sábado, 16 de maio de 2026

EUA-China com estabilização das relações, mas sem grandes novidades

 

Os presidentes dos Estados Unidos da América (EUA), Donald Trump, e da China, Xi Jinping, encerraram a cimeira bilateral, a 15 de maio, declarando terem logrado progressos importantes na estabilização das relações entre os dois países, mas o resultado pouco animador, para a administração norte-americana, traz à realidade o inquilino da Casa Branca.

Xi Jinping recebeu o seu homólogo dos EUA na sua residência oficial, Zhongnanhai, para as conversações finais da cimeira, antes de o líder norte-americano regressar a Washington. E, durante o chá e o almoço, os líderes das duas maiores economias mundiais, estiveram reunidos, para quase três horas de conversações, na presença de assessores de topo e de tradutores. “Foram realmente uns dias fantásticos”, disse Trump aos jornalistas, enquanto se sentava com Xi, antes do início da reunião com os assessores.

Xi, por seu lado, classificou a visita como um “marco”. “Estabelecemos uma nova relação bilateral, ou melhor, uma relação construtiva, estratégica e estável”, disse.

Donald Trump falou de “acordos comerciais fantásticos”, mas não pormenorizou. “Esperemos que a nossa relação com a China seja mais forte e melhor do que nunca”, escreveu, na rede social Truth Social, frisando que Xi o tinha felicitado “pelos inúmeros sucessos extraordinários alcançados num período de tempo tão curto”.

Em outubro de 2025, Washington concordou em reduzir as tarifas sobre todos os produtos chineses, enquanto Pequim concordou em suspender as suas restrições às exportações de terras raras. E, além do comércio, os dois líderes terão feito progressos, no atinente à guerra no Irão. Xi disse a Trump que Pequim quer ajudar a negociar o fim da guerra e a reabertura do Estreito de Ormuz, podendo a forte dependência da China do petróleo iraniano ajudar a influenciar Teerão, no sentido de chegar a acordo com Washington.

Segundo a Casa Branca, “as duas partes concordaram que o Estreito de Ormuz deve permanecer aberto para apoiar o livre fluxo de energia”. E Donald Trump acrescentou que a China garantiu que não forneceria equipamento militar ao Irão.

Entretanto, Taiwan surgiu como um dos temas mais controversos da agenda, com Xi a alertar os EUA de que as divergências sobre a ilha autónoma – que a China reivindica como sua – poderiam conduzir a confrontos ou a conflitos.

Em dezembro, Washington aprovou um pacote de armas no valor de 11 mil milhões de dólares para Taiwan, cuja entrega ainda não avançou. E, no dia 14, o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, advertiu que seria “erro terrível” a China tomar Taiwan pela força.

O chefe da diplomacia norte-americana disse à emissora norte-americana NBC News, no dia 14, que a política de Washington, em relação a Taiwan, “permanece inalterada” e reiterou que seria “um erro terrível” a China recorrer à força. E o ministro dos Negócios Estrangeiros taiwanês, Lin Chia‑lung, agradeceu aos EUA pelo “apoio contínuo e pela valorização da paz e da estabilidade no Estreito de Taiwan”.

Os EUA são o maior apoiante não oficial de Taiwan e o principal fornecedor de armas para a defesa da ilha. “Como membro responsável da comunidade internacional, Taiwan continuará a reforçar as suas capacidades de autodefesa”, afirmou Lin Chia‑lung.

Entretanto, as tensões continuam elevadas no Estreito de Ormuz. Um navio ancorado nos Emirados Árabes Unidos (EAU) foi apreendido e levado para águas iranianas, enquanto um cargueiro de bandeira indiana se afundou perto da costa de Omã, depois de ter sido atacado. Ainda não é claro quem está por detrás dos incidentes, mas o Irão avisou, anteriormente, que apreenderia petroleiros invasores ligados aos EUA. Em contraponto, os navios chineses começaram a atravessar o Estreito, na sequência de um acordo sobre os protocolos de gestão iranianos para a passagem.

