A
liturgia do 6.º domingo da Páscoa, no Ano A, pretende que descubramos a
presença de Deus na caminhada histórica da Igreja – discreta, mas eficaz e
tranquilizadora –, podendo ser boa síntese do tema a promessa de Jesus: “Não
vos deixarei órfãos.”
***
O
Evangelho (Jo 14,15-21) apresenta-nos parte do longo “testamento” de
Jesus, na ceia de despedida, em Quinta-feira Santa. Aos discípulos, inquietos e
assustados, Jesus faz, por cinco vezes, a promessa do envio do “Paráclito”, que
guiará a comunidade cristã, a Igreja, em direção à verdade e a levará à
comunhão cada vez mais íntima com Jesus e com o Pai. Dessa forma, a comunidade
será a “morada de Deus” no Mundo e dará testemunho da salvação que Deus nos oferece.
Neste contexto de preocupação pelo futuro discipular, o Mestre dá o mandamento
novo do amor, como Ele amou, como marca do estatuto do cristão, reza pela
unidade dos discípulos, e para que sejam um como Jesus e o Pai são um só.
Quere-os no Mundo, mas não do Mundo. Deseja que eles sejam capazes do discernimento
à luz do Espírito e se deixem iluminar e guiar por Ele, para que o Mundo creia.
Não os quer livra do Mundo, mas do mal.
A
decisão de matar Jesus já estava tomada pelas autoridades judaicas e Jesus estava
cônscio disso. A sua morte na cruz é o cenário imediato. Nessa noite de
quinta-feira do ano 30, na véspera da sua morte na cruz, Jesus reuniu-Se com os
seus discípulos numa “ceia”. No decurso da “ceia”, despediu-Se dos discípulos e
fez-lhes as últimas recomendações. As suas palavras soam a testamento final:
Ele sabe que vai partir para o Pai e que os discípulos continuarão no Mundo. Por
isso, fala-lhes do caminho que percorreu (e do que ainda tem de percorrer, até
à consumação da sua missão e até chegar ao Pai) e convida-os a seguirem o mesmo
caminho de entrega a Deus e de amor radical aos irmãos. É seguindo esse
“caminho” que eles se tornarão Homens Novos e que chegarão a ser “família de
Deus”.
No
entanto, os discípulos, que estão inquietos e desconcertados, interrogam-se se
poderão percorrer esse caminho, se Jesus não caminhar ao lado deles, como
poderão manter a comunhão com Jesus e como receberão d’Ele a força para doarem,
dia a dia, a própria vida.
É
na resposta a esta inquietação e a este desconcerto que o seu Mestre e Senhor,
lhes garante que não os deixará órfãos ou sós no Mundo. Ele vai para o Pai, mas,
além de ir preparar-lhes morada futura para cada um, vai encontrar forma de
continuar presente e de acompanhar, pari passu, a caminhada dos seus
discípulos.
Para
tanto, é necessário que os discípulos continuem a seguir Jesus, a manifestar a
sua adesão a Ele, a amá-Lo (o amor é o culminar da caminhada de adesão e de
seguimento) e a amarem-se uns aos outros. A consequência desse amor é o cumprir
os mandamentos que Jesus deixou. Nesse caso, os mandamentos deixam de ser
normas externas, que é preciso cumprir, para se tornarem a expressão clara do
amor dos discípulos e da sua sintonia com Jesus.
O
modo como Jesus vai estar presente com os discípulos, encorajando-os a
percorrerem “o caminho” do amor e do dom da vida, processa-se nos termos
seguintes:
Jesus
fala no envio do “Paráclito”, que estará sempre com os discípulos. O vocábulo
grego “paráklêtos”, utilizado por João, pertence ao vocabulário jurídico e
designa, nesse contexto, o que ajuda ou defende o acusado. Pode, assim,
traduzir-se por “advogado”, “auxiliar”, “defensor”, “consolador” e
“intercessor”. No Novo Testamento, a palavra só aparece em João, que a usa para
designar o Espírito e o próprio Jesus, que no céu, cumpre a missão de
intercessão.
