seu domínio, nos mercados da energia, enfrentando o, até agora, inquestionado patriarcado saudita. O facto pode levar mais países à saída da OPEP, devendo os danos da guerra, entre os quais os preços, demorar anos a sarar.

Luís Reis Ribeiro dá conta da situação a 10 de maio, no Diário de Notícias (DN).

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O momento escolhido para a consumação do plano emancipação dos EAU, que estava a ser delineado, há vários anos, como referem alguns especialistas em mercados petrolíferos (houve ameaças de saída, no passado), não foi inocente, nem impulsivo, mas é o que traz menos danos imediatos aos próprios EAU e aos seus parceiros.

O petróleo está, novamente, muito caro e, embora a produção se rarefaça ou o escoamento pelo Estreito de Ormuz (virtualmente fechado, há meses) se torne difícil, o negócio não está mau, como demonstram os lucros das grandes empresas do setor. E foi no contexto de nova guerra no Médio Oriente – que fez disparar os preços do crude para os valores mais elevados dos últimos quatro anos, com inflação a escalar e com sério risco de recessão, induzindo os bancos centrais a novas subidas de taxas de juro – que o estado árabe composto de sete emirados, liderado pelo poderoso e disciplinado Abu Dhabi, decidiu romper com a histórica aliança.

Os mercados “praticamente não reagiram”, já que estavam à espera do sucedido, como observa Frédéric Schneider, investigador principal no Conselho do Médio Oriente para Assuntos Globais (Middle East Council on Global Affairs), próximo do poder, em Washington.

Ironicamente, a 28 de abril, no dia em que a cimeira do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG), que deveria promover maior união entre os países da Península Arábica, decorria sob a presidência do príncipe herdeiro da Arábia Saudita, Mohammed bin Salman, os EAU anunciaram o fim da sua participação de 59 anos na OPEP. Esta decisão, apesar de discreta e calculada, tem implicações mais profundas e de longo alcance, com explicita Frédéric Schneider: os EAU estão a reposicionar-se geopoliticamente; não se sabe “até que ponto a rivalidade entre a Arábia Saudita e os EAU evoluiu”; e parece que a região do Golfo, “sob imensa pressão externa está, paradoxalmente, a fragmentar-se”.

O modelo de conceção e de construção da OPEP, para atuar com as premissas da altura em que foi fundada, em 1960, em plena Guerra Fria, deixou de ser eficaz. Serve mais uns do que outros, dentro do grupo dos 12 do cartel. Por conseguinte, mais países deverão avançar para a rutura com a OPEP, desde logo, a Venezuela, gigante em reservas por explorar, hoje vinculada aos Estados Unidos da América (EUA), que decapitaram, no início do ano, o regime de Caracas com a extração de Nicolás Maduro.

Warren Patterson, economista principal para a área das matérias primas, no grupo financeiro ING, com sede nos Países Baixos, sustenta que desvinculação dos EAU, “um grande golpe para a OPEP, é a saída de maior destaque da OPEP, nos últimos anos”.

Em fevereiro de 2026, antes da guerra com o Irão, o estado árabe composto de sete emirados bombeava 3,4 milhões de barris de petróleo, por dia, o equivalente a cerca de 12% da produção total da OPEP”, ocupando o lugar de terceiro maior produtor do grupo e, a nível mundial, o de sétimo maior. Ora, de acordo com o economista do ING, “a sua saída reduzirá a eficácia da OPEP na gestão e na influência do mercado petrolífero global, através de medidas de oferta”, “aumentará a produção, de uma capacidade atual a rondar 4,85 milhões de barris, por dia, para chegar, segundo os planos de Abu Dhabi, aos cinco milhões de barris, por dia até 2027”.

Como insistem vários analistas, os sete irmãos saíram da casa OPEP, a 1 de maio, mas, logo a 3 de maio, desenrolaram o plano para garantirem o futuro, o que pressupõe que o plano estava pensado e maturado. Com efeito, nesse fim de semana, a Companhia Nacional de Petróleo de Abu Dhabi (ADNOC) revelou o plano gigantesco para investir 46 mil milhões de euros em novos projetos, ao longo dos próximos dois anos, vincando, em comunicado, que a ideia é “acelerar o crescimento e a implementação da sua estratégia, com 200 mil milhões de dirhams (46 mil milhões de euros) em novos contratos de projetos para o período 2026-2028”.

De acordo com os analistas, “as adjudicações de projetos previstas abrangem as atividades a montante e a jusante da ADNOC e inauguram nova fase de execução de projetos,” que impulsiona a capacidade de produção industrial dos EAU, reforça a resiliência industrial e aprofunda o impacto dos planos, “para aumentar o investimento e a produção no país”. A montante, “é mais dinheiro para expandir a exploração e a produção de petróleo bruto” e, “a jusante”, são mais investimentos em refinação e em fabrico de derivados do petróleo, como as cruciais matérias primas que servem a produção de alimentos, por exemplo, os fertilizantes.