Desde o início da guerra com os EUA e com Israel, em 28 de fevereiro, o Irão tem bloqueado, em grande medida, a navegação através do Estreito, que transporta cerca de 20% do petróleo e do gás natural liquefeito (GNL) do Mundo. E, em resposta, Washington impôs o bloqueio naval aos portos iranianos, apesar do frágil cessar-fogo em vigor desde 8 de abril.

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Após ter criado grandes expetativas sobre viagem a Pequim, o presidente dos EUA partiu com pouco para mostrar, desiludindo os investidores, e China não cedeu em pontos críticos, como o Irão e Taiwan. A realidade de uma relação complexa e difícil apanhou-o de surpresa. Tal inclui o facto de a China estar em vantagem, neste momento. Do ponto de vista dos EUA, o resultado imediato da cimeira com o presidente chinês foi escasso: nenhum grande avanço se conseguiu, apenas a estabilização das relações e um amplo esforço para evitar que a rivalidade entre as superpotências ficasse ainda mais fora de controlo. “Não se tem a sensação de que se tenha conseguido muito. […] Trump não conseguiu nada economicamente para si próprio, nem fez nada para o resto do Mundo”, disse Helmut Brandstätter, deputado liberal do Parlamento Europeu (PE) da Áustria, bem relacionado com diplomatas chineses.

No período que antecedeu a cimeira, Trump deu a impressão de que, com a sua grande comitiva de CEO norte-americanos de topo, lograria grandes contratos para a economia americana, mas a China não se abriu às empresas dos EUA; e, embora Xi Jinping tenha concordado em comprar 200 jatos da Boeing, esse número é muito inferior aos 500 que Trump anunciara. Por conseguinte, os investidores nos EUA ficaram desiludidos, com as ações da Boeing a caírem 4%, em Wall Street. Na verdade, a grande encomenda da Boeing era um dos muitos negócios que se esperava que saíssem das conversações, que foram acompanhadas de perto pela empresa. Todavia, à despedida de Trump, este foi o único grande negócio anunciado.

A última encomenda do país à Boeing aconteceu na visita de Trump a Pequim, em novembro de 2017, quando a China prometeu comprar 300 aviões da Boeing. Porém, as relações entre os dois países azedaram e as encomendas da Boeing pela China diminuíram.

De acordo com as autoridades norte-americanas, ambas as partes concordaram em vender produtos agrícolas, mas os pormenores eram escassos e não havia sinais de avanço na venda de chips da Nvidia à China, apesar da dramática adição de última hora do CEO Jensen Huang à viagem. Como nota positiva, ambas as partes concordaram em trabalhar para preservar e alargar as frágeis “tréguas comerciais” obtidas após a guerra tarifária de 2025. Discutiram mecanismos para gerir futuras disputas tarifárias e controlos de exportação, em vez de permitirem uma escalada imediata das tensões.

Para os líderes União Europeia (UE), que observavam nervosamente a cimeira, o resultado pouco animador devia ser motivo de alívio, já que nada foi dito que marginalize economicamente a UE, segundo Ling Chen, professor associado da Escola de Estudos Internacionais Avançados (SAIS) da Universidade Johns Hopkins. “A UE não está economicamente marginalizada, porque é um parceiro económico importante tanto para os EUA como para a China, especialmente, porque as duas grandes potências competem estrategicamente. […] A UE é também um mercado essencial para os produtos de energia verde da China”, considerou.

Embora Trump e Xi possam ter estabilizado as relações económicas e comerciais, as diferenças geopolíticas, em matéria de segurança mal foram ultrapassadas, pelo menos, em público. Num banquete repleto de pompa, os dois elogiaram-se mutuamente de forma generosa. Xi descreveu o encontro como uma “visita marcante”, ao passo que Trump falou de um “ótimo par de dias” em que foram feitos “fantásticos acordos comerciais”.