O
“Paráclito” que Jesus vai enviar é o Espírito Santo, ou seja, o “Espírito da
Verdade”. Enquanto esteve com os discípulos, Jesus ensinou-os, protegeu-os,
defendeu-os; mas, doravante, será o Espírito que ensinará e cuidará a
comunidade de Jesus. O Espírito desempenhará duplo papel: em termos internos,
conservará a memória da pessoa e dos ensinamentos de Jesus, ajudando os
discípulos a interpretar esses ensinamentos, à luz dos novos desafios; por
outro, dará segurança aos discípulos, guiá-los-á e defendê-los-á, quando eles
tiverem de enfrentar a oposição e a hostilidade do Mundo. Em qualquer dos
casos, o Espírito conduzirá essa comunidade em marcha pela História, ao
encontro da verdade, da liberdade plena, da vida definitiva.
Depois
de garantir aos discípulos o envio do “Paráclito”, Jesus reafirma-lhes que não
os deixará “órfãos” no Mundo. O termo “órfãos” é muito significativo: no Antigo
Testamento, o órfão é o protótipo do desvalido, do desamparado, do que está à
mercê dos poderosos, da vítima das injustiças. Jesus é claro: os discípulos não
ficarão indefesos, pois Ele estará ao seu lado.
É
certo que Ele vai deixar o Mundo, vai para o Pai. O Mundo deixará de O ver,
pois Ele não estará fisicamente presente. Contudo, os discípulos poderão “vê-Lo”
(contempla-Lo): continuarão em comunhão de vida com Jesus e receberão o
Espírito que lhes transmitirá, dia a dia, a vida de Jesus ressuscitado. No dia
em que Jesus for para o Pai e os discípulos receberem o Espírito, a comunidade
descobrirá – por ação do Espírito – que integra a família de Deus. Jesus
identifica-Se com o Pai, por ter o mesmo Espírito; os discípulos identificam-se
com Jesus, por ação do Espírito. A comunidade cristã está unida com o Pai, por
Jesus, em experiência de unidade e de comunhão de vida entre Deus e o homem. E
será a presença de Deus no Mundo: ela e cada seu membro convertem-se em morada
de Deus, espaço onde Deus vem ao encontro dos homens. Na comunidade e através
dela, realiza-se a ação salvadora de Deus no Mundo.
***
O
Papa Leão XIV, antes da recitação do “Regina Caeli”, com os peregrinos
aglomerados na Praça de São Pedro, comentou a perícopa evangélica desta dominga,
em que “escutámos algumas palavras que Jesus dirige aos seus discípulos,
durante a Última Ceia”. Assim, ao fazer do pão e do vinho o sinal vivo do seu
amor, Cristo diz: “Se me tendes amor, cumprireis os meus mandamentos.” É uma
afirmação que nos liberta-nos da ideia de sermos amados, apenas se observarmos
os mandamentos. Segundo a nossa justiça, era a condição para o amor de Deus. Ao
invés, na ótica do Sumo Pontífice, “é o amor de Deus a condição para a nossa
justiça”. Observamos os mandamentos, segundo a vontade de Deus, se
reconhecermos o seu amor por nós, tal como Cristo o revela ao Mundo. Portanto, as
palavras de Jesus são “um convite à relação, não uma chantagem ou uma incerteza”.
Por
isso é que “o Senhor manda que nos amemos uns aos outros como Ele nos amou”.
Com efeito, “é o amor de Jesus que gera em nós o amor”. Cristo é “o critério, o
paradigma do verdadeiro amor: que é fiel para sempre, puro e incondicional; que
não conhece, nem ‘mas’, nem ‘talvez’; que se doa, sem querer possuir; que dá
vida, sem levar nada em troca”. Porque Deus nos ama primeiro, também nós
podemos amar; e, quando amamos, de verdade, a Deus, amamo-nos, de verdade, uns
aos outros. É como com a vida: “só quem a recebeu pode viver, e assim só quem
foi amado pode amar”. Os mandamentos do Senhor são, por isso, uma regra de vida
que nos cura dos falsos amores; “são um estilo espiritual, que é caminho para a
salvação”.
