segunda-feira, 18 de maio de 2026

Suásticas e vandalismo cultural em Lisboa e política similar nos EUA

 

Em artigo intitulado “Suásticas em Lisboa: PS critica ‘desvalorização’, Câmara também vê perigos na extrema-esquerda”, publicado, a 18 de maio, pela Euronews, João Azevedo aborda a vandalização da estátua da escritora Natália Correia, na Graça, que levou o Partido Socialista (PS) a alertar para difusão “preocupante” de mensagens de ódio.

Alexandra Leitão, vereadora do PS na Câmara Municipal de Lisboa (CML) quer mais empenho no combate à intolerância, ao que o presidente do município, Carlos Moedas, responde que não há “extremismos virtuosos”, acusando a vereadora de “visão maniqueísta”.

Refere o jornalista que, poucos dias antes da celebração dos 52 anos do 25 de Abril (aliás, no dia 16), um ato de vandalismo, em Lisboa, contra a estátua de Natália Correia, ícone da luta pela liberdade, inflamou “o já muito entrincheirado debate político no país”.

A estátua, erigida, em 2023, na freguesia de São Vicente, para marcar o centenário do nascimento da escritora açoriana, foi danificado e alvo de pichagens: sobre o rosto, foram desenhadas cruzes suásticas, o emblema adotado pelo Partido Nazi alemão, em 1920, e que se tornou o símbolo mais representativo da propaganda hitleriana, assente em reivindicações de supremacia da raça ariana, remetendo para o Holocausto, pelo que, em vários países, o seu uso em apologia do nazismo é proibido por lei.

Os danos foram denunciados, no dia 25, pelo presidente da Junta de Freguesia, condenando a “simbologia de ódio” nos termos de um ataque cujo alcance vai além da personalidade visada. “Vandalizar a memória de Natália Correia é tentar, inutilmente, silenciar os valores da inteligência, da insubmissão e da democracia que ela tão bem personificou”, escreveu André Biveti, na rede social Instagram, prometendo resistir a quaisquer tentativas de intimidação, porque a escritora “ensinou-nos a não ter medo”.

Também a vereação do PS condenou, energicamente, o incidente, através de voto de repúdio, que mereceu aprovação unânime na reunião privada do executivo camarário. Os representantes do PS na CML verberam o uso de “símbolos que evocam um dos períodos mais negros da História contemporânea”, num ato de “cobardia” que “não é apenas um crime de dano contra o património autárquico”, mas também um “ataque aos valores do Estado de Direito Democrático”. E apresentam Natália Correia como “vulto ímpar da cultura portuguesa” e põem em evidência o trabalho da autora como deputada da Assembleia da República (AR) na “defesa intransigente das mulheres”. “Ergueu a sua voz, firme e sem medo, contra o autoritarismo moralizador que ainda ensombrava o país, e contra o qual devemos estar vigilantes (…)”, assinalam os quatro vereadores socialistas, instando a CML a apelar às autoridades para a “rápida identificação e responsabilização” de quem maculou a estátua.

A Junta de Freguesia fez saber que tem recebido mais queixas, incluindo “ataques a casas de vizinhos”, e a vereação do PS reforça que não se tratou de “ato isolado de delinquência”, denunciando, com base no Relatório Anual de Segurança Interna (RASI) relativo a 2025, um “padrão preocupante de propagação de símbolos e mensagens de ódio ligadas aos regimes nazis e fascistas”. O RASI, publicado no final de março, que recolheu os dados da criminalidade reportada pelas polícias à Direção-Geral da Política de Justiça (DGPJ), entre janeiro e dezembro de 2025, dá conta do aumento dos crimes de ódio em Portugal. Foram registadas 449 participações, uma subida de quase 7%, face a 2024 (que era ano recorde, com 421 denúncias), com a Área Metropolitana de Lisboa (AML) a concentrar 30% das ocorrências.

