segunda-feira, 11 de maio de 2026

O Paráclito levará a Igreja à verdade e à comunhão com a Trindade

 

A liturgia do 6.º domingo da Páscoa, no Ano A, pretende que descubramos a presença de Deus na caminhada histórica da Igreja – discreta, mas eficaz e tranquilizadora –, podendo ser boa síntese do tema a promessa de Jesus: “Não vos deixarei órfãos.”

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O Evangelho (Jo 14,15-21) apresenta-nos parte do longo “testamento” de Jesus, na ceia de despedida, em Quinta-feira Santa. Aos discípulos, inquietos e assustados, Jesus faz, por cinco vezes, a promessa do envio do “Paráclito”, que guiará a comunidade cristã, a Igreja, em direção à verdade e a levará à comunhão cada vez mais íntima com Jesus e com o Pai. Dessa forma, a comunidade será a “morada de Deus” no Mundo e dará testemunho da salvação que Deus nos oferece. Neste contexto de preocupação pelo futuro discipular, o Mestre dá o mandamento novo do amor, como Ele amou, como marca do estatuto do cristão, reza pela unidade dos discípulos, e para que sejam um como Jesus e o Pai são um só. Quere-os no Mundo, mas não do Mundo. Deseja que eles sejam capazes do discernimento à luz do Espírito e se deixem iluminar e guiar por Ele, para que o Mundo creia. Não os quer livra do Mundo, mas do mal.

A decisão de matar Jesus já estava tomada pelas autoridades judaicas e Jesus estava cônscio disso. A sua morte na cruz é o cenário imediato. Nessa noite de quinta-feira do ano 30, na véspera da sua morte na cruz, Jesus reuniu-Se com os seus discípulos numa “ceia”. No decurso da “ceia”, despediu-Se dos discípulos e fez-lhes as últimas recomendações. As suas palavras soam a testamento final: Ele sabe que vai partir para o Pai e que os discípulos continuarão no Mundo. Por isso, fala-lhes do caminho que percorreu (e do que ainda tem de percorrer, até à consumação da sua missão e até chegar ao Pai) e convida-os a seguirem o mesmo caminho de entrega a Deus e de amor radical aos irmãos. É seguindo esse “caminho” que eles se tornarão Homens Novos e que chegarão a ser “família de Deus”.

No entanto, os discípulos, que estão inquietos e desconcertados, interrogam-se se poderão percorrer esse caminho, se Jesus não caminhar ao lado deles, como poderão manter a comunhão com Jesus e como receberão d’Ele a força para doarem, dia a dia, a própria vida.

É na resposta a esta inquietação e a este desconcerto que o seu Mestre e Senhor, lhes garante que não os deixará órfãos ou sós no Mundo. Ele vai para o Pai, mas, além de ir preparar-lhes morada futura para cada um, vai encontrar forma de continuar presente e de acompanhar, pari passu, a caminhada dos seus discípulos.

Para tanto, é necessário que os discípulos continuem a seguir Jesus, a manifestar a sua adesão a Ele, a amá-Lo (o amor é o culminar da caminhada de adesão e de seguimento) e a amarem-se uns aos outros. A consequência desse amor é o cumprir os mandamentos que Jesus deixou. Nesse caso, os mandamentos deixam de ser normas externas, que é preciso cumprir, para se tornarem a expressão clara do amor dos discípulos e da sua sintonia com Jesus.

O modo como Jesus vai estar presente com os discípulos, encorajando-os a percorrerem “o caminho” do amor e do dom da vida, processa-se nos termos seguintes:

Jesus fala no envio do “Paráclito”, que estará sempre com os discípulos. O vocábulo grego “paráklêtos”, utilizado por João, pertence ao vocabulário jurídico e designa, nesse contexto, o que ajuda ou defende o acusado. Pode, assim, traduzir-se por “advogado”, “auxiliar”, “defensor”, “consolador” e “intercessor”. No Novo Testamento, a palavra só aparece em João, que a usa para designar o Espírito e o próprio Jesus, que no céu, cumpre a missão de intercessão.

O “Paráclito” que Jesus vai enviar é o Espírito Santo, ou seja, o “Espírito da Verdade”. Enquanto esteve com os discípulos, Jesus ensinou-os, protegeu-os, defendeu-os; mas, doravante, será o Espírito que ensinará e cuidará a comunidade de Jesus. O Espírito desempenhará duplo papel: em termos internos, conservará a memória da pessoa e dos ensinamentos de Jesus, ajudando os discípulos a interpretar esses ensinamentos, à luz dos novos desafios; por outro, dará segurança aos discípulos, guiá-los-á e defendê-los-á, quando eles tiverem de enfrentar a oposição e a hostilidade do Mundo. Em qualquer dos casos, o Espírito conduzirá essa comunidade em marcha pela História, ao encontro da verdade, da liberdade plena, da vida definitiva.

