O
novo Sistema de Entrada/Saída (EES) das fronteiras da União Europeia (UE) foi
implementado de forma faseada, na UE, e estava previsto, para abril deste ano,
o seu funcionamento, a 100%, em todo o território comunitário. Todavia, em
Portugal, não está a funcionar.
O
EES é um sistema digital para registar, eletronicamente, a entrada e saída de
cidadãos de países terceiros no espaço de livre circulação Schengen – que é o
destino mais visitado do Mundo, com 40% das viagens internacionais globais a
atravessarem as suas fronteiras externas –, substituindo os carimbos manuais
por registos biométricos e digitais. Contudo, está previsto que, em caso de
falhas técnicas do sistema, os estados-membros possam recorrer,
temporariamente, a procedimentos alternativos, incluindo registo manual e
carimbos no passaporte, até à reposição do funcionamento normal.
O
sistema entrou em funcionamento, a 12 de outubro de 2025, em Portugal e nos
restantes países do Espaço Schengen; e, desde então, os tempos de espera nas
fronteiras aéreas agravaram-se, principalmente, no Aeroporto Humberto Delgado
(AHD), em Lisboa, com os passageiros a terem de esperar, por vezes, várias
horas. Por isso, em dezembro de 2025, a Comissão Europeia, numa inspeção
surpresa às fronteiras aéreas e marítimas de Portugal, detetou “graves
deficiências” no controlo de fronteiras, particularmente, no AHD, tendo o
relatório final apontado 14 falhas críticas relacionadas com recursos
humanos, com falta de equipamentos e com a simplificação sistemática de
procedimentos de segurança.
E,
no final de dezembro de 2025, o governo anunciou medidas de contingência no
AHD, em Lisboa, para reduzir os tempos de espera na zona das chegadas,
nomeadamente, a suspensão por três meses do EES, que voltou, entretanto, a
funcionar.
***
A
16 de maio, o controlo de fronteiras nas partidas do AHD estava a registar
atrasos, devido a “dificuldades técnicas/informáticas”, com o tempo de espera a
ultrapassar uma hora, segundo a Polícia de Segurança Pública (PSP) e a
ANA-Aeroportos, tendo esta passado a recomendar que passageiros com voos para
fora do Espaço Schengen cheguem mais cedo ao aeroporto.
“A
ANA - Aeroportos de Portugal confirma os tempos de espera elevados hoje no
controlo de fronteira, superiores a uma hora, na área das partidas do Aeroporto
Humberto Delgado”, avançou, então, fonte oficial da ANA, contactada pela
agência Lusa, na sequência de relatos indicando a existência de longas
filas.
No
entanto, a gestora aeroportuária dizia que a situação estava a melhorar, embora
ainda se mantivessem constrangimentos, pelo que os passageiros com voos para
fora do Espaço Schengen deviam chegar mais cedo ao aeroporto.
Por
sua vez, o porta-voz da PSP, Sérgio Soares, referia que, no atinente à zona das
partidas e devido a dificuldades técnicas/informáticas, os tempos de espera estavam
“acima dos parâmetros de referência”, ao passo que o controlo de fronteiras, na
zona das chegadas do aeroporto, estava “com os tempos de espera dentro dos
parâmetros de referência”. E salientava que, com o apoio da ANA, estavam a ser
feitos “todos os esforços para repor os tempos de referência na zona das
partidas, sem descurar a segurança e resiliência da fronteira e de todo o
Espaço Schengen”.
“A
ANA – Aeroportos está a colaborar com as autoridades responsáveis pelo controlo
de fronteira, para mitigar os constrangimentos causados na operação
aeroportuária, e reforçou as suas equipas, nos aeroportos para apoio aos
passageiros”, indicou a gestora aeroportuária.
Os
constrangimentos que se têm vindo a registar no controlo de fronteiras do AHD
levou, em 2025, o governo a suspender, temporariamente, o sistema europeu de
controlo de fronteiras para cidadãos extracomunitários, denominado Sistema de
Entrada/Saída (EES) da UE, que já está a funcionar, novamente, desde o início
deste ano.
