No
último domingo da Páscoa, Solenidade do Pentecostes, no Ano A, sobressai o
Espírito Santo, o dom de Deus a todos os crentes, o Espírito dá vida, que renova,
transforma, constrói e guia a comunidade eclesial e faz nascer o Homem Novo.
***
Na
primeira leitura (At 2,1-11), Lucas releva que a lei nova do Espírito, que
orienta a caminhada dos crentes. É o Espírito faz a nova comunidade do Povo de
Deus, levando a que os homens sejam capazes de ultrapassar as suas diferenças e
comunicar e unindo numa mesma comunidade de amor, povos de todas as raças e
culturas.
O
livro dos Atos não é reportagem jornalística de acontecimentos
históricos, mas é uma peça literária que ajuda os cristãos – desiludidos por o
“Reino” não chegar – a redescobrirem o seu papel e a tomarem consciência do
compromisso que assumiram no batismo.
Não
há dúvidas de que o trecho em apreço, que relata os acontecimentos do dia do
Pentecostes, é construção de Lucas com intenção teológica, recorrendo, para a
sua catequese, às imagens, aos símbolos, às metáforas, enfim, à linguagem
poética. Resta-nos a tarefa de descodificar os símbolos, para chegarmos à
interpelação da catequese primitiva que nos chega pela pena do também evangelista.
A interpretação literal do relato seria uma boa forma de passarmos ao lado do
essencial; far-nos-ia reparar na roupagem exterior, ignorando o fundamental.
Ora, o interesse fundamental de Lucas é apresentar a Igreja como a comunidade
que nasce de Jesus, que é assistida pelo Espírito e que é chamada a testemunhar
aos homens o desígnio do Pai.
Antes
de mais, Lucas coloca a experiência do Espírito no dia de Pentecostes, que era
uma festa judaica, celebrada 50 dias após a Páscoa. Originariamente, era uma
festa agrícola, na qual se agradecia a Deus a colheita da cevada e do trigo;
mas, no século I, tornou-se a festa histórica de celebração a aliança, do dom
da Lei no Sinai e da constituição do Povo de Deus. Ao situar neste dia o dom do
Espírito, o autor dos Atos sugere que o Espírito é a lei da nova aliança (pois
é Ele que, no tempo da Igreja, dinamiza a vida dos crentes) e que, por Ele, se
constitui a nova comunidade do Povo de Deus – a comunidade messiânica, que
viverá da lei inscrita, pelo Espírito, no coração de cada discípulo e na
consciência eclesial.
Vem,
depois, a narrativa da manifestação do Espírito, que é apresentado como “a
força de Deus”, através de dois símbolos: o vento de tempestade e o fogo. São
os símbolos da revelação de Deus no Sinai, quando Deus deu ao Povo a Lei e
constituiu Israel como Povo de Deus, que evocam a força irresistível de Deus,
que vem ao encontro do homem, comunica com o homem e que, dando ao homem o
Espírito, constitui a comunidade eclesial.
O
Espírito (força de Deus) é apresentado em forma de língua de fogo. Ora, a
língua não é só a expressão da identidade cultural de um grupo humano, mas é
também a maneira de comunicar, de estabelecer laços duradouros entre as
pessoas, de criar comunidade. “Falar outras línguas” é criar relações, é
superar o gueto, o egoísmo, a divisão, o racismo, a marginalização. É o novo Pentecostes
a antítese de Babel. Babel evidencia a escolha, pelos homens do orgulho, da
ambição desmedida que induziu o desentendimento e a separação; no Pentecostes,
regressa-se à unidade, à relação, à construção da comunidade capaz do diálogo,
do entendimento, da comunicação. É o surgimento de uma Humanidade unida pela
partilha da mesma experiência interior, fonte de liberdade, de comunhão, de
amor. A comunidade messiânica é a comunidade onde a ação de Deus (pelo
Espírito) modifica totalmente as relações humanas, levando à partilha, ao amor.
É
neste enquadramento que devemos entender os efeitos da manifestação do
Espírito: todos “os ouviam proclamar na sua própria língua as maravilhas de
Deus”. O elenco dos povos convocados e unidos pelo Espírito atinge
representantes de todo o Mundo conhecido, ao tempo, desde a Mesopotâmia,
passando por Canaã, pela Ásia Menor, pelo Norte de África, até Roma: a todos chega
a proposta libertadora de Jesus, que faz de todos os povos uma comunidade de
amor e de partilha. A comunidade de Jesus é capacitada pelo Espírito para criar
a nova Humanidade, a antítese de Babel. A possibilidade de ouvir na própria
língua “as maravilhas de Deus” é a comunicação do Evangelho, que gera a
comunidade universal. Sem deixarem a sua cultura e as suas diferenças, todos os
povos escutarão a proposta de Jesus e terão a possibilidade de integrar a
comunidade da salvação, onde se fala a mesma língua e onde todos podem
experimentar o amor, e a comunhão que tornam irmãos povos tão diferentes. O
essencial é a experiência do amor que, no respeito pela liberdade e pelas
diferenças, une todas as nações da Terra.