Depois de garantir aos discípulos o envio do “Paráclito”, Jesus reafirma-lhes que não os deixará “órfãos” no Mundo. O termo “órfãos” é muito significativo: no Antigo Testamento, o órfão é o protótipo do desvalido, do desamparado, do que está à mercê dos poderosos, da vítima das injustiças. Jesus é claro: os discípulos não ficarão indefesos, pois Ele estará ao seu lado.

É certo que Ele vai deixar o Mundo, vai para o Pai. O Mundo deixará de O ver, pois Ele não estará fisicamente presente. Contudo, os discípulos poderão “vê-Lo” (contempla-Lo): continuarão em comunhão de vida com Jesus e receberão o Espírito que lhes transmitirá, dia a dia, a vida de Jesus ressuscitado. No dia em que Jesus for para o Pai e os discípulos receberem o Espírito, a comunidade descobrirá – por ação do Espírito – que integra a família de Deus. Jesus identifica-Se com o Pai, por ter o mesmo Espírito; os discípulos identificam-se com Jesus, por ação do Espírito. A comunidade cristã está unida com o Pai, por Jesus, em experiência de unidade e de comunhão de vida entre Deus e o homem. E será a presença de Deus no Mundo: ela e cada seu membro convertem-se em morada de Deus, espaço onde Deus vem ao encontro dos homens. Na comunidade e através dela, realiza-se a ação salvadora de Deus no Mundo.

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O Papa Leão XIV, antes da recitação do “Regina Caeli”, com os peregrinos aglomerados na Praça de São Pedro, comentou a perícopa evangélica desta dominga, em que “escutámos algumas palavras que Jesus dirige aos seus discípulos, durante a Última Ceia”. Assim, ao fazer do pão e do vinho o sinal vivo do seu amor, Cristo diz: “Se me tendes amor, cumprireis os meus mandamentos.” É uma afirmação que nos liberta-nos da ideia de sermos amados, apenas se observarmos os mandamentos. Segundo a nossa justiça, era a condição para o amor de Deus. Ao invés, na ótica do Sumo Pontífice, “é o amor de Deus a condição para a nossa justiça”. Observamos os mandamentos, segundo a vontade de Deus, se reconhecermos o seu amor por nós, tal como Cristo o revela ao Mundo. Portanto, as palavras de Jesus são “um convite à relação, não uma chantagem ou uma incerteza”.

Por isso é que “o Senhor manda que nos amemos uns aos outros como Ele nos amou”. Com efeito, “é o amor de Jesus que gera em nós o amor”. Cristo é “o critério, o paradigma do verdadeiro amor: que é fiel para sempre, puro e incondicional; que não conhece, nem ‘mas’, nem ‘talvez’; que se doa, sem querer possuir; que dá vida, sem levar nada em troca”. Porque Deus nos ama primeiro, também nós podemos amar; e, quando amamos, de verdade, a Deus, amamo-nos, de verdade, uns aos outros. É como com a vida: “só quem a recebeu pode viver, e assim só quem foi amado pode amar”. Os mandamentos do Senhor são, por isso, uma regra de vida que nos cura dos falsos amores; “são um estilo espiritual, que é caminho para a salvação”.

“Porque nos ama, o Senhor não nos deixa sozinhos, nas provações da vida: promete-nos o Paráclito, ou seja, o Advogado defensor, o ‘Espírito da Verdade’. É um dom que ‘o Mundo não pode receber’, enquanto se obstinar no mal que oprime o pobre, exclui o fraco, mata o inocente.” Pelo contrário, quem corresponde ao amor que Jesus nutre por todos, encontra no Espírito Santo um aliado que nunca falha: “Vós é que O conheceis – diz Jesus – porque permanece junto de vós, e está em vós.” Portanto, insiste o Santo Padre, “sempre e em toda a parte, podemos testemunhar Deus, que é amor” – palavra que “não significa uma ideia da mente humana, mas a realidade da vida divina, pela qual todas as coisas foram criadas do nada e salvas da morte”.

