A
Ucrânia, nação soberana e democrática que decidiu, livremente, que pretende
juntar-se à família europeia, apresentou o pedido de adesão à União Europeia (UE),
no final de fevereiro de 2022, escassos dias após a Rússia ter lançado a sua
agressão não provocada e injustificada em grande escala. E a UE vem
trabalhando com os parceiros ucranianos para facilitar o processo de adesão e para
os apoiar no cumprimento dos critérios de adesão.
A
Comissão Europeia apresentou parecer sobre o pedido, em junho de 2022, tendo
sido concedido à Ucrânia o estatuto de país candidato à adesão, por todos
os estados-membros, nesse mês. E, em dezembro de 2023, os líderes da UE
acordaram em dar início às negociações de adesão com a Ucrânia. E a
UE iniciou, formalmente, as negociações de adesão com a Ucrânia, na primeira
Conferência Intergovernamental, em junho de 2024.
Os
países em processo de adesão devem implementar reformas, a fim de se
alinharem com a legislação e com as normas da UE, conhecidas como acervo
da União. A Ucrânia mostrou impressionante capacidade de reformas, mesmo em
tempo de guerra. Assim, fez progressos em vertentes importantes, como a
reforma do sistema judicial, o desenvolvimento da economia de mercado viável, a
luta contra o branqueamento de capitais, a modernização da administração
pública (AP) e a proteção dos direitos das minorias nacionais. Antes de as
negociações poderem ter lugar, a Comissão e a Ucrânia procederam a exame
analítico dos capítulos do acervo da União, a fim de se determinar o grau
de preparação do país para a adesão. E a Ucrânia concluiu, com êxito,
este processo de análise, em setembro de 2025.
O
executivo europeu apresenta os resultados do processo aos estados-membros sob a
forma de relatórios analíticos, em que pode recomendar a abertura de
negociações nos domínios políticos pertinentes. Logo que os estados-membros
chegarem a acordo, os capítulos de negociação (organizados em seis grupos
temáticos) podem ser abertos. A Ucrânia já cumpriu as condições para abrir três
destes grupos de capítulos: Apesar da guerra e das dificuldades que enfrenta,
iniciou o processo que traz vantagens significativas tanto para o país
como para a UE. A sua adesão aumenta a estabilidade e a segurança
regionais, reforça os nossos valores comuns de liberdade e democracia e
enriquece a nossa diversidade cultural e o nosso património. Alarga o mercado
único, criando novas oportunidades para as empresas europeias e
reforçando a competitividade da Europa.
A
Ucrânia mantém fortes laços históricos e culturais com a Europa e
almeja a estabilidade política e económica de que gozam os estados-membros da
UE. Constitui verdadeira democracia presidencial e parlamentar e dispõe de
uma AP que funciona bem e que se tem mantido em funcionamento durante a guerra.
Há uma sociedade civil ativa e o sistema eleitoral mostra ser justo e
livre. E Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, considera que “a
Europa está no horizonte de todos os Ucranianos que lutam por um futuro melhor”
e que, juntos, podemos vencer esta luta, completar a nossa União, trazer a
Ucrânia para a casa europeia comum – “o sonho dos heróis e dos mártires da
Ucrânia” e o “nosso”.
A
UE trabalha no sentido de integrar, gradualmente, a Ucrânia no seu mercado
único e permitir que os Ucranianos beneficiem de algumas vantagens de que
beneficiam os cidadãos europeus. A UE e a Ucrânia têm um acordo de
associação, desde 2014, o principal instrumento para aproximar a Ucrânia e
a UE, já que promove laços políticos mais estreitos, ligações económicas mais
fortes e o respeito pelos valores comuns. O acordo inclui a zona
de comércio livre abrangente e aprofundado (ZCLAA), que promove o comércio
entre a UE e a Ucrânia, pela redução gradual dos direitos aduaneiros sobre bens
e serviços, contribuindo para a integração da Ucrânia no mercado único,
incentivando-a a alinhar-se pelas normas da UE. E, em outubro de
2025, entrou em vigor a ZCLAA atualizada, para reforçar os fluxos
comerciais.
