O
presidente norte-americano, Donald Trump, chegou à China, a 13 de maio, para abordar,
nos dias 14 e 15, em cimeira com o homólogo Xi Jinping, temas, como o comércio
internacional, a guerra baseada em inteligência artificial (IA), a
cibersegurança, a rivalidade tecnológica e, em particular, a guerra no Irão e a
venda de armas a Taiwan. Como dizem alguns analistas, a “cimeira Trump-Xi deixa
chips de lado, mas discute guerra com IA”.
Entre
os acompanhantes do presidente dos Estados Unidos da América (EUA) na
deslocação, contam-se o presidente executivo da Apple, Tim Cook, e o da Tesla,
Elon Musk, não devendo participar o líder da Nvidia, Jensen Huang. No entanto,
mais do que nos semicondutores, a agenda deverá centrar-se no Irão, em Taiwan e
na guerra apoiada pela IA, sobretudo, depois do uso generalizado dessa
tecnologia nos conflitos em Gaza e em Teerão. Na verdade, a IA tornou-se crucial
na corrida tecnológica entre os EUA e a China, pelo que se espera que os dois
líderes discutam formas de cooperação nesta área.
De
acordo com David Leslie, diretor de investigação em ética e inovação
responsável no Instituto Alan Turing, os principais dossiês da agenda da serão
as instabilidades geopolíticas provocadas pelo conflito no Irão e a incerteza
sobre a capacidade de os EUA para desempenharem um papel de proteção, nas
tensões entre a China e Taiwan. “No que toca à relação com a IA, um dos aspetos
que, creio, terá de ser abordado, de uma forma ou de outra, é esta nova era de
guerra apoiada por IA, em que, de certa forma, entrámos nos últimos oito
meses”, disse o especialista à Euronews Next, aludindo ao assalto contra
Nicolás Maduro na Venezuela, à campanha militar de Israel na Palestina e à
ampla utilização de IA em várias aplicações no Irão.
“Penso
que as questões ligadas à guerra apoiada por IA vão ser centrais e estarão na
mesa das discussões, porque a China e os EUA já tinham começado a falar sobre o
tema, sobretudo, no que diz respeito ao nuclear”, acrescentou David Leslie.
A
cimeira Trump-Xi acontece várias semanas depois de a Anthropic, empresa
norte-americana de IA, ter disponibilizado o modelo Mythos, focado na
cibersegurança, a várias empresas e firmas de cibersegurança, mas advertindo
que o modelo não pode ser disponibilizado ao público por “representar
riscos de cibersegurança sem precedentes”. E David Leslie sustenta que “modelos
de IA de fronteira que expõem vulnerabilidades na infraestrutura nacional de
cibersegurança deverão ser um ponto crítico nas conversações”, tendo em conta
as implicações de tais fragilidades ao mais alto nível da segurança nacional.
Outro
fator importante é a influência desproporcionada dos aliados de Donald Trump no
setor das grandes tecnológicas sobre esta administração, ao ponto de se dizer
que é, em larga medida, o Vale do Silício a definir a política, e não o
contrário, o que pode significar que a posição dos EUA em temas, como a
cibersegurança e o alegado roubo de propriedade intelectual norte-americana por
empresas tecnológicas chinesas, acusadas de copiar modelos norte-americanos de
IA, possa ser moldada menos por diplomatas e mais pelos executivos tecnológicos
que se tornaram tão centrais nesta administração. “Uma das caraterísticas
marcantes da forma como a política tecnológica evoluiu, do lado da
administração Trump, é ter sido, em grande medida, ditada pelos interesses do
Vale do Silício”, considerou David Leslie.
Ao
invés dos EUA, que seguem uma abordagem mais orientada pelas empresas, em
matéria de IA, a China avança com ecossistemas de educação e de investigação.
