segunda-feira, 25 de maio de 2026

O dom do Espírito transforma o homem e faz a unidade na diversidade

 

 

No último domingo da Páscoa, Solenidade do Pentecostes, no Ano A, sobressai o Espírito Santo, o dom de Deus a todos os crentes, o Espírito dá vida, que renova, transforma, constrói e guia a comunidade eclesial e faz nascer o Homem Novo.

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Na primeira leitura (At 2,1-11), Lucas releva que a lei nova do Espírito, que orienta a caminhada dos crentes. É o Espírito faz a nova comunidade do Povo de Deus, levando a que os homens sejam capazes de ultrapassar as suas diferenças e comunicar e unindo numa mesma comunidade de amor, povos de todas as raças e culturas.

O livro dos Atos não é reportagem jornalística de acontecimentos históricos, mas é uma peça literária que ajuda os cristãos – desiludidos por o “Reino” não chegar – a redescobrirem o seu papel e a tomarem consciência do compromisso que assumiram no batismo.

Não há dúvidas de que o trecho em apreço, que relata os acontecimentos do dia do Pentecostes, é construção de Lucas com intenção teológica, recorrendo, para a sua catequese, às imagens, aos símbolos, às metáforas, enfim, à linguagem poética. Resta-nos a tarefa de descodificar os símbolos, para chegarmos à interpelação da catequese primitiva que nos chega pela pena do também evangelista. A interpretação literal do relato seria uma boa forma de passarmos ao lado do essencial; far-nos-ia reparar na roupagem exterior, ignorando o fundamental. Ora, o interesse fundamental de Lucas é apresentar a Igreja como a comunidade que nasce de Jesus, que é assistida pelo Espírito e que é chamada a testemunhar aos homens o desígnio do Pai.

Antes de mais, Lucas coloca a experiência do Espírito no dia de Pentecostes, que era uma festa judaica, celebrada 50 dias após a Páscoa. Originariamente, era uma festa agrícola, na qual se agradecia a Deus a colheita da cevada e do trigo; mas, no século I, tornou-se a festa histórica de celebração a aliança, do dom da Lei no Sinai e da constituição do Povo de Deus. Ao situar neste dia o dom do Espírito, o autor dos Atos sugere que o Espírito é a lei da nova aliança (pois é Ele que, no tempo da Igreja, dinamiza a vida dos crentes) e que, por Ele, se constitui a nova comunidade do Povo de Deus – a comunidade messiânica, que viverá da lei inscrita, pelo Espírito, no coração de cada discípulo e na consciência eclesial.

Vem, depois, a narrativa da manifestação do Espírito, que é apresentado como “a força de Deus”, através de dois símbolos: o vento de tempestade e o fogo. São os símbolos da revelação de Deus no Sinai, quando Deus deu ao Povo a Lei e constituiu Israel como Povo de Deus, que evocam a força irresistível de Deus, que vem ao encontro do homem, comunica com o homem e que, dando ao homem o Espírito, constitui a comunidade eclesial.

O Espírito (força de Deus) é apresentado em forma de língua de fogo. Ora, a língua não é só a expressão da identidade cultural de um grupo humano, mas é também a maneira de comunicar, de estabelecer laços duradouros entre as pessoas, de criar comunidade. “Falar outras línguas” é criar relações, é superar o gueto, o egoísmo, a divisão, o racismo, a marginalização. É o novo Pentecostes a antítese de Babel. Babel evidencia a escolha, pelos homens do orgulho, da ambição desmedida que induziu o desentendimento e a separação; no Pentecostes, regressa-se à unidade, à relação, à construção da comunidade capaz do diálogo, do entendimento, da comunicação. É o surgimento de uma Humanidade unida pela partilha da mesma experiência interior, fonte de liberdade, de comunhão, de amor. A comunidade messiânica é a comunidade onde a ação de Deus (pelo Espírito) modifica totalmente as relações humanas, levando à partilha, ao amor.

É neste enquadramento que devemos entender os efeitos da manifestação do Espírito: todos “os ouviam proclamar na sua própria língua as maravilhas de Deus”. O elenco dos povos convocados e unidos pelo Espírito atinge representantes de todo o Mundo conhecido, ao tempo, desde a Mesopotâmia, passando por Canaã, pela Ásia Menor, pelo Norte de África, até Roma: a todos chega a proposta libertadora de Jesus, que faz de todos os povos uma comunidade de amor e de partilha. A comunidade de Jesus é capacitada pelo Espírito para criar a nova Humanidade, a antítese de Babel. A possibilidade de ouvir na própria língua “as maravilhas de Deus” é a comunicação do Evangelho, que gera a comunidade universal. Sem deixarem a sua cultura e as suas diferenças, todos os povos escutarão a proposta de Jesus e terão a possibilidade de integrar a comunidade da salvação, onde se fala a mesma língua e onde todos podem experimentar o amor, e a comunhão que tornam irmãos povos tão diferentes. O essencial é a experiência do amor que, no respeito pela liberdade e pelas diferenças, une todas as nações da Terra.

