quinta-feira, 7 de maio de 2026

Programa voluntário “cívico-militar” para jovens

 

O Partido Social Democrata (PSD) e o partido do Centro Democrático Social - Partido Popular (CDS-PP) recomendam ao governo a criação de um programa de voluntariado para atrair jovens para as Forças Armadas (FA), com a retribuição única de 439,21 euros (€) e a possibilidade de tirarem a carta de condução gratuitamente. É o que está espelhado no Projeto de Resolução n.º 899/XVII/1.ª – datado de 30 de abril e entrado na Assembleia da República (AR), a 4 de maio – que recomenda ao governo a criação do programa “Defender Portugal”, com um regime de voluntariado jovem para a defesa.

Pretendem os partidos da Aliança Democrática (AD) que o governo que apoiam estabeleça, no quadro do Programa “Defender Portugal”, um regime especial de voluntariado jovem de âmbito cívico-militar, com vista à formação cívica, física e militar de jovens cidadãos e ao reforço da ligação entre a sociedade civil e a Defesa Nacional; que os seus destinatários sejam os cidadãos portugueses com idade compreendida entre os 18 e os 23 anos que não se encontrem inibidos do exercício de funções públicas; e que a sua duração, de três a seis semanas, inclua uma componente em regime de internato em instalações das FA e uma componente complementar em regime de externato.

Em compensação, a cada participante que conclua o programa deverá ser atribuída a retribuição única no valor de 439,21€ (uma ridicularia), correspondente a 50% do valor pago, no período de instrução básica, ao 1.º escalão remuneratório das FA. Além disso, ser-lhe-á dada a possibilidade de obtenção gratuita da carta de condução, em estabelecimentos militares habilitados, em articulação com o Instituto da Mobilidade e dos Transportes, I.P. (IMT, I.P.), bem como a garantia da valorização curricular da participação no Programa nos concursos de acesso às FA, às forças e aos serviços de segurança, a órgãos de polícia e a bombeiros profissionais.

Pretende, ainda, a AD que o executivo “promova, no âmbito da disciplina de Cidadania e Desenvolvimento, o ensino do domínio da Defesa Nacional, incluindo conteúdos preparatórios do Programa, a elaborar pelo Instituto da Defesa Nacional, em colaboração com os Ramos das FA e com os Ministérios competentes; que “assegure a divulgação regular, acessível e adequada do Programa junto da comunidade estudantil, em articulação com os estabelecimentos de ensino e as entidades responsáveis pela sua execução”; e que “proceda à regulamentação necessária à execução do Programa, incluindo a definição do número de vagas anuais e dos trâmites de candidatura”. Segundo a AD, o Programa “Defender Portugal” representa “um pacto de confiança entre gerações”, não se tratando de “militarizar a sociedade”, mas de “permitir que jovens de todas as origens sociais possam servir o seu país, porque o escolhem fazer”.

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Na Exposição de Motivos, os subscritores do projeto aduzem que “a Europa e o Mundo atravessam um período de profunda redefinição das suas arquiteturas de segurança”. E desvanecida a ilusão de paz perpétua no bloco europeu, o regresso da guerra convencional de alta intensidade e a multiplicação de ameaças híbridas e transnacionais impõem que o país faça “uma reflexão urgente e descomplexada sobre o seu modelo de Defesa Nacional”, visto que a soberania, em vez de ser “um dado adquirido”, é “uma construção permanente que exige dissuasão credível e, acima de tudo, recursos humanos capacitados”.

Recordam, com inexplicável saudosismo, que, “no auge do esforço nacional, durante a Guerra do Ultramar [leia-se: ‘guerra colonial’], mais especificamente no período 1971-1974, Portugal demonstrou capacidade para mobilizar e manter, em operações, perto de 200 mil cidadãos”, ou seja, mais de 2,32% da sua população, um dos rácios mais elevados do Mundo ocidental. E, no final da Guerra Fria (entre 1989 e 1991), o país mantinha, em tempo de paz, robusto dispositivo que rondava os 80 mil efetivos, ou seja, 0,81% da sua população.