A
UE é o principal parceiro comercial da Ucrânia, representando mais de
50 % do seu comércio de mercadorias, em 2024, ano em que o comércio de
mercadorias entre a UE e a Ucrânia atingiu 67,2 mil milhões de euros,
o que mostra que o comércio de mercadorias mais do que duplicou, desde a
entrada em vigor da ZCLAA, em 2016. E a Ucrânia aderiu ao Programa a
favor do Mercado Interno, em fevereiro de 2023, o que permite às suas pequenas
e médias empresas (PME) ucranianas obterem apoio e acesso aos mercados da
UE.
Os
cientistas e os cidadãos ucranianos participam em importantes programas da UE
no domínio da investigação, da inovação e da educação, como os programas Horizonte
Europa e Erasmus +. Em dezembro de 2023, a Comissão Europeia abriu um
novo gabinete do Horizonte Europa em Kiev. A participação da Ucrânia no
Horizonte Europa e no Programa Euratom de Investigação e Formação ajuda a
preservar e a fomentar o ecossistema de investigação e inovação do país. E,
desde 2021, a UE financiou mais de 11500 intercâmbios entre cidadãos da UE e da
Ucrânia, através do programa Erasmus+.
A
Ucrânia está associada ao Mecanismo Interligar a Europa, desde junho de
2023, o que permite que as autoridades e as empresas ucranianas se candidatem a
financiamento da UE para projetos de interesse comum, nos domínios dos
transportes, da energia e do digital, melhorando a conectividade da Ucrânia com
os seus vizinhos da UE.
A
Comissão lançou as bases para integrar a Ucrânia no espaço de itinerância
da UE, a partir de 1 de janeiro de 2026, e facilitou acordos entre operadores
de telecomunicações europeus e ucranianos para reduzir, mutuamente, as tarifas
de itinerância para chamadas entre a UE e a Ucrânia. A UE afetou 50 milhões
de euros, para apoiar os setores culturais e criativos da Ucrânia, desde o
início da guerra. E, desde 2022, o programa Europa Criativa disponibilizou
mais de sete milhões de euros para organizações culturais ucranianas e
700 mil euros para bolsas de mobilidade destinadas a artistas e <profissionais
da cultura. O financiamento apoia a preservação do património cultural e os
espetáculos artísticos, dentro e fora do país.
***
Entretanto,
os líderes dos executivos da Hungria e da Eslováquia opuseram-se à adesão da
Ucrânia à UE. Agora, a saída iminente de Viktor Orbán obriga os líderes da UE a
confrontarem-se com questões incómodas sobre o processo de adesão da Ucrânia,
que o veto húngaro mantinha sem resposta. Efetivamente, durante quase dois
anos, a ambição da Ucrânia aderir à UE foi definida, não pelos seus progressos,
mas pela falta deles. E, nos últimos tempos, registaram-se suspeitas de
corrupção em alguns escalões do Estado.
O
veto da Hungria, de junho de 2024, paralisou o pedido de adesão da Ucrânia,
empurrando Kiev e Bruxelas para vias informais para continuar o trabalho
jurídico e técnico, na esperança de avanço. Por isso, a Ucrânia está em posição
invulgar: no papel, está pronta para abrir os seis grupos de negociações que
estruturam o processo de adesão, mas, na prática, não abre nenhum deles. A
exasperação é palpável entre os funcionários ucranianos e europeus, que
acreditam que o veto é desproporcionado, injustificado e abusivo. Agora, após a
clara derrota do primeiro-ministro húngaro, nas eleições de abril, a UE tem a
primeira oportunidade de cumprir a promessa feita a Kiev, nos primeiros meses
da guerra da Rússia, até porque o primeiro-ministro da Eslováquia já declarou que
a Ucrânia pode aderir. Assim, Bruxelas espera que Péter Magyar acabe com a obstrução
e permita a abertura gradual das fronteiras, para abrir o primeiro dossiê, tido
por fundamental, antes das férias de verão. Porém, se a mudança de guarda em
Budapeste dá esperança e alívio aos dirigentes, também os obriga a enfrentar as
questões complexas e sensíveis, em torno da adesão da Ucrânia, que o veto
húngaro tinha arredado.