No
dia 17, fonte da PSP informava que o controlo de fronteiras nos aeroportos de
Lisboa e de Faro registava tempos de espera “superiores ao desejável”, durante
a manhã, mas que passaram a estar “dentro dos parâmetros de referência”. E
referia à Lusa que os atrasos verificados nos dois aeroportos se deveram
a razões técnicas informáticas, mas também à “dimensão elevada de tráfego aéreo
no dia de hoje”. “Neste momento, os tempos de espera estão dentro dos
parâmetros de referência”, assegurava a PSP, salientando que estava, com o
apoio da ANA Aeroportos, a “encetar todos os esforços” para que os tempos de
espera fossem os menores possíveis, “sem descurar a segurança e resiliência” da
fronteira e de todo o Espaço Schengen.
Era
o segundo dia em que controlo de fronteiras do AHD registava atrasos, por
dificuldades técnicas informáticas, com o tempo de espera a ultrapassar uma
hora, no dia anterior.
Também
no dia 17, a PSP admitia tempos de espera superiores a duas horas no controlo
de fronteiras do Aeroporto Francisco Sá Carneiro, em Pedras Rubras, no distrito
do Porto. E indicava que o tempo máximo de espera, no domingo, dia 17, “com
picos de tempos de espera entre as 09h00 e as 12h00, nunca foi superior a 100
minutos, em Faro, 110 minutos em Lisboa, e 130 minutos, no Porto”. Ou seja,
admitindo que o controlo de fronteiras, no aeroporto do Porto, registou tempos
de espera superiores a duas horas, a polícia rejeitou, no entanto,
notícias sobre esperas de seis horas.
Num
comunicado, divulgado no dia 17, à noite, a PSP justifica os atrasos com
razões técnicas e informáticas e com “elevada dimensão de passageiros fora do
Espaço Schengen”.
“Os
três aeroportos controlaram cerca de 69 mil passageiros em voos vindos de fora
do Espaço Schengen […] Desde cedo, foram tomadas medidas de contingência,
sempre no estrito cumprimento das regras de segurança e das normas de controlo
fronteiriço, tendo os parâmetros de referência sido alcançados, ao final da
manhã”, disse a PSP, lamentando o que descreveu como “desinformação reiterada”
sobre o controlo das fronteiras aéreas, dando como exemplo “notícias de seis
horas de tempo de espera”.
Considerando
que a desinformação “induz em erro os nossos cidadãos, prejudicando a imagem”
do país, a PSP apelou à responsabilidade na partilha de informação. “A
circulação de informação não verificada causa alarme injustificado e prejudica,
não só o normal funcionamento das operações fronteiriças, como a própria
eficácia da operação geral dos aeroportos”, alertou.
Segundo
o Diário de Notícias (DN), as informações sobre os tempos de fila
de espera foram publicadas por influencers, nas redes sociais, entre os
quais, brasileiros.
A
PSP disse que estão em execução investimentos, para aumentar a capacidade do
controlo fronteiriço, para reforçar os recursos humanos e para melhorar a
capacidade tecnológica.
***
A
18 de maio, o primeiro-ministro (PM), Luís Montenegro, mostrou-se insatisfeito
com resposta dada por parte dos serviços de controlo de fronteiras aeroportuárias,
devido às longas filas de espera nos aeroportos, e disse, que se a situação
continuar, admite suspender a recolha de dados biométricos. “Eu não escondo que
estamos [o governo] insatisfeitos com aquilo que tem sido a resposta dada por
parte dos serviços de fronteira nos aeroportos, em particular, no de Lisboa.
Vamos levar este esforço até ao fim, até ao limite, para podermos ultrapassar a
situação”, afirmou o chefe do governo, durante a inauguração das obras de
estabilização do paredão de Moledo, em Caminha, num investimento de 180 mil
euros.