“Porque
nos ama, o Senhor não nos deixa sozinhos, nas provações da vida: promete-nos o
Paráclito, ou seja, o Advogado defensor, o ‘Espírito da Verdade’. É um dom que ‘o
Mundo não pode receber’, enquanto se obstinar no mal que oprime o pobre, exclui
o fraco, mata o inocente.” Pelo contrário, quem corresponde ao amor que Jesus
nutre por todos, encontra no Espírito Santo um aliado que nunca falha: “Vós é
que O conheceis – diz Jesus – porque permanece junto de vós, e está em vós.” Portanto,
insiste o Santo Padre, “sempre e em toda a parte, podemos testemunhar Deus, que
é amor” – palavra que “não significa uma ideia da mente humana, mas a realidade
da vida divina, pela qual todas as coisas foram criadas do nada e salvas da
morte”.
Ao
oferecer-nos o amor verdadeiro e eterno, Jesus partilha connosco a sua
identidade de Filho amado: “Eu estou no meu Pai, e vós em mim, e Eu em vós.”
Esta envolvente comunhão de vida desmente o Acusador o adversário do Paráclito,
o espírito contrário ao defensor. Efetivamente, como assegura Leão XIV,
enquanto o Espírito Santo é força de verdade, este Acusador é “pai da mentira”,
que quer opor o homem a Deus e os homens entre si: o contrário do que faz
Jesus, salvando-nos do mal e unindo-nos como povo de irmãos e irmãs na Igreja.
Por
fim, o Papa exorta a que, “cheios de gratidão por este dom, nos confiemos à
intercessão da Virgem Maria, Mãe do Amor Divino”.
A
primeira leitura (At 8,5-8.14-17) mostra a comunidade cristã a testemunhar
a Boa Nova de Jesus e a ser presença libertadora e salvadora na vida dos
homens. Contudo, avisa que o Espírito só se manifestará e só atuará quando a
comunidade aceitar viver a fé, integrada numa família universal de irmãos,
reunidos à volta do Pai e de Jesus.
Durante
os primeiros anos, o cristianismo praticamente não saiu de Jerusalém: os
primeiros sete capítulos do livro dos Atos dos Apóstolos apresentam-nos a
Igreja de Jerusalém e o testemunho dado pelos primeiros cristãos no espaço
restrito da cidade.
No
entanto, por volta do ano 35, desencadeou-se uma perseguição contra os membros
da comunidade cristã de Jerusalém. Supõe-se, com grande probabilidade, que esta
perseguição (desencadeada após a morte de Estêvão) não afetou, de igual modo,
todos os membros da comunidade (os apóstolos continuam em Jerusalém), mas
dirigiu-se, de forma especial, contra os judeo-helenistas do círculo de Estêvão.
Os cristãos hebreus, que mantêm relativa fidelidade à Lei e ao judaísmo, ficaram
ao abrigo da perseguição. Contudo, não se conformaram com uma morte inútil:
deixaram Jerusalém e espalharam-se pelas outras regiões da Palestina. Tratou-se
de facto providencial, que permitiu a difusão do Evangelho pelas outras regiões
palestinianas. Aliás, de acordo com o texto evangélico lucano, antes da
Ascensão, Jesus prometeu aos discípulos a força do Alto, que lhes daria ânimo
para serem testemunhas, na Judeia e na Samaria e até aos confins da Terra, de
que estava escrito que era preciso pregar, em nome do Messias, o arrependimento
e o perdão dos pecados.
Samaritanos
e Judeus (estranhos e inimigos) estavam vocacionados, como todos os povos, a
receberem o Espírito Santo e a tornarem-se alfobre de discípulos e de cristãos adultos.
O
trecho em referência fala-nos de Filipe – um dos sete diáconos, do mesmo grupo
do protomártir Estêvão – que deixou Jerusalém e foi anunciar o Evangelho aos
habitantes da região central da Palestina, a Samaria.
Parece
ironia a difusão do Evangelho fora de Jerusalém ter ocorrido na Samaria, que
era, para os Judeus, terra praticamente pagã. Os Judeus desprezavam os Samaritanos,
por serem mescla de sangue israelita com estrangeiros, e consideravam-nos
hereges, em relação à pureza da fé javista. O anúncio do Evangelho aos Samaritanos
mostra que a Igreja não tem fronteiras e anuncia o passo seguinte: a
evangelização do Mundo pagão.
