A
insatisfação de décadas de submissão ao poderio da Arábia Saudita e a ânsia de
produzir e de ganhar muito mais dinheiro, por conta própria, levaram à saída
dos Emirados Árabes Unidos (EAU) do cartel da Organização dos Países
Exportadores de Petróleo (OPEP) – o maior produtor mundial de crude – fundado
em 1960, ao qual aderiram em 1967.
A
Arábia Saudita, fundadora e líder da OPEP, defende um duro regime de quotas de
produção, para manter elevados os preços do petróleo. Todavia, passados 59
anos, os EAU, o 7.º maior produtor mundial de petróleo, resolveram apostar num
gigantesco fundo soberano, que lhes permite expandirem-se e fazerem crescer
mais o seu domínio, nos mercados da energia, enfrentando o, até agora,
inquestionado patriarcado saudita. O facto pode levar mais países à saída da
OPEP, devendo os danos da guerra, entre os quais os preços, demorar anos a
sarar.
Luís
Reis Ribeiro dá conta da situação a 10 de maio, no Diário de Notícias (DN).
***
O
momento escolhido para a consumação do plano emancipação dos EAU, que estava a
ser delineado, há vários anos, como referem alguns especialistas em mercados
petrolíferos (houve ameaças de saída, no passado), não foi inocente, nem
impulsivo, mas é o que traz menos danos imediatos aos próprios EAU e aos seus
parceiros.
O
petróleo está, novamente, muito caro e, embora a produção se rarefaça ou o
escoamento pelo Estreito de Ormuz (virtualmente fechado, há meses) se torne
difícil, o negócio não está mau, como demonstram os lucros das grandes empresas
do setor. E foi no contexto de nova guerra no Médio Oriente – que fez disparar
os preços do crude para os valores mais elevados dos últimos quatro anos, com
inflação a escalar e com sério risco de recessão, induzindo os bancos centrais
a novas subidas de taxas de juro – que o estado árabe composto de sete
emirados, liderado pelo poderoso e disciplinado Abu Dhabi, decidiu romper com a
histórica aliança.
Os
mercados “praticamente não reagiram”, já que estavam à espera do sucedido, como
observa Frédéric Schneider, investigador principal no Conselho do Médio Oriente
para Assuntos Globais (Middle East Council on Global Affairs), próximo do poder,
em Washington.
Ironicamente,
a 28 de abril, no dia em que a cimeira do Conselho de Cooperação do Golfo
(CCG), que deveria promover maior união entre os países da Península Arábica, decorria
sob a presidência do príncipe herdeiro da Arábia Saudita, Mohammed bin Salman,
os EAU anunciaram o fim da sua participação de 59 anos na OPEP. Esta decisão,
apesar de discreta e calculada, tem implicações mais profundas e de longo
alcance, com explicita Frédéric Schneider: os EAU estão a reposicionar-se
geopoliticamente; não se sabe “até que ponto a rivalidade entre a Arábia
Saudita e os EAU evoluiu”; e parece que a região do Golfo, “sob imensa pressão
externa está, paradoxalmente, a fragmentar-se”.
O
modelo de conceção e de construção da OPEP, para atuar com as premissas da
altura em que foi fundada, em 1960, em plena Guerra Fria, deixou de ser eficaz.
Serve mais uns do que outros, dentro do grupo dos 12 do cartel. Por
conseguinte, mais países deverão avançar para a rutura com a OPEP, desde logo, a
Venezuela, gigante em reservas por explorar, hoje vinculada aos Estados Unidos
da América (EUA), que decapitaram, no início do ano, o regime de Caracas com a
extração de Nicolás Maduro.
Warren
Patterson, economista principal para a área das matérias primas, no grupo
financeiro ING, com sede nos Países Baixos, sustenta que desvinculação dos EAU,
“um grande golpe para a OPEP, é a saída de maior destaque da OPEP, nos últimos
anos”.
