Os
presidentes dos Estados Unidos da América (EUA), Donald Trump, e da China, Xi
Jinping, encerraram a cimeira bilateral, a 15 de maio, declarando terem logrado
progressos importantes na estabilização das relações entre os dois países, mas o
resultado pouco animador, para a administração norte-americana, traz à
realidade o inquilino da Casa Branca.
Xi
Jinping recebeu o seu homólogo dos EUA na sua residência oficial, Zhongnanhai,
para as conversações finais da cimeira, antes de o líder norte-americano
regressar a Washington. E, durante o chá e o almoço, os líderes das duas
maiores economias mundiais, estiveram reunidos, para quase três horas de
conversações, na presença de assessores de topo e de tradutores. “Foram
realmente uns dias fantásticos”, disse Trump aos jornalistas, enquanto se
sentava com Xi, antes do início da reunião com os assessores.
Xi,
por seu lado, classificou a visita como um “marco”. “Estabelecemos uma nova
relação bilateral, ou melhor, uma relação construtiva, estratégica e estável”, disse.
Donald
Trump falou de “acordos comerciais fantásticos”, mas não pormenorizou. “Esperemos
que a nossa relação com a China seja mais forte e melhor do que nunca”,
escreveu, na rede social Truth Social, frisando que Xi o tinha
felicitado “pelos inúmeros sucessos extraordinários alcançados num período de
tempo tão curto”.
Em
outubro de 2025, Washington concordou em reduzir as tarifas sobre todos os
produtos chineses, enquanto Pequim concordou em suspender as suas restrições às
exportações de terras raras. E, além do comércio, os dois líderes terão feito
progressos, no atinente à guerra no Irão. Xi disse a Trump que Pequim quer
ajudar a negociar o fim da guerra e a reabertura do Estreito de Ormuz, podendo
a forte dependência da China do petróleo iraniano ajudar a influenciar Teerão,
no sentido de chegar a acordo com Washington.
Segundo
a Casa Branca, “as duas partes concordaram que o Estreito de Ormuz deve
permanecer aberto para apoiar o livre fluxo de energia”. E Donald Trump
acrescentou que a China garantiu que não forneceria equipamento militar ao
Irão.
Entretanto,
Taiwan surgiu como um dos temas mais controversos da agenda, com Xi a alertar
os EUA de que as divergências sobre a ilha autónoma – que a China reivindica
como sua – poderiam conduzir a confrontos ou a conflitos.
Em
dezembro, Washington aprovou um pacote de armas no valor de 11 mil milhões de
dólares para Taiwan, cuja entrega ainda não avançou. E, no dia 14, o secretário
de Estado dos EUA, Marco Rubio, advertiu que seria “erro terrível” a China
tomar Taiwan pela força.
O
chefe da diplomacia norte-americana disse à emissora norte-americana NBC
News, no dia 14, que a política de Washington, em relação a Taiwan,
“permanece inalterada” e reiterou que seria “um erro terrível” a China recorrer
à força. E o ministro dos Negócios Estrangeiros taiwanês, Lin Chia‑lung,
agradeceu aos EUA pelo “apoio contínuo e pela valorização da paz e da
estabilidade no Estreito de Taiwan”.
Os
EUA são o maior apoiante não oficial de Taiwan e o principal fornecedor de
armas para a defesa da ilha. “Como membro responsável da comunidade
internacional, Taiwan continuará a reforçar as suas capacidades de autodefesa”,
afirmou Lin Chia‑lung.
Entretanto,
as tensões continuam elevadas no Estreito de Ormuz. Um navio ancorado nos
Emirados Árabes Unidos (EAU) foi apreendido e levado para águas
iranianas, enquanto um cargueiro de bandeira indiana se afundou perto da costa
de Omã, depois de ter sido atacado. Ainda não é claro quem está por detrás dos
incidentes, mas o Irão avisou, anteriormente, que apreenderia petroleiros invasores
ligados aos EUA. Em contraponto, os navios chineses começaram a atravessar o Estreito,
na sequência de um acordo sobre os protocolos de gestão iranianos para a
passagem.