Até
agora, o debate político tem-se centrado na obstrução de Orbán e em soluções de
contorno. Após a sua saída, a questão central será como tornar a Ucrânia, país
sob invasão, em membro da UE. Esta dinâmica foi visível na recente cimeira
informal de líderes realizada em Chipre. O presidente ucraniano, que estava
previsto intervir virtualmente, decidiu aparecer, pessoalmente, para defender o
seu país. “Pretendemos obter a mesma adesão plena que todos os países da UE, de
Chipre à Polónia. A única coisa que pedimos é a aceleração da adesão plena, com
uma data clara para o início da adesão”, disse Volodymyr Zelenskyy.
Os
líderes europeus fizeram exercício de equilíbrio, dando a Zelenskyy palavras de
apoio, mas com advertências para gerir as suas expectativas. “As negociações
sobre a adesão à UE podem avançar rapidamente, mas isso não significa que se possa
fixar uma data de adesão para a Ucrânia, a muito curto prazo”, afirmou o
primeiro-ministro holandês, Rob Jetten, vincando que Kiev “tem muito trabalho a
fazer”, no que foi seguido pelo homólogo luxemburguês, Luc Frieden, sustentando
que a Ucrânia pertence à família europeia, mas, na via para a adesão, cada país
deve cumprir certas condições.
Bart
De Wever, da Bélgica, mostrou-se cauteloso, alegando que “há demasiada euforia
com o facto de Viktor [Orbán] já não estar lá”. E, dias mais tarde, o chanceler
alemão, Friedrich Merz atirou mais água fria na esperança do líder ucraniano,
referindo que a adesão à UE, a 1 de janeiro de 2027, é impossível e que a data
de 1 de janeiro de 2028 “não é realista”.
Embora
tenha sido a II Guerra Mundial a lançar a semente do projeto de europeu, o
bloco nunca lidou com um candidato em guerra. Ou seja, não há precedentes nas
regras para incorporar um país em luta contra uma invasão em grande escala e com
cerca de 20% do território sob ocupação militar. Bruxelas apresenta a adesão à
UE como garantia de segurança para proteger a Ucrânia contra novo ataque russo
e sublinha que nem Moscovo nem Washington têm o direito de definir o ritmo do
alargamento, mas a dimensão da população ucraniana, o vasto território, os custos
de reconstrução e a grande produção de cereais são fatores que pesam, visto que
a sua entrada na UE provocaria mudanças tectónicas nos dois maiores envelopes
de fundos da UE: a agricultura e a coesão. E, politicamente, há preocupação com
os efeitos da tomada de decisões, se a Ucrânia, com outros candidatos, aderir
ao bloco, num futuro próximo. Os 16 anos de Orbán no poder provaram como um
veto pode ser replicado e como pode causar estragos.
Estas
preocupações poderiam ser resolvidas com a alteração dos tratados da UE e da
adaptação das regras internas para evitar surpresas indesejáveis. Porém, abrir
os tratados é, segundo os diplomatas, abrir a “Caixa de Pandora”: nunca se sabe
o que de lá sairá. Ora, todas estas questões explicam a razão por que os
dirigentes da UE se opõem ao duplo pedido de Zelenskyy: calendário acelerado e
data de admissão específica. Depois de anos a falar em termos gerais, o tom fica
mais sóbrio e profissional.
Ursula
von der Leyen disse, em Chipre, que a adesão é “contrato bidirecional” entre o
candidato, que faz reformas, e os estados-membros, que devem recompensar tais
esforços. “É uma decisão política de todos os estados-membros, porque, por
unanimidade, têm de decidir sobre a adesão”, afirmou, vincando que “o caminho a
seguir, o processo baseado no mérito, tem de ser respeitado para que ambas as
partes saibam com o que contar”.
Ao
seu lado, António Costa, presidente do Conselho Europeu, rejeitou prazos “artificiais”
e instou os países a agirem com “sentido de urgência” e a “serem criativos”.