Ao oferecer-nos o amor verdadeiro e eterno, Jesus partilha connosco a sua identidade de Filho amado: “Eu estou no meu Pai, e vós em mim, e Eu em vós.” Esta envolvente comunhão de vida desmente o Acusador o adversário do Paráclito, o espírito contrário ao defensor. Efetivamente, como assegura Leão XIV, enquanto o Espírito Santo é força de verdade, este Acusador é “pai da mentira”, que quer opor o homem a Deus e os homens entre si: o contrário do que faz Jesus, salvando-nos do mal e unindo-nos como povo de irmãos e irmãs na Igreja.

Por fim, o Papa exorta a que, “cheios de gratidão por este dom, nos confiemos à intercessão da Virgem Maria, Mãe do Amor Divino”.

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A primeira leitura (At 8,5-8.14-17) mostra a comunidade cristã a testemunhar a Boa Nova de Jesus e a ser presença libertadora e salvadora na vida dos homens. Contudo, avisa que o Espírito só se manifestará e só atuará quando a comunidade aceitar viver a fé, integrada numa família universal de irmãos, reunidos à volta do Pai e de Jesus.

Durante os primeiros anos, o cristianismo praticamente não saiu de Jerusalém: os primeiros sete capítulos do livro dos Atos dos Apóstolos apresentam-nos a Igreja de Jerusalém e o testemunho dado pelos primeiros cristãos no espaço restrito da cidade.

No entanto, por volta do ano 35, desencadeou-se uma perseguição contra os membros da comunidade cristã de Jerusalém. Supõe-se, com grande probabilidade, que esta perseguição (desencadeada após a morte de Estêvão) não afetou, de igual modo, todos os membros da comunidade (os apóstolos continuam em Jerusalém), mas dirigiu-se, de forma especial, contra os judeo-helenistas do círculo de Estêvão. Os cristãos hebreus, que mantêm relativa fidelidade à Lei e ao judaísmo, ficaram ao abrigo da perseguição. Contudo, não se conformaram com uma morte inútil: deixaram Jerusalém e espalharam-se pelas outras regiões da Palestina. Tratou-se de facto providencial, que permitiu a difusão do Evangelho pelas outras regiões palestinianas. Aliás, de acordo com o texto evangélico lucano, antes da Ascensão, Jesus prometeu aos discípulos a força do Alto, que lhes daria ânimo para serem testemunhas, na Judeia e na Samaria e até aos confins da Terra, de que estava escrito que era preciso pregar, em nome do Messias, o arrependimento e o perdão dos pecados.

Samaritanos e Judeus (estranhos e inimigos) estavam vocacionados, como todos os povos, a receberem o Espírito Santo e a tornarem-se alfobre de discípulos e de cristãos adultos.

O trecho em referência fala-nos de Filipe – um dos sete diáconos, do mesmo grupo do protomártir Estêvão – que deixou Jerusalém e foi anunciar o Evangelho aos habitantes da região central da Palestina, a Samaria.

Parece ironia a difusão do Evangelho fora de Jerusalém ter ocorrido na Samaria, que era, para os Judeus, terra praticamente pagã. Os Judeus desprezavam os Samaritanos, por serem mescla de sangue israelita com estrangeiros, e consideravam-nos hereges, em relação à pureza da fé javista. O anúncio do Evangelho aos Samaritanos mostra que a Igreja não tem fronteiras e anuncia o passo seguinte: a evangelização do Mundo pagão.

O texto começa por um sumário (vv. 5-8) da atividade missionária de Filipe entre os Samaritanos. Filipe pregava “o Messias” – isto é, apresentava-lhes Jesus Cristo e a sua proposta de salvação e de libertação. Face à interpelação que o Evangelho constituía, os Samaritanos “aderiam, unanimemente, às palavras de Filipe”. Dessa adesão, nascia a comunidade do Reino, isto é, surgia ali, a comunidade de homens livres, iluminados pela luz libertadora de Jesus, que possuíam a vida nova de Deus. Lucas descreve esta realidade de homens livres e cheios de vida nova, dizendo que os espíritos impuros abandonavam os possessos e que os coxos e paralíticos eram curados. Desta nova realidade brotava uma profunda alegria: a alegria é um dos traços caraterísticos que, na obra de Lucas, acompanha a erupção da comunidade do “Messias”.