O Pentecostes dos Atos, a página programática da Igreja, anuncia o resultado da ação das testemunhas de Jesus: a Humanidade nova, a antítese de Babel, nascida da ação do Espírito, onde todos são capazes de comunicar e de se relacionarem como irmãos, porque o Espírito reside no coração de todos como lei suprema e como fonte de amor e de liberdade.

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O Evangelho (Jo 20,19-23) apresenta a comunidade cristã embrionária, reunida à volta de Jesus ressuscitado. Para João, esta comunidade passa a ser uma comunidade viva, recriada, nova, a partir do dom do Espírito. É o Espírito que permite aos crentes superar o medo e as limitações e testemunhar, no Mundo do amor que Jesus viveu até às últimas consequências.

O trecho em causa (proclamado no segundo domingo da Páscoa) situa-nos no cenáculo, no dia da ressurreição, e mostra a comunidade da nova aliança, nascida da ação criadora e vivificadora do Messias. Porém, esta comunidade, surpreendida pela aparição de Cristo ressuscitado, ainda não tomou consciência das implicações da ressurreição. É uma comunidade fechada, insegura, com medo. Precisa de fazer a experiência do Espírito, para estar preparada para assumir a sua missão, no Mundo, e testemunhar o projeto libertador de Jesus.

Nos Atos, Lucas narra a descida do Espírito sobre os discípulos no dia do Pentecostes, por razões teológicas, para fazer coincidir a descida do Espírito com a festa judaica do dom da Lei e da constituição do Povo de Deus. Ao invés, João situa-a no anoitecer do dia de Páscoa.

João começa por relevar a situação da comunidade. O “anoitecer”, as “portas fechadas”, o “medo” são o quadro ilustrativo da situação da comunidade desamparada num ambiente hostil e, portanto, desorientada e insegura. É uma comunidade que perdeu as suas referências e a sua identidade e que não sabe a que se agarrar.

Entretanto, Jesus aparece “no meio deles”. O evangelista indica, deste modo, que os discípulos, experienciando o encontro com o Ressuscitado, redescobriram o seu centro, o ponto de referência, a coordenada fundamental à volta do qual a comunidade se constrói e toma consciência da sua identidade. A comunidade cristã só existe, se estiver centrada em Jesus ressuscitado.

Jesus saúda-os, desejando-lhes “a paz” (“shalom”, em hebraico). A “paz” é um dom messiânico e significa, sobretudo, a transmissão da serenidade, da tranquilidade, da confiança que permitirão aos discípulos superar o medo e a insegurança: doravante, nem o sofrimento, nem a morte, nem a hostilidade do Mundo poderão derrotar os discípulos, porque Jesus está no meio deles.

Depois, Jesus “mostrou-lhes as mãos e o lado”, os “sinais” que evocam a entrega de Jesus, o amor total expresso na cruz. É neles que os discípulos reconhecem Jesus. É Ele o que fora crucificado, e não outro. O facto de esses “sinais” permanecerem no ressuscitado indica que Jesus será, de forma permanente, o Messias cujo amor se derramará sobre os discípulos e cuja entrega alimentará a comunidade.

Vem, depois, a comunicação do Espírito. O gesto de Jesus de soprar sobre os discípulos reproduz o gesto de Deus ao comunicar a vida ao homem de argila (João utiliza o verbo do texto grego de Gn 2,7). Com o “sopro” de Deus de Gn 2,7, o homem tornou-se um ser vivente; com este sopro, Jesus transmite aos discípulos a vida nova e faz nascer o Homem Novo. Agora, os discípulos possuem a vida em plenitude e estão capacitados – como Jesus – para fazerem da sua vida um dom de amor aos homens. Animados pelo Espírito, formam a comunidade da nova aliança e são chamados a testemunhar, em gestos e em palavras, o amor de Jesus.

Por fim, Jesus explicita qual a missão dos discípular: a eliminação do pecado. As suas palavras não significam que os discípulos possam ou não – conforme os seus interesses ou a sua disposição – perdoar os pecados. Significam, apenas, que os discípulos são chamados a testemunhar, no Mundo, a vida que o Pai quer oferecer a todos. Quem a aceitar será integrado na comunidade de Jesus; quem não a aceitar, continuará a percorrer caminhos de egoísmo e de morte (isto é, de pecado). A comunidade, animada pelo Espírito, é a mediadora da oferta de salvação.

É de lamentar o facto de alguns confessores fazerem questão de negar a absolvição por não compreenderem a fragilidade humana, argumentando com a autoridade do 4.º Evangelho.