O relatório, como recorda João Azevedo, evidencia “uma maior crispação da sociedade portuguesa” provocada pelo “nível de polarização política, racial, religiosa e/ou sexual, acompanhada de fenómenos de desinformação”. E este sentimento induz “comportamentos de confrontação” materializados em “ações de protesto não autorizadas e, por vezes, disruptivas, com contornos de violência verbal ou física”, que perturbam o funcionamento da democracia e põem em risco a segurança da população e dos bens.

De acordo com Alexandra Leitão, “entre 2015 e 2025, os crimes de ódio cresceram uns estonteantes 2236%”, com as pessoas “a mimetizar o contexto social”, que “mimetiza o contexto político”, no quadro do crescimento do partido Chega, que levou ao clima de maior tensão na sociedade. “Há um discurso violento que não era muito comum em Portugal, até há seis anos, e as pessoas perdem um bocado a vergonha. Normaliza-se um certo tipo de discurso e, consequentemente, um certo tipo de atuação que, antes, estava mais escondida”, afirmou.

O RASI faz eco da radicalização política, ao indicar que a agenda da extrema-direita explora “temas fraturantes”, com propósitos eleitorais, sobretudo, a partir de uma retórica anti-imigração, que banaliza o “discurso público da discriminação, do ódio e das ideias antidemocráticas”, e favorece “comportamentos racistas ou xenófobos”. E mostra preocupação com o envolvimento de menores e de jovens adultos nestes fenómenos extremistas, incluindo grupos “com algum grau de estruturação”, que recrutam, na Internet, estas faixas mais vulneráveis da população, para doutriná-las, levando-as a “uma distorção da realidade” que as faz aderir a “teorias da conspiração ou a retóricas antissistema”. Estes movimentos, com “forte presença online, são alimentados por líderes carismáticos que, segundo o RASI, agem como “verdadeiros influencers”, em particular, junto de jovens do sexo masculino.

Alexandra Leitão, estabelecendo paralelismo com os movimentos a nível internacional, criados por Charlie Kirk e por Andrew Tate, denuncia a abundância de “discurso profundamente misógino” nas comunidades online radicalizadas e dominadas por rapazes/homens, que “não são de minorias”. “É uma misoginia que não passa só pelo famoso ‘O lugar das mulheres é na cozinha’, mas que vai mesmo ao ponto de incentivar a violência contra as mulheres”, adverte a ex-ministra do PS, lembrando a presença de influenciadores digitais, a convite, maioritariamente, de associações de estudantes, em dezenas de escolas, em Portugal, nos dois últimos anos letivos, para palestras com conteúdos de teor sexual e misógino.

Esta situação, frisa o jornalista, levou a Inspeção-Geral da Educação e Ciência (IGEC) a abrir um inquérito a dois diretores escolares. Por sua vez, o ministro da tutela interveio, anunciando a constituição de um grupo de trabalho para definir orientações que ajudem a determinar as entidades e personalidades externas que podem entrar no recinto escolar, mas salientou que a responsabilidade pelo controlo dos acessos recai sobre quem dirige os estabelecimentos e que não se justificava qualquer alteração na lei, que já estipula esse procedimento.

Alexandra Leitão, sustentando que faltou firmeza na posição do Ministério da Educação, volta a alertar para os perigos das narrativas de hostilidade contra as mulheres. “Não sou a favor de nenhum tipo de policiamento de linguagem, mas há uma fronteira entre a liberdade de expressão e o discurso de ódio, e essa fronteira está firmemente traçada na lei, quando tem tipos penais que criminalizam o discurso de ódio”, anota a socialista, considerando que a liberdade de expressão não serve para dizer que as mulheres são inferiores.

Em 2025, Luís Neves, então líder da Polícia Judiciária (PJ) e, agora, ministro da Administração Interna, assumiu posição assertiva, face a comportamentos misóginos. Em junho, alertou que alguns jogos online têm por objetivo violar, abater e perseguir mulheres: e, em outubro, deu conta da escalada dos crimes de ódio, em especial, contra pessoas do sexo feminino.

