sábado, 9 de maio de 2026

Hantavírus mobiliza OMS e vários países para rastrear contactos

 

 

A 1 de abril, partiu de Ushuaia, na Argentina, o navio cruzeiro MV Hondius, para atravessar o Atlântico Sul, em direção às Ilhas Canárias, na Espanha, com uma rota que incluía a Antártida Continental, as Ilhas Malvinas, a Geórgia do Sul, a Nightingale e a Tristão da Cunha. A bordo seguiam 149 pessoas de 23 nacionalidades, entre as quais um português.

Entretanto, a 11 de abril, um passageiro holandês morreu na sua cabine, após apresentar sintomas gripais, desde 6 de abril, que progrediram rapidamente, para graves dificuldades respiratórias, pelo que o passageiro foi levado, a 24 de abril, para a ilha de Santa Helena, e a sua mulher foi transferida para Joanesburgo, na África do Sul. Na mesma data, desembarcaram na ilha cerca de 30 passageiros, que foram rastreados, para detetar eventuais infeções.

A 26 de abril, morreu a mulher da primeira vítima mortal, confirmando-se a infeção por hantavírus; e, no dia 27, um passageiro britânico, que adoeceu no navio, foi transferido para a África do Sul e internado num hospital de Joanesburgo, testando positivo.

A 2 de maio, a Organização Mundial de Saúde (OMS) foi notificada do surto e outra pessoa morreu, tendo aquela agência para a saúde da Organização das Nações Unidas (ONU) confirmado seis casos, três mortos e três suspeitos de infeção. A 3 de maio, o navio entrou em águas de Cabo Verde e ancorou perto da cidade da Praia, a capital, mas, no dia seguinte, as autoridades cabo-verdianas negaram ao navio a entrada no porto, por motivos de segurança pública nacional, pelo que se ponderou o desembarque nas Canárias, para exames médicos, tendo a OMS, segundo o Ministério da Saúde espanhol, pedido à Espanha assistência aos doentes, com base no “cumprimento do Direito Internacional e no espírito humanitário”.

A 5 de maio, o ministro da Saúde sul-africano informou que a estirpe de hantavírus detetada num dos passageiros transferido para um hospital na África do Sul é a andina, a única transmissível entre humanos. E, enquanto a OMS eleva para sete o número de pessoas afetadas pelo surto, as autoridades suíças relatam um oitavo caso confirmado num passageiro que desembarcara anteriormente e regressara a Zurique. Por isso, a OMS informou que procurava localizar os mais de 80 passageiros a bordo do avião onde foi transportada a passageira transferida de Santa Helena para Joanesburgo.

A 6 de maio, três passageiros suspeitos de infeção, dois em estado grave e um assintomático, deixaram o navio e partiram para os Países Baixos em dois aviões ambulâncias. O MV Hondius partiu de Cabo Verde com destino ao porto de Granadilla de Abona, em Tenerife, a maior das ilhas Canárias. A Argentina disse estar a investigar se dois passageiros que morreram, por hantavírus, contraíram a infeção no país, no Chile ou no Uruguai, antes de embarcarem. No dia 7, uma assistente de bordo holandesa foi hospitalizada, em Amesterdão, com sintomas de hantavírus, após contacto com uma das vítimas mortais do surto. As autoridades das Canárias disseram que o navio ficaria ao largo de Tenerife, sem atracar no porto, e que os ocupantes só seriam retirados, quando estivessem no aeroporto os aviões em que seriam repatriados.

Na primeira conferência de imprensa, desde que a OMS anunciou o surto, o seu diretor, Tedros Adhanom Ghebreyesus, declarou que, até agora, oito pessoas foram sinalizadas como casos de possível infeção, “três das quais morreram” e cinco foram confirmadas com hantavírus, por testes laboratoriais, “enquanto três outros são considerados suspeitos”. Admitiu que o número de infetados aumente, porque o período de incubação do vírus Andes (ANDV) pode chegar a seis semanas, mas considera baixo o risco para a população mundial. E a Oceanwide Expeditions, proprietária do navio e organizadora do cruzeiro, informou não haver indivíduos sintomáticos a bordo do Hondius, que partiu, ao final da tarde de 6 de maio, de Cabo Verde e navegava para o porto de Granadilla, nas Canárias, viagem que demoraria de três a quatro dias.

