quarta-feira, 27 de maio de 2026

Não foram apenas os EUA que reduziram o apoio à ajuda humanitária

 

A 16 de maio, a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou emergência de saúde pública de âmbito internacional o surto grave de Ébola (causado pelo vírus Bundibugyo) cujo centro é a República Democrática do Congo (RDC) e que, tendo já provocado, de acordo com os dados mais recentes da OMS, 220 mortes suspeitas e mais de 900 casos suspeitos, testa a resposta de saúde, fragilizada pelos cortes na ajuda internacional e pelos conflitos armados.

Em artigo intitulado “Ajuda externa em 2025: que países mais cortam e quem lidera agora”, publicado pela Euronews, a 26 de maio, Marta Iraola Iribarren, observa que “países, em todo o Mundo, cortam nos orçamentos de ajuda humanitária, alterando a resposta global a emergências e [a] crises de saúde pública”.

Manenji Mangundu, diretor nacional da Oxfam na RDC, sustenta que o surto em causa “atinge um país já levado ao limite” e explica: “O conflito contínuo e anos de cortes na ajuda aprofundaram uma crise humanitária de proporções impressionantes: uma em cada quatro pessoas passa fome. Os cortes na ajuda deixaram a RDC praticamente exposta ao Ébola, enfraquecendo os sistemas de vigilância que deveriam ter detetado este surto, semanas antes.”

Por sua vez, o Comité Internacional de Resgate (IRC) advertiu que os cortes no financiamento deixaram a região perigosamente exposta. “Anos de subinvestimento e cortes recentes no financiamento deixaram muitas unidades de saúde sem equipamento de proteção adequado, capacidade de vigilância ou apoio de primeira linha necessário para responder, de forma rápida e segura”, afirmou Heather Reoch Kerr, diretora nacional do IRC na RDC, frisando que atividades anteriormente financiadas por doadores, incluindo o fornecimento de kits de equipamento de proteção individual (EPI) às unidades de saúde, foram significativamente reduzidas e muitas estruturas nas áreas afetadas funcionam sem material de proteção básico.

Refere Iraola Iribarren que, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), 239 milhões de pessoas carecem de assistência humanitária urgente, em 2026, depois de um 2025 marcado por cortes severos nas operações humanitárias e pelo número recorde de ataques mortais contra trabalhadores humanitários. É certo que, nos últimos 50 anos, a ajuda internacional tem aumentado, de forma constante, atingindo níveis recorde em 2023. Porém, como as necessidades cresceram, os cortes na ajuda externa afetam vários países e organizações de saúde.

Em 2023, a Ajuda Pública ao Desenvolvimento (APD) proveniente dos 33 países membros do Comité de Ajuda ao Desenvolvimento da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) ascendeu a 197 mil milhões de euros. Em 2024, este montante desceu para 185 mil milhões de euros, a primeira queda, após cinco anos de crescimento, e, em 2025, recuou ainda mais, para 142 mil milhões de euros.

A jornalista, vincando que, embora some milhares de milhões de euros, por ano, a ajuda humanitária, concentra-se num pequeno grupo de grandes doadores. E regista que os maiores doadores, em termos de volume, são a Alemanha, os Estados Unidos da América (EUA), o Reino Unido, o Japão e a França, enquanto um pequeno grupo de países do Norte da Europa continua a consagrar à causa as maiores parcelas do rendimento nacional.

Em 2025, aqueles cinco países foram responsáveis por 95,7% da diminuição total da APD, segundo a OCDE. Só os EUA representaram três quartos dessa queda (iniciada em 2023), com a sua ajuda a recuar 56,9%, face a 2024, a maior redução, em volume, registada por qualquer doador, num só ano. Apesar dos cortes, os mesmos cinco doadores continuaram a dominar o financiamento, em 2025, respondendo, em conjunto, pela grande maioria dos fluxos de ajuda. Contudo, os seus orçamentos reduzidos diminuíram, de forma significativa, os recursos globais disponíveis para os países de baixo e médio rendimento.

Em proporção do rendimento nacional bruto (RNB), a Noruega, o Luxemburgo, a Suécia, a Dinamarca e os Países Baixos contribuem com as maiores quotas.

Além dos contributos nacionais, a União Europeia (UE) e os seus 27 estados-membros também contribuem, através de mecanismos específicos. Aliás, em conjunto, a UE e os seus 27 estados-membros são os maiores doadores mundiais de ajuda humanitária, tendo representado 40% da assistência humanitária global em 2025.

O orçamento plurianual da UE para 2021-2027 inclui uma rubrica específica para ajuda humanitária, com 11,57 mil milhões de euros atribuídos para os sete anos, cerca de 1,65 mil milhões de euros, por ano. E o orçamento para 2028-2034 está em negociação.

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Os EUA reduziram, drasticamente, a ajuda humanitária, em 2025, tendo muitos países da UE seguido o exemplo, para redirecionarem os fundos para o mercado interno e para crises mais próximas, como a da Ucrânia.