Desde
o início da guerra com os EUA e com Israel, em 28 de fevereiro, o Irão tem
bloqueado, em grande medida, a navegação através do Estreito, que transporta
cerca de 20% do petróleo e do gás natural liquefeito (GNL) do Mundo. E, em
resposta, Washington impôs o bloqueio naval aos portos iranianos, apesar do
frágil cessar-fogo em vigor desde 8 de abril.
***
Após
ter criado grandes expetativas sobre viagem a Pequim, o presidente dos EUA partiu
com pouco para mostrar, desiludindo os investidores, e China não cedeu em
pontos críticos, como o Irão e Taiwan. A realidade de uma relação complexa e
difícil apanhou-o de surpresa. Tal inclui o facto de a China estar em vantagem,
neste momento. Do ponto de vista dos EUA, o resultado imediato da cimeira com o
presidente chinês foi escasso: nenhum grande avanço se conseguiu, apenas a
estabilização das relações e um amplo esforço para evitar que a rivalidade
entre as superpotências ficasse ainda mais fora de controlo. “Não se tem a
sensação de que se tenha conseguido muito. […] Trump não conseguiu nada
economicamente para si próprio, nem fez nada para o resto do Mundo”, disse
Helmut Brandstätter, deputado liberal do Parlamento Europeu (PE) da Áustria, bem
relacionado com diplomatas chineses.
No
período que antecedeu a cimeira, Trump deu a impressão de que, com a sua grande
comitiva de CEO norte-americanos de topo, lograria grandes contratos para a
economia americana, mas a China não se abriu às empresas dos EUA; e, embora Xi
Jinping tenha concordado em comprar 200 jatos da Boeing, esse número é muito
inferior aos 500 que Trump anunciara. Por conseguinte, os investidores nos EUA
ficaram desiludidos, com as ações da Boeing a caírem 4%, em Wall Street. Na
verdade, a grande encomenda da Boeing era um dos muitos negócios que se
esperava que saíssem das conversações, que foram acompanhadas de perto pela
empresa. Todavia, à despedida de Trump, este foi o único grande negócio
anunciado.
A
última encomenda do país à Boeing aconteceu na visita de Trump a Pequim, em
novembro de 2017, quando a China prometeu comprar 300 aviões da Boeing. Porém,
as relações entre os dois países azedaram e as encomendas da Boeing pela China
diminuíram.
De
acordo com as autoridades norte-americanas, ambas as partes concordaram em
vender produtos agrícolas, mas os pormenores eram escassos e não havia sinais
de avanço na venda de chips da Nvidia à China, apesar da dramática
adição de última hora do CEO Jensen Huang à viagem. Como nota positiva, ambas
as partes concordaram em trabalhar para preservar e alargar as frágeis “tréguas
comerciais” obtidas após a guerra tarifária de 2025. Discutiram mecanismos para
gerir futuras disputas tarifárias e controlos de exportação, em vez de permitirem
uma escalada imediata das tensões.
Para
os líderes União Europeia (UE), que observavam nervosamente a cimeira, o
resultado pouco animador devia ser motivo de alívio, já que nada foi dito que
marginalize economicamente a UE, segundo Ling Chen, professor associado da
Escola de Estudos Internacionais Avançados (SAIS) da Universidade Johns
Hopkins. “A UE não está economicamente marginalizada, porque é um parceiro
económico importante tanto para os EUA como para a China, especialmente, porque
as duas grandes potências competem estrategicamente. […] A UE é também um
mercado essencial para os produtos de energia verde da China”, considerou.
Embora
Trump e Xi possam ter estabilizado as relações económicas e comerciais, as
diferenças geopolíticas, em matéria de segurança mal foram ultrapassadas, pelo
menos, em público. Num banquete repleto de pompa, os dois elogiaram-se
mutuamente de forma generosa. Xi descreveu o encontro como uma “visita marcante”,
ao passo que Trump falou de um “ótimo par de dias” em que foram feitos “fantásticos
acordos comerciais”.