Os hantavírus são vírus zoonóticos, caraterizados por infetar roedores, e diferentes espécies circulam na Europa, na Ásia e no continente americano. Apenas algumas das espécies estão associadas à infeção humana, podendo causar doença grave.

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Com vários casos de hantavírus confirmados entre os passageiros, as autoridades de vários países e a OMS tentam encontrar a origem da transmissão e as pessoas que saíram da embarcação, antes de esta ancorar ao largo de Cabo Verde e de o surto ser conhecido, para travar a propagação da doença. As autoridades dos Países Baixos disseram, no dia 6, que cerca de 40 passageiros desembarcaram na ilha de Santa Helena, após a morte do primeiro passageiro. Entre eles, encontravam-se a cidadã neerlandesa que foi, depois, hospitalizada na África do Sul e o cidadão suíço, que recebeu tratamento médico. As autoridades neerlandesas desconhecem o paradeiro dos restantes passageiros que desembarcaram nessa altura. No entanto, dois cidadãos britânicos que regressaram ao Reino Unido, depois de terem estado a bordo, isolaram-se voluntariamente e não apresentam sintomas de infeção. Dois estados norte-americanos (a Geórgia e o Arizona) confirmaram à BBC que estão a monitorizar três passageiros que desembarcaram antes de Cabo Verde e regressaram ao país, mas nenhum revela sintomas. E, além dos passageiros que desembarcaram em Santa Helena, um britânico foi retirado do navio para a África do Sul, dias mais tarde, e três pessoas, incluindo o médico do cruzeiro, foram retiradas, com a embarcação ao largo de Cabo Verde, e levadas para a Europa.

O jornal The Guardian noticiou que o governo da Argentina – ponto de partida do cruzeiro – indicou que o casal neerlandês que morreu com o vírus viajou pela Argentina, pelo Uruguai e pelo Chile, antes de embarcar, e que está a refazer os seus itinerários para rastrear contactos, isolá-los e monitorizá-los. Contudo o período de incubação de hantavírus que, regra geral, se estende de uma a seis semanas, após a exposição, dificulta a deteção do ponto de contágio inicial. A Argentina é o país da América Latina com maior incidência da doença, tendo o Ministério da Saúde referido 101 infeções de hantavírus, desde junho de 2025, quase o dobro do período homólogo do ano anterior, tendo sido fatal a doença, em quase um terço dos casos, em 2025.

Segundo a OMS, a estirpe em causa é transmissível entre pessoas, mas pouco comum, e “tem sido associada a contacto próximo e prolongado”. A Argentina está a enviar material genético da estirpe do ANDV e equipamentos de testes para Espanha, o Senegal, a África do Sul, os Países Baixos e o Reino Unido conseguirem detetar a doença, adiantou a France 24. Entretanto, uma mulher foi hospitalizada em Amesterdão, por suspeita de infeção por hantavírus, estando em isolamento com sintomas ligeiros, noticiou o jornal NL Times e confirmou o Ministério da Saúde à emissora RTL Nieuws. É uma assistente de bordo da KLM que contactou com uma neerlandesa que morreu, devido à infeção, na África do Sul.

A KLM revelou que a mulher estivera num dos seus aviões, em Joanesburgo, por breve período, em 25 de abril, mas que a tripulação não permitiu que viajasse no voo em questão, por causa da sua situação médica, e que todos os passageiros que estiveram no voo foram informados do caso. A agência Reuters noticiou que o Centro Europeu de Prevenção e Controlo das Doenças (ECDC), que integra a equipa médica a bordo do Hondius, referiu que, de momento, nenhum dos passageiros que permanecem no cruzeiro tem sintomas, e que está a trabalhar com as autoridades espanholas para o protocolo de desembarque. Se continuarem saudáveis, os cidadãos espanhóis ficarão em quarentena, num hospital militar, em Madrid, enquanto os restantes serão repatriados para os seus países. E a ministra da Saúde espanhola, Mónica García, no dia 7 de maio, apelou ao bom senso e à responsabilidade dos cidadãos nacionais a bordo do navio e alertou que, se os passageiros se recusarem a cumprir a quarentena sanitária, o governo utilizará os meios legais necessários para garantir o seu cumprimento.

