A
Solenidade da Ascensão do Senhor, que Portugal e outros países, onde a
Quinta-feira da Ascensão não é feriado, celebram no 7.º domingo da Páscoa,
sugere que, no final do caminho de amor e de doação, está a vida definitiva, a
comunhão com Deus, e que Jesus nos deixou o testemunho para que somos nós, seus
seguidores, continuemos a realizar o projeto libertador de Deus. Não devemos
agarrar-nos ao Mundo, mas também não podemos ficar espantados a olhar o
firmamento, como se o Reino de Deus dispensasse o nosso trabalho e o cuidado
com o universo das periferias existenciais que existem, gritantes, ao pé de nós
ou lá mais à distância, que os meios de comunicação e de locomoção tornaram
perto.
Não
devemos refugiar-nos num misticismo devoto e angelista, descurando o trabalho
com os últimos, nem nos perder-nos no ativismo material ou apostólico,
menosprezando a força do Alto que temos à nossa disposição, com a qual devemos
manter relação íntima e produtiva.
***
O
trecho da conclusão do Evangelho de Mateus (Mt 28,16-20), que é
proclamado no Ano A, apresenta o encontro final de Jesus ressuscitado com os
discípulos, num monte da Galileia. A comunidade dos discípulos, reunida à volta
de Jesus ressuscitado, reconhece-O como o seu Senhor, adora-O e recebe d’Ele a
missão de continuar, no Mundo, o testemunho do Reino. Todavia, o evangelista
anota que “alguns ainda duvidaram”.
A
dúvida, que não é pecado, faz parte da vida, face à complexidade da tarefa ou
da missão, mas urge que seja dissipada, para que a missão não fique
irrealizável, nem impedida.
Todavia,
foi na Galileia que Jesus viveu quase toda a sua vida e foi lá que Ele começou
a anunciar o Evangelho do Reino e que começou a reunir à sua volta um grupo de
discípulos. Para Mateus, esse facto sugere que a dimensão do anúncio libertador
de Jesus é universal: destina-se a judeus e a pagãos.
Mateus
situa este encontro final entre Jesus ressuscitado e os discípulos num “monte
que Jesus lhes indicara”, uma montanha da Galileia impossível identificar
geograficamente, mas que talvez Mateus ligue com a montanha da tentação e com a
da transfiguração. De qualquer forma, o monte é sempre, no Antigo Testamento, o
lugar onde Deus Se revela aos homens. E, ainda hoje, muitas ermidas e
santuários se postam no cimo de montanhas ou ao abrigo das mesmas.
O
trecho em referência divide-se em duas partes.
Na
primeira (vv. 16-18), relata-se o encontro. Jesus, vivo e ressuscitado,
revela-Se aos discípulos; e os discípulos reconhecem-No como “o Senhor” e adoram-No.
Depois de descrever a adoração, Mateus acrescenta a expressão “alguns ainda
duvidaram”, a significar que a fé não é uma certeza científica e que não exclui
a dúvida. Aliás, a dúvida constante dos discípulos é expressa em vários
momentos, ao longo da caminhada para Jerusalém.
Ao
reconhecimento e à adoração dos discípulos, segue-se a manifestação do mistério
de Jesus, que reflete a fé da comunidade mateana: Jesus é o “Kýrios”, que
possui todo o poder no Mundo e na História; Jesus “o mestre”, cujo ensinamento
será sempre a referência para os discípulos, é o “Deus-connosco”, que
acompanhará, pari passu, a caminhada dos discípulos pela História.
Na
segunda parte (vv. 19-20), o evangelista descreve o envio dos discípulos
em missão pelo Mundo. A Igreja de Jesus é comunidade missionária, cuja missão é
testemunhar, no Mundo, a salvação e a libertação que Jesus trouxe aos homens e
que deixou nas mãos e no coração dos discípulos. A primeira nota do envio e do
mandato que Jesus dá aos discípulos é a da universalidade. A missão dos
discípulos destina-se a “todas as nações”.
A
segunda nota dá conta das duas fases da iniciação cristã, conhecidas da
comunidade de Mateus: o ensino e o batismo. Começava-se pela catequese, cujo
conteúdo eram as palavras e os gestos de Jesus (o discípulo começava sempre
pelo catecumenato, que lhe dava as bases da doutrina de Jesus). Quando os
discípulos estavam informados da proposta de Jesus, vinha o batismo – que
selava a vinculação do discípulo ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo. O
batismo é em e para o nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.
Como
última nota, sobressai a promessa de Jesus que estará sempre com os discípulos,
“até ao fim dos tempos”, que expressa a convicção – de todos os crentes da
comunidade mateana – de que Jesus ressuscitado estará sempre com a sua Igreja,
acompanhando-a na sua marcha pela História, ajudando-a a superar as crises e as
dificuldades da caminhada.
