O
presidente dos Estados Unidos da América (EUA) disse, a 2 de maio, que estava a
analisar a nova proposta do Irão para acabar a guerra, mas mostrou ceticismo,
quanto a um possível acordo, e afirmou que aquele país “ainda não pagou um
preço suficientemente elevado”.
No
início da última semana de abril, Donald Trump recusou uma proposta iraniana,
afirmando que Teerão não está disposto a dar a Washington o que “precisa de
ter” para chegar a acordo. “Depois digo-vos o que se passa”, disse, antes de
embarcar no Air Force One, frisando que, “agora, vão dar-me o texto exato”. E,
num post posterior, no Truth Social, o inquilino da Casa Branca
reiterou a posição inicial, mas não deu mais informações sobre a proposta ou sobre
quaisquer pontos de atrito que possam prevalecer para bloquear o acordo.
“Em
breve, irei rever o plano que o Irão acabou de nos enviar, mas não consigo
imaginar que seja aceitável, na medida em que eles ainda não pagaram um preço
suficientemente grande pelo que fizeram à Humanidade e ao Mundo, nos últimos 47
anos”, escreveu Trump.
Duas
agências noticiosas iranianas semioficiais, Tasnim e Fars,
próximas do Corpo de Guardas da Revolução paramilitar do Irão (IRGC), disseram
que Teerão enviou uma proposta de 14 pontos, através do Paquistão, em resposta à
proposta de nove pontos dos EUA, mas os meios de comunicação social estatais
iranianos não deram informações sobre a nova proposta. O Paquistão foi o
anfitrião de anteriores negociações presenciais entre o Irão e os EUA, em
Islamabad, que foram interrompidas, mais tarde, com Washington a recusar
participar, depois de as delegações iranianas se terem retirado, alegando a
distância e o tempo de viagem.
Trump
rejeitou uma proposta anterior do Irão, mas as conversações prosseguiram e o
frágil cessar-fogo de três semanas parece ainda estar a manter-se.
O
presidente dos EUA também apresentou novo plano para reabrir o estratégico Estreito
de Ormuz, na foz do Golfo Pérsico, por onde passa, normalmente, cerca de 20% do
comércio mundial de petróleo e gás natural, mas que tem estado, efetivamente,
fechado ao tráfego marítimo desde o início da guerra israelo-americana, a 28 de
fevereiro.
Há
algumas semanas, ante a recusa do Irão em permitir o tráfego marítimo no
Estreito, Donald Trump lançou a “Operação Liberdade” para bloqueio a todos os
portos iranianos, e a Marinha dos EUA informou que obrigou a recuar cerca de 50
navios que tentavam entrar no Irão e sair de lá.
Nos
últimos dias, o Irão sugeriu que permitiria a passagem segura de navios que
pagassem uma taxa, o que provocou furiosa resposta de Washington, a avisar as
companhias de navegação que poderiam ser alvo de sanções, se pagassem ao Irão,
para atravessarem aquela via navegável, aumentando a pressão no impasse sobre o
seu controlo.
A
Casa Branca advertiu, a 1 de maio, contra as transferências, em dinheiro, em
ativos digitais, em compensações, em swaps informais ou em outros
pagamentos em espécie, incluindo doações de caridade e pagamentos em embaixadas
iranianas, reiterando a sua posição de que não permitiria que Teerão “intimidasse
a economia global”. E o líder norte-americano afirmou, diversas vezes, que o
bloqueio está a causar perdas da ordem dos 500 milhões de dólares, por dia, à
já difícil economia iraniana, na última década, atingida por duras sanções
norte-americanas e internacionais, devido ao programa nuclear e ao historial,
em direitos humanos.
As
forças norte-americanas e israelitas iniciaram a guerra a 28 de fevereiro. Em
resposta, o Irão fechou o Estreito de Ormuz, rota crucial para as exportações
de petróleo e gás, enquanto, mais tarde, as forças norte-americanas impuseram o
bloqueio aos portos iranianos. Donald Trump prolongou, indefinidamente, o que
era, inicialmente, um cessar-fogo de duas semanas, mas o conflito e as suas
consequências económicas generalizadas estão por resolver. Entretanto, o
poderoso negociador-chefe do Irão advertiu os EUA contra qualquer nova escalada
no Estreito de Ormuz, depois de uma série de ataques que podem reacender a
guerra.