Também a ministra portuguesa da Saúde, Ana Paula Martins, após a reunião do Conselho de Ministros, sustentou que o risco de disseminação do surto de hantavírus associado a um navio de cruzeiro, no Atlântico, é muito baixo, para a população, em geral, alinhando a avaliação com a OMS e com o ECDC. E garantiu que há permanente articulação entre autoridades de saúde nacionais e internacionais. “Estão em contacto permanente”, realçou.

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O hantavírus é transmitido, sobretudo, por roedores, como ratos e ratazanas, que funcionam como reservatórios naturais. Não adoecem, mas eliminam o vírus, através da urina, das fezes e da saliva, contaminando ambientes onde podem ser inaladas partículas infetadas. A infeção humana ocorre pela inalação dessas partículas, sobretudo, em espaços fechados ou mal ventilados. A doença pode começar com sintomas comuns à gripe, como febre, dores musculares e fadiga, mas, em alguns casos, evolui rapidamente para formas graves. Na variante pulmonar, pode haver dificuldade respiratória súbita e choque; na forma hemorrágica, pode haver lesão renal aguda. Não há tratamento antiviral específico, sendo o cuidado hospitalar de suporte, muitas vezes, em cuidados intensivos, determinante para a sobrevivência. Todavia, apesar da potencial gravidade, as autoridades de saúde sublinham que a maioria dos casos ocorre em contextos de exposição muito específicos e que o risco para a população, em geral, permanece baixo.

O ECDC enviou um especialista de saúde da UE ao cruzeiro, para investigar o surto e para elucidar o público. “Ainda existem muitas incertezas, em relação a este surto de hantavírus, e é importante que adotemos uma abordagem de precaução, nesta fase, para reduzir a probabilidade de novas transmissões”, afirma a Dra. Pamela Rendi-Wagner.

O vírus foi identificado como o ANDV, o único transmissível de pessoa para pessoa, exigindo contacto próximo e prolongado. Com base nas evidências atuais, o risco para a população, em geral, na Europa, é muito baixo, não se esperando transmissão generalizada, de acordo com o ECDC, que sublinha estarem em curso investigações para determinar onde e como os infetados contraíram o vírus, refere o ECDC, que trabalha em coordenação com as autoridades nacionais, em Espanha, nos Países Baixos, noutros países da UE, no Reino Unido e na OMS, para avaliar a informação disponível e apoiar a resposta em saúde pública.

Os hantavírus propagam-se de animais para humanos, quando estes inalam poeira ou partículas provenientes da urina, de excrementos ou da saliva de roedores infetados, sobretudo, em espaço fechado ou mal ventilado. Podem causar síndrome pulmonar por hantavírus, caraterizada por febre, por por sintomas gerais, por dificuldade respiratória aguda ou por choque.

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Finalmente, a 8 de maio, foi acordado o protocolo, com o procedimento para o desembarque dos passageiros, que irão do navio para o aeroporto de Tenerife Sul, por grupos de nacionalidade e sem contacto com os residentes, mesmo que assintomáticos. Virginia Barcones, secretária-geral da Proteção Civil de Espanha, e Javier Padilla Bernáldez, secretário de Estado da Saúde espanhol, anunciaram que não há mais passageiros com sintomas do surto de ANDV, a bordo do MV Hondius, além dos afetados, já retirados. Por sua vez, o ministro da Saúde de Espanha e a equipa do Centro de Controlo de Emergências Sanitárias realizaram uma reunião virtual, ao início da tarde do dia 7, com os 14 cidadãos espanhóis a bordo do navio, que se encontra a dois dias do porto de Granadilla de Abona, onde ancorará. E Padilla Bernáldez declarou que, embora trabalhem em diferentes cenários, é provável que mais nenhum membro da tripulação tenha hantavírus. “A partir da monitorização que estamos a fazer, no caso de alguém desenvolver sintomas, saberíamos com antecedência e não após o desembarque”, vincou.