Em
fevereiro de 2026, antes da guerra com o Irão, o estado árabe composto de sete
emirados bombeava 3,4 milhões de barris de petróleo, por dia, o equivalente a
cerca de 12% da produção total da OPEP”, ocupando o lugar de terceiro maior
produtor do grupo e, a nível mundial, o de sétimo maior. Ora, de acordo com o
economista do ING, “a sua saída reduzirá a eficácia da OPEP na gestão e na influência
do mercado petrolífero global, através de medidas de oferta”, “aumentará a
produção, de uma capacidade atual a rondar 4,85 milhões de barris, por dia,
para chegar, segundo os planos de Abu Dhabi, aos cinco milhões de barris, por
dia até 2027”.
Como
insistem vários analistas, os sete irmãos saíram da casa OPEP, a 1 de maio, mas,
logo a 3 de maio, desenrolaram o plano para garantirem o futuro, o que
pressupõe que o plano estava pensado e maturado. Com efeito, nesse fim de semana,
a Companhia Nacional de Petróleo de Abu Dhabi (ADNOC) revelou o plano
gigantesco para investir 46 mil milhões de euros em novos projetos, ao longo
dos próximos dois anos, vincando, em comunicado, que a ideia é “acelerar o
crescimento e a implementação da sua estratégia, com 200 mil milhões de dirhams
(46 mil milhões de euros) em novos contratos de projetos para o período
2026-2028”.
De
acordo com os analistas, “as adjudicações de projetos previstas abrangem as
atividades a montante e a jusante da ADNOC e inauguram nova fase de execução de
projetos,” que impulsiona a capacidade de produção industrial dos EAU, reforça
a resiliência industrial e aprofunda o impacto dos planos, “para aumentar o
investimento e a produção no país”. A montante, “é mais dinheiro para expandir a
exploração e a produção de petróleo bruto” e, “a jusante”, são mais
investimentos em refinação e em fabrico de derivados do petróleo, como as cruciais
matérias primas que servem a produção de alimentos, por exemplo, os fertilizantes.
Contudo,
pode surgir o impacto no sentido de reduzir os preços mundiais, mas não para já.
Segundo Warren Patterson, “antes que esta capacidade possa ser aproveitada, é
necessário que haja uma resolução, no Golfo Pérsico, que permita o fluxo, sem
restrições, de energia através do Estreito de Ormuz”. Por isso, “no curto
prazo, este desenvolvimento tem pouco impacto no mercado”, mas, “a médio e
longo prazo, significa mais oferta para o mercado”, devendo a curva dos
contratos de futuros preços do petróleo Brent “começar a baixar, de forma mais
acentuada”, nos contratos mais longínquos no tempo.
E
o economista remata: “Os EAU têm demonstrado crescente frustração, nos últimos
anos, devido à limitação da sua produção imposta pelas quotas da OPEP, que a
mantêm muito abaixo do seu potencial. Em 2024, a sua produção média de crude
foi de 2,95 milhões de barris, por dia, muito abaixo da sua capacidade atual”,
os 4,85 milhões de barris diários.
Não
será só por causa da guerra e do caos negocial ou da ausência de negociações
entre os EUA e o Irão que os preços não descem, nem o Estreito abre. Os EAU
foram dos menos afetados pelos ataques do Irão e surgem com um plano ambicioso,
para expandir a produção. O problema, de acordo com Karan Satwani, analista
sénior da consultora Rystad Energy, é que isto não é só uma história sobre
instalações danificadas no Golfo, é um teste de stresse à cadeia de
abastecimento energético global. Com efeito, “os mesmos equipamentos e empresas
necessários para a reconstrução já estão comprometidos com uma onda de projetos
de Gás Natural Liquefeito (GNL) e offshore aprovados, desde 2023”, não
criando os trabalhos de reparação nova capacidade, mas redirecionando a
capacidade existente, o que “será sentido, na forma de atrasos de projetos e na
inflação, muito para além da região do Médio Oriente”.
Segundo
as contas da consultora, que estão em permanente atualização, à medida do
levantamento dos danos e do surgimento de novos ataques, estimam-se custos
totais de reparação e de recuperação entre 34 mil milhões e 58 mil milhões de
dólares (entre 29 mil milhões e 49 mil milhões de euros. “O limite inferior
deste intervalo pressupõe que, para instalações onde a extensão dos danos ainda
não é totalmente clara, os impactos são limitados, permitindo reparações
modulares com o auxílio de equipamentos sobressalentes existentes e com ciclos
de aquisição mais curtos”, observa o analista da Rystad Energy, considerando
que “pode sempre ser pior”, dependendo da “gravidade do que vier à tona”.
