sábado, 16 de maio de 2026

“Aqui ninguém é estrangeiro. Aqui ninguém está sozinho.”

 

Em noite iluminada por milhares de velas, na peregrinação aniversária internacional de maio, em Fátima, os peregrinos foram desafiados a serem luz, num Mundo ferido, por D. Rui Valério, patriarca de Lisboa e presidente das celebrações, que lhes pediu que se tornem luz no Mundo. Porém, as asserções mais tocantes, vertidas em epígrafe, ficaram para o dia 13.

Nestes dois dias da primeira grande peregrinação de 2026, participaram nas celebrações 430 mil peregrinos, provenientes dos cinco continentes.

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Cerca de 250 mil peregrinos participaram nas celebrações do dia 12, no Santuário de Fátima. Na homilia da Celebração da Palavra, D. Rui Valério exortou os peregrinos a tornarem-se luz, num Mundo ferido pela guerra, pela violência, pela divisão e pela solidão, que precisa de luz interior. “Não basta acender uma vela. Não basta receber luz. É preciso tornar-se luz”, bradou o patriarca, apresentando como caminho de santidade e de conversão interior a prática diária do perdão, da reconciliação, da caridade concreta e da escuta paciente de quem sofre.

O metropolita lisbonense lembrou o contexto em que Nossa Senhora apareceu há 109 anos, na Cova da Iria, para fazer verificar a atualidade da mensagem de Fátima no Mundo atual. “Em Fátima, Nossa Senhora não aparece com estrondo, nem com imposição. Aparece como luz suave, como presença materna, como sinal de esperança. Ela vem ao encontro de um Mundo ferido – como o nosso – e traz uma mensagem simples e exigente: oração, penitência, conversão, confiança em Deus”, lembrou o patriarca de Lisboa.

 O presidente da peregrinação apresentou, depois, as velas acesas, na procissão das velas, como “uma imagem viva da Igreja”, que caminha junta, na diversidade. “Caminhamos guiados pela fé. Caminhamos com Maria. Esta procissão é um testemunho para o Mundo: a Igreja é um povo em caminho, que não desiste, que não se resigna, que continua a acreditar que a luz vence as trevas”, afirmou D. Rui Valério.

Na conclusão, o patriarca de Lisboa desafiou os peregrinos a meditarem sobre a forma como podem ser luz para o Mundo e pediu a intercessão de Nossa Senhora neste desafio de conversão interior. “Que luz preciso de reacender em mim? Que sombra preciso de entregar? Que ferida precisa de ser iluminada pela graça? Entreguemos a Maria as nossas noites: os medos, as dúvidas, os pecados, as feridas escondidas”, interpelou e exortou D. Rui Valério.

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A 13 de maio, o pano de fundo homilético foi a asserção patriarcal de que “Fátima não é um ponto de chegada”, mas “um ponto de envio”. Aliás, o cristianismo vive a dialética da aproximação ao centro – onde pontifica a Eucaristia, sacramento da comunhão, do amor e da unidade e sacrifício de Cristo – e o envio às periferias existenciais, incluindo as geográficas, as sociais e as religiosas,  

Neste 13 de maio, os peregrinos foram desafiados a concretizarem a experiência e a mensagem de Fátima para o Mundo. Ou seja, os peregrinos são chamados a ser luzeiros do Mundo e arautos da mensagem de Fátima, que tem óbvias raízes evangélicas. Para tanto, necessitam de ir ao santuário, seja ele o de Fátima, seja o da sua comunidade territorial, a paróquia e a cabeça da diocese. Porém, não podem ficar especados no santuário. Há que partir com luz e com ideias-força. Assim, pode dizer-se que Fátima foi apresentada pelo presidente desta peregrinação internacional aniversária como um “ponto de envio” a milhares de peregrinos reunidos no Recinto de Oração, que foram exortados a serem missionários.