Nestes termos, a China fixou a meta alcançar, até 2027, da taxa de adoção de IA
superior a 70% nos setores estratégicos. Não obstante, também recuperou terreno,
face aos EUA, no número de empresas de IA, como a DeepSeek, que afirmam
oferecer alternativas mais baratas ao ChatGPT, com desempenho semelhante, e
aposta numa indústria de chips própria, com a Huawei, a Alibaba e a
ByteDance a criarem negócios de conceção de semicondutores. Assim, de acordo
com o relatório anual sobre IA, deste ano, do Instituto de Inteligência
Artificial Centrada no Ser Humano de Stanford, os avanços da China em IA
reduziram a distância para os EUA: os EUA mantêm vantagem em capital, em infraestrutura
e em chips de IA; e a China lidera em patentes, em publicações
científicas e em IA física, conhecida como robótica.
Paralelamente,
há interdependências complexas entre os dois países. As terras raras da
China, incluindo metais, como o cério e o lantânio, são cruciais para as
tecnologias modernas e representam uma dessas interdependências capazes de
gerar tanto tensão como poder de negociação. Segundo David Leslie, trata-se de
um quadro complexo, estando os EUA numa posição menos forte do que no passado.
Mercê do esgotamento dos arsenais militares norte-americanos, em termos de
equipamento e de material, os EUA precisarão de acesso mais sólido a várias
terras raras, só para reconstituírem capacidades, havendo “elementos mutáveis e
fragilizadores da posição dos EUA que pesam e influenciam a relação”.
Todavia
como defendeu, em conferência de imprensa, Jacob Gunter, responsável pelo
programa “economia e indústria” do think tank MERICS, pode haver
argumentos para que a China pressione os EUA a aliviar algumas restrições às
exportações de tecnologias controladas, o que poderia ajudar a reduzir o défice
comercial. “Mas mesmo Pequim tem mostrado que, quando a administração Trump
afrouxou ou fez exceções, por exemplo, permitindo a venda de determinados chips
da Nvidia à China, a resposta do lado chinês foi basicamente: não os
queremos, consideramos mais importante, a longo prazo, canalizar toda a procura
de chips na China para os produtores nacionais”, explicou Jacob Gunter.
Não
obstante, haverá um ponto em que o acesso aos chips mais poderosos e de
alto desempenho dará à China vantagem suficientemente grande na aceleração do
desenvolvimento da IA, para superar os benefícios de apoiar, em exclusivo, a
indústria doméstica. Por isso, uma tentativa de Donald Trump de negociar algum
acordo sobre semicondutores ou sobre IA enfrentará forte resistência da ala de
segurança nacional da sua administração, liderada por figuras como Marco Rubio,
secretário de Estado dos EUA. E Gunter sustenta que estas são linhas vermelhas
em que há bloqueio: a IA e os semicondutores – duas das muitas frentes da nova
Guerra Fria em que vivemos.
Ora,
para haver acordo entre a China e os EUA, não é preciso incluir os temas de IA
e de chips, que acabarão por ficar de fora. Além disso, é do interesse
da Humanidade que a corrida à IA não se transforme em corrida para o abismo que
ponha em risco a existência humana. “Cada país, cada Estado, está inserido num
contexto muito próprio, quanto à forma como a tecnologia evolui no seu
território e [quanto] à forma como o ambiente de inovação e a adoção da
tecnologia estão a ser recebidos pelas diferentes populações”, considerou
Leslie.
Com
o ritmo acelerado da IA, já surgiu uma reação negativa, que está, nos EUA, a
ser apelidada de “techlash 2.0”, com a construção de centros de dados a
pressionar os recursos de energia e de água e a deslocar bairros inteiros. Simultaneamente,
persistem receios de que a IA venha a destruir postos de trabalho, inclusive no
setor tecnológico. Já, na China, a índole mais centralizada do poder levou a
políticas industriais mais agressivas e a maior controlo sobre a orientação em
grande escala, como observou Leslie, vincando: “Não se trata apenas da
perceção, há muito enraizada, de que a China não quer ficar para trás, nesta
suposta corrida tecnológica, mas também de uma convicção mais profunda de que a
evolução da tecnologia, tal como é aplicada dentro da China, estará, de certa
forma, mais ao serviço do interesse público.”
