A
13.ª sessão do Fórum Urbano Mundial (WUF13), que decorreu em Baku, no Azerbaijão,
de 17 a 24 de maio, terminou com superlativos – e com um respingo – que
ressaltou como o WUF cresceu ao longo de quase um quarto de século, de raízes
humildes a um encontro que galvanizou um movimento global. E contou com uma participação
recorde, sendo de destacar o empenho, sem precedentes, das partes interessadas.
Com efeito, estiveram presentes mais de duas dúzias de líderes mundiais, entre 130
representantes de diversos países. Foi criado um prémio novo e foi proporcionado
um mergulho no mar.
Os
participantes continuaram a entrar no Estádio Olímpico de Baku, no dia do
encerramento, elevando a participação total para mais de 57 mil participantes
(incluindo, pelo menos, três mil online) de 176 países. Os números fazem
do WUF13 o maior de sempre, na História de 24 anos do evento, superando até os
números na conferência Habitat III, uma vez, por cada geração, em Quito, no Equador,
em 2016. O Fórum deste ano também alcançou a paridade de género, com mais de
55% dos participantes identificados como mulheres e meninas.
“Nós
reunimo-nos num momento em que a crise imobiliária global atingiu uma escala
sem precedentes, afetando mil milhões de pessoas, através de pressões de
acessibilidade, de deslocação, de informalidade, de vulnerabilidade climática e
de condições de declínio de danos”, disse Anacláudia Rossbach,
diretora-executiva da ONU-Habitat – agência da Organização das Nações Unidas (ONU)
dedicada a promover o desenvolvimento urbano sustentável e o direito à
habitação adequada –, que enfatizou: “As discussões, aqui, em Baku, reforçaram
a mensagem clara: a habitação deve ser colocada no centro da política urbana
integrada, ligando terra, infraestrutura, ação climática, finanças e
governança.”
Paralelamente,
o Azerbaijão declarou 2026 o “Ano de Planeamento e Arquitetura Urbana”. E, à
medida que o WUF13 se aproximava do fim, tornava-se patente que o seu legado
continuará vivo. O Prémio Baku Urban será o único prémio internacional
oficialmente entregue dentro do quadro estrutural do Fórum Urbano Mundial.
Homenageará iniciativas que promovam e concretizem soluções urbanas avançadas
nos domínios do desenvolvimento urbano sustentável e da habitação adequada. Como
o Fórum, pretende servir como um mecanismo internacional que apoie o avanço, a
longo prazo, da agenda urbana global.
O
arquiteto vencedor do Prémio Pritzker, Sir Richard Foster, que servirá no júri
inaugural, declarou: “Resolver problemas globais, como mudanças climáticas e
desigualdade depende diretamente das políticas implementadas dentro das cidades.”
***
A
este respeito, uma peça jornalística de Nadira Tudor, intitulada “A cruzada de
Richard Gere e da esposa pelo direito à habitação”, publicada pela Euronews,
a 30 de maio, dá conta de uma entrevista de Richard Gere a esta rede de
estações televisivas de informação pan-europeia, vincando que o WUF13 não se
centrou nas passadeiras vermelhas e nas estreias de filmes, mas na projeção de
um documentário sobre os sem-abrigo, em que foi o protagonista Latyr Thioye (cidadão
senegalês, ex-funcionário da Comissão Europeia, que superou quatro anos de
sem-abrigo), antigo utilizador da HOGAR SÍ, programa criado pelo ícone de
Hollywood, Richard Gere, e pela sua esposa, a filantropa Alejandra.
O
casal está envolvido, há mais de 10 anos, na campanha para erradicar os
sem-abrigo, na Espanha e noutros países, através da organização não governamental
(ONG) “HOGAR SÍ”. E Richard Gere, falando com a Euronews à margem do
Fórum Urbano Mundial, em Baku, no Azerbaijão, explicou porque é tão apaixonado
por defender a ONU-Habitat e o seu envolvimento com o HOGAR SÍ. “A minha
motivação para trabalhar com o HOGAR SÍ deriva de uma convicção pessoal: os
sem-abrigo não são inevitáveis – são uma injustiça social que pode ser
resolvida através de uma mudança profunda na compreensão e na abordagem”, declarou.