A AD reconhece que, hoje, o efetivo das FA ronda os 24500 efetivos, cerca 0,21% da população residente, sendo este défice também o reflexo do inverno demográfico e do afastamento entre a sociedade civil e as FA, acentuado com a suspensão do Serviço Militar Obrigatório (SMO). Isto não é mais do que chorar por leite derramado, porquanto foram os partidos da AD que mais contribuíram para o desprestígio das FA e para a suspensão do SMO.

Admitem o PSD e o CDS-PP que “a profissionalização trouxe especialização”, mas “criou um fosso que urge colmatar […], através de novos mecanismos de atração que valorizem a cidadania e o mérito”. Assim, o Programa “Defender Portugal”, dirigido para a juventude portuguesa, “pretende reforçar a ligação entre as novas gerações, o seu país e a instituição militar”. E os subscritores do projeto consideram que as democracias que integram a Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO) estão a reformular e a diversificar os seus modelos de recrutamento, procurando atrair jovens para as suas FA.

Nestes termos, o governo alemão, após a invasão russa da Ucrânia, discutiu o reforço das tropas, a expansão do recrutamento voluntário e um pacote de incentivos financeiros para novos recrutas. Em França, o governo anunciou um novo “serviço nacional”, uma forma de serviço militar voluntário ampliado. Com a duração de 10 meses, o serviço destina-se a jovens com idades compreendidas entre os 18 e os 23 anos, podendo estender-se a outras faixas etárias, em circunstâncias excecionais e mediante autorização parlamentar. Os países escandinavos e nórdicos (a Finlândia, a Suécia, a Noruega e a Dinamarca) desenvolveram modelos de “Defesa Total” e as nações do Leste europeu, face à ameaça russa, revitalizaram as suas reservas territoriais e dinamizaram os processos de recrutamento.

É de referir que nos Estados Unidos da América (EUA) – que ameaçam abandonar a NATO e/ou deixar à Europa o ónus da sua defesa –, segundo a AD, “a estratégia de recrutamento se distingue pelo forte investimento no capital humano, com o inovador Future Soldier Preparatory Course, programa que atua como um ‘pré-treino’ remunerado que prepara, física e academicamente, candidatos, que inicialmente não cumpriam os requisitos de entrada, recuperando para as fileiras milhares de jovens com, taxas de sucesso superiores a 90%, e provando que o investimento na qualificação prévia é uma resposta eficaz à crise de vocações”.

Portugal, que “não pode ficar alheio a este movimento cívico”, disporá, na ótica do PSD e do CDS-PP, de um programa que se dirige “a uma geração que valoriza a flexibilidade, a experiência e o retorno concreto do seu esforço”, com o duplo objetivo de “proporcionar aos jovens uma formação robusta em liderança, disciplina e autonomia, e aproximar as novas gerações das Forças Armadas”. No período de duração do programa, os jovens beneficiarão de formação teórico-prática de militar, ministrada pelas FA, e participarão na prestação de serviço cívico, acompanhando as FA, no apoio e na cooperação com as populações e comunidades onde se encontrem inseridos, reforçando a ligação entre as novas gerações, as FA e o serviço ao país, implicando também o Ministério da Educação, Ciência e Inovação (MECI), no âmbito da disciplina de Cidadania e Desenvolvimento, para o ensino do domínio da Defesa Nacional, incluindo conteúdos a elaborar pelo Instituto da Defesa Nacional em colaboração com os ramos das FA e os Ministérios competentes. Quererão os dois partidos da AD instituir, nas escolas, com outra designação, a velha Mocidade Portuguesa?