Com
efeito, na ótica de David Leslie, há condições facilitadoras ou maior grau de
crença e confiança nesse sentido, porque as políticas internas da China, em
matéria de IA e de governação da IA, são progressistas, no atinente à proteção
da população contra danos.
***
Nesta
visita, a primeira de um presidente dos EUA a solo chinês, desde que Donald Trump
visitou Pequim, em 2017, envolverá conversações muito aguardadas, com o
visitante a dizer que vai pedir a Xi Jinping para abrir a China às empresas norte-americanas.
Foi, pois, num sinal do interesse de Trump pelos negócios, que o chefe da
Nvidia embarcou no Air Force One durante a escala no Alasca, juntando-se ao
chefe da Tesla. “Vou pedir ao presidente Xi, um líder de extraordinária
distinção, que ‘abra’ a China, para que estas pessoas brilhantes possam fazer a
sua magia e ajudar a levar a República Popular a um nível ainda mais elevado!”
escreveu Trump, nas redes sociais, depois de partir de Washington.
Uma
série de outros CEO de topo, incluindo Tim Cook, da Apple, também estarão em
Pequim. Mas as ambições de Trump de aumentar o comércio enfrentarão as fricções
políticas sobre Taiwan e sobre a guerra no Médio Oriente, que adiaram a viagem
de março. De facto, o que se passa no Estreito de Ormuz prejudica, em muito, a
China, na compra de petróleo ao Irão. Porém, o presidente dos EUA minimizou as
divergências. “Não creio que precisemos de qualquer ajuda da China, em relação
ao Irão”, afirmou, observando que Xi tinha sido “relativamente bom” no assunto.
Em contraponto, Pequim está cada vez mais impaciente com a paz, tendo o
ministro dos Negócios Estrangeiros chinês instado o homólogo paquistanês, no
dia 12, a intensificar os esforços de mediação entre o Irão e os EUA.
O
itinerário da visita inclui o banquete de Estado no Grande Salão do Povo de
Pequim e a receção de chá. E Donald Trump disse, no dia 11, que falaria com Xi
sobre as vendas de armas dos EUA a Taiwan, sobre a democracia autónoma
reivindicada pela China, sobre o afastamento da histórica insistência dos EUA
de que não consultará Pequim sobre o apoio à ilha.
No
âmbito dos temas já indicados, os líderes das duas maiores economias do Mundo
deverão discutir o prolongamento da trégua de um ano na sua guerra tarifária,
que Trump e Xi alcançaram durante a sua última reunião na Coreia do Sul, em
outubro.
O
clima de tensão que antecedeu a cimeira das superpotências já era visível nas
ruas de Pequim, com a polícia a controlar os principais cruzamentos e a
verificar os cartões de identificação dos passageiros do metro. “É,
definitivamente, um grande acontecimento”, disse Wen Wen, uma mulher de 24 anos,
que viajava da cidade oriental de Nanjing, ao ser questionada pela agência de
notícias AFP sobre a visita de Trump. “Certamente serão feitos alguns
progressos”, antecipou, dizendo esperar que a China e os EUA possam garantir “uma
paz duradoura”, apesar da “recente instabilidade na situação global”.
Os
EUA e a China procuram estabilizar as suas relações, apesar de se verem cada
vez mais como adversários, no comércio e na geopolítica. Trump tem elogiado a
forte relação pessoal com Xi, a qual, na ótica do inquilino da Casa Branca,
impediria uma invasão chinesa de Taiwan. “Acho que vai correr tudo bem. Tenho
uma relação muito boa com o presidente Xi. Ele sabe que eu não quero que isso
aconteça”, disse.
***
Esta
visita do presidente dos EUA à China surge num momento em que a rivalidade
entre as duas maiores economias mundiais é cada vez mais marcada pela
concorrência económica, pela liderança tecnológica e pela influência global. O
cenário geopolítico da visita é mais instável do que em 2017. A guerra do Irão
perturbou os mercados energéticos mundiais, interrompeu as rotas marítimas e
renovou as preocupações, quanto a escalada regional mais vasta. Entretanto, a
China tem tentado posicionar-se como fonte de continuidade económica e de
estabilidade diplomática, reforçando os laços comerciais no Sudeste Asiático,
no Golfo e em partes de África e da América Latina. E os EUA, além do seu
envolvimento no Médio Oriente, consolidam a sua influência no hemisfério
ocidental, pela “Doutrina Monroe” renovada.