O
Pentecostes dos Atos, a página programática da Igreja, anuncia o
resultado da ação das testemunhas de Jesus: a Humanidade nova, a antítese de Babel,
nascida da ação do Espírito, onde todos são capazes de comunicar e de se
relacionarem como irmãos, porque o Espírito reside no coração de todos como lei
suprema e como fonte de amor e de liberdade.
***
O
Evangelho (Jo 20,19-23) apresenta a comunidade cristã embrionária,
reunida à volta de Jesus ressuscitado. Para João, esta comunidade passa a ser
uma comunidade viva, recriada, nova, a partir do dom do Espírito. É o Espírito
que permite aos crentes superar o medo e as limitações e testemunhar, no Mundo do
amor que Jesus viveu até às últimas consequências.
O
trecho em causa (proclamado no segundo domingo da Páscoa) situa-nos no
cenáculo, no dia da ressurreição, e mostra a comunidade da nova aliança,
nascida da ação criadora e vivificadora do Messias. Porém, esta comunidade, surpreendida
pela aparição de Cristo ressuscitado, ainda não tomou consciência das
implicações da ressurreição. É uma comunidade fechada, insegura, com medo. Precisa
de fazer a experiência do Espírito, para estar preparada para assumir a sua
missão, no Mundo, e testemunhar o projeto libertador de Jesus.
Nos
Atos, Lucas narra a descida do Espírito sobre os discípulos no dia do
Pentecostes, por razões teológicas, para fazer coincidir a descida do Espírito
com a festa judaica do dom da Lei e da constituição do Povo de Deus. Ao invés,
João situa-a no anoitecer do dia de Páscoa.
João
começa por relevar a situação da comunidade. O “anoitecer”, as “portas
fechadas”, o “medo” são o quadro ilustrativo da situação da comunidade
desamparada num ambiente hostil e, portanto, desorientada e insegura. É uma
comunidade que perdeu as suas referências e a sua identidade e que não sabe a
que se agarrar.
Entretanto,
Jesus aparece “no meio deles”. O evangelista indica, deste modo, que os
discípulos, experienciando o encontro com o Ressuscitado, redescobriram o seu
centro, o ponto de referência, a coordenada fundamental à volta do qual a
comunidade se constrói e toma consciência da sua identidade. A comunidade
cristã só existe, se estiver centrada em Jesus ressuscitado.
Jesus
saúda-os, desejando-lhes “a paz” (“shalom”, em hebraico). A “paz” é um dom
messiânico e significa, sobretudo, a transmissão da serenidade, da
tranquilidade, da confiança que permitirão aos discípulos superar o medo e a
insegurança: doravante, nem o sofrimento, nem a morte, nem a hostilidade do Mundo
poderão derrotar os discípulos, porque Jesus está no meio deles.
Depois,
Jesus “mostrou-lhes as mãos e o lado”, os “sinais” que evocam a entrega de
Jesus, o amor total expresso na cruz. É neles que os discípulos reconhecem
Jesus. É Ele o que fora crucificado, e não outro. O facto de esses “sinais”
permanecerem no ressuscitado indica que Jesus será, de forma permanente, o
Messias cujo amor se derramará sobre os discípulos e cuja entrega alimentará a
comunidade.
Vem,
depois, a comunicação do Espírito. O gesto de Jesus de soprar sobre os
discípulos reproduz o gesto de Deus ao comunicar a vida ao homem de argila
(João utiliza o verbo do texto grego de Gn 2,7). Com o “sopro” de Deus
de Gn 2,7, o homem tornou-se um ser vivente; com este sopro, Jesus transmite
aos discípulos a vida nova e faz nascer o Homem Novo. Agora, os discípulos
possuem a vida em plenitude e estão capacitados – como Jesus – para fazerem da
sua vida um dom de amor aos homens. Animados pelo Espírito, formam a comunidade
da nova aliança e são chamados a testemunhar, em gestos e em palavras, o amor
de Jesus.
Por
fim, Jesus explicita qual a missão dos discípular: a eliminação do pecado. As suas
palavras não significam que os discípulos possam ou não – conforme os seus
interesses ou a sua disposição – perdoar os pecados. Significam, apenas, que os
discípulos são chamados a testemunhar, no Mundo, a vida que o Pai quer oferecer
a todos. Quem a aceitar será integrado na comunidade de Jesus; quem não a
aceitar, continuará a percorrer caminhos de egoísmo e de morte (isto é, de
pecado). A comunidade, animada pelo Espírito, é a mediadora da oferta de
salvação.
É
de lamentar o facto de alguns confessores fazerem questão de negar a absolvição
por não compreenderem a fragilidade humana, argumentando com a autoridade do
4.º Evangelho.
