quarta-feira, 27 de maio de 2026

Conselho de Paz não dispõe, oficialmente, de recursos financeiros

 

O Conselho de Paz (“Board of Peace”), criado por Donald Trump, alegadamente, com vista à reconstrução de Gaza – mas querendo suplantar a Organização das Nações Unidas (ONU), na promoção do desenvolvimento e na resolução de conflitos –, não dispõe de recursos financeiros, no seu fundo oficial para a reconstrução de Gaza, como revelou, a 27 de maio, à agência de notícias AFP uma fonte familiarizada com o Conselho, apesar de os países-membros terem prometido milhares de milhões de dólares.

O Conselho é liderado não só pelos Estados Unidos da América (EUA), mas também pelo próprio Donald Trump, que detém a palavra final e pode continuar no cargo, mesmo após o fim do seu mandato presidencial.

O inquilino da Casa Branca teve a ideia de criar o Conselho para coordenar a reconstrução de Gaza, depois de Israel e o Hamas terem chegado a um acordo sobre um cessar-fogo apoiado pelos EUA, em outubro, pondo fim a dois anos de guerra devastadora. Todavia, rapidamente causou espanto, ao enviar convites generalizados, incluindo ao presidente russo, Vladimir Putin, e a países muito distantes da diplomacia tradicional do Médio Oriente.

Desde que o Conselho foi criado, o seu fundo, administrado pelo Banco Mundial (BM) e apoiado pela ONU, não recebeu dinheiro dos doadores, porque foi concebido para a fase de reconstrução e de desenvolvimento, que ainda não foi alcançada. Além disso, as operações militares israelitas, em Gaza, continuaram a operar, após o cessar-fogo, tendo sido mortas, desde então, pelo menos, 910 pessoas, de acordo com o Ministério da Saúde do território. E Israel continua a controlar mais de 60% da Faixa de Gaza, incluindo todos os pontos de entrada e de saída, enquanto a população se concentra na costa.

A 27 de maio, o jornal Financial Times (FT), citando o porta-voz do Conselho, noticiou que o Conselho tinha recebido doações, diretamente, numa conta do JPMorgan, mas, como observou o FT, não há “requisitos de transparência independentes” em vigor, para a conta do JPMorgan.

As principais nações europeias têm evitado participar no Conselho, que é dominado por parceiros de longa data dos EUA, no Médio Oriente, aliados ideológicos de Donald Trump, e por países mais pequenos, ansiosos pela atenção do líder norte-americano.

Donald Trump tinha referido, anteriormente, que os EUA contribuiriam com 10 mil milhões de dólares para o Conselho, enquanto o Qatar, a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos (EAU) prometeram, cada um, pelo menos, mil milhões de dólares.

De acordo com os estatutos do Conselho, os membros têm de pagar mil milhões de dólares, para obterem um lugar permanente. No entanto, uma avaliação da União Europeia (UE) e da ONU, publicada em abril, estimou que serão necessários mais de 71 mil milhões de dólares, na próxima década, para a reconstrução de Gaza, onde a ONU afirma que a situação humanitária é “crítica”.

Aliás, como anunciaram, a 27 de maio, as Forças de Defesa de Israel (FDI), Mohammed Odeh, o novo comandante da ala militar do Hamas foi morto, no Norte da Faixa de Gaza, num ataque contra a cidade de Gaza, após “meses de recolha de informações de inteligência e de seguimento operacional”.

Mohammed Odeh, que o gabinete do primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, descreveu como um dos “arquitetos” dos ataques de 7 de outubro de 2023, chefiara, anteriormente, o quartel-general de informações do Hamas, mas assumiu a liderança da ala militar, após a morte do anterior responsável, Izz al-Din al-Haddad, no início de maio.

As FDI atacaram também um apartamento usado como esconderijo por um terrorista do Hamas que entrou em Israel, durante o massacre de 7 de outubro, e operava na rede de Odeh.