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Os grupos parlamentares do Partido Socialista (PS) e do Chega já apresentaram resoluções que propõem novas formas de aproximar os jovens às FA, estudando o modelo atual do Dia de Defesa Nacional. O Chega recomenda que o Dia da Defesa Nacional se transforme na Semana da Defesa Nacional, com a duração de, pelo menos, cinco dias úteis, e que permita a “inspeção militar” dos convocados, enquanto o do PS recomenda ao executivo que avalie os moldes atuais deste dia e estude novos modelos de recrutamento voluntário para as FA. No início de abril, os deputados concordaram, em reunião da Comissão de Defesa, aguardar pelas iniciativas do PSD e do CDS-PP, para que todos os projetos sejam debatidos em conjunto.

O deputado do PSD, Bruno Ventura, em conferência de imprensa, na AR, a 5 de maio, explicou o alcance do programa, que permite aos jovens terem um primeiro contacto descomprometido com as FA, com benefícios associados, de modo a “voltar a estabelecer-se uma ligação entre as Forças Armadas e a juventude portuguesa”. Garantiu que o governo estava a par de que os deputados da AD iam “desencadear estas iniciativas”, incluindo o MECI, e assegurou que “existe uma solidariedade institucional”, não se inibindo os grupos parlamentares, por sua iniciativa, de apresentarem soluções e esperando-se que o governo agarre a proposta.

Entretanto, o Ministério da Defesa não se compromete: “A proposta em causa é apresentada no âmbito da AR, não competindo ao governo efetuar comentários, em respeito pela dinâmica parlamentar”, diz fonte do gabinete do ministro, referindo que “o Ministério da Defesa Nacional implementa as medidas e reformas que considera adequadas, em cada momento, avaliando o contexto geopolítico, sendo tais medidas e reformas as que constam, de forma clara, do programa de governo” – “caminho que continuará a ser prosseguido”.

Como todos os ramos das Forças Armadas – Exército, Marinha e Força Aérea – se debatem com problemas sérios de efetivos para as missões básicas, Bruno Ventura diz que os participantes e os meios mobilizados seriam da responsabilidade dos militares: “Deixamos às Forças Armadas a parte da regulamentação”, afirmou aos jornalistas, frisando que “o número de vagas corresponderá sempre, no primeiro programa, à capacidade instalada para executar, quer do ponto de vista da licença de condução, quer do ponto de vista formativo”.

Foi calculado o custo financeiro, mesmo com os custos imputados, indiretamente, da capacidade já instalada nas FA, e para um programa de dois mil jovens, fala-se de um custo de 4,5 milhões de euros, incluindo renovação de infraestruturas, pessoal de instrução, custos operacionais, alimentação ou alojamento. E o deputado não comentou propostas de outros partidos, como do Chega, que quer um Dia da Defesa Nacional de cinco dias e a criação da bolsa de reservistas, para quem sai das FA manter o vínculo e ser convocado, quando necessário.

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O Programa “Defender Portugal”, apresentado como recomendação, não para aumentar os efetivos das FA, mas para aproximar delas os jovens, é criticado por antigos altos responsáveis militares. É proposto um programa de voluntariado de três a seis semanas (muito pouco tempo), com formação em liderança, disciplina e autonomia, uma compensação de 439,21€ e a possibilidade de tirar a carta de condução em meio militar, gratuitamente. A ideia surge num momento em que as FA enfrentam persistente falta de efetivos. Mas, para antigos chefes militares, a resposta fica muito aquém da dimensão do problema. Entre as expressões usadas, estão: “uma inutilidade”, “um remendo”, “dar oxigénio a um corpo morto”, “uma coisa da Segurança Social para indigentes” e “uma espécie de escuteiros”.