Não
obstante, os pontos de convergência ficaram por aqui. Pouco antes da última
reunião Trump-Xi, o ministro dos Negócios Estrangeiros da China emitiu uma
declaração contundente a vincar a sua frustração com a guerra dos EUA e de
Israel contra o Irão. “Este conflito, que nunca deveria ter acontecido, não tem
razão para continuar”, disse o chefe da diplomacia chinesa, sustentando que a
China estava a apoiar os esforços para se chegar a um acordo de paz numa guerra
que tinha afetado gravemente o fornecimento de energia e a economia global.
No
dia 14, Donald Trump, em entrevista à Fox News, revelou que Xi Jinping se
oferecera “para ajudar” a reabrir o Estreito de Ormuz e que se comprometera a
não enviar equipamento militar para o Irão, mas a parte chinesa não comentou.
Antes
da cimeira, Trump esperava que a China pressionasse o seu aliado iraniano a
encontrar solução para acabar com o conflito, mas isso não ainda se concretizou.
“É bem possível que os Chineses exerçam influência subtil sobre os Iranianos,
nas próximas semanas, mas é pouco provável que seja visível”, disse Ian Lesser,
membro do Fundo Marshall Alemão.
A
outra grande questão geopolítica, central para a política chinesa, é Taiwan –
tópico que a leitura norte-americana das conversações minimizou. Porém, os Chineses,
em comunicado, afirmaram que Xi Jinping sublinhou ao presidente Trump que a
questão de Taiwan é a questão mais importante nas relações entre a China e os EUA,
podendo levar a confrontos e mesmo a conflitos, se não for tratada corretamente
– uma advertência forte e sem precedentes. “A questão de Taiwan é o tema mais
importante nas relações entre a China e os EUA. Se for mal gerida, as duas
nações poderão entrar em confronto ou mesmo em conflito, levando toda a relação
entre a China e os EUA a uma situação altamente perigosa”, afirmou, segundo a
emissora estatal CCTV, o presidente chinês, o qual, ao falar de conflito,
utilizou um termo, em mandarim, que não significa necessariamente conflito
militar.
Há
muito que Taiwan, situada a 80 quilómetros da costa chinesa, é um ponto de
inflamação nas relações sino-americanas, com Pequim a recusar o recurso à força
militar para obter o controlo da ilha e os EUA obrigados, por lei, a
fornecer-lhe os meios de autodefesa.
O
secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, que fazia parte da delegação, tentou
mais tarde, minimizar o significado do aviso chinês sobre Taiwan. “A política dos EUA relativamente à questão
de Taiwan mantém-se inalterada, a partir de hoje. […] Os Chineses levantam
sempre a questão... nós deixamos sempre clara a nossa posição e seguimos em
frente”, afirmou à NBC News, pelo que recebeu o agradecimento do chefe
da diplomacia de Taiwan.
Outros compararam a postura de Pequim em relação a Taiwan a uma espécie de “shadow-boxing” (treino simulado sem adversário, com o atleta a executar movimentos, combinações de golpes, deslocamentos e técnicas defensivas imaginando luta real). Para Helmut Brandstätter, no atinente a Taiwan, a questão se a China arriscará ou não. “Enquanto os Chineses continuarem a comprar chips fabricados em Taiwan, não vão atacar. […] Os Taiwaneses estão muito bem equipados militarmente e seriam tudo menos presas fáceis para Pequim”, observou.
***
Trump
foi recebido por Xi, no tapete vermelho do Grande Salão do Povo, onde os dois
apertaram as mãos e teve lugar uma grande receção. O presidente dos EUA disse
ao líder chinês que as duas nações terão um “futuro fantástico juntas”. “É uma
honra estar convosco. É uma honra ser seu amigo, e a relação entre a China e os
EUA vai ser melhor do que nunca”, disse Trump a Xi Jinping, enquanto se reuniam
para conversações em Pequim.