“Não basta admirar Fátima. É preciso viver Fátima. Não basta acender uma vela. É preciso tornar-se luz. Não basta passar por este lugar. É preciso deixar que este lugar passe pela nossa vida. “Fátima não é um ponto de chegada. Fátima é um ponto de envio”, salientou o Patriarca de Lisboa, na homilia da missa, ao exortar a gestos concretos para assumir a missão pedida. “Partimos para levar esperança aos desanimados, partimos para levar reconciliação aonde há divisão, partimos para levar paz aonde há violência, partimos para levar luz aonde há trevas. Não tenhais medo de ser luz. Não tenhais medo de ser santos. Não tenhais medo de mostrar ao Mundo a beleza de Deus”, concretizou, em tom assertivo e exortativo.

D. Rui Valério perspetivou a paz mundial não apenas como um acordo político, mas como resultado de uma transformação pessoal e interior. “O cristão não leva ao Mundo apenas palavras. Leva uma luz recebida. Leva um coração transformado. Leva uma paz nascida da contemplação. Por isso, Fátima não é apenas um lugar de devoção. Fátima é uma escola de transformação interior. Aqui aprendemos que a Humanidade só reencontra o caminho, quando volta a levantar os olhos para Deus”, disse o presidente da celebração, ao lançar aos peregrinos o desafio de levarem a experiência de Fátima para o Mundo.

“Tudo aquilo que aqui vivemos – a oração, o silêncio, a conversão, a reconciliação, a comunhão – não pode permanecer encerrado nesta Cova da Iria. Tem de descer à vida. Tem de entrar nas nossas casas, nas nossas famílias, nas nossas cidades e aldeias, no nosso trabalho, nas nossas escolas e universidades, nas nossas relações, nas feridas e alegrias do quotidiano”.

No dia do nono aniversário da canonização dos Santos Pastorinhos, Rui Valério apontou para o exemplo dos irmãos santos Francisco Marto e Jacinta Marto, para lembrar que, “quando Deus encontra um coração disponível, uma pequena chama pode iluminar o Mundo inteiro”. E, ao admirar a multidão de peregrinos que encheu o Recinto de Oração, o Patriarca de Lisboa apelou à fraternidade como chave para a paz mundial. “Esta é uma das maiores profecias de Fátima para o nosso tempo: a Humanidade só encontrará paz, quando descobrir, novamente, que é família. Aqui ninguém é estrangeiro. Aqui ninguém está sozinho. Aqui todos somos filhos acolhidos pela mesma Mãe”, concluiu.

No momento de adoração eucarística, os doentes presentes na Cova da Iria e em casa foram os destinatários de uma palavra que apresentou Nossa Senhora como guia e refúgio, nos momentos de maior desânimo e sofrimento, e os santos Pastorinhos como exemplo de fé e de resiliência. “Como os santos Pastorinhos Francisco e Jacinta Marto, unamos o nosso sofrimento ao de Jesus na Cruz, pela paz, pela salvação do Mundo. Façamos da nossa fragilidade um lugar de encontro, assumamos como nossas as palavras confiantes de Lúcia, no seu diário: ‘Espero também na proteção do Imaculado Coração de Maria, que será sempre o meu refúgio, o meu guia, a minha força, a luz do meu caminho’”, lembrou a Irmã Inês Vasconcelos, da Congregação das Servas de Nossa Senhora de Fátima.

Na palavra final, o bispo de Leiria-Fátima, D. José Ornelas, agradeceu a presença de D. Rui Valério e reforçou o apelo à fraternidade deixado pelo presidente da peregrinação. “Que o Coração de Maria transforme o nosso coração. Com Ela e como Ela levemos às nossas casas, às nossas comunidades cristãs, à Igreja e ao Mundo a mensagem de Fátima, mensagem da Mãe que cuida de todos, que não distingue nacionais e estrangeiros, para construir um Mundo mais humano, marcado pelo amor de Jesus, na justiça, na fraternidade e na paz”, disse o prelado do Lis e anfitrião de tantos milhares de peregrinos.

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Na Eucaristia deste 13 de maio, dia em que passaram 45 anos sobre o atentado à vida do Papa São João Paulo II, foi usado o cálice que o santo polaco ofereceu ao Santuário de Fátima.