A
primeira leitura (At 1,1-11) contém a mensagem essencial desta
solenidade: Jesus, depois de ter revelado ao Mundo o desígnio do Pai, entrou na
vida definitiva da comunhão com Deus – a vida que espera todos os que percorrem
o caminho que Jesus percorreu. E os discípulos não podem ficar a olhar para o
céu, em passividade alienante, mas têm de ir para o meio dos homens.
O
livro dos “Atos dos Apóstolos” dirige-se a comunidades que vivem em contexto de
crise. Na década de 80, cerca de 50 anos após a morte de Jesus, passara a fase
da expectativa pela vinda iminente do Cristo glorioso para instaurar o Reino e
havia alguma desilusão. As questões doutrinais trazem confusão; a monotonia
favorece uma vida cristã pouco comprometida e as comunidades instalam-se na
mediocridade. O quadro geral é o de uma certa frustração, porque o Mundo
continua igual e a esperada intervenção vitoriosa de Deus continua adiada,
interrogando-se os crentes sobre quando se concretizará, plena e inequivocamente,
o plano salvador de Deus.
No
trecho em apreço, Lucas avisa que o projeto de salvação e de libertação que
Jesus veio apresentar passou (com a ida de Jesus para junto do Pai) para a
Igreja, animada pelo Espírito. A construção do Reino é tarefa não terminada e
que é preciso concretizar na História, exigindo o empenho contínuo de todos os
crentes. Os cristãos são convidados a redescobrir o seu papel, no sentido do
testemunho do projeto de Deus, na fidelidade ao caminho de Jesus.
O
texto começa com o prólogo (vv. 1-2) que articula os Atos com o
3.º Evangelho, na referência a Teófilo a quem o Evangelho era dedicado e na
alusão a Jesus, aos seus ensinamentos e à sua ação no Mundo (tema central do
3.º Evangelho). No prólogo são apresentados os protagonistas do livro: o
Espírito Santo e os apóstolos, ambos vinculados com Jesus.
Após
a apresentação do livro, vem a despedida de Jesus (vv. 3-8). O hagiógrafo
refere os “quarenta dias” que mediaram entre a ressurreição e a ascensão,
durante os quais Jesus falou aos discípulos “a respeito do Reino de Deus”, o
que parece contradizer o Evangelho, onde a ressurreição e a ascensão são
apresentados no dia de Páscoa. Ora, o número quarenta é um número simbólico,
que define o tempo necessário para que o discípulo possa aprender e repetir as
lições do mestre. Aqui define, pois, o tempo simbólico de iniciação ao
ensinamento do Ressuscitado.
As
palavras de despedida de Jesus sublinham dois aspetos: a vinda do Espírito e o
testemunho que os discípulos vão ser chamados a dar “até aos confins do Mundo”.
Está aqui resumida a experiência missionária da comunidade lucana: o Espírito
derramar-se-á sobre a comunidade crente e dar-lhe-á a força para testemunhar
Jesus em todo o Mundo, de Jerusalém a Roma. É o programa que Lucas vai
apresentar, ao longo do livro, posto na boca de Jesus ressuscitado. O hagiógrafo
quer mostrar, com a sua obra, que o testemunho e a pregação da Igreja estão
entroncados em Jesus e são impulsionados pelo Espírito.
O
último tema é o da ascensão (vv. 9-11), passagem que necessita de ser
interpretada para que, através da roupagem dos símbolos, a mensagem apareça com
toda a claridade.
Em
primeiro lugar, a elevação de Jesus ao céu não significa uma pessoa que,
literalmente, descola da Terra e começa a elevar-se. Estamos perante um sentido
teológico, não um sentido de reportagem: a ascensão é uma forma de expressar,
simbolicamente, que a exaltação de Jesus é total e atinge dimensões
supraterrenas; é a forma literária de descrever o culminar de uma vida vivida
para Deus, que agora reentra na glória da comunhão com o Pai. Depois, surge a
nuvem, que subtrai Jesus aos olhos dos discípulos. Pairando a meio caminho
entre o Céu e a Terra, a nuvem é, no Antigo Testamento, símbolo privilegiado da
presença do divino. Ao mesmo tempo, esconde e manifesta: sugere o mistério do
Deus escondido e presente, cujo rosto o Povo não pode ver, mas cuja presença
adivinha nos acidentes da caminhada. Céu e Terra, presença e ausência, luz e
sombra, divino e humano, são dimensões sugeridas a propósito de Cristo
ressuscitado, elevado à glória do Pai, continuando a caminhar com os
discípulos. E temos os discípulos a olhar para o Céu, a significar a
expectativa da comunidade que espera ansiosamente a segunda vinda de Cristo, para
levar a cabo o projeto de libertação do Homem e do Mundo.