Não obstante, os pontos de convergência ficaram por aqui. Pouco antes da última reunião Trump-Xi, o ministro dos Negócios Estrangeiros da China emitiu uma declaração contundente a vincar a sua frustração com a guerra dos EUA e de Israel contra o Irão. “Este conflito, que nunca deveria ter acontecido, não tem razão para continuar”, disse o chefe da diplomacia chinesa, sustentando que a China estava a apoiar os esforços para se chegar a um acordo de paz numa guerra que tinha afetado gravemente o fornecimento de energia e a economia global.

No dia 14, Donald Trump, em entrevista à Fox News, revelou que Xi Jinping se oferecera “para ajudar” a reabrir o Estreito de Ormuz e que se comprometera a não enviar equipamento militar para o Irão, mas a parte chinesa não comentou.

Antes da cimeira, Trump esperava que a China pressionasse o seu aliado iraniano a encontrar solução para acabar com o conflito, mas isso não ainda se concretizou. “É bem possível que os Chineses exerçam influência subtil sobre os Iranianos, nas próximas semanas, mas é pouco provável que seja visível”, disse Ian Lesser, membro do Fundo Marshall Alemão.

A outra grande questão geopolítica, central para a política chinesa, é Taiwan – tópico que a leitura norte-americana das conversações minimizou. Porém, os Chineses, em comunicado, afirmaram que Xi Jinping sublinhou ao presidente Trump que a questão de Taiwan é a questão mais importante nas relações entre a China e os EUA, podendo levar a confrontos e mesmo a conflitos, se não for tratada corretamente – uma advertência forte e sem precedentes. “A questão de Taiwan é o tema mais importante nas relações entre a China e os EUA. Se for mal gerida, as duas nações poderão entrar em confronto ou mesmo em conflito, levando toda a relação entre a China e os EUA a uma situação altamente perigosa”, afirmou, segundo a emissora estatal CCTV, o presidente chinês, o qual, ao falar de conflito, utilizou um termo, em mandarim, que não significa necessariamente conflito militar.

Há muito que Taiwan, situada a 80 quilómetros da costa chinesa, é um ponto de inflamação nas relações sino-americanas, com Pequim a recusar o recurso à força militar para obter o controlo da ilha e os EUA obrigados, por lei, a fornecer-lhe os meios de autodefesa.

O secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, que fazia parte da delegação, tentou mais tarde, minimizar o significado do aviso chinês sobre Taiwan.  “A política dos EUA relativamente à questão de Taiwan mantém-se inalterada, a partir de hoje. […] Os Chineses levantam sempre a questão... nós deixamos sempre clara a nossa posição e seguimos em frente”, afirmou à NBC News, pelo que recebeu o agradecimento do chefe da diplomacia de Taiwan.

Outros compararam a postura de Pequim em relação a Taiwan a uma espécie de “shadow-boxing” (treino simulado sem adversário, com o atleta a executar movimentos, combinações de golpes, deslocamentos e técnicas defensivas imaginando luta real). Para Helmut Brandstätter, no atinente a Taiwan, a questão se a China arriscará ou não. “Enquanto os Chineses continuarem a comprar chips fabricados em Taiwan, não vão atacar. […] Os Taiwaneses estão muito bem equipados militarmente e seriam tudo menos presas fáceis para Pequim”, observou.

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Trump foi recebido por Xi, no tapete vermelho do Grande Salão do Povo, onde os dois apertaram as mãos e teve lugar uma grande receção. O presidente dos EUA disse ao líder chinês que as duas nações terão um “futuro fantástico juntas”. “É uma honra estar convosco. É uma honra ser seu amigo, e a relação entre a China e os EUA vai ser melhor do que nunca”, disse Trump a Xi Jinping, enquanto se reuniam para conversações em Pequim.