O
PM assegurou que o governo irá tomar medidas mais duras, caso a situação a isso
obrigue. “Não queremos colocar em causa a segurança do país, mas também não
queremos colocar em causa o movimento económico do país”, frisou o governante,
que disse ter recebido relatos de “vários agentes económicos incomodados com
essa situação”.
Estas
declarações surgem depois de um fim de semana com longas filas nos aeroportos, justificadas
pela PSP com razões técnicas e informáticas associadas a um elevado fluxo de
passageiros de fora do Espaço Schengen.
Luís
Montenegro assegurou que o governo está “a fazer um investimento enorme, do
ponto de vista do reforço dos reforços humanos”. “Ainda agora vão sair cerca de
300 elementos de um curso da PSP, precisamente, para funções que têm que ver
com o controlo de fronteiras, estamos a fazer um grande investimento, do ponto
de vista tecnológico. Estamos a cumprir todas as regras e obrigações, dentro
dos nossos compromissos no Espaço Schengen”, frisou.
Segundo
o PM, o governo “está a centralizar, ou a fazer esse caminho, no que diz
respeito a mecanismo de manutenção e, portanto, de agilidade do ponto de vista
da assistência aos equipamentos que temos”. “Estamos a fazer tudo o que nos
compete para podermos ter mais capacidade de resposta” observou.
***
A
8 de maio, a companhia aérea Ryanair apelou, mais uma, vez ao governo que
suspendesse, até setembro, a aplicação do EES, destinado ao controlo de
passageiros de fora do Espaço Schengen, para evitar constrangimentos nos
aeroportos, durante a época alta de verão.
O
Ministério da Administração Interna informou, no mesmo dia 8, em resposta a uma
questão da Lusa, que Portugal “mantém o compromisso de assegurar” o
funcionamento do EES, em conformidade com o direito da UE, “não estando
prevista qualquer suspensão deste sistema”. Não obstante, como ressalvou, “o
quadro europeu aplicável admite, em circunstâncias excecionais e devidamente
limitadas, a adoção de medidas operacionais, como a suspensão da recolha de
biometria (imagem facial e impressões digitais), em determinados pontos de
passagem fronteiriça, quando a intensidade do tráfego possa gerar tempos de
espera excessivos”.
Como
explicou a tutela, esta gestão operacional é da competência da PSP e, “durante
as suspensões temporárias, o controlo de fronteiras cumpre todos os protocolos
de segurança definidos, sendo a recolha de biometria retomada, logo que
atingidos os parâmetros de referência”. Assim, segundo indicou, então, a PSP, em
11 e 12 de abril, foi suspensa a recolha de biometria nas partidas dos
aeroportos de Lisboa, do Porto e de Faro, devido ao tempo de espera acima do
desejado para os passageiros embarcarem.
Por
seu turno, o ministro das Infraestruturas garantiu, a 20 de maio, que o governo
está comprometido em encontrar uma solução para as filas nos aeroportos. Em
audição regimental na Assembleia da República (AR), Miguel Pinto Luz admitiu
que “é um embaraço” a situação a que se assiste, frequentemente, com esperas de
duas horas ou mais, no controlo de fronteiras. “Não queremos comprometer a
imagem de Portugal mais do que já foi comprometida. Não vou pôr a minha cabeça
na areia. Nas próximas semanas, no próximo mês, vamos mitigar a situação.
Estamos a investir tudo o que é possível no hardware”, afirmou o
governante.
Já
no dia 18, o ministro tinha garantido que o governo “está a fazer todos os
esforços, junto da Comissão [Europeia], mas também internos, para resolver essa
situação”, e anunciou que haverá melhorias no serviço do AHD, no próximo mês,
com a conclusão das obras de alargamento da zona de chegadas.
Já
o Ministério da Administração Interna anunciou que o AHD vai ter mais ‘boxes’
de controlo manual de fronteiras, a partir de 29 de maio, para reforçar a
resposta operacional e para reduzir o tempo de espera.