***
O
Irão acusou, a 5 de maio, os EUA de colocarem em perigo a segurança da
navegação no Estreito, ao “violarem o cessar-fogo”, e advertiu que não
aguentarão a situação, durante muito tempo, tal como advertiu a administração
norte-americana contra qualquer nova escalada no Estreito, depois de uma série
de ataques que podem reacender a guerra. E os EUA ameaçam responder, de forma “devastadora”,
a qualquer ataque iraniano contra navios. O aviso do Pentágono surgiu no
segundo dia de um esforço dos EUA para facilitar o trânsito de navios
comerciais pelo Estreito, que o Irão fechou, em resposta à guerra
israelo-americana contra a República Islâmica.
Os
EUA “não estão à procura de uma luta” sobre o Estreito de Ormuz e o seu
cessar-fogo com o Irão ainda se mantém, mas qualquer ataque à navegação
comercial terá resposta “devastadora”, no dizer do secretário da Guerra, Pete
Hegseth, que declarou aos jornalistas: “Não estamos à procura de uma luta. Mas
também não se pode permitir que o Irão bloqueie o acesso de países inocentes e
dos seus bens a uma via fluvial internacional. […] “Se atacarem as tropas
americanas ou a navegação comercial inocente, enfrentarão um poder de fogo
americano esmagador e devastador.”
Entretanto,
o general Dan Caine, oficial de topo das forças armadas norte-americanas,
afirmou que as suas tropas estão prontas para retomar as principais operações
de combate contra o Irão, se assim for ordenado. “Nenhum adversário deve
confundir a nossa atual contenção com falta de determinação”, declarou.
Tanto
Caine como Hegseth minimizaram as hostilidades, com o general a descrevê-las
como “fogo de assédio baixo” e o chefe do Pentágono a dizer que, “neste
momento, o cessar-fogo mantém-se, certamente”. E as forças armadas dos EUA
afirmaram que os seus helicópteros Apache e Seahawk atingiram seis embarcações
iranianas que ameaçavam a navegação comercial e que as suas forças repeliram
ataques com mísseis e drones, no dia 4, enquanto os Emirados Árabes Unidos (EAU)
relataram novos ataques iranianos no seu território.
O
último aviso do Irão seguiu-se ao anúncio de Donald Trump de um plano para
orientar os navios de países neutros para fora do Golfo, antes de os rivais
trocarem tiros, enquanto disputam o controlo da via navegável com bloqueios
marítimos em duelo. “Sabemos muito bem que a continuação do status quo é
intolerável para os EUA; no entanto, ainda nem sequer começámos”, escreveu
Mohammad Bagher Ghalibaf, também presidente do parlamento iraniano, numa
publicação no X, sublinhando que as ações dos EUA e dos seus aliados
colocaram em risco a segurança da navegação e vincando que a “presença maligna
irá diminuir”, com Teerão a prometer não ceder o controlo de Ormuz.
O
Irão negou que algum dos seus navios de combate fora atingido pelos ataques norte-americanos,
mas acusou Washington de ter morto cinco passageiros civis em barcos.
***
A
embaixada dos EUA no Iraque avisou todos os seus cidadãos que ainda estão no
país para “partirem imediatamente”, assim que reabrir o espaço aéreo iraquiano.
“Indivíduos que estejam a pensar viajar de avião dentro do Iraque devem estar
cientes dos riscos potenciais de serem atingidos por mísseis, por drones e por
granadas propelidas por foguetes”, explicita a embaixada, assegurando que “as
milícias terroristas iraquianas alinhadas com o Irão continuam a planear novos
ataques contra cidadãos americanos e alvos associados aos EUA”.
A
Marinha da Guarda Revolucionária Islâmica do Irão alertou os navios que navegam
no Estreito de Ormuz para não se desviarem das rotas definidas, sob pena de
serem atacados. A informação foi revelada pela agência de notícias Fars:
“Todas as embarcações que pretendem transitar pelo Estreito ficam avisadas de
que a única rota segura para a passagem pelo Estreito de Ormuz é o corredor
previamente anunciado pelo Irão. Qualquer desvio dessa rota é inseguro e será
tratado, com firmeza, pela Marinha da Guarda Revolucionária Islâmica.”