“Há, aí, uma visão machista de tratar a mulher como um ser menor”, referiu o agora governante falando em “crimes politicamente motivados” e prometendo “combate feroz” a todas as formas de violência com base no género, na nacionalidade, na raça ou no credo.

Alexandra Leitão aplaudiu a escolha de Luís Neves para liderar o Ministério da Administração Interna e admite, na qualidade de vereadora em Lisboa, avançar com “mais iniciativas”, até junto do governo, depois de esgotado o diálogo com a CML, se houver “continuação” de condutas extremistas na capital.

Em outubro, o líder da PJ trouxe à colação o facto de os jovens serem recrutados para cometer estes crimes com caráter discriminatório – situação inconcebível numa sociedade em que tem de prevalecer o respeito pelo ser humano. E o RASI relata que, em 2025, ocorreu a primeira condenação, em Portugal, de um rapaz com menos de 16 anos, por atos que constituiriam “infração terrorista” e “crime de discriminação e incitamento ao ódio e à violência”, de base ideológica de extrema-direita”, estando em causa alguém com maioridade penal.

O ataque à estátua de Natália Correia não pode ser visto à luz de mais um episódio de vandalismo, insiste Alexandra Leitão, frisando que a poetisa, dramaturga, ensaísta, jornalista, tradutora e editora sempre se opôs, sem amarras, ao pensamento e ao espírito da ditadura. Nos jornais, na rádio, na televisão, na AR (onde tem um busto) ou no seu bar “Botequim”, que reunia os intelectuais, desafiou os costumes epocais e corporizou a emancipação social e política que muitos procuravam, tendo sido processada e condenada a três anos de prisão, com pena suspensa, pela publicação de obras que, para o Estado Novo, ofendiam a moral pública.

Na mesma semana de abril em que se vandalizou a estátua de Natália Correia, teve lugar uma outra ação contra o património no espaço urbano lisboeta. Na freguesia de Santa Maria Maior, foi partido o nariz da estátua de Carlos Mendonça, um comerciante que se tornou uma das principais figuras das marchas da cidade. Sem minimizar este ataque, Alexandra Leitão deixa claro que as duas situações não podem ser colocadas no mesmo plano: numa, há um impulso circunstancial, enquanto, noutra, é visível a tentativa de criar um efeito social de intimidação. O “vandalismo casual, etílico” é “imensamente censurável”, ressalva, mas vincando que é preciso distingui-lo dos atos em que há uma motivação ideológica.

Além da destruição material, a socialista menciona o caso de violência, a 10 de junho de 2025, contra Adérito Lopes, ator do teatro “A Barraca”, agredido por um grupo de extrema-direita, em Lisboa, quando se encaminhava para um espetáculo de homenagem a Camões.

Alexandra Leitão gostaria de ver “maior empenho” da autarquia na condenação destas práticas de violência e estranha que nada de concreto tenha sido feito pelo presidente da CML, no seguimento da aprovação do voto de repúdio do PS. Em contraponto, Carlos Moedas rejeita as críticas da oposição socialista e defende “tolerância zero para ataques ao património”, independentemente da natureza dos atos de vandalismo. Diz que a autarquia reserva, todos os anos, dois milhões de euros para a limpeza de grafitis. E acusa a vereadora do PS de ter “uma visão maniqueísta do Mundo e da política, aludindo ao militante do PS suspeito de, a 21 de março, arremessar um engenho explosivo contra os manifestantes antiaborto, na Marcha pela Vida, junto à AR, sem que, alegadamente, Alexandra Leitão se tenha pronunciado. Porém, esta, aceitando o paralelismo dos crimes, à direita e à esquerda, acusa Moedas de ter as prioridades trocadas, por indicar que a criminalidade violenta e grave baixou (-1,6%).

