sábado, 30 de maio de 2026

WUF13: poderoso apelo à ação sobre a crise imobiliária global

 

A 13.ª sessão do Fórum Urbano Mundial (WUF13), que decorreu em Baku, no Azerbaijão, de 17 a 24 de maio, terminou com superlativos – e com um respingo – que ressaltou como o WUF cresceu ao longo de quase um quarto de século, de raízes humildes a um encontro que galvanizou um movimento global. E contou com uma participação recorde, sendo de destacar o empenho, sem precedentes, das partes interessadas. Com efeito, estiveram presentes mais de duas dúzias de líderes mundiais, entre 130 representantes de diversos países. Foi criado um prémio novo e foi proporcionado um mergulho no mar.

Os participantes continuaram a entrar no Estádio Olímpico de Baku, no dia do encerramento, elevando a participação total para mais de 57 mil participantes (incluindo, pelo menos, três mil online) de 176 países. Os números fazem do WUF13 o maior de sempre, na História de 24 anos do evento, superando até os números na conferência Habitat III, uma vez, por cada geração, em Quito, no Equador, em 2016. O Fórum deste ano também alcançou a paridade de género, com mais de 55% dos participantes identificados como mulheres e meninas.

“Nós reunimo-nos num momento em que a crise imobiliária global atingiu uma escala sem precedentes, afetando mil milhões de pessoas, através de pressões de acessibilidade, de deslocação, de informalidade, de vulnerabilidade climática e de condições de declínio de danos”, disse Anacláudia Rossbach, diretora-executiva da ONU-Habitat – agência da Organização das Nações Unidas (ONU) dedicada a promover o desenvolvimento urbano sustentável e o direito à habitação adequada –, que enfatizou: “As discussões, aqui, em Baku, reforçaram a mensagem clara: a habitação deve ser colocada no centro da política urbana integrada, ligando terra, infraestrutura, ação climática, finanças e governança.”

Paralelamente, o Azerbaijão declarou 2026 o “Ano de Planeamento e Arquitetura Urbana”. E, à medida que o WUF13 se aproximava do fim, tornava-se patente que o seu legado continuará vivo. O Prémio Baku Urban será o único prémio internacional oficialmente entregue dentro do quadro estrutural do Fórum Urbano Mundial. Homenageará iniciativas que promovam e concretizem soluções urbanas avançadas nos domínios do desenvolvimento urbano sustentável e da habitação adequada. Como o Fórum, pretende servir como um mecanismo internacional que apoie o avanço, a longo prazo, da agenda urbana global.

O arquiteto vencedor do Prémio Pritzker, Sir Richard Foster, que servirá no júri inaugural, declarou: “Resolver problemas globais, como mudanças climáticas e desigualdade depende diretamente das políticas implementadas dentro das cidades.”

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A este respeito, uma peça jornalística de Nadira Tudor, intitulada “A cruzada de Richard Gere e da esposa pelo direito à habitação”, publicada pela Euronews, a 30 de maio, dá conta de uma entrevista de Richard Gere a esta rede de estações televisivas de informação pan-europeia, vincando que o WUF13 não se centrou nas passadeiras vermelhas e nas estreias de filmes, mas na projeção de um documentário sobre os sem-abrigo, em que foi o protagonista Latyr Thioye (cidadão senegalês, ex-funcionário da Comissão Europeia, que superou quatro anos de sem-abrigo), antigo utilizador da HOGAR SÍ, programa criado pelo ícone de Hollywood, Richard Gere, e pela sua esposa, a filantropa Alejandra.

O casal está envolvido, há mais de 10 anos, na campanha para erradicar os sem-abrigo, na Espanha e noutros países, através da organização não governamental (ONG) “HOGAR SÍ”. E Richard Gere, falando com a Euronews à margem do Fórum Urbano Mundial, em Baku, no Azerbaijão, explicou porque é tão apaixonado por defender a ONU-Habitat e o seu envolvimento com o HOGAR SÍ. “A minha motivação para trabalhar com o HOGAR SÍ deriva de uma convicção pessoal: os sem-abrigo não são inevitáveis – são uma injustiça social que pode ser resolvida através de uma mudança profunda na compreensão e na abordagem”, declarou.