Henrique Gouveia e Melo, ex-chefe do Estado-Maior da Armada (CEMA), um dos mais críticos, sustenta que o programa não cria verdadeiras capacidades militares e questiona se não se trata de “mais uma medida de marketing político”, já que não é com três ou seis semanas de formação que se resolvem os problemas das FA. Para o almirante, a prioridade passa pela criação de carreiras mais aliciantes, capazes de atrair e de reter efetivos; pela revisão da situação dos militares ingressados a partir de 2005, que enfrentam reformas equivalentes a cerca de metade do último salário, o que está a levar à saída de talento já formado; e pela criação de uma reserva de longo prazo, que permita aos antigos militares continuarem disponíveis, até cerca dos 50 anos, recebendo algum benefício, permitindo ao país contar com um contingente já treinado, em caso de aumento da tensão ou de necessidade operacional.

Também o general Pinto Ramalho, chefe do Estado-Maior do Exército (CEME) entre 2006 e 2011, rejeita o alcance da proposta, soando o “Defender Portugal” mais a slogan do que a solução. “Depois dos 439,21 euros e da carta de condução, que ligação fica às Forças Armadas? O que é isto? Criar uma espécie de escuteiros?”, questiona, sustentando que a falta de efetivos exige medidas estruturais, e não “fantasias”, e criticando a indefinição do programa, já que não se sabe o que se pretende fazer, na prática, em três a seis semanas.

A comparação feita pelo general é expressiva: quando deixou a chefia do Exército, em 2011, havia 24500 militares, dos quais 13900 eram praças, além de cerca de dois mil civis, ao passo que, hoje, o Exército tem menos de 13 mil militares e menos de cinco mil praças. Por isso, a conclusão é clara: a escassez de recursos humanos não se resolve com programas cívicos ou iniciativas de voluntariado de curta duração. O problema é estrutural.

O major-general Arnaut Moreira, antigo subdiretor da Defesa Nacional e professor do Instituto de Altos Estudos Militares e da Universidade Nova de Lisboa, defende que o modelo atual falhou. Na sua avaliação, o Serviço Militar Voluntário nunca gerou os efetivos necessários para o cumprimento da missão das FA. As tentativas de reanimar o modelo estão condenadas ao fracasso, porque o problema não está apenas nos apoios ou incentivos, mas no próprio modelo. A solução exige séria discussão nacional sobre a prestação do serviço militar, não havendo nada que substitua o SMO. Arnaut Moreira explicita: só esse modelo garantiria efetivos suficientes para operarem sistemas de armas, permitiria distribuição territorial mais equilibrada das forças e criaria uma reserva disponível para ser chamada, quando necessário. E, invocando o contexto internacional, sublinha que as infraestruturas críticas se tornaram alvos prioritários em cenários de conflito. Na sua ótica, Portugal não pode adiar a discussão sobre o modelo de defesa e sobre a capacidade de mobilização.

O almirante Melo Gomes, antigo CEMA, que integra o GREI (Grupo de Reflexão Estratégia Independente), considera que o Programa parece “um bocado ridículo, face à dimensão do problema”, adianta que será divulgado, ainda este mês, um estudo aprofundado sobre a falta de recursos humanos nas FA e entende que uma resposta de 439,21 euros e de carta de condução militar parece “uma coisa da Segurança Social para indigentes”. Depois, recordou que a Reforma Defesa 2020 previa que Portugal tivesse, atualmente, entre 30 mil e 32 mil efetivos, mas a realidade está longe disso. Quando liderou a Marinha, contava com cerca de 10 mil efetivos, ao passo que, hoje, serão 6500. Por isso, insiste que o problema está no recrutamento e na retenção: militares qualificados, entre 30 e 40 anos, abandonam as FA, por falta de perspetivas.

Tirar carta de condução em meio militar, é contestada pela ANIECA, Associação Nacional de Escolas de Condução Automóvel, por usurpação de funções e por concorrência desleal, da parte do Estado, e por a criação de cartas de condução militares ir contra o objetivo de reduzir a sinistralidade rodoviária. Para a ANIECA, o Estado não pode ensinar e ensina mal!

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Não se resolvem grandes questões com medidas paliativas, assistencialistas ou de apelo cívico, mas com reflexão ponderada e com soluções robustas, o que os governos não fazem.

2026.05.06 – Louro de Carvalho

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