O anúncio surge numa altura em que Israel intensifica as operações militares no Líbano, onde as suas forças se confrontam com o grupo Hezbollah, apoiado pelo Irão, e contraria qualquer veleidade de paz ao cuidado da estrutura fundada por Donald Trump.

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A jornalista Catarina Maldonado Vasconcelos, em artigo intitulado “Fundo do Conselho de Paz de Donald Trump não recebeu um único dólar”, publicado no Expresso online, a 27 de março, sustenta que os doadores, dispostos apoiar a reconstrução de Gaza, retêm o dinheiro, com receio de que a estrutura seja politicamente frágil, pois, apesar de o seu criador a descrever como uma das “mais importantes” alguma vez fundadas, encontra-se num limbo jurídico e político.

Quando o projeto surgiu, Donald Trump adiantou que tinha pedido taxas de adesão vitalícia de mil milhões de dólares aos líderes mundiais que aceitaram integrar o Conselho. Os estados-membros comprometeram-se com sete mil milhões de dólares para o “pacote de ajuda” para Gaza, tendo Trump prometido mais de 10 mil milhões de dólares em financiamento dos EUA. Todavia, como observa a jornalista, “nenhum dólar foi depositado no fundo financeiro do Conselho de Paz”, estabelecido pelo BM, que exige requisitos independentes de transparência, ao invés da instituição bancária JP Morgan, que não os exige.

Salvador Santino Regilme, professor e coordenador do Programa de Relações Internacionais da Universidade de Leiden, para quem “o problema parece ter uma forma financeira e uma essência política”, considera que o financiamento da reconstrução envolve juízos de legitimidade, de fiabilidade institucional, de risco político e de durabilidade do acordo que está a ser financiado. Assim, na ótica do analista, haverá uma descrença generalizada, ou seja, “se os doadores prometem, publicamente, milhares de milhões, mas retêm as transferências para a conta oficial, estão a sinalizar cautela, quanto à credibilidade e à governação do Conselho”.

Apesar do apoio à reconstrução de Gaza, mantém-se a “desconfiança no veículo institucional específico que está a ser promovido”, segundo Regilme. Por um lado, o Conselho atrai a atenção e as promessas públicas, não a confiança. Neste caso, “a liquidez tornou-se uma medida de legitimidade”, diz o académico, vincando que o fundo vazio sugere que o plano é mais performativo do que operacional.

Um funcionário do Conselho revelou ao FT que foram estabelecidas várias opções para receber financiamento, tendo os estados aderentes preferido usar opções distintas da conta do BM, e garantiu que o Conselho apresentará os relatórios financeiros ao conselho executivo da estrutura, constituído por funcionários da administração Trump e por outros consultores.

Com 20 milhões de dólares em contribuições, Marrocos ajudou a financiar o gabinete de Nickolay Mladenov, o alto representante para Gaza, no pós-guerra, e os salários do comité tecnocrático palestiniano que o conselho formou para governar a Faixa de Gaza. E os EAU disponibilizaram 100 milhões de dólares, sendo essa verba (congelada) destinada ao programa de treino da nova força policial para Gaza, que ainda não foi iniciado.

Já o Departamento de Estado dos EUA tenciona mobilizar 1,2 mil milhões de dólares para projetos relacionados com a agenda do Conselho, mas não será gerido por este; e compromete-se a fornecer cerca de 50 milhões de dólares, diretamente, ao Conselho, para financiar as operações, mas nem este valor foi ainda transferido.

O Conselho iniciou um processo de concurso para os serviços de segurança e de reconstrução de Gaza, mas não foi atribuído qualquer contrato, até ao momento, por ainda não ser possível operar em Gaza, porque o Hamas ainda não foi desarmado. Porém, Bishara Bahbah, o empresário palestiniano-americano que ajudou a negociar com o Hamas, em nome da administração Trump, admitiu que o comité ainda não começou a trabalhar em Gaza, devido à “falta de financiamento para que possam executar qualquer coisa no terreno”.