O
especialista refere que o limite superior das suas previsões reflete cenários
em que os danos estruturais são confirmados em grandes instalações, exigindo a completa
“substituição de sistemas críticos”, a dependência de equipamentos com longo
prazo de entrega e a inclusão de prémios de risco relacionados com conflitos na
execução de projetos de engenharia, de aquisição e de construção, “incluindo a
mobilização de empresas de construção e seguros contra riscos de guerra, bem
como atrasos relacionados com a deslocação de construtoras, condições
logísticas restritas e, em alguns casos, acesso limitado às cadeias de
abastecimento internacionais”. Além disso, sustenta que o cenário sombrio ainda
não se dissipou. Fala de valores de recuperação, mas aponta que “um
cessar-fogo, combinado com as negociações estagnadas e com o risco renovado de
escalada do conflito, continua a moldar o ambiente operacional, juntamente com
os riscos de perturbação e os bloqueios que afetam a navegação pelo Estreito de
Ormuz”.
A
curto prazo, a capacidade produtiva dos EAU (grande e com margem para aumentar)
não chega para compensar a disrupção e a incerteza que paira sobre o que será
do Golfo Pérsico e o desfecho do conflito entre os EUA e o Irão. Ebtesam Al
Ketbi, presidente do think tank Centro de Estudos Políticos dos Emirados, que está
em Abu Dhabi, diz que o país não está a fazer isto para se livrar das quotas
restritivas da OPEP, mas porque esta deixou de fazer sentido. Portanto, na sua
ótica, a saída não resulta das quotas, mas do modelo de organização do
consórcio.
“Os
interesses divergentes no seio da OPEP enfraqueceram a sua eficácia, a rapidez
e a flexibilidade estão a suplantar o consenso como sendo as principais fontes
de influência e a energia está a tornar-se um instrumento de estratégia, e não
o seu fundamento”, defende Ebtesam Al Ketbi, vincando que o papel da OPEP “deve
passar do controlo do mercado para uma coordenação limitada”.
Porém,
Warren Patterson contrapõe que o momento da saída foi bem planeado, pois o anúncio
da saída num período de significativa perturbação no fornecimento limita o
impacto no mercado, ao passo que, se tivesse ocorrido noutra altura, teria havido
pressão descendente maior sobre os preços do petróleo. No entanto, segundo este
economista, isto tem potencial para ser “bem recebido pelo “presidente dos EUA,
ao reduzir a influência da OPEP no mercado petrolífero, ao beneficiar os
importadores e os consumidores e ao aferir se se a saída dos EAU levará a maior
fragmentação entre os restantes membros da OPEP.
***
Entretanto,
é de ter em conta o artigo de Quirino Mealha intitulado “Mercado mundial
do petróleo continua a subir com saída dos EAU da OPEP”, publicado na Euronews,
a 29 de abril, no dia seguinte à rutura entre os EAU e a OPEP, com uma perspetiva
algo diferente. Desde logo, afirma que os “mercados de petróleo enfrentam nova
fase de instabilidade, após a saída formal dos EAU da OPEP e da sua aliança
alargada (OPEP+), embora coincida na verificação de que a medida “surge numa
altura em que a economia mundial continua a ressentir-se da guerra com o Irão e
em que o bloqueio do Estreito de Ormuz se mantém.
Considera
Quirino Mealha que os investidores avaliam o potencial do aumento da produção
futura, por parte dos EAU, face aos riscos imediatos e elevados, para as rotas
de abastecimento mundiais e à maior probabilidade de mais países abandonarem a
OPEP e a OPEP+. Por outro lado, observa que, “após o anúncio, os mercados
reagiram, de forma rápida, ao incorporarem, nos preços, a possibilidade de
excesso de oferta dos EAU, tendo as cotações do petróleo recuado entre 2% e 3%,
sobretudo, nos contratos de futuros com vencimento, nos próximos meses, no que diverge
do texto do DN.