Os
dois puderam acompanhar o desenvolvimento e o progresso da ONG e, em 2024, juntaram-se
ao seu conselho de administração. E Richard Gere revelou que tomou conhecimento
da organização, através da sua mulher, e observou que a HOGAR SÍ é “rigorosa e
altamente empenhada, centrada no respeito pelos direitos humanos e pela
dignidade, e orientada por soluções baseadas em provas”, mas que, ao mesmo
tempo, aplica a metodologia “Housing First” (Habitação em primeiro lugar).
O
entrevistado acredita, firmemente, que a habitação é a porta de entrada para
todos os outros direitos. Sem casa segura, não há saúde, nem educação, nem
emprego estável. E, como enfatiza, “quando essa porta se fecha, o ciclo de
exclusão torna-se quase impossível de quebrar”. Por isso, o casal está
determinado a chamar a atenção internacional para, na sua ótica, um dos
principais desafios humanitários que as cidades modernas enfrentam: os
sem-abrigo.
No
WUF, 10 minutos do documentário de uma hora foram apresentados pela UN-Habitat,
sob o tema “Habitar o Mundo: cidades e comunidades seguras e resilientes”.
O
envolvimento com a ONU começou de forma bastante natural, porquanto Richard
Gere já trabalhava em questões atinentes aos direitos humanos, à dignidade e ao
desenvolvimento social, tendo percebido que a ONU “é um fórum fundamental para
levar certas questões ao palco global e para influenciar as políticas públicas”,
fazendo a diferença.
A
estrela de Hollywood relevou que, desde o início, se sentiu alinhada com a
abordagem multilateral da ONU e com a ideia de que grandes desafios, como a
falta de habitação ou a desigualdade urbana, só podem ser enfrentados pela
cooperação internacional e pela vontade política de mudar as coisas. Falou dos
projetos da ONU em que trabalhou, que se destacam e que tiveram impacto real, e
disse que as áreas atinentes à habitação, à coesão social e aos refugiados têm
sido iniciativas de longo prazo centradas em dar maior visibilidade às
comunidades marginalizadas. “Gostaria de destacar as iniciativas ligadas à
UN-Habitat e à Agenda 2030, em que o enfoque nas cidades inclusivas permitiu a
partilha de melhores práticas e demonstrou que é possível acabar com a situação
de sem-abrigo, quando o acesso à habitação é priorizado como ponto de partida,
e não como recompensa final”, sublinhou.
Richard
Gere partilhou a sua opinião sobre Baku, a cidade anfitriã do WUF13, e sobre
quão essencial é uma plataforma, como o WUF, para repensar o futuro das nossas
cidades numa fase crítica. “A sua realização em Baku é uma oportunidade
altamente significativa. As cidades são palco tanto dos maiores desafios
sociais como das soluções mais inovadoras, e este fórum reúne vozes políticas,
sociais e técnicas, em torno de um objetivo comum: criar ambientes urbanos mais
justos, sustentáveis e inclusivos”, explicitou, sustentando que “é essencial
que a situação dos sem-abrigo faça parte desta conversa, porque não pode haver
cidades de sucesso, enquanto houver pessoas a viver nas ruas”.
Quanto
ao significado da realização do WUF13 no Azerbaijão, considera que se trata de “um
passo importante para uma perspetiva verdadeiramente global e diversificada dos
desafios urbanos”, pois cada contexto traz realidades diferentes e lições
valiosas, sendo a descentralização destes espaços de debate “fundamental para
evitar perspetivas unilaterais”. Ao mesmo tempo, na sua ótica, a realização do
fórum em Baku envia a mensagem clara de que “os direitos humanos, a habitação e
a inclusão social não são uma questão regional, mas uma responsabilidade
partilhada por toda a comunidade internacional”.
O
seu envolvimento vem da Fundação Gere e da HOGAR SÍ, organização espanhola que
trabalha para acabar com o problema dos sem-abrigo, através de soluções de
habitação a longo prazo e de iniciativas sociais. E, como aponta a jornalista, isso
tem desempenhado papel importante na sua vida, paralelamente à sua carreira de
ator, que culminou em décadas de advocacia ligada aos direitos humanos, às
comunidades vulneráveis e aos refugiados.