Segundo Virginia Barcones, que resumiu a forma como a tripulação de 144 pessoas será retirada para terra, após a saída dos doentes, o navio continua a rota a boa velocidade e pode chegar antes do previsto. Os passageiros assintomáticos serão levados para as Canárias, em grupos de nacionalidades, mas só quando os aviões, que os levarão para os países de origem, estiverem prontos para embarque no aeroporto vizinho de Tenerife Sul. Não poderão viajar para qualquer outro ponto da ilha: serão levados, em autocarros fretados, do navio para o seu avião (que será medicalizado para o caso de alguém testar positivo, nas próximas horas, o que é improvável). Os veículos levá-los-ão à pista do aeródromo, contornando os terminais de passageiros, para embarcarem nos aviões.

Os funcionários reuniram-se com o Ministério da Defesa, para coordenar os trabalhos da operação, no aeroporto do Sul da ilha, para transferir os cidadãos espanhóis para a Comunidade de Madrid, para destino de aterragem não especificado, mas que será a base militar de Torrejón de Ardoz, utilizada para o repatriamento de civis.

A Grécia, a França e os Países Baixos estão dispostos a fornecer os meios para transferir os seus cidadãos da ilha, enquanto a Bélgica, a Irlanda, a Alemanha e a Suécia concordaram em recebê-los, mas não dispõem dos meios, pelo que o Mecanismo Europeu de Proteção Civil – ativado pela Espanha, no dia 6, disponibilizará os aviões correspondentes. Também a Turquia, os Estados Unidos da América (EUA) e o Reino Unido manifestaram disponibilidade para fretar voos, para repatriar os seus cidadãos, enquanto, para os demais países, será utilizado o Mecanismo de Proteção Civil ou a aviação neerlandesa.

Para Virginia Barcones, caberá aos Países Baixos, país de origem do MV Hondius, decidir quando e para que destino neerlandês o navio será transferido, logo que a operação sanitária e policial no porto de Granada esteja concluída. Dos 61 membros da tripulação (um dos quais português), a operadora confirmou que só 30 são indispensáveis e que o navio pode prosseguir viagem com eles. E a Comissão de Saúde Pública de Espanha, com a aprovação unânime das Comunidades Autónomas, estabeleceu um procedimento de atuação para os espanhóis a bordo: quer persistam sem sintomas, quer venham a testar positivo para hantavírus, serão transferidos para o Hospital Central de Defesa Gómez Ulla, no bairro de Carabanchel, em Madrid.

Todas as pessoas consideradas contactos serão submetidas a quarentena obrigatória no hospital. Não se cruzarão com outros doentes e serão colocadas numa enfermaria de quarentena específica, com pessoal da Unidade de Isolamento de Alto Nível. Além de se estabelecer a definição de caso suspeito ou positivo, os suspeitos serão isolados num quarto, onde serão submetidos a teste PCR, no início da estadia e sete dias depois, sendo os testes enviados para o Centro Nacional de Microbiologia para análise. Se o teste for negativo e o paciente apresentar sintomas compatíveis, será efetuado teste de confirmação, 24 ou 48 horas depois, se os sintomas persistirem. E Padilla Bernáldez disse que se aplicou o protocolo à paciente que entrou no hospital de Alicante, por ter sintomas compatíveis com o ANDV, após ter partilhado o voo com um passageiro, que faleceu, pelo que será transferida, preventivamente, para quarto concebido para suster agentes patogénicos perigosos, com pressão de ar interior inferior à exterior.

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Nada está adquirido. Dado o tempo de incubação, Bernardo Mateiro Gomes, presidente da Associação Nacional de Saúde Pública, negando similitude com a covid-19 e potencial pandémico ao vírus, diz que, “provavelmente, só em junho, teremos a fotografia do surto”.

2026.05.08 – Louro de Carvalho

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