Contudo, pode surgir o impacto no sentido de reduzir os preços mundiais, mas não para já. Segundo Warren Patterson, “antes que esta capacidade possa ser aproveitada, é necessário que haja uma resolução, no Golfo Pérsico, que permita o fluxo, sem restrições, de energia através do Estreito de Ormuz”. Por isso, “no curto prazo, este desenvolvimento tem pouco impacto no mercado”, mas, “a médio e longo prazo, significa mais oferta para o mercado”, devendo a curva dos contratos de futuros preços do petróleo Brent “começar a baixar, de forma mais acentuada”, nos contratos mais longínquos no tempo.

E o economista remata: “Os EAU têm demonstrado crescente frustração, nos últimos anos, devido à limitação da sua produção imposta pelas quotas da OPEP, que a mantêm muito abaixo do seu potencial. Em 2024, a sua produção média de crude foi de 2,95 milhões de barris, por dia, muito abaixo da sua capacidade atual”, os 4,85 milhões de barris diários.

Não será só por causa da guerra e do caos negocial ou da ausência de negociações entre os EUA e o Irão que os preços não descem, nem o Estreito abre. Os EAU foram dos menos afetados pelos ataques do Irão e surgem com um plano ambicioso, para expandir a produção. O problema, de acordo com Karan Satwani, analista sénior da consultora Rystad Energy, é que isto não é só uma história sobre instalações danificadas no Golfo, é um teste de stresse à cadeia de abastecimento energético global. Com efeito, “os mesmos equipamentos e empresas necessários para a reconstrução já estão comprometidos com uma onda de projetos de Gás Natural Liquefeito (GNL) e offshore aprovados, desde 2023”, não criando os trabalhos de reparação nova capacidade, mas redirecionando a capacidade existente, o que “será sentido, na forma de atrasos de projetos e na inflação, muito para além da região do Médio Oriente”.

Segundo as contas da consultora, que estão em permanente atualização, à medida do levantamento dos danos e do surgimento de novos ataques, estimam-se custos totais de reparação e de recuperação entre 34 mil milhões e 58 mil milhões de dólares (entre 29 mil milhões e 49 mil milhões de euros. “O limite inferior deste intervalo pressupõe que, para instalações onde a extensão dos danos ainda não é totalmente clara, os impactos são limitados, permitindo reparações modulares com o auxílio de equipamentos sobressalentes existentes e com ciclos de aquisição mais curtos”, observa o analista da Rystad Energy, considerando que “pode sempre ser pior”, dependendo da “gravidade do que vier à tona”.  

O especialista refere que o limite superior das suas previsões reflete cenários em que os danos estruturais são confirmados em grandes instalações, exigindo a completa “substituição de sistemas críticos”, a dependência de equipamentos com longo prazo de entrega e a inclusão de prémios de risco relacionados com conflitos na execução de projetos de engenharia, de aquisição e de construção, “incluindo a mobilização de empresas de construção e seguros contra riscos de guerra, bem como atrasos relacionados com a deslocação de construtoras, condições logísticas restritas e, em alguns casos, acesso limitado às cadeias de abastecimento internacionais”. Além disso, sustenta que o cenário sombrio ainda não se dissipou. Fala de valores de recuperação, mas aponta que “um cessar-fogo, combinado com as negociações estagnadas e com o risco renovado de escalada do conflito, continua a moldar o ambiente operacional, juntamente com os riscos de perturbação e os bloqueios que afetam a navegação pelo Estreito de Ormuz”.

A curto prazo, a capacidade produtiva dos EAU (grande e com margem para aumentar) não chega para compensar a disrupção e a incerteza que paira sobre o que será do Golfo Pérsico e o desfecho do conflito entre os EUA e o Irão. Ebtesam Al Ketbi, presidente do think tank Centro de Estudos Políticos dos Emirados, que está em Abu Dhabi, diz que o país não está a fazer isto para se livrar das quotas restritivas da OPEP, mas porque esta deixou de fazer sentido. Portanto, na sua ótica, a saída não resulta das quotas, mas do modelo de organização do consórcio. 

“Os interesses divergentes no seio da OPEP enfraqueceram a sua eficácia, a rapidez e a flexibilidade estão a suplantar o consenso como sendo as principais fontes de influência e a energia está a tornar-se um instrumento de estratégia, e não o seu fundamento”, defende Ebtesam Al Ketbi, vincando que o papel da OPEP “deve passar do controlo do mercado para uma coordenação limitada”.

Porém, Warren Patterson contrapõe que o momento da saída foi bem planeado, pois o anúncio da saída num período de significativa perturbação no fornecimento limita o impacto no mercado, ao passo que, se tivesse ocorrido noutra altura, teria havido pressão descendente maior sobre os preços do petróleo. No entanto, segundo este economista, isto tem potencial para ser “bem recebido pelo “presidente dos EUA, ao reduzir a influência da OPEP no mercado petrolífero, ao beneficiar os importadores e os consumidores e ao aferir se se a saída dos EAU levará a maior fragmentação entre os restantes membros da OPEP.