Além dos receios de que a estrutura servisse para esvaziar a função e a razão da existência da ONU, alguns modelos futuristas para Gaza, apresentados pelo genro e conselheiro de Trump, Jared Kushner, geraram controvérsia. Os planos mostravam torres reluzentes e empreendimentos de luxo. A UE, a ONU e o BM estimaram que seriam necessários mais de 70 mil milhões de dólares para a reconstrução de Gaza, na próxima década. E Regilme lembra que um processo de reconstrução requer regras fiduciárias transparentes, a participação palestiniana, clareza jurídica, salvaguardas de aquisição e garantias contra a destruição renovada. Sem estes elementos, como diz, “o Conselho corre o risco de se tornar um espetáculo pós-guerra que invoca a reconstrução, evitando as políticas mais difíceis de justiça, [de] responsabilidade e [de] autodeterminação”.

Há também preocupações de congressistas norte-americanos, quanto à possibilidade de a reconstrução de Gaza começar sem um acordo político credível. Ora, a reabilitação de emergência deve começar, imediatamente, em especial, na água, na saúde, no abrigo, nos sistemas alimentares, no saneamento e nos serviços públicos básicos. Porém, na ótica do académico, a reconstrução em grande escala exige garantias políticas credíveis que protejam os Palestinianos de deslocações, de bloqueios, de bombardeamentos e de tutela externa.

Neste contexto, os doadores, como reconhece Regilme, “têm razão em questionar se estão a financiar uma recuperação duradoura ou a subsidiar outro ciclo de destruição”, pois o Conselho é politicamente moldado pelo controlo de Trump, o que traz custos de legitimidade.

Os doadores do Golfo, além dos EAU, estarão a hesitar, num momento em que a guerra contra o Irão e a ocupação do Sul do Líbano não chegaram ao fim. Com efeito, não querem pagar por infraestruturas que podem ser, novamente, destruídas, na ausência de acordo duradouro.

                                                                                                                                                                                                                                                                                        ***

Dada a escalada, sem precedentes, do bombardeamento aéreo na guerra contra o Irão – com centenas de aeronaves a operar na região e a realizar ataques aéreos –, os riscos têm-se elevado, estando o Conselho de Paz a perder a credibilidade, segundo alguns politólogos, que o veem como tentativa de legitimar a estratégia neorrealista de política externa de Trump.

Dos 26 Estados que aceitaram integrar o Conselho de Paz, pelo menos, sete – Israel, o Bahrein, a Jordânia, o Kuwait, o Qatar, a Arábia Saudita e os EAU – já foram atacados ou apanhados no fogo cruzado entre os EUA, Israel e o Irão.

Implantar uma estrutura de paz, enquanto Washington e os seus aliados são beligerantes ativos não é ilegítimo, já que são, frequentemente, negociados cessar-fogos sob ataques, mas gera-se um problema de conflito de papéis. Assim, quando um país é, ao mesmo tempo, beligerante e promotor da paz, a sua iniciativa é encarada como governação em tempo de guerra, por outros meios, uma perceção que, nas capitais europeias, contradiz a neutralidade processual e a representação inclusiva, que são a base da credibilidade.

A perda de três caças F-15 norte-americanos por fogo amigo no Kuwait, camuflado por atribuição errónea ao Irão, é reveladora, ao transformar o controlo em alegação testável, sustenta Regilme, frisando que fogo amigo “é, regra geral, uma cadeia de acontecimentos: sistemas de identificação, comunicações e decisões tomadas em frações de segundo, num campo de batalha congestionado”, o que “sinaliza risco de escalada, e não apenas uma falha técnica”.

Ora, erros visíveis reforçam as reservas entre os aliados e corroem o apoio público, prejudicando a diplomacia. Por outro lado, a escalada torna os erros mais frequentes e um promotor da paz não terá autoridade, se a guerra que acompanha estiver desorganizada.