O
texto começa por um sumário (vv. 5-8) da atividade missionária de Filipe
entre os Samaritanos. Filipe pregava “o Messias” – isto é, apresentava-lhes
Jesus Cristo e a sua proposta de salvação e de libertação. Face à interpelação
que o Evangelho constituía, os Samaritanos “aderiam, unanimemente, às palavras
de Filipe”. Dessa adesão, nascia a comunidade do Reino, isto é, surgia ali, a
comunidade de homens livres, iluminados pela luz libertadora de Jesus, que
possuíam a vida nova de Deus. Lucas descreve esta realidade de homens livres e
cheios de vida nova, dizendo que os espíritos impuros abandonavam os possessos
e que os coxos e paralíticos eram curados. Desta nova realidade brotava uma
profunda alegria: a alegria é um dos traços caraterísticos que, na obra de
Lucas, acompanha a erupção da comunidade do “Messias”.
***
A
segunda leitura (1Pe 3,15-18) exorta os crentes – confrontados com a
hostilidade do Mundo – a terem confiança, a darem sereno testemunho da fé, a
mostrarem o seu amor a todos os homens, mesmo aos perseguidores. Cristo, que
fez da sua vida um dom de amor a todos, deve ser o modelo que os cristãos têm
sempre ante os olhos.
O
trecho em causa mostra, em modo exortativo, qual deve ser a atitude dos
crentes, confrontados com a hostilidade do Mundo e como devem reagir, ante as
provocações e as injustiças. Os cristãos devem, antes de mais, reconhecer no coração
a santidade de Cristo, que é “o Senhor” (o “Kýrios” – isto é, o próprio Deus,
Senhor do Mundo e da História). Desse reconhecimento da santidade e da
soberania absoluta de Cristo, brota a confiança e a esperança; e os crentes
nada temerão e podem enfrentar a injustiça e a perseguição.
Os
cristãos devem estar sempre dispostos a apresentar as razões da sua fé e da sua
esperança – isto é, a testemunhar aquilo em que acreditam. No entanto, devem
fazê-lo sem agressividade, com delicadeza, com modéstia, com respeito, com boa
consciência, mostrando o seu amor por todos, mesmo pelos perseguidores. Devem
ser apóstolos, não prosélitos. Assim, os perseguidores ficarão desarmados e sem
argumentos; e todos perceberão de que lado está a verdade e a justiça.
Os
cristãos devem, ainda, em qualquer circunstância – mesmo ante o ódio e a
hostilidade dos perseguidores – preferir o bem ao mal.
O
epistológrafo remata a sua exortação, apresentando aos crentes a razão
fundamental pela qual devem agir desta forma tão “ilógica”: “Cristo morreu uma
só vez pelos nossos pecados – o justo pelos injustos – para nos conduzir a
Deus”. Ora, se Cristo propiciou, mesmo aos injustos, a salvação, também os
cristãos devem dar a vida e fazer o bem, mesmo quando são perseguidos e sofrem.
Aliás, essa via de dom da vida não é de fracasso e de morte: Cristo, que morreu
pelos injustos, voltou à vida pelo Espírito. Por isso, os cristãos que fizerem
da vida um dom – como Cristo – também ressuscitarão.
***
É
com aclamar o Senhor, convocar toda a Terra para esse louvor e preparar os nossos
corações, para que o Senhor estabeleça neles a sua morada:
***
“A
Terra inteira aclame o Senhor.”
“‘A
Terra inteira Vos adore e celebre, / entoe hinos ao vosso nome.’ / Vinde
contemplar as obras de Deus, / admirável na sua ação pelos homens.
“Todos
os que temeis a Deus, vinde e ouvi, / vou narrar vos quanto Ele fez por mim. / Bendito
seja Deus que não rejeitou a minha prece, / nem me retirou a sua misericórdia.”
***
“Aleluia.
Aleluia. Se alguém me ama, guardará a minha palavra. / Meu Pai o amará e
faremos nele a nossa morada.”
2026.05.11
– Louro de Carvalho
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