Também
as suas experiências pessoais o levaram a comprometer-se com os sem-abrigo,
pois, como recorda, há alguns anos, durante as filmagens do seu filme “Time Out
of Mind”, fez o papel de um sem-abrigo. “Andei pelas ruas de Nova Iorque, sem
que ninguém me reconhecesse. E senti algo que nunca tinha experimentado:
indiferença, invisibilidade, isolamento. Essa experiência teve um efeito
profundo em mim”, confessou, explicitando: “Ao longo dos anos, tive muitas
conversas com pessoas que vivem nas ruas, até mesmo com alguém com quem
trabalhei num filme, há alguns anos. Ao ouvir histórias de vidas marcadas pela
perda, [pela] solidão, [pelo] desespero e [pela] doença, apercebi-me de que, se
não tivermos uma rede de apoio forte (família ou amigos), qualquer um de nós
pode acabar nessa situação.”
Nadira
Tudor salienta que a longevidade da carreira de Richard Gere é impressionante, sendo
poucas as pessoas que não conhecem o seu trabalho. Contudo, tem dedicado, posteriormente,
considerável parte do seu tempo a causas humanitárias e a ajudar os mais
necessitados. “Não houve um único momento decisivo, mas um percurso pessoal. […]
Com o tempo, compreendi que o verdadeiro significado de uma vida humana reside
em estar ao serviço daqueles que não podem ser vistos ou ouvidos”, explicou.
A
Fundação Gere trabalha em colaboração com a UN-Habitat e no centro está a HOGAR
SÍ – que defende que os sem-abrigo não devem ser status quo aceite ou
condição social permanente e que as respostas temporárias de emergência não
devem ser a única solução.
Voltando
ao WUF, Richard Gere desempenhou um papel importante através de um documentário
intitulado “What Nobody Wants To See” (“O que ninguém quer ver”),
que fez parte do programa Urban Cinema, cuja premissa é explorar as tensões
entre realidades da vida na cidade que são, frequentemente, ignoradas ou não
vistas. A associação da Fundação Gere e a UN-Habitat reflete o crescendo entre
ativismo, diplomacia global e cultura, em que as celebridades apoiam, há muito,
causas humanitárias. No entanto, grandes eventos, como o WUF13, estão a
utilizar, cada vez mais, figuras públicas para transmitir e para reforçar as
suas mensagens.
Questionado
sobre o futuro do HOGAR SÍ, Richard Gere disse olhar o futuro com “esperança e
convicção”, porque “é uma organização forte, com uma estratégia clara e [com] a
coragem de identificar e [de] exigir mudanças estruturais, mesmo quando essas
mudanças não são fáceis ou incómodas”. Está convicto de que o HOGAR SÍ
continuará a desempenhar papel fundamental na Espanha e a nível europeu.
Acredita que isto mostra que “o problema dos sem-abrigo pode ser resolvido, se
for abordado através de abordagens baseadas em provas, colaboração
institucional e respeito pela dignidade humana”. E considera que “erradicar o
problema dos sem-abrigo, na Espanha, nos próximos anos, é possível”, pois, como
acentua, trata-se de “cerca de 37 mil pessoas, em todo o país, que precisam de
uma nova oportunidade, de um lar”.
Como
sublinha a jornalista, uma das mensagens da 13.ª edição WUF é a mesma de Gere: “A
habitação não é só uma questão de tijolos e de argamassa. Tem a ver com a
necessidade humana do sentimento de pertença e de ter um sítio seguro a que
todos possam chamar casa.”
***
A
força dos números mostra a importância do WUF. De acordo com a ONU-Habitat, que
apela à ação sobre a “crise global” da habitação, pelo menos, três mil milhões
de pessoas não têm casa adequada e mais de mil milhões vivem em bairros de lata
e em assentamentos informais (sobretudo, na Ásia e na África), podendo três mil
milhões de pessoas passar a viver em bairros de lata, até 2050 (aumento de três
vezes), se não os decisores não intervierem.