O
Comando Central dos EUA anunciou nas redes sociais que o bloqueio naval que
está a realizar no Estreito de Ormuz intercetou, até agora, 51 navios, que
“receberam ordens para darem meia-volta ou retornarem ao porto”. E os EAU
anunciaram que as suas defesas aéreas intercetaram, pelo segundo dia consecutivo,
mísseis balísticos, mísseis de cruzeiro e drones lançados a partir do Irão,
apesar do cessar-fogo entre Teerão e Washington. Numa mensagem, na rede social X,
o Ministério da Defesa dos EAU, relatou que os seus sistemas antiaéreos estavam
“a combater ataques de mísseis e drones originários do Irão”, relatando que
foram escutados sons em várias partes do país, em resultado da interceção dos
projéteis iranianos.
Donald
Trump, falando na Sala Oval, a 5 de maio, rodeado de algumas crianças, abordou
o conflito com o Irão, dizendo que os Iranianos “não gostam de brincar
connosco”. “Basicamente, aniquilamos o exército deles, em cerca de duas semanas”,
frisou, assegurando que os EUA não deixarão “que os lunáticos do Irão
consigam ter armas nucleares”.
“Hoje,
atingimos um recorde histórico no mercado de ações, apesar daquela pequena
escaramuça. Chamo escaramuça, porque o Irão não tem hipótese, nunca teve. E
eles sabem disso. Eles próprios dizem-me isso, quando falo com eles. Depois,
aparecem na televisão e dizem que se estão a sair bem”, disse, sendo que a
escaramuça a que se referiu terá a ver com a troca de ataques do dia 4, no
Estreito de Ormuz.
Sobre
o programa nuclear do Irão, considerou que “os Iranianos são pessoas doentes”. “Não
vamos deixar que lunáticos tenham acesso a uma arma nuclear. Nós derrotamo-los,
de forma contundente”, frisou, observando que “o Irão sabe o que não fazer”, na
sequência dos confrontos no Estreito de Ormuz e dos ataques aos EAU, e que se
limita a atirar “com barquinhos armados com metralhadoras”, porque já não tem
barcos, já que a sua frota foi afundada e destruída.
Apesar
de tudo, Trump assegurou que o cessar-fogo está em vigor. “O Irão quer
fechar um acordo. O que me incomoda, no Irão, é que falam comigo, com tanto
respeito, mas, depois, vão à televisão e dizem: ‘Não falamos com o presidente.’
Estão a jogar sujo, mas querem fechar um acordo”, comentou, garantindo que está
disposto a destruir a economia do Irão.
“A
moeda deles não vale nada. A inflação, provavelmente está em 150%. Eles não
estão a pagar aos seus soldados, porque não têm forma de pagar, pois o dinheiro
não vale nada”, disse.
***
O
presidente norte-americano afirmou que o seu homólogo chinês, Xi Jinping, tem
sido “muito gentil”, face à guerra lançada por Washington contra o Irão e ao
consequente encerramento do estreito de Ormuz. “Vou falar sobre esta questão,
em particular (Irão), mas tenho de dizer que Xi tem sido muito amável, quanto a
isso”, respondeu aos jornalistas, num evento na Casa Branca, quando lhe
perguntaram se discutiria a guerra com o líder chinês, durante a visita a
Pequim, que começa no dia 13.
A
decisão do Irão de encerrar o tráfego marítimo no Estreito de Ormuz, desde o
início da ofensiva EUA e de Israel contra Teerão afeta, seriamente, as
necessidades energéticas do gigante asiático. “Para ser justo, ele recebe cerca
de 60% do seu petróleo dos países do Golfo, e acho que tem sido muito
simpático. A China não nos desafiou. Eles não nos desafiam. E ele não faria
isso. Não acho que tenha feito isso por mim, mas acho que tem sido muito gentil”,
explicitou Donald Trump, referindo ter convidado Pequim a fazer uma reserva de
petróleo norte-americano.