No
entanto, o movimento foi rapidamente compensado pelo prémio de risco associado
ao conflito no Médio Oriente e à interrupção das negociações entre os EUA e o
Irão. Na manhã de 29 de abril, o crude de referência nos EUA, o WTI, negociava
acima de 105 dólares, por barril, enquanto o Brent, referência internacional,
superava os 112 dólares. Ambos os preços estavam, naquele dia, cerca de 4%
acima do mínimo atingido após o anúncio dos EAU.
A
decisão dos EAU surge, após anos de tensões latentes entre Abu Dhabi e Riade,
em torno das quotas de produção. Abu Dhabi investiu mais de 150 mil milhões de
dólares (128 mil milhões de euros) na petrolífera estatal ADNOC, para aumentar
a capacidade para cinco milhões de barris, por dia. Contudo, no quadro
restritivo da OPEP, grande parte desta capacidade permaneceu subutilizada, o
que leva, agora, o governo a privilegiar o interesse nacional.
A
saída dos EAU, o terceiro maior produtor do grupo, é um golpe na coesão da
OPEP.
Maurizio
Carulli, analista global de energia na Quilter Cheviot, sublinhou as limitações
que esta saída impõe aos restantes membros. “Até que o tráfego de
navios-cisterna pelo Estreito de Ormuz volte a ser seguro, a capacidade da OPEP
para estabilizar os preços fica fortemente limitada, ao passo que os produtores
norte-americanos ganharam uma influência desproporcionada”, explicou,
sustentando que, embora os EAU tenham prometido trazer mais produção para o
mercado, de forma “gradual e calibrada”, a súbita falta de coordenação no seio
da OPEP acrescentou uma nova dose de incerteza.
Para
os EAU, o bloqueio funcionou como catalisador final da saída. Com a principal
rota de exportação sob ameaça, Abu Dhabi procurou flexibilidade diplomática,
necessária para estabelecer parcerias independentes de segurança e comércio
fora da estrutura tradicional do cartel. Não obstante, apesar da turbulência
geopolítica, as ações do setor energético mantêm-se resilientes. E, segundo Maurizio
Carulli, “as grandes petrolíferas integradas, como a BP, a Shell, a
TotalEnergies, a ENI, a Chevron e a ExxonMobil, beneficiam de uma subida de
preços que poderá acrescentar 5% a 10% ao cash flow operacional, por
cada aumento de 10 dólares no preço do petróleo”.
Noutro
desenvolvimento, embora conexo, a segurança no Médio Oriente continua precária,
apesar de um cessar-fogo frágil. O Irão apresentou, recentemente, uma proposta
em dez pontos para reabrir o Estreito de Ormuz. Em troca da reposição do
tráfego marítimo, exige a retirada total do bloqueio naval norte-americano e o
fim das atuais hostilidades.
O
presidente norte-americano, Donald Trump, que prorrogou, recentemente, o
cessar-fogo de duas semanas mediado pelo Paquistão, descreveu a mais recente
proposta iraniana como “muito melhor” do que as anteriores, mas não aceitou os
termos. Pouco depois, escreveu, nas redes sociais, que o Irão se encontra numa
situação grave e desesperada, sem margem de manobra para negociar. Enfim, Washington
continua a insistir num acordo permanente sobre o programa nuclear iraniano e na
reabertura incondicional da via marítima, antes de levantar as sanções. É, pois,
difícil avaliar o impacto deste bloqueio na segurança energética global.
“O
prolongamento do encerramento do Estreito de Ormuz retirou do mercado cerca de
12% da oferta mundial de petróleo, segundo a AIE [Agência
Internacional de Energia], uma perturbação superior à da guerra do Yom Kippur,
ao conflito Irão-Iraque, à invasão do Kuwait ou mesmo às consequências da
guerra na Ucrânia”, salientou Maurizio Carulli.
***
Fica
a dúvida se os EAU romperam, devido às quotas ou ao modelo de organização da
OPEP. Estamos num forte clima de incerteza que, pode concitar, além de sequelas
políticas e económicas, alguns surtos localizados de crise psicossocial.
2026.05.10
– Louro de Carvalho
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