Também a petição “Festas de Abril sem Abril”, assinada por cerca de 600 agentes culturais da cidade, denunciou a tentativa de alterar o nome deste período festivo, de “Festas de Abril” para “Festas da Primavera”. Os subscritores acusam a empresa municipal responsável pela programação (EGEAC Lisboa Cultura) de esbater a centralidade da Revolução e de a reduzir a “festa genérica da primavera”. Uma estranha (des)ideologização da cultura!

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No mesmo dia 18, em artigo intitulado “Governo americano retira milícias de extrema-direita da lista de ameaças à segurança nacional”, publicado no Expresso online, Ricardo Lourenço dá-nos conta de que a estratégia de contraterrorismo do governo dos Estados Unidos da América (EUA) foi recalibrada e comunicada a responsáveis de países aliados, no sentido de que o tempo dos EUA, como superpolícia global, acabou, pelo que eles “terão de fazer mais para se protegerem, segundo uma porta-voz do Conselho Nacional de Segurança (CNS).

O documento de 16 páginas define os gangues de narcotraficantes e os grupos terroristas islâmicos como duas das três preocupações cruciais, atingindo a terceira os movimentos “antifascistas e antiamericanos” que marinam na “ideologia radical pró-transgénero”.

O líder norte-americano assinou o relatório e indicou que “a Administração trabalhará para identificar as ameaças e neutralizá-las, pela força, ou estrangulando os seus recursos financeiros”, impedindo que “conservadores e cristãos inocentes” permaneçam como alvos.

Apesar de o FBI e grande parte da academia garantirem que a maior ameaça à segurança interna provém de milícias armadas de extrema-direita, o governo prefere atacar os rivais políticos de Trump, no pressuposto de que “a esquerda protagonizou muito mais tentativas de assassínio político, nos últimos anos, do que a direita”.

Grupos supremacistas como os Wolverine Watchmen, arquitetos da tentativa de rapto e de assassínio da governadora do Michigan, Gretchen Whitmer, os Proud Boys, os Oath Keepers e os Boogaloo Boys, atores principais da insurreição de 6 de janeiro de 2021, caíram no esquecimento, pois, como já começa a ser comum dizer-se, a América é “onde o homem branco voltará a reinar de forma suprema”. Reconhecem aspetos positivos na nova estratégia de contraterrorismo, pois acerta-se nalgumas coisas. “Por exemplo, concentram-se no perigo de grupos terroristas obterem armas de destruição maciça. Mas, depois, falham muito”, dizem.

A omissão dos tais grupos de extrema-direita espantou a opinião pública. “Não se foca no terrorismo doméstico, nas células extremistas”, lamenta o general Michael Hayden, antigo diretor da CIA, acusando o documento, que deveria ser puramente técnico e apartidário, de estar recheado de acusações contra inimigos políticos”.

De volta à aposta no combate ao narcotráfico, há o risco de esta poder drenar recursos da luta contra o terrorismo islâmico. E o general Michael Hayden denuncia a falta de substância do documento, neste ponto. “Não tem nada que ver com estratégia. É somente uma forma de ver o Mundo”, sublinha.

A nova estratégia de contraterrorismo não menciona as novas tecnologias e ferramentas usadas por grupos terroristas. E, quanto à aposta em perseguir grupos de extrema-esquerda, Robert McFadden, antigo membro da Naval Criminal Investigative Service (NCIS), a unidade de investigação criminal da Marinha, reconhece que aumentou a violência perpetrada por radicais esquerdistas, mas que parte desse fenómeno está ligado à radicalização recíproca, em que, digo eu, está a predominar a falsa ideia da pureza da raça, do sangue sem mesclas.

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Enfim, em Portugal e no Mundo (os EUA são exemplo), campeia a radicalização, o discurso e a prática do ódio. É o retrocesso civilizacional e um piparote na fraternidade.

2026.05.18 – Louro de Carvalho

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