Em Roma, após ter rezado no local do atentado, na Praça de São Pedro, o Papa Leão XIV lembrou a festa litúrgica da Virgem Santa Maria do Rosário de Fátima, durante a audiência geral de quarta-feira. Na saudação aos fiéis de língua portuguesa, o Santo Padre apontou o olhar para a Cova da Iria, onde já decorria a recitação do Rosário, na Capelinha das Aparições. Disse o Santo Padre: “Saúdo os fiéis de língua portuguesa: Neste dia, festa litúrgica da Virgem Santa Maria de Fátima, dirigimos o nosso olhar para o Santuário, onde Nossa Senhora entregou aos três Pastorinhos uma mensagem de paz. Naquele lugar, tão querido a todos os cristãos, encontram-se, hoje, numerosos peregrinos, oriundos dos cinco continentes: a sua presença é sinal da necessidade de consolação, de unidade e de esperança dos homens do nosso tempo. Confiemos ao Imaculado Coração de Maria o clamor de paz e concórdia que se eleva de todas as partes do Mundo, especialmente, dos povos afligidos pela guerra. Para todos vós, a minha bênção!”

O Sumo Pontífice dedicou a sua catequese da audiência geral a Maria, enfatizando sua “concretude histórica” como uma jovem chamada a viver uma experiência extraordinária. À Virgem o Papa confiou o “clamor pela paz” dos povos afligidos pela guerra.

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Na procissão e na missa internacional aniversária da peregrinação, foi usada uma nova cruz processional com as respetivas lanternas. A nova cruz tem a particularidade de ser adornada com um disco que vai sendo alterado, consoante o tempo litúrgico.

“Se, no Tempo Comum, o resplendor se assume como metáfora do tempo, à maneira de um mostrador solar, no tempo do Advento, no Natal, na Quaresma e na Páscoa convocará as figuras e imagens bíblicas que a Igreja também convoca para dizer o Evangelho de Cristo: José, Maria grávida, João Batista e os Profetas (Advento); Maria, o Anjo e os Pastores, a estrela e os Magos (Natal); Maria e João no Calvário (Quaresma); Madalena, as chamas do Pentecostes e as flores da festa (Páscoa)”, explica a memória descritiva.

As peças litúrgicas, criadas pela artista plástica Sílvia Patrício, com programa iconográfico de Marco Daniel Duarte, foram concebidas em latão fundido e recortado e em madeira torneada, e têm cerca de 2,5 metros de altura. Nas lanternas, as linhas decorativas, mais que um mero ornamento, servem para reforçar o significado da chama, evocando a luz que os peregrinos de Fátima carregam nas vigílias de oração e nas suas próprias vidas. O movimento dinâmico dessas linhas inspira-se nos raios do sol, dando às lanternas o sentido de elevação e de vida nova que nasce do Batismo.

Também na celebração da Eucaristia, D. Rui Valério apresentou-se paramentado com uma casula de bordado de Castelo Branco, oferecida ao Santuário por um grupo de peregrinos. Segundo a memória descritiva da casula, os motivos bordados foram inspirados no Salmo 44 (45): “Com um manto multicolor é apresentada ao Rei”, da liturgia do dia 13. O manto multicolor evoca “o jardim das origens, o novo Éden que adorna a nova Eva, a Esposa de Cristo, a Igreja”. Nesse manto, “Maria representa a flor mais bela, consubstanciando em si a primavera da Igreja”.

De acordo com o documento, a expressão visual dos bordados evoca, por representação visual metafórica, a diversidade de virtudes, a graça e a santidade, encontradas em Maria, Mãe e imagem da Igreja.

A memória descritiva refere que “o dia 13 de maio ocorre em tempo Pascal”. De forma detalhada e particular, menciona que, “no cimo da casula, encontra-se a Árvore da Vida coroada com o diadema real, repleta de flores, folhas e frutos”, símbolo da “fecundidade de Maria, a Mãe da nova Humanidade, nascida da Páscoa de Cristo onde nos tornamos filhos de uma só Mãe, figura e imagem da Igreja, já coroada de glória, com o diadema real a coroar a árvore, que aqui evoca a azinheira das aparições”.

Em tom mais conclusivo, sublinha que “é este o mistério de Cristo celebrado em Fátima, a vivência da fé em comunidade, onde o centro e cume de cada peregrinação é a Eucaristia” e a casula é paramento daquele que “preside, em nome e na pessoa de Cristo, à celebração do mistério Pascal, do povo reunido em festa como num grande Cenáculo com Maria Mãe de Jesus”.