A seguir (vv. 14-17), Lucas refere-se à chegada de Pedro e de João à Samaria. Quando a comunidade cristã de Jerusalém soube que a Samaria tinha acolhido a mensagem de Jesus, despachou para lá aqueles apóstolos, em visita inspetiva. Lucas não diz qual a reação de Pedro e de João, ao verificarem o avanço do Evangelho. Só refere que os Samaritanos, apesar de batizados, ainda não tinham recebido o Espírito Santo. Provavelmente, isto significa que a adesão dos Samaritanos ao Evangelho era superficial (talvez motivada pelos gestos espetaculares que acompanhavam a pregação de Filipe, mais do que por convicção bem fundada) e que não havia, entre eles, verdadeira consciência de pertença à grande família de Jesus, que é a Igreja universal. Por isso, logo que chegaram, Pedro e João impuseram as mãos aos Samaritanos, a fim de que também recebessem o Espírito. O Espírito aparece como o selo que comprova a pertença dos Samaritanos – unidos à Igreja universal e em comunhão com ela – à Igreja de Jesus Cristo.
A mensagem é: para a comunidade se constituir em Igreja, não basta a aceitação superficial da Palavra, nem manifestações humanas (por muito impressionantes que sejam). É preciso que a comunidade cristã tenha consciência de que não é célula isolada, mas que é convidada a viver a fé, integrada na Igreja universal, em comunhão com ela. Toda a comunidade que deseje integrar a família de Jesus deve, pois, acolher a autoridade e buscar o reconhecimento dos pastores da Igreja universal. Só então se manifestará nela o Espírito, a vida de Deus.

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A segunda leitura (1Pe 3,15-18) exorta os crentes – confrontados com a hostilidade do Mundo – a terem confiança, a darem sereno testemunho da fé, a mostrarem o seu amor a todos os homens, mesmo aos perseguidores. Cristo, que fez da sua vida um dom de amor a todos, deve ser o modelo que os cristãos têm sempre ante os olhos.

O trecho em causa mostra, em modo exortativo, qual deve ser a atitude dos crentes, confrontados com a hostilidade do Mundo e como devem reagir, ante as provocações e as injustiças. Os cristãos devem, antes de mais, reconhecer no coração a santidade de Cristo, que é “o Senhor” (o “Kýrios” – isto é, o próprio Deus, Senhor do Mundo e da História). Desse reconhecimento da santidade e da soberania absoluta de Cristo, brota a confiança e a esperança; e os crentes nada temerão e podem enfrentar a injustiça e a perseguição.

Os cristãos devem estar sempre dispostos a apresentar as razões da sua fé e da sua esperança – isto é, a testemunhar aquilo em que acreditam. No entanto, devem fazê-lo sem agressividade, com delicadeza, com modéstia, com respeito, com boa consciência, mostrando o seu amor por todos, mesmo pelos perseguidores. Devem ser apóstolos, não prosélitos. Assim, os perseguidores ficarão desarmados e sem argumentos; e todos perceberão de que lado está a verdade e a justiça.

Os cristãos devem, ainda, em qualquer circunstância – mesmo ante o ódio e a hostilidade dos perseguidores – preferir o bem ao mal.

O epistológrafo remata a sua exortação, apresentando aos crentes a razão fundamental pela qual devem agir desta forma tão “ilógica”: “Cristo morreu uma só vez pelos nossos pecados – o justo pelos injustos – para nos conduzir a Deus”. Ora, se Cristo propiciou, mesmo aos injustos, a salvação, também os cristãos devem dar a vida e fazer o bem, mesmo quando são perseguidos e sofrem. Aliás, essa via de dom da vida não é de fracasso e de morte: Cristo, que morreu pelos injustos, voltou à vida pelo Espírito. Por isso, os cristãos que fizerem da vida um dom – como Cristo – também ressuscitarão.

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É com aclamar o Senhor, convocar toda a Terra para esse louvor e preparar os nossos corações, para que o Senhor estabeleça neles a sua morada:  

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“A Terra inteira aclame o Senhor.”

Aclamai a Deus, Terra inteira, / cantai a glória do seu nome, / celebrai os seus louvores, /
dizei a Deus: ‘Maravilhosas são as vossas obras.’

“‘A Terra inteira Vos adore e celebre, / entoe hinos ao vosso nome.’ / Vinde contemplar as obras de Deus, / admirável na sua ação pelos homens.

“Todos os que temeis a Deus, vinde e ouvi, / vou narrar vos quanto Ele fez por mim. / Bendito seja Deus que não rejeitou a minha prece, / nem me retirou a sua misericórdia.”

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“Aleluia. Aleluia. Se alguém me ama, guardará a minha palavra. / Meu Pai o amará e faremos nele a nossa morada.”

2026.05.11 – Louro de Carvalho


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