Os dois puderam acompanhar o desenvolvimento e o progresso da ONG e, em 2024, juntaram-se ao seu conselho de administração. E Richard Gere revelou que tomou conhecimento da organização, através da sua mulher, e observou que a HOGAR SÍ é “rigorosa e altamente empenhada, centrada no respeito pelos direitos humanos e pela dignidade, e orientada por soluções baseadas em provas”, mas que, ao mesmo tempo, aplica a metodologia “Housing First” (Habitação em primeiro lugar).

O entrevistado acredita, firmemente, que a habitação é a porta de entrada para todos os outros direitos. Sem casa segura, não há saúde, nem educação, nem emprego estável. E, como enfatiza, “quando essa porta se fecha, o ciclo de exclusão torna-se quase impossível de quebrar”. Por isso, o casal está determinado a chamar a atenção internacional para, na sua ótica, um dos principais desafios humanitários que as cidades modernas enfrentam: os sem-abrigo.

No WUF, 10 minutos do documentário de uma hora foram apresentados pela UN-Habitat, sob o tema “Habitar o Mundo: cidades e comunidades seguras e resilientes”.

O envolvimento com a ONU começou de forma bastante natural, porquanto Richard Gere já trabalhava em questões atinentes aos direitos humanos, à dignidade e ao desenvolvimento social, tendo percebido que a ONU “é um fórum fundamental para levar certas questões ao palco global e para influenciar as políticas públicas”, fazendo a diferença.

A estrela de Hollywood relevou que, desde o início, se sentiu alinhada com a abordagem multilateral da ONU e com a ideia de que grandes desafios, como a falta de habitação ou a desigualdade urbana, só podem ser enfrentados pela cooperação internacional e pela vontade política de mudar as coisas. Falou dos projetos da ONU em que trabalhou, que se destacam e que tiveram impacto real, e disse que as áreas atinentes à habitação, à coesão social e aos refugiados têm sido iniciativas de longo prazo centradas em dar maior visibilidade às comunidades marginalizadas. “Gostaria de destacar as iniciativas ligadas à UN-Habitat e à Agenda 2030, em que o enfoque nas cidades inclusivas permitiu a partilha de melhores práticas e demonstrou que é possível acabar com a situação de sem-abrigo, quando o acesso à habitação é priorizado como ponto de partida, e não como recompensa final”, sublinhou.

Richard Gere partilhou a sua opinião sobre Baku, a cidade anfitriã do WUF13, e sobre quão essencial é uma plataforma, como o WUF, para repensar o futuro das nossas cidades numa fase crítica. “A sua realização em Baku é uma oportunidade altamente significativa. As cidades são palco tanto dos maiores desafios sociais como das soluções mais inovadoras, e este fórum reúne vozes políticas, sociais e técnicas, em torno de um objetivo comum: criar ambientes urbanos mais justos, sustentáveis e inclusivos”, explicitou, sustentando que “é essencial que a situação dos sem-abrigo faça parte desta conversa, porque não pode haver cidades de sucesso, enquanto houver pessoas a viver nas ruas”.

Quanto ao significado da realização do WUF13 no Azerbaijão, considera que se trata de “um passo importante para uma perspetiva verdadeiramente global e diversificada dos desafios urbanos”, pois cada contexto traz realidades diferentes e lições valiosas, sendo a descentralização destes espaços de debate “fundamental para evitar perspetivas unilaterais”. Ao mesmo tempo, na sua ótica, a realização do fórum em Baku envia a mensagem clara de que “os direitos humanos, a habitação e a inclusão social não são uma questão regional, mas uma responsabilidade partilhada por toda a comunidade internacional”.