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Na segunda leitura (1Cor 12,3b-7.12-13), o Apóstolo das Gentes avisa que o Espírito é a fonte de onde brota a vida da comunidade cristã. É Ele que concede os dons (carismas) que enriquecem a comunidade e que fomenta a unidade de todos os membros. Por isso, esses dons não podem ser usados para benefício pessoal, mas devem ser postos ao serviço de todos.

A comunidade cristã de Corinto era viva e fervorosa, mas não era exemplar, no atinente à vivência do amor e da fraternidade: os partidos, as divisões, as contendas e rivalidades perturbavam a comunhão e constituíam um contratestemunho. As questões à volta dos carismas (dons especiais concedidos pelo Espírito a determinadas pessoas ou grupos para proveito de todos) faziam-se sentir com grande acuidade: os detentores dos carismas consideravam-se os “escolhidos” de Deus, apresentavam-se como “iluminados” e assumiam, com frequência, atitudes de autoritarismo e de prepotência, que não favoreciam a fraternidade e a liberdade; e os que não tinham sido dotados destes dons eram desprezados e desclassificados, considerados quase como “cristãos de segunda”, sem vez nem voz, na comunidade.

Paulo não pode ignorar a situação. Por conseguinte, na 1.ª Carta aos Coríntios, corrige, admoesta, aconselha, mostra a incoerência destes comportamentos, incompatíveis com o Evangelho.

Em primeiro lugar, o apóstolo sustenta que é preciso saber ajuizar da validade dos dons carismáticos, para que não se fale em “carismas” a propósito de comportamentos que pretendem garantir os privilégios de certas figuras. Segundo Paulo, o verdadeiro carisma é o que leva a confessar que “Jesus é o Senhor” (pois não pode haver oposição entre Cristo e o Espírito) e que é útil para o bem da comunidade.

É necessário que os membros da comunidade tenham consciência de que, apesar da diversidade de dons espirituais, é o mesmo Espírito que atua em todos; que apesar da diversidade de funções, é o mesmo Senhor Jesus que está presente em todos; que, apesar da diversidade de ações, é o mesmo Deus que age em todos. Não há, pois, “cristãos de primeira” e “cristãos de segunda”. O importante é que os dons do Espírito resultem no bem de todos e sejam usados, não para melhorar a própria posição ou o próprio ego, mas para o bem de toda a comunidade.

O apóstolo conclui, comparando a comunidade cristã a um corpo com muitos membros. Apesar da diversidade de membros e de funções, o corpo é um só. Em todos os membros circula a mesma vida, pois todos foram batizados num só Espírito e beberam um único Espírito.

O Espírito é, pois, apresentado como Aquele que alimenta e que dá vida ao “corpo de Cristo”. Assim, Ele fomenta a coesão, dinamiza a fraternidade e é o responsável pela unidade dos diversos membros que formam a comunidade.

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Perante esta mensagem, os crentes são instados a implorar o envio do Espírito Santo e a bendizer o Senhor pelas suas obras:

“Mandai, Senhor, o vosso Espírito / e renovai a Terra.”

“Bendiz, ó minha alma, o Senhor. / Senhor, meu Deus, como sois grande! / Como são grandes, Senhor, as vossas obras! / A Terra está cheia das vossas criaturas.

“Se lhes tirais o alento, morrem / e voltam ao pó donde vieram. / Se mandais o vosso espírito, retomam a vida / e renovais a face da terra.

“Glória a Deus para sempre! /Rejubile o Senhor nas suas obras. / Grato Lhe seja o meu canto /
e eu terei alegria no Senhor.

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A Sequência da Missa do Pentecostes – um poema que se lê ou canta a seguir à segunda leitura – é uma prece ao Espírito Santo que, ao mesmo tempo, O carateriza em prol dos homens:

“Vinde, ó santo Espírito, / vinde, Amor ardente, / acendei na terra / vossa luz fulgente.

“Vinde, Pai dos pobres: / na dor e aflições, / vinde encher de gozo / nossos corações.

Benfeitor supremo, / em todo o momento, / habitando em nós, / sois o nosso alento.

“Descanso na luta / e na paz encanto, / no calor sois brisa, / conforto no pranto.

“Luz de santidade, / que no Céu ardeis, / abrasai as almas / dos vossos fiéis.

“Sem a vossa força / e favor clemente, / nada há no homem / que seja inocente.

“Lavai nossas manchas, / a aridez regai, /sarai os enfermos / e a todos salvai.

“Abrandai durezas / para os caminhantes, / animai os tristes, / guiai os errantes.

“Vossos sete dons / concedei à alma / do que em Vós confia:

“Virtude na vida, / amparo na morte, / no Céu alegria.

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Em Aleluia, insiste-se na prece:

“Aleluia. Aleluia.”

“Vinde, Espírito Santo, enchei os corações dos vossos fiéis / e acendei neles o fogo do vosso amor.”

2026.05.24 – Louro de Carvalho

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