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A afirmação de Rui Valério “Aqui, ninguém é estrangeiro” tocou o coração de muitas pessoas e mereceu titular uma crónica de Luís Osório, escritor, jornalista e cronista, no Diário de Notícias (DN), a 14 de maio.

Lembra o cronista que o pai, dizendo que “era ateu graças a Deus”, seguia sempre pela televisão a procissão das velas. Ao invés, a mãe, devota de Nossa Senhora, na noite do nascimento de Luís Osório, rezara à Virgem e sonhara “com o bebé que tinha na barriga”. Uma vez acordada, tranquilizou médicos e enfermeiras de que a criança “estava bem”, quando eles duvidavam do êxito do parto.

Diz o cronista que sempre ouviu esta narrativa que lhe apraz contar, talvez “por saudades da mulher que arriscou a sua vida” para que ele existisse.

Não faz ideia se Maria apareceu às três crianças – aliás, “as aparições não são dogma para a Igreja” –, mas considera Fátima “um milagre”, que “há qualquer de especial, naquele lugar, uma energia que não parece ser daqui”. E relata que, da última vez em que lá esteve, escreveu perguntas no seu bloco de notas. “Onde começa a humanidade? Onde começa o que somos? Que sopro nos anima? O que realmente importa? Que perguntas não conhecemos? Que palavras estão por inventar? Onde acaba o que acaba? E Deus? Em que parte de nós adormece? Tudo começa, quando achamos que termina?”

Confessa que foi isto que escreveu, “mas sem o talento de acertar na frase certa, a que ontem, em Fátima, foi dita por Rui Valério, Patriarca de Lisboa”: “Aqui, ninguém é estrangeiro.” E, conclui: “Por vezes, basta isto: a simplicidade de uma frase que tudo diz, que é inquestionável para quem acredita que somos mais do que os nossos miseráveis e terrenos instintos.”

Carla Oliveira, uma das seguidoras do jornalista no Facebook, comentou assim: “Ali ninguém é estrangeiro, porque o colo de uma mãe acolhe um filho, sem estranheza. Ninguém é estranho, no colo de sua mãe. Fátima é isto: o colo de uma MÃE que acolhe cada um dos seus filhos. E não, não há quem determine quem são esses filhos, se os intelectuais, se os humildes, se os espirituais, se os religiosos, se os religiosos assim assim... Todos os que procuram o colo de uma mãe encontram-no em Fátima. Sem questões e sem julgamentos, simplesmente o melhor colo que podemos ter, colo da MÃE. Ninguém é estrangeiro ao colo de sua MÃE! Obrigada a D. Rui Valério, pela tradução do amor de mãe que se encontra em Fátima.”

E um dos seus seguidores, Rui Almeida, sustenta que “quem vai a Fátima, mesmo não sendo crente (e muitos vão, mesmo de outras religiões) sente ali algo de especial”.

Segundo o seu testemunho, ele que é crente (“embora as aparições não sejam um dogma de fé”), quando lá vai, sente “uma paz, uma tranquilidade e uma força” que não sente em muitos lados. E confessa: “E vou lá, só porque sinto isso, sinto-me bem… não vou cumprir promessas. Há mais de cem anos que é assim. Cada um que tire as suas ilações. Há ali uma mistura de fé e de piedade popular que não é fácil descrever. Aconselho mesmo a quem não tem fé que faça essa experiência; até recomendo uma visita num sábado, fora das grandes datas.”

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Em suma, Fátima prossegue a sua marcha eclesial, tocando os corações de muita gente. Porém, como diz Lurdes Nobre, outra das seguidoras, “bem pode o patriarca dizer as frases que quiser, mas, se gente que se diz da igreja, que vai à missa ao domingo, que é filmada a rezar, depois apregoa coisas contra os estrangeiros e o padre da paróquia [e os demais crentes] que frequenta não os repreendem e os fazem ser humanistas (sic), esta frase é conversa para boi dormir”.

Com efeito, o sentido do acolhimento, da inclusão de todos e do testemunho deve ser obra em todas as comunidades paroquiais e similares.

2026.05.16 – Louro de Carvalho

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