O seu envolvimento vem da Fundação Gere e da HOGAR SÍ, organização espanhola que trabalha para acabar com o problema dos sem-abrigo, através de soluções de habitação a longo prazo e de iniciativas sociais. E, como aponta a jornalista, isso tem desempenhado papel importante na sua vida, paralelamente à sua carreira de ator, que culminou em décadas de advocacia ligada aos direitos humanos, às comunidades vulneráveis e aos refugiados.

Também as suas experiências pessoais o levaram a comprometer-se com os sem-abrigo, pois, como recorda, há alguns anos, durante as filmagens do seu filme “Time Out of Mind”, fez o papel de um sem-abrigo. “Andei pelas ruas de Nova Iorque, sem que ninguém me reconhecesse. E senti algo que nunca tinha experimentado: indiferença, invisibilidade, isolamento. Essa experiência teve um efeito profundo em mim”, confessou, explicitando: “Ao longo dos anos, tive muitas conversas com pessoas que vivem nas ruas, até mesmo com alguém com quem trabalhei num filme, há alguns anos. Ao ouvir histórias de vidas marcadas pela perda, [pela] solidão, [pelo] desespero e [pela] doença, apercebi-me de que, se não tivermos uma rede de apoio forte (família ou amigos), qualquer um de nós pode acabar nessa situação.”

Nadira Tudor salienta que a longevidade da carreira de Richard Gere é impressionante, sendo poucas as pessoas que não conhecem o seu trabalho. Contudo, tem dedicado, posteriormente, considerável parte do seu tempo a causas humanitárias e a ajudar os mais necessitados. “Não houve um único momento decisivo, mas um percurso pessoal. […] Com o tempo, compreendi que o verdadeiro significado de uma vida humana reside em estar ao serviço daqueles que não podem ser vistos ou ouvidos”, explicou.

A Fundação Gere trabalha em colaboração com a UN-Habitat e no centro está a HOGAR SÍ – que defende que os sem-abrigo não devem ser status quo aceite ou condição social permanente e que as respostas temporárias de emergência não devem ser a única solução.

Voltando ao WUF, Richard Gere desempenhou um papel importante através de um documentário intitulado “What Nobody Wants To See” (“O que ninguém quer ver”), que fez parte do programa Urban Cinema, cuja premissa é explorar as tensões entre realidades da vida na cidade que são, frequentemente, ignoradas ou não vistas. A associação da Fundação Gere e a UN-Habitat reflete o crescendo entre ativismo, diplomacia global e cultura, em que as celebridades apoiam, há muito, causas humanitárias. No entanto, grandes eventos, como o WUF13, estão a utilizar, cada vez mais, figuras públicas para transmitir e para reforçar as suas mensagens.

Questionado sobre o futuro do HOGAR SÍ, Richard Gere disse olhar o futuro com “esperança e convicção”, porque “é uma organização forte, com uma estratégia clara e [com] a coragem de identificar e [de] exigir mudanças estruturais, mesmo quando essas mudanças não são fáceis ou incómodas”. Está convicto de que o HOGAR SÍ continuará a desempenhar papel fundamental na Espanha e a nível europeu. Acredita que isto mostra que “o problema dos sem-abrigo pode ser resolvido, se for abordado através de abordagens baseadas em provas, colaboração institucional e respeito pela dignidade humana”. E considera que “erradicar o problema dos sem-abrigo, na Espanha, nos próximos anos, é possível”, pois, como acentua, trata-se de “cerca de 37 mil pessoas, em todo o país, que precisam de uma nova oportunidade, de um lar”.

Como sublinha a jornalista, uma das mensagens da 13.ª edição WUF é a mesma de Gere: “A habitação não é só uma questão de tijolos e de argamassa. Tem a ver com a necessidade humana do sentimento de pertença e de ter um sítio seguro a que todos possam chamar casa.”

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A força dos números mostra a importância do WUF. De acordo com a ONU-Habitat, que apela à ação sobre a “crise global” da habitação, pelo menos, três mil milhões de pessoas não têm casa adequada e mais de mil milhões vivem em bairros de lata e em assentamentos informais (sobretudo, na Ásia e na África), podendo três mil milhões de pessoas passar a viver em bairros de lata, até 2050 (aumento de três vezes), se não os decisores não intervierem.