A
administração Trump reorientou o regime venezuelano para longe da China, com
ações militares, pressionou economicamente o regime cubano até à beira do
colapso, com sanções, e criou nova coligação de segurança com várias nações da
América Latina e das Caraíbas, denominada “Escudo das Américas”. Assim, a
estratégia norte-americana reafirmou a primazia militar e económica, na região,
com o objetivo de atenuar a influência chinesa e de garantir cadeias de
abastecimento essenciais. Por exemplo, os EUA e a China estão em disputa acesa
pelo controlo dos portos do Canal do Panamá.
EUA
continuam a ser mais ricos, mas China reformulou a economia mundial. Desde a
visita de Trump à China, em 2017, os EUA continuam a liderar a economia
mundial. De acordo com as últimas projeções do Fundo Monetário Internacional (FMI),
o produto interno bruto (PIB) nominal dos EUA ultrapassará os 30 biliões de
dólares, em 2026, em comparação com cerca de 20 biliões de dólares da China, o
que representa quotas de cerca de 25% e 17% da economia mundial,
respetivamente. Assim, os EUA e a China ocuparam os dois primeiros lugares na
classificação do PIB nominal, durante mais de uma década, mas a diferença está
a diminuir, à medida que a China cresce mais rapidamente.
Um
contributo significativo para o desempenho acima da média da China é o facto de
ter sido o único grande país a terminar 2020 com crescimento económico, após a
pandemia de covid-19 ter devastado a economia mundial. Para este ano, prevê-se
que o crescimento anual do seu PIB seja de 4,4%, enquanto o dos EUA é de 2,3% e
o do Mundo de 3,1%. Porém, o nível de vida entre os dois países é muito
diferente. De acordo com as projeções do FMI, o PIB per capita dos EUA,
em 2026 será superior a 94 mil dólares, ao passo que o da China se aproxima dos
15 mil dólares e o do resto do Mundo é de quase 16 mil dólares. Porém, é de ter
em conta o número de habitantes: a China indica, em maio deste ano, 1413288205,
enquanto os EUA, apenas 349 milhões.
Apesar
de décadas de rápida expansão, a economia chinesa enfrenta desafios
estruturais, incluindo o fraco consumo interno, o elevado desemprego dos
jovens, o abrandamento do setor imobiliário e as pressões demográficas
associadas ao envelhecimento da população.
O
conflito mais recente foi desencadeado em abril, com o Secretário de Estado
norte-americano a acusar a China de intimidação, ao reter dezenas de navios com
o pavilhão do Panamá, depois de o país ter invalidado contratos que permitiam a
uma filial de Hong Kong da empresa chinesa CK Hutchison gerir dois terminais
portuários no início do ano.
As
tensões comerciais continuam a ser ponto fulcral da relação entre os EUA e a
China, apesar das negociações de 2025. E, embora ambos os países tenham
aliviado algumas tarifas e restrições à exportação, no final de 2025, continuam
as disputas sobre semicondutores, sobre veículos elétricos, sobre IA e sobre acesso
a minerais críticos.
Pequim
mantém poder de fogo financeiro significativo e cresce militarmente. E os EUA
detêm reservas relativamente mais pequenas, mas beneficiam do domínio do dólar
e das reservas de ouro. Contudo, nos últimos anos, a China vem a aumentar as
suas reservas, numa altura em que Pequim procura diversificá-las, afastando-as
dos ativos denominados em dólares e reforçando a confiança, a longo prazo, no
renminbi (RMB), a sua moeda oficial.
Vejamos
no que dará a cimeira, mas a visita de Trump será analisada por Taiwan e pelos
aliados asiáticos para detetar algum sinal de enfraquecimento do apoio dos EUA.
2026.05.13
– Louro de Carvalho
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