O
WUF, realizado de dois em dois anos e organizado pela UN-Habitat, é uma das
plataformas mais importantes para debater o futuro das cidades, a habitação e a
resiliência urbana, tendo o tema de 2026 sido “Habitar o Mundo: Cidades e
comunidades seguras e resilientes”.
Anna
Soave, chefe do escritório nacional da ONU-Habitat no Azerbaijão, disse que,
enquanto o WUF13 se preparava para receber delegados de todo o Mundo, a questão
da habitação era “cada vez mais entendida como inseparável do futuro das nossas
cidades, da resiliência climática, da prosperidade socioeconómica e da
qualidade de vida”. E sublinhava a importância do evento, por oferecer uma
plataforma “onde governos, autarcas, planeadores urbanos, universidades,
empresas, sociedade civil e comunidades podem discutir e trocar soluções
práticas sobre como construir cidades mais seguras, mais resilientes e mais
inclusivas”, visto que a escala da crise habitacional é cada vez mais vista
como económica, política e ambiental, e não apenas como uma situação
humanitária.
Na
verdade, o Mundo atingiu um ponto de viragem em 2009, quando os habitantes das
cidades passaram a constituir a maioria da população mundial. Por conseguinte, as
cidades têm vindo a enfrentar crescente pressão para melhor acomodarem o
crescimento demográfico, a migração, as alterações climáticas e o aumento do
custo de vida. Segundo as estimativas da ONU-Habitat, um em cada cinco
agregados familiares, a nível mundial, gasta mais de 40% do seu rendimento em
habitação, tendo os custos de habitação quadruplicado, desde 2010. Os números
mostram que mais de 300 milhões de pessoas estão sem abrigo, no Mundo e que
mais de 100 milhões de pessoas estão deslocadas, devido a conflitos, a instabilidade
e a crises conexas com o clima. E a pandemia de covid-19 aumentou a pressão, levando
à reformulação do pensamento nacional em torno da política de habitação e, mais
uma vez, unindo os pontos entre saúde pública, a resiliência económica e a habitação.
A
ONU respondeu a estes desafios colocando a habitação e o desenvolvimento urbano
no centro da sua agenda de desenvolvimento sustentável – o Objetivo de
Desenvolvimento Sustentável (ODS) 11 visa tornar as cidades inclusivas,
seguras, resilientes e sustentáveis. O Azerbaijão tem feito esforços
significativos para promover o redesenvolvimento urbano e a modernização das infraestruturas
como uma estratégia de longo prazo. E sediar o WUF13 em Baku foi o ensejo para
o país se posicionar no diálogo internacional sobre reconstrução, sobre desenvolvimento
urbano, sobre redesenvolvimento e sobre sustentabilidade no setor.
Criado
pela Assembleia Geral da ONU em 2001, com a UN-Habitat, o WUF realiza-se em
cidade diferente, de dois em dois anos. A 1.ª edição ocorreu em Nairobi (Quénia),
em 2002, com cerca de 1200 participantes. As cidades anfitriãs seguintes foram
Barcelona (Espanha), Vancouver (Canadá), Nanjing (China), Rio de Janeiro (Brasil),
Nápoles (Itália), Medellín (Colômbia), Quito (Equador), Kuala Lumpur (Malásia),
Abu Dhabi (Emirados Árabes Unidos), Katowice (Polónia) e Cairo (Egito).
Para
os analistas, o foco na habitação, em 2026, reflete o reconhecimento crescente
de que o acesso a uma habitação segura e a preços acessíveis está a tornar-se
fundamental para a estabilidade económica e para a coesão social, a longo
prazo.
***
Contudo,
em países ditos desenvolvidos, incluindo Portugal (que usa e abusa), a habitação,
em vez de responder às necessidades da população, é objeto de mercantilização e
de especulação imobiliária, como se fosse um objeto de luxo, acessível apenas a
grandes bolsas. E muitas pessoas lutam ingloriamente por habitação adquirida ou
arrendada. Até quando?
2026.05.30
– Louro de Carvalho
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