O WUF, realizado de dois em dois anos e organizado pela UN-Habitat, é uma das plataformas mais importantes para debater o futuro das cidades, a habitação e a resiliência urbana, tendo o tema de 2026 sido “Habitar o Mundo: Cidades e comunidades seguras e resilientes”.

Anna Soave, chefe do escritório nacional da ONU-Habitat no Azerbaijão, disse que, enquanto o WUF13 se preparava para receber delegados de todo o Mundo, a questão da habitação era “cada vez mais entendida como inseparável do futuro das nossas cidades, da resiliência climática, da prosperidade socioeconómica e da qualidade de vida”. E sublinhava a importância do evento, por oferecer uma plataforma “onde governos, autarcas, planeadores urbanos, universidades, empresas, sociedade civil e comunidades podem discutir e trocar soluções práticas sobre como construir cidades mais seguras, mais resilientes e mais inclusivas”, visto que a escala da crise habitacional é cada vez mais vista como económica, política e ambiental, e não apenas como uma situação humanitária.

Na verdade, o Mundo atingiu um ponto de viragem em 2009, quando os habitantes das cidades passaram a constituir a maioria da população mundial. Por conseguinte, as cidades têm vindo a enfrentar crescente pressão para melhor acomodarem o crescimento demográfico, a migração, as alterações climáticas e o aumento do custo de vida. Segundo as estimativas da ONU-Habitat, um em cada cinco agregados familiares, a nível mundial, gasta mais de 40% do seu rendimento em habitação, tendo os custos de habitação quadruplicado, desde 2010. Os números mostram que mais de 300 milhões de pessoas estão sem abrigo, no Mundo e que mais de 100 milhões de pessoas estão deslocadas, devido a conflitos, a instabilidade e a crises conexas com o clima. E a pandemia de covid-19 aumentou a pressão, levando à reformulação do pensamento nacional em torno da política de habitação e, mais uma vez, unindo os pontos entre saúde pública, a resiliência económica e a habitação.

A ONU respondeu a estes desafios colocando a habitação e o desenvolvimento urbano no centro da sua agenda de desenvolvimento sustentável – o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) 11 visa tornar as cidades inclusivas, seguras, resilientes e sustentáveis. O Azerbaijão tem feito esforços significativos para promover o redesenvolvimento urbano e a modernização das infraestruturas como uma estratégia de longo prazo. E sediar o WUF13 em Baku foi o ensejo para o país se posicionar no diálogo internacional sobre reconstrução, sobre desenvolvimento urbano, sobre redesenvolvimento e sobre sustentabilidade no setor.

Criado pela Assembleia Geral da ONU em 2001, com a UN-Habitat, o WUF realiza-se em cidade diferente, de dois em dois anos. A 1.ª edição ocorreu em Nairobi (Quénia), em 2002, com cerca de 1200 participantes. As cidades anfitriãs seguintes foram Barcelona (Espanha), Vancouver (Canadá), Nanjing (China), Rio de Janeiro (Brasil), Nápoles (Itália), Medellín (Colômbia), Quito (Equador), Kuala Lumpur (Malásia), Abu Dhabi (Emirados Árabes Unidos), Katowice (Polónia) e Cairo (Egito).

Para os analistas, o foco na habitação, em 2026, reflete o reconhecimento crescente de que o acesso a uma habitação segura e a preços acessíveis está a tornar-se fundamental para a estabilidade económica e para a coesão social, a longo prazo.

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Contudo, em países ditos desenvolvidos, incluindo Portugal (que usa e abusa), a habitação, em vez de responder às necessidades da população, é objeto de mercantilização e de especulação imobiliária, como se fosse um objeto de luxo, acessível apenas a grandes bolsas. E muitas pessoas lutam ingloriamente por habitação adquirida ou arrendada. Até quando?

2026.05.30 – Louro de Carvalho

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