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Entretanto, é de ter em conta o artigo de Quirino Mealha intitulado “Mercado mundial do petróleo continua a subir com saída dos EAU da OPEP”, publicado na Euronews, a 29 de abril, no dia seguinte à rutura entre os EAU e a OPEP, com uma perspetiva algo diferente. Desde logo, afirma que os “mercados de petróleo enfrentam nova fase de instabilidade, após a saída formal dos EAU da OPEP e da sua aliança alargada (OPEP+), embora coincida na verificação de que a medida “surge numa altura em que a economia mundial continua a ressentir-se da guerra com o Irão e em que o bloqueio do Estreito de Ormuz se mantém.

Considera Quirino Mealha que os investidores avaliam o potencial do aumento da produção futura, por parte dos EAU, face aos riscos imediatos e elevados, para as rotas de abastecimento mundiais e à maior probabilidade de mais países abandonarem a OPEP e a OPEP+. Por outro lado, observa que, “após o anúncio, os mercados reagiram, de forma rápida, ao incorporarem, nos preços, a possibilidade de excesso de oferta dos EAU, tendo as cotações do petróleo recuado entre 2% e 3%, sobretudo, nos contratos de futuros com vencimento, nos próximos meses, no que diverge do texto do DN.

No entanto, o movimento foi rapidamente compensado pelo prémio de risco associado ao conflito no Médio Oriente e à interrupção das negociações entre os EUA e o Irão. Na manhã de 29 de abril, o crude de referência nos EUA, o WTI, negociava acima de 105 dólares, por barril, enquanto o Brent, referência internacional, superava os 112 dólares. Ambos os preços estavam, naquele dia, cerca de 4% acima do mínimo atingido após o anúncio dos EAU.

A decisão dos EAU surge, após anos de tensões latentes entre Abu Dhabi e Riade, em torno das quotas de produção. Abu Dhabi investiu mais de 150 mil milhões de dólares (128 mil milhões de euros) na petrolífera estatal ADNOC, para aumentar a capacidade para cinco milhões de barris, por dia. Contudo, no quadro restritivo da OPEP, grande parte desta capacidade permaneceu subutilizada, o que leva, agora, o governo a privilegiar o interesse nacional.

A saída dos EAU, o terceiro maior produtor do grupo, é um golpe na coesão da OPEP.

Maurizio Carulli, analista global de energia na Quilter Cheviot, sublinhou as limitações que esta saída impõe aos restantes membros. “Até que o tráfego de navios-cisterna pelo Estreito de Ormuz volte a ser seguro, a capacidade da OPEP para estabilizar os preços fica fortemente limitada, ao passo que os produtores norte-americanos ganharam uma influência desproporcionada”, explicou, sustentando que, embora os EAU tenham prometido trazer mais produção para o mercado, de forma “gradual e calibrada”, a súbita falta de coordenação no seio da OPEP acrescentou uma nova dose de incerteza.

Para os EAU, o bloqueio funcionou como catalisador final da saída. Com a principal rota de exportação sob ameaça, Abu Dhabi procurou flexibilidade diplomática, necessária para estabelecer parcerias independentes de segurança e comércio fora da estrutura tradicional do cartel. Não obstante, apesar da turbulência geopolítica, as ações do setor energético mantêm-se resilientes. E, segundo Maurizio Carulli, “as grandes petrolíferas integradas, como a BP, a Shell, a TotalEnergies, a ENI, a Chevron e a ExxonMobil, beneficiam de uma subida de preços que poderá acrescentar 5% a 10% ao cash flow operacional, por cada aumento de 10 dólares no preço do petróleo”.

Noutro desenvolvimento, embora conexo, a segurança no Médio Oriente continua precária, apesar de um cessar-fogo frágil. O Irão apresentou, recentemente, uma proposta em dez pontos para reabrir o Estreito de Ormuz. Em troca da reposição do tráfego marítimo, exige a retirada total do bloqueio naval norte-americano e o fim das atuais hostilidades.

O presidente norte-americano, Donald Trump, que prorrogou, recentemente, o cessar-fogo de duas semanas mediado pelo Paquistão, descreveu a mais recente proposta iraniana como “muito melhor” do que as anteriores, mas não aceitou os termos. Pouco depois, escreveu, nas redes sociais, que o Irão se encontra numa situação grave e desesperada, sem margem de manobra para negociar. Enfim, Washington continua a insistir num acordo permanente sobre o programa nuclear iraniano e na reabertura incondicional da via marítima, antes de levantar as sanções. É, pois, difícil avaliar o impacto deste bloqueio na segurança energética global.

“O prolongamento do encerramento do Estreito de Ormuz retirou do mercado cerca de 12% da oferta mundial de petróleo, segundo a AIE [Agência Internacional de Energia], uma perturbação superior à da guerra do Yom Kippur, ao conflito Irão-Iraque, à invasão do Kuwait ou mesmo às consequências da guerra na Ucrânia”, salientou Maurizio Carulli.

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Fica a dúvida se os EAU romperam, devido às quotas ou ao modelo de organização da OPEP. Estamos num forte clima de incerteza que, pode concitar, além de sequelas políticas e económicas, alguns surtos localizados de crise psicossocial.  

2026.05.10 – Louro de Carvalho

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