Xi, por seu lado, disse a Trump que as duas superpotências devem ser “parceiras e não rivais”. “Uma relação estável entre a China e os EUA é um benefício para o Mundo. A cooperação beneficia ambas as partes, enquanto o confronto prejudica ambas. Devemos ser parceiros e não rivais”, declarou o anfitrião.

Uma banda militar chinesa tocou os dois hinos nacionais enquanto os canhões disparavam, antes de os dois líderes passarem pela guarda de honra militar e com crianças a agitarem flores e pequenas bandeiras norte-americanas e chinesas, cantando “bem-vindo, bem-vindo”.

Xi também apertou as mãos de vários outros responsáveis norte-americanos, incluindo o secretário da Defesa dos EUA, Pete Hegseth, e o secretário de Estado Marco Rubio.

Após a cerimónia de boas-vindas, os dois líderes entraram no Grande Salão do Povo para iniciar as conversações bilaterais.

O presidente dos EUA pretendia assinar acordos com a China para a compra de mais produtos agrícolas e aviões, dizendo que falaria com Xi sobre comércio “mais do que qualquer outra coisa”.

A guerra comercial de Trump com Pequim fez com que o comércio entre os EUA e a China entrasse em queda livre e obrigou as empresas de ambos os lados do Pacífico a reagruparem-se.

O líder dos EUA antecipara que teria “longa conversa” com Xi sobre o Irão, que vende a maior parte do seu petróleo sancionado pelos EUA à China. Esperava-se que Trump encorajasse a China a pressionar Teerão a fazer acordo com Washington, apesar de o líder norte-americano ter insistido que não acha que os EUA “precisem de qualquer ajuda de Pequim”, em relação ao Irão. E Xi Jinping deveria abordar a decisão de Washington de vender armas a Taiwan, ilha autónoma que a China reivindica como sua e que diz dever ficar sob o seu controlo.

A visita a Pequim marca a primeira de um presidente dos EUA desde 2017, quando Trump lá esteve, tendo levando Melania Trump, que não o acompanhou, desta vez. O líder dos EUA, agora, foi acompanhado por vários CEO de topo na sua visita de Estado.

A agenda incluiu uma visita ao histórico Templo do Céu, Património Mundial da Humanidade, onde os imperadores chineses rezavam em tempos para obter boas colheitas, e um banquete de Estado no salão, ao fim da tarde.

Entretanto, o líder da Casa Branca disse, nas redes sociais, que o presidente chinês referiu, elegantemente, os EUA como “talvez uma nação em declínio”, mas que se referia ao período da administração de Joe Biden.

Já numa entrevista televisiva gravada pouco antes de deixar Pequim, Donald Trump deixou um recado às autoridades de Taiwan: “Não queremos que alguém diga: ‘Vamos declarar a independência porque os Estados Unidos da América nos apoiam’.”

“Não quero que alguém declare a independência e, depois, tenhamos de viajar 15 mil quilómetros para entrar em guerra”, disse o presidente norte-americano, de acordo com um excerto transmitido pela Fox News.

Na viagem de regresso aos EUA, Trump admitiu que não tinha tomado qualquer decisão sobre a venda de armas ao governo da ilha, mas que Xi Jinping lhe afirmou ser contrário à independência de Taiwan. “Ouvi-o. Não fiz qualquer comentário... Não me comprometi com nada”, disse o líder norte-americano, frisando que decidirá, em breve, sobre uma venda de armas pendente a Taiwan, depois de falar com “a pessoa que está agora... a governar Taiwan”. Contudo, parece que o inquilino da Casa Branca se referia ao presidente de Taiwan, Lai Ching-te.

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Em termos globais, a cimeira Pequim-Washington teve parcos resultados. Foi mais parra do que uva. Contudo, aliviou o ar pesado nas relações entres as duas potências.

2026.05.15 – Louro de Carvalho

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