Muitos países lamentam que as negociações entre os EUA e o Irão sobre o seu programa nuclear e capacidade de mísseis não tenham tido sucesso, antes de Washington e Israel iniciarem os bombardeamentos, bem como o facto de Washington não ter procurado a aprovação do Conselho de Segurança da ONU, como tentou para a guerra do Iraque, em 2003.

É de anotar que a impulsividade e incoerência de Trump, embora sejam resultado de decisões políticas, dificultam o impacto da diplomacia, a ponto de se duvidar de que o Conselho de Paz seja para levar a sério. No caso, o único verdadeiro aliado dos EUA será Israel.

O Irão atacou todos os países do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG). E, além dos ataques a bases militares dos EUA, em muitos destes países, atingiu locais civis, incluindo aeroportos, hotéis e importantes infraestruturas de petróleo e de gás natural. Em contraponto, as defesas aéreas do Golfo foram, em grande parte, eficazes contra os mísseis iranianos, evitando danos catastróficos, mas os drones iranianos revelaram-se mais difíceis de repelir.

Os países do Golfo acreditavam que a presença de bases militares dos EUA nos seus territórios se traduziria em apoio de segurança norte-americano, em especial, contra os ataques feitos ou apoiados pelo Irão. Como Washington quer reduzir a sua presença militar no Médio Oriente, os governos do Golfo temem que as forças dos EUA não os defendam em caso de necessidade.

O Conselho de Paz e a guerra contra o Irão, liderados pelo mesmo homem, são duas faces da estratégia regional de Trump, que pretende impor a paz pela força, acreditando que o seu projeto de paz de Trump não inclui o Irão na forma atual. Ou seja, na perspetiva de Trump, esta guerra não é incompatível com o seu plano de paz, que não visa a paz em si, mas a paz concebida para servir os interesses dos EUA (no quadro da sua estratégia de segurança nacional) e dos seus aliados, promovendo e alargando o comércio e o desenvolvimento económico.

Os países do Golfo, especialmente, após os ataques iranianos, têm dado a entender que alinham com Washington, na oposição ao Irão. Já as discordâncias, por parte dos países europeus, das políticas do inquilino da Casa Branca são substanciais, sobretudo, devido ao aumento dos preços da energia. Porém, as ações do Irão poderão arrastá-los para o conflito, obrigando-os a eventual aliança aos EUA e a Israel contra o Irão.

Entretanto, a diplomacia insiste nos apelos ao alívio das tensões regionais e ao debate sobre a legalidade e sobre os objetivos da campanha dos EUA e de Israel. Com efeito, numa guerra de alta intensidade, uma arquitetura de paz raramente interrompe os combates, mas reduz a margem para erros de cálculo catastróficos, protege o acesso humanitário e influencia as negociações sobre o que vem depois do bombardeamento.

O Kremlin manifestou dúvidas sobre como o Conselho de Paz vai trabalhar com o Conselho de Segurança da ONU. Na verdade, o presidente dos EUA pretende que a estrutura que erigiu sirva para gerir vários conflitos globais, tradicionalmente supervisionados pela ONU. Por outro lado, essa estrutura foi aprovada pelo Conselho de Segurança da ONU, com mandato limitado, para Gaza e até 2027. Nestes termos, tem legitimidade internacional, mas circunscrita.

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Face ao exposto, é de supor que o Conselho de Paz não passará de um nado morto. Não é viável um mesmo homem (intempestivo e errático) liderar, simultaneamente, a guerra e a estrutura pacificadora e fazer a guerra comercial em todas as direções, a par de ameaças belicistas, à mistura com acordos, no interesse pessoal e do do seu país. É, pois, legítimo o ceticismo, quanto à eficácia e à pureza de intenção com que foi criado um Conselho de Paz, que, afinal, desiste da paz. E não se percebe como os seus membros aceitaram a liderança de Trump, após o termo do seu mandato presidencial, quando a vigência do Conselho cessará em 2027.

2026.05.27 – Louro de Carvalho

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