Xi,
por seu lado, disse a Trump que as duas superpotências devem ser “parceiras e
não rivais”. “Uma relação estável entre a China e os EUA é um benefício para o Mundo.
A cooperação beneficia ambas as partes, enquanto o confronto prejudica ambas.
Devemos ser parceiros e não rivais”, declarou o anfitrião.
Uma
banda militar chinesa tocou os dois hinos nacionais enquanto os canhões
disparavam, antes de os dois líderes passarem pela guarda de honra militar e com
crianças a agitarem flores e pequenas bandeiras norte-americanas e chinesas,
cantando “bem-vindo, bem-vindo”.
Xi
também apertou as mãos de vários outros responsáveis norte-americanos,
incluindo o secretário da Defesa dos EUA, Pete Hegseth, e o secretário de
Estado Marco Rubio.
Após
a cerimónia de boas-vindas, os dois líderes entraram no Grande Salão do Povo
para iniciar as conversações bilaterais.
O
presidente dos EUA pretendia assinar acordos com a China para a compra de mais
produtos agrícolas e aviões, dizendo que falaria com Xi sobre comércio “mais do
que qualquer outra coisa”.
A
guerra comercial de Trump com Pequim fez com que o comércio entre os EUA e a
China entrasse em queda livre e obrigou as empresas de ambos os lados do
Pacífico a reagruparem-se.
O
líder dos EUA antecipara que teria “longa conversa” com Xi sobre o Irão, que
vende a maior parte do seu petróleo sancionado pelos EUA à China. Esperava-se
que Trump encorajasse a China a pressionar Teerão a fazer acordo com
Washington, apesar de o líder norte-americano ter insistido que não acha que os
EUA “precisem de qualquer ajuda de Pequim”, em relação ao Irão. E Xi Jinping
deveria abordar a decisão de Washington de vender armas a Taiwan, ilha autónoma
que a China reivindica como sua e que diz dever ficar sob o seu controlo.
A
visita a Pequim marca a primeira de um presidente dos EUA desde 2017, quando
Trump lá esteve, tendo levando Melania Trump, que não o acompanhou, desta vez. O
líder dos EUA, agora, foi acompanhado por vários CEO de topo na sua visita de
Estado.
A
agenda incluiu uma visita ao histórico Templo do Céu, Património Mundial da
Humanidade, onde os imperadores chineses rezavam em tempos para obter boas
colheitas, e um banquete de Estado no salão, ao fim da tarde.
Entretanto,
o líder da Casa Branca disse, nas redes sociais, que o presidente chinês referiu,
elegantemente, os EUA como “talvez uma nação em declínio”, mas que se referia
ao período da administração de Joe Biden.
Já
numa entrevista televisiva gravada pouco antes de deixar Pequim, Donald Trump
deixou um recado às autoridades de Taiwan: “Não queremos que alguém diga: ‘Vamos
declarar a independência porque os Estados Unidos da América nos apoiam’.”
“Não
quero que alguém declare a independência e, depois, tenhamos de viajar 15 mil
quilómetros para entrar em guerra”, disse o presidente norte-americano, de
acordo com um excerto transmitido pela Fox News.
Na
viagem de regresso aos EUA, Trump admitiu que não tinha tomado qualquer decisão
sobre a venda de armas ao governo da ilha, mas que Xi Jinping lhe afirmou ser
contrário à independência de Taiwan. “Ouvi-o. Não fiz qualquer comentário...
Não me comprometi com nada”, disse o líder norte-americano, frisando que
decidirá, em breve, sobre uma venda de armas pendente a Taiwan, depois de
falar com “a pessoa que está agora... a governar Taiwan”. Contudo, parece que o
inquilino da Casa Branca se referia ao presidente de Taiwan, Lai Ching-te.
***
Em
termos globais, a cimeira Pequim-Washington teve parcos resultados. Foi mais
parra do que uva. Contudo, aliviou o ar pesado nas relações entres as duas potências.
2026.05.15
– Louro de Carvalho
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