“Disse-lhes:
‘Enviai os vossos navios para o Texas. Não está muito mais longe. Enviai os
vossos navios para a Louisiana. Enviai os vossos navios para o Alasca.’ […] O Alasca
é muito próximo de muitos dos países asiáticos”, observou, revelando que propôs
a países, como a Coreia do Sul e o Japão, que comprem mais hidrocarbonetos aos
EUA. “Tenho uma relação muito boa com o presidente Xi Jinping. Acho que é um
tipo extraordinário e damo-nos bem”, afirmou, desejando que ambas as potências
façam, juntas, “muito negócio e muito dinheiro”.
A
reunião em Pequim, no dia 13, é a primeira que Donald Trump e Xi Jinping terão,
desde que se encontraram na Coreia do Sul no outono de 2025, à margem de uma
cimeira da Cooperação Económica Ásia-Pacífico (APEC).
Os
EAU estão, novamente, a ser atacados pelo Irão, segundo avançou o ministério da
Defesa daquele país, garantindo estar a “responder ativamente”. Em contraponto,
o presidente norte-americano admitiu que a guerra com o Irão poderá
prolongar-se, ainda, por duas ou três semanas, e descartou que o tempo seja um
“fator crucial”, para os interesses de Washington. “De uma forma ou de
outra, ganhamos”, afirmou, numa entrevista à ABC News citada, a 5 de
maio, pela agência de notícias espanhola Europa Press (EP),
propalando que os EUA ou fecham um acordo com o Irão ou ganharão a
guerra, “com muita facilidade”. “Do ponto de vista militar, já
ganhámos”, reafirmou, observando que já lhe ouviram “dizer isto um milhão de
vezes”.
Trump
evitou pronunciar-se sobre se os ataques do Irão contra os EAU, no dia 4,
representaram uma violação das tréguas em vigor, desde 8 de abril. “Veremos o
que acontece”, afirmou, depois de ter minimizado, no mesmo dia 4, os ataques
contra um campo petrolífero, no Leste do país do golfo Pérsico, ao afirmar que
“não houve danos importantes”.
O
líder norte-americano minimizou a importância da possível duração da guerra,
argumentando que existe grande aceitação, por parte do público norte-americano,
em relação ao conflito, ao invés do que indicam as sondagens. Disse que os EUA
controlam o Estreito de Ormuz, desde o lançamento, no dia 4, de uma operação
militar para facilitar a passagem dos navios retidos no golfo Pérsico, embora o
Irão afirme o contrário. E, quanto às reservas de urânio do Irão, o principal
argumento esgrimido pelos EUA e por Israel, para lançarem a nova ofensiva,
minimizou a sua importância e alcance, devido aos bombardeamentos lançados em
junho. “Provavelmente, [as reservas de urânio] não podem ser usadas”, admitiu,
mas sustentando que gostava de capturar o urânio em posse do Irão, para evitar
que as autoridades iranianas “caiam na tentação” de insistirem nas aspirações
nucleares.
Entretanto,
o presidente dos EUA anunciou a suspensão temporária da “Operação
Liberdade”, invocando o “grande progresso” nas negociações e os pedidos do
Paquistão, que atua como mediador, mas ameaçou, de novo, o Irão com
bombardeamentos de intensidade muito maior do que antes, caso não haja acordo,
ao passo que o Irão só aceita um acordo justo.
***
Por
fim, é de salientar que o primeiro-ministro português, Luís Montenegro, em
conversações, na Alemanha, com o seu homólogo, Friedrich Merz, defende a via do
diálogo para acabar com a guerra, mas parece dar a entender que a culpa está do
lado do Irão.
Entretanto,
a UNICEF (Fundo das Nações Unidas para a Infância) lança fortes apelos ao urgente
socorro às centenas de crianças que sofrem as cruéis agruras da guerra no
Líbano levada a cabo por Israel.
***
É
a guerra, numa região mártir da teimosia nefasta dos líderes políticos, em
contexto de diferentes narrativas, preocupações e interesses, bem como de um diálogo
de surdos.
2026.05.06
– Louro de Carvalho
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