Está
também previsto um aumento do número de e-gates (fronteira automática) e, a
partir de julho, um reforço dos recursos humanos da PSP afetos ao controlo de
fronteiras com mais 360 polícias.
Também
o primeiro-ministro se mostrou insatisfeito com a atuação dos serviços de
controlo de fronteiras e admitiu, se a situação continuar, suspender a recolha
de dados biométricos.
***
Bruxelas
nega que filas nos aeroportos em Portugal se devam a novo EES. Na verdade, a 21
de maio, fonte oficial do executivo comunitário, em resposta escrita enviada à Lusa,
segundo esta agência, como se pôde ler no DN online, nesse dia, afirmou:
“Temos conhecimento das notícias divulgadas pelos meios de comunicação social e
estamos em contacto com Portugal, tal como com todos os estados-membros, no que
diz respeito à implementação do EES. Os atrasos podem ter várias causas e,
muitas vezes, não estão relacionados com o funcionamento do EES.”
Nestes
termos, a Comissão Europeia nega que as filas nos aeroportos, em Portugal, se
devam ao novo Sistema de Entrada/Saída das fronteiras da UE, apontando que o
processamento dos registos demora, em média, pouco mais de um minuto, “na
maioria dos estados-membros.
De
acordo com Bruxelas, “é também esse o caso aqui”. No entanto, como reforça a instituição,
o executivo comunitário “continuará em contacto com Portugal, sobre este
assunto, e continuará a prestar o apoio necessário”, se bem que “os desafios
enfrentados em Portugal, incluindo tempos de espera mais longos, não estão
relacionados com quaisquer problemas no funcionamento do Sistema de
Entrada/Saída”. “Quaisquer situações excecionais podem ser – e estão a ser –
resolvidas, através das flexibilidades e [de] procedimentos alternativos
previstos na legislação da UE. Cabe aos estados-membros assegurar a correta
implementação do EES no terreno, [sendo que] a Comissão mantém contacto com
todos os estados-membros […] e continuará a prestar o apoio necessário”,
assegura fonte da Comissão Europeia.
Desde
outubro de 2025, foram registadas quase 66 milhões de entradas e saídas neste
novo sistema, bem como mais de 32 mil recusas de entrada, das quais mais de 800
pessoas foram identificadas como representando uma ameaça à segurança da UE.
Na
resposta à Lusa, Bruxelas frisa que “a fluidez nas fronteiras deve
também ser assegurada pelos estados-membros, através da disponibilização de um
número adequado de guardas fronteiriços, de soluções automatizadas, como
quiosques de autosserviço e portas eletrónicas (e-gates), bem como da
utilização da aplicação de pré-registo ‘Travel to Europe’”. E concluiu: “Isto é
particularmente importante nos pontos de passagem fronteiriça com tráfego
intenso.”
No
dia 18, foi anunciado que a PSP vai reforçar os aeroportos portugueses com 360
polícias em julho, para diminuir os tempos de espera dos passageiros de fora do
Espaço Schengen.
***
O
país faz as reformas que a UE, determina e em cujo processo as autoridades portuguesas
participam, mas é difícil a concretização no terreno ser isenta de mácula: os meios
informáticos são insuficientes ou falham; os espaços são exíguos; os recursos humanos
alocados às tarefas são mínimos; o dinheiro falta, para aquilo que é necessário,
embora não falhe para certas mordomias; a administração pública enreda-se na
lentidão da burocracia e na diversidade de entidades que têm de dar parecer; a fiscalização
é demorada e a justiça mais do que lenta.
O
ex-Presidente da República e ex-primeiro-ministro, que foi laureado com recém-criada
Ordem Europeia do Mérito entregue pelo Parlamento Europeu (PE), dizia que Portugal
era o bom aluno da UE, mas, pelos vistos, enganou-se.
E,
quanto a falhas informáticas, tão frequentes, em aeroportos e em outras estruturas
do país, é caso para perguntar se são apenas os idosos, como eu, os iliteratos
em tecnologias.
2026.05.21
– Louro de Carvalho
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