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Na
segunda leitura (1Cor 12,3b-7.12-13), o Apóstolo das Gentes avisa que o
Espírito é a fonte de onde brota a vida da comunidade cristã. É Ele que concede
os dons (carismas) que enriquecem a comunidade e que fomenta a unidade de todos
os membros. Por isso, esses dons não podem ser usados para benefício pessoal,
mas devem ser postos ao serviço de todos.
A
comunidade cristã de Corinto era viva e fervorosa, mas não era exemplar, no atinente
à vivência do amor e da fraternidade: os partidos, as divisões, as contendas e
rivalidades perturbavam a comunhão e constituíam um contratestemunho. As
questões à volta dos carismas (dons especiais concedidos pelo Espírito a
determinadas pessoas ou grupos para proveito de todos) faziam-se sentir com grande
acuidade: os detentores dos carismas consideravam-se os “escolhidos” de Deus,
apresentavam-se como “iluminados” e assumiam, com frequência, atitudes de
autoritarismo e de prepotência, que não favoreciam a fraternidade e a
liberdade; e os que não tinham sido dotados destes dons eram desprezados e
desclassificados, considerados quase como “cristãos de segunda”, sem vez nem
voz, na comunidade.
Paulo
não pode ignorar a situação. Por conseguinte, na 1.ª Carta aos Coríntios,
corrige, admoesta, aconselha, mostra a incoerência destes comportamentos,
incompatíveis com o Evangelho.
Em
primeiro lugar, o apóstolo sustenta que é preciso saber ajuizar da validade dos
dons carismáticos, para que não se fale em “carismas” a propósito de
comportamentos que pretendem garantir os privilégios de certas figuras. Segundo
Paulo, o verdadeiro carisma é o que leva a confessar que “Jesus é o Senhor”
(pois não pode haver oposição entre Cristo e o Espírito) e que é útil para o
bem da comunidade.
É
necessário que os membros da comunidade tenham consciência de que, apesar da
diversidade de dons espirituais, é o mesmo Espírito que atua em todos; que
apesar da diversidade de funções, é o mesmo Senhor Jesus que está presente em
todos; que, apesar da diversidade de ações, é o mesmo Deus que age em todos.
Não há, pois, “cristãos de primeira” e “cristãos de segunda”. O importante é
que os dons do Espírito resultem no bem de todos e sejam usados, não para
melhorar a própria posição ou o próprio ego, mas para o bem de toda a
comunidade.
O
apóstolo conclui, comparando a comunidade cristã a um corpo com muitos membros.
Apesar da diversidade de membros e de funções, o corpo é um só. Em todos os
membros circula a mesma vida, pois todos foram batizados num só Espírito e beberam
um único Espírito.
O
Espírito é, pois, apresentado como Aquele que alimenta e que dá vida ao “corpo
de Cristo”. Assim, Ele fomenta a coesão, dinamiza a fraternidade e é o
responsável pela unidade dos diversos membros que formam a comunidade.
***
Perante
esta mensagem, os crentes são instados a implorar o envio do Espírito Santo e a
bendizer o Senhor pelas suas obras:
“Mandai,
Senhor, o vosso Espírito / e renovai a Terra.”
“Bendiz,
ó minha alma, o Senhor. / Senhor, meu Deus, como sois grande! / Como são
grandes, Senhor, as vossas obras! / A Terra está cheia das vossas criaturas.
“Se
lhes tirais o alento, morrem / e voltam ao pó donde vieram. / Se mandais o
vosso espírito, retomam a vida / e renovais a face da terra.
***
A
Sequência da Missa do Pentecostes – um poema que se lê ou canta a seguir à
segunda leitura – é uma prece ao Espírito Santo que, ao mesmo tempo, O
carateriza em prol dos homens:
“Vinde, ó santo Espírito, / vinde, Amor ardente, /
acendei na terra / vossa luz fulgente.
“Vinde, Pai dos pobres: / na dor e aflições, / vinde
encher de gozo / nossos corações.
Benfeitor supremo, / em todo o momento, / habitando em
nós, / sois o nosso alento.
“Descanso na luta / e na paz encanto, / no calor sois
brisa, / conforto no pranto.
“Luz de santidade, / que no Céu ardeis, / abrasai as
almas / dos vossos fiéis.
“Sem a vossa força / e favor clemente, / nada há no
homem / que seja inocente.
“Lavai nossas manchas, / a aridez regai, /sarai os
enfermos / e a todos salvai.
“Abrandai durezas / para os caminhantes, / animai os
tristes, / guiai os errantes.
“Vossos sete dons / concedei à alma / do que em Vós
confia:
“Virtude na vida, / amparo na morte, / no Céu alegria.
***
Em Aleluia, insiste-se na prece:
“Aleluia.
Aleluia.”
“Vinde,
Espírito Santo, enchei os corações dos vossos fiéis / e acendei neles o fogo do
vosso amor.”
2026.05.24
– Louro de Carvalho
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