Por
fim, aparecem os dois homens vestidos de branco. O branco sugere o Mundo de
Deus – o que indica que o seu testemunho vem de Deus. E eles convidam os
discípulos a continuarem no Mundo (em consonância com o discurso evangélico de
João, após a última ceia), animados pelo Espírito, a obra libertadora de Jesus.
Agora, é a comunidade discipular que tem de continuar, na História, a obra de
Jesus, embora com a esperança posta na segunda e definitiva vinda do Senhor.
O
sentido da ascensão não é que fiquemos a admirar a elevação de Jesus, mas que sigamos
o seu caminho, olhando para o futuro e entregando-nos à realização do desígnio
de salvação no meio do Mundo.
***
A
segunda leitura (Ef 1,17-23) convida os discípulos a terem consciência
da esperança a que foram chamados (a vida de comunhão com Deus). Devem caminhar
ao encontro dessa esperança de mãos dadas com os irmãos – membros do mesmo
corpo – e em comunhão com Cristo, a cabeça desse corpo. Cristo reside no seu
corpo, a Igreja; e é nela que Se torna, hoje, presente no meio dos homens.
A
Carta aos Efésios será um dos exemplares de uma carta circular enviada a várias
igrejas da Ásia Menor, quando Paulo está na prisão (provavelmente, em Roma),
por volta dos anos 58/60. O seu portador é Tíquico. Alguns veem na carta uma
síntese da teologia paulina, numa altura em que a missão do apóstolo está
praticamente terminada no Oriente.
O
trecho em apreço aparece na primeira parte da Carta e faz parte de uma ação de
graças, na qual Paulo agradece a Deus pela fé dos Efésios e pela caridade que
eles manifestam para com todos os irmãos na fé. E à ação de graças o apóstolo
une fervorosa oração a Deus, para que os destinatários conheçam “a esperança a
que foram chamados”. A prova de que o Pai tem poder para realizar essa
“esperança” (conferir aos crentes a vida eterna como herança) é o que Ele fez
com Jesus Cristo: ressuscitou-O e sentou-O à sua direita, exaltou-O e deu-Lhe a
soberania sobre os poderes angélicos. Paulo está preocupado com a tendência de
alguns cristãos que dão importância exagerada aos anjos, pondo-os acima de
Cristo. Ora, a soberania estende-se à Igreja, o corpo do qual Cristo é a
cabeça.
O
mais significativo do texto é a ideia de que a comunidade cristã é um “corpo”. O
“corpo de Cristo”, formado por muitos membros, já havia aparecido nas grandes
cartas, acentuando-se a relação dos vários membros do corpo entre si. Porém,
nas “cartas do cativeiro”, Paulo retoma a noção de corpo de Cristo, para refletir
sobre a relação que existe entre a comunidade e Cristo. Neste texto, em
concreto, há dois conceitos muito significativos, para definir o quadro da
relação entre Cristo e a Igreja: o de “cabeça” e o de “plenitude” (em grego,
“pleroma”).
Dizer
que Cristo é a cabeça da Igreja significa, acima de tudo, que os dois formam
uma comunidade indissolúvel e que há entre os dois uma comunhão total de vida e
de destino; significa, também, que Cristo é o centro à volta do qual o corpo se
articula, a partir do qual e em direção ao qual o corpo cresce, se orienta e
constrói, a origem e o fim desse corpo; significa, ainda, que a Igreja/corpo
está submetida à obediência a Cristo/cabeça: só de Cristo a Igreja depende e só
a Ele deve obediência. E dizer que a Igreja é a plenitude de Cristo significa
dizer que nela reside a plenitude, a totalidade de Cristo. Ela é o recetáculo,
a habitação, onde Cristo Se torna presente no Mundo; é através desse corpo,
onde reside, que Cristo continua, todos os dias, a realizar o seu projeto de
salvação em prol dos homens. Presente nesse corpo, Cristo enche o Mundo e atrai
a Si o universo inteiro, até que o próprio Cristo “seja tudo em todos”.
***
É,
portanto, justo e salutar que os crentes aclamem o Senhor da Ascensão e
realizem a missão que Ele lhes confiou, seguros de que Ele continua connosco.
Nunca deixará de ser o Deus-connosco.
“Ergue-Se
Deus, o Senhor, em júbilo e ao som da trombeta.”
“Povos
todos, batei palmas, / aclamai a Deus com brados de alegria, / porque o Senhor,
o Altíssimo, é terrível, / o Rei soberano de toda a terra.
“Deus
subiu entre aclamações, / o Senhor subiu ao som da trombeta. / Cantai hinos a
Deus, cantai, / cantai hinos ao nosso Rei, cantai.
“Deus
é Rei do universo: / cantai os hinos mais belos. / Deus reina sobre os povos, /
Deus está sentado no seu trono sagrado.”
***
“Aleluia.
Aleluia. Ide e ensinai todos os povos, diz o senhor: Eu estou sempre convosco
até ao fim dos tempos.”
2026.05.17
– Louro de Carvalho
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