No
início deste ano, a Comissão propôs um processo “invertido”, segundo o qual a
Ucrânia se tornaria membro de pleno direito e obteria, gradualmente, os
benefícios associados. Em março, as capitais europeias rejeitaram o plano, por
imprudente. E, em Chipre, o primeiro-ministro belga falou de uma Europa “com
vários níveis” para integrar os candidatos a diferentes velocidades, e o chanceler
alemão sugeriu que a Ucrânia poderia aderir às instituições sem direito de
voto. Ideias semelhantes preveem maior integração da Ucrânia no mercado único,
para sentir os benefícios económicos, enquanto prossegue a discussão sobre os clusters.
Todavia, os funcionários e os diplomatas em Bruxelas divergem sobre o tema, mas
assentam em que qualquer proposta deve ser viável e razoável e manter viva a
esperança de Kiev.
Volodymyr
Zelenskyy diz-se disposto a discutir “possíveis formatos”, para acomodar as
ambições do seu país, mas não se contentará com uma adesão meramente simbólica.
“A Ucrânia está a defender-se e está, definitivamente, a defender a Europa. E
não está a defender a Europa de forma simbólica – as pessoas estão realmente a
morrer”, disse, antes de voar para Chipre.
Por
outro lado, o sucessor de Viktor Orbán não definiu a posição da Hungria, que
pode ser algo complicada. Péter Magyar, durante a campanha eleitoral, rejeitou
a adesão acelerada de Kiev e, mais tarde, fixou uma lista de ações que a
Ucrânia deveria tomar, para melhorar a situação da minoria húngara na
Transcarpácia, questão que Orbán utilizara contra Zelenskyy.
Diz
Magyar que recebeu Zoltán Babják, prefeito de Berehove, cidade de maioria
húngara, que o informou da situação dos Húngaros na Transcarpácia e dos
horrores da guerra, sendo do interesse dos Húngaros que vivem na região
estabelecer novas bases para as relações húngaro-ucranianas. Para tanto, haverá
reunião com o presidente ucraniano, em Berehove, para melhorar a situação dos Húngaros
e para apoiar a capacidade de permanecerem na sua pátria. Chegou a hora de a
Ucrânia pôr fim às restrições e garantir que os Húngaros da região recuperem
todos os seus direitos culturais, linguísticos, administrativos e de ensino
superior, para serem cidadãos iguais e respeitados da Ucrânia e poderem
retornar à terra natal.
As
medidas anunciadas pelo governo ucraniano, na área da educação, são insuficientes.
O ensino superior permanece monolingue (o Ucraniano), o uso da língua oficial
na Ucrânia está limitado a uma única língua. A minoria húngara não pode
solicitar serviços oficiais na língua materna. Há restrições na vida pública, na
escola, na cultura, nos eventos e nos meios de comunicação em língua húngara. Perante
isso, Magiar encoraja a liderança ucraniana a tomar medidas ousadas nessas
áreas, na direção dos valores da liberdade e da igualdade.
Além
disso, o calendário de 2027 está repleto de eleições de alto risco em quatro
dos cinco maiores estados-membros – a França, a Itália, a Espanha e a Polónia –
que podem ver forças eurocéticas explorarem o alargamento para ganharem
terreno. Um Eurobarómetro de 2025 revela que 52% dos cidadãos da UE são
pela admissão da Ucrânia e 41% são contra, com grandes variações entre os
países. O escrutínio é intenso, na França, onde uma nova adesão exige aprovação
por referendo ou por maioria de três quintos na Assembleia Nacional.
A
procura de soluções criativas pode dar tangibilidade sem adesão imediata à
Ucrânia e dar mais tempo aos líderes para construírem argumentação convincente para
os eleitores cautelosos. Os líderes políticos navegam em ambientes internos difíceis,
onde as mensagens pró-europeias para o alargamento não são recebidas com apoio
público unificador. Ao invés, os eleitores – mesmo quando apoiam a Ucrânia –
exigem soluções económicas e sociais, a nível interno. Isto, aliado a inadequada
comunicação dos benefícios do alargamento e a campanhas de desinformação, deixa
os líderes políticos com pouca margem de manobra.
***
É
complicada a adesão à UE de um país em guerra e, sobretudo, se não respeita os
direitos de minorias significativas. É preciso querer mudar e saber esperar.
2026.05.02
– Louro de Carvalho
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