O financiamento humanitário tem vindo a diminuir desde 2023, revelando quão vulnerável é aos caprichos políticos do momento. O maior golpe nas despesas externas ocorreu em 2025, quando o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, anunciou que 83% dos programas da USAID – a agência de desenvolvimento internacional do país – seria cancelado.

A situação é similar em todo o Mundo. Com efeito, segundo dados recentes do Financial Tracking Service (FTS), entre 2025 e 2026, o financiamento humanitário global total desceu, drasticamente, de cerca de 23,97 mil milhões de euros para, aproximadamente, 7,34 mil milhões de euros. Atualmente, a UE e os seus estados-membros são responsáveis por mais de 40% da ajuda ao desenvolvimento a nível mundial, enquanto os EUA representam 28,3%. A Suécia é o maior doador dos membros da UE, financiando 9,9% da quota global, seguida pela Alemanha, com 6,9%.

Entretanto, no final de 2025, a Alemanha anunciou que reduziria o orçamento para a ajuda humanitária para 10,06 mil milhões de euros, uma queda de 251 milhões de euros, em comparação com 2025, e um declínio de quase 20%, desde 2023. “Reduzir as próprias despesas para o nível mais baixo dos últimos 10 anos, nesta situação dramática, é simplesmente inaceitável”, disse, em comunicado, Åsa Månsson, diretora-geral da VENRO, a organização que agrupa as organizações não governamentais (ONG) de desenvolvimento, na Alemanha.

Também a Suécia anunciou um corte de cerca de 930 milhões de euros (10 mil milhões de coroas) no financiamento para o desenvolvimento, destinado a Moçambique, ao Zimbábue, à Libéria, à Tanzânia e à Bolívia, optando por reafetar os fundos à Ucrânia. Esta medida, como referem os serviços do governo sueco, insere-se no quadro de “uma estratégia cujos princípios orientadores são a rentabilidade, as novas abordagens transformadoras e a inovação”.

A situação é semelhante entre as organizações internacionais, que assistem à redução generalizada dos seus orçamentos para o desenvolvimento internacional. O Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), o Programa Alimentar Mundial (PAM) e o Fundo Central de Resposta a Emergências (CERF) são as três principais organizações a receber mais fundos em 2026, mas os seus recursos diminuíram, em comparação com 2025.

Em todo o Mundo, a saúde e a segurança alimentar representam a maior parte do financiamento.

A maior parte da ajuda humanitária da Europa é enviada para a Ucrânia (607,7 milhões de dólares). Todavia, os números exatos poderão vir a sofrer alterações, à medida que a UE desenvolve as negociações sobre o seu orçamento para o período de 2028 a 2034, devendo aumentar 75% a parte do orçamento da UE dedicada ao desenvolvimento denominada “Europa Global”. Metade desta iniciativa orçamental será dedicada à Ucrânia, enquanto 43,2 mil milhões de euros serão destinados a outros países candidatos à adesão ao bloco.

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Os cortes na ajuda ao desenvolvimento podem ter efeitos catastróficos. Na verdade, cerca de 22,6 milhões de pessoas poderão morrer, até 2030, em 93 países de baixo e médio rendimento, caso se mantenham os cortes na ajuda internacional, incluindo 5,4 milhões de crianças com menos de cinco anos, de acordo com um estudo divulgado no início de março deste ano.

À medida que os maiores doadores mundiais continuam a cortar milhares de milhões de dólares na ajuda pública ao desenvolvimento (APD), o estudo do Instituto de Saúde Global de Barcelona (ISGlobal), financiado pela Fundação Rockefeller e publicado na revista The Lancet, estima mais 22,6 milhões de mortes, até 2030, se a tendência se mantiver. A análise centra-se em 93 países afetados pela redução dos financiamentos e onde vivem, no total, 6,3 mil milhões de pessoas – 75% da população mundial. Para quantificar as consequências, os investigadores recorreram a duas décadas de dados, entre 2002 e 2021, simulando resultados em diferentes cenários de financiamento. “Não queremos aceitar isto como a nova normalidade, não queremos aceitar esta situação, esta redução constante”, declarou Davide Rasella, do ISGlobal e coordenador do estudo.

Em 2023, o total da APD atingiu 250,3 mil milhões de dólares (212,3 mil milhões de euros) – o valor mais elevado de sempre –, com a França, a Alemanha, o Japão, o Reino Unido e os EUA a contribuírem, em conjunto, com cerca de 70% do montante. Todos estes grandes doadores, exceto o Japão, reduziram a sua contribuição para a APD, em 2024, pela primeira vez, em três décadas. No total, a ajuda internacional caiu, pela primeira vez, em seis anos.

Os EUA foram o primeiro país a desmantelar a sua agência de desenvolvimento internacional, a USAID, em 2025, mas seguiram-se cortes noutros países. Assim, o Fundo Global de Luta contra a síndrome da imunodeficiência adquirida (SIDA), a Tuberculose e a Malária, que organiza, de dois em dois anos, a reposição de fundos, para angariar financiamento, registou a forte quebra, no financiamento, de 15,7 mil milhões de dólares, em 2022, para 11,34 mil milhões, em 2025. Alguns doadores, como a UE, ainda não especificaram o montante que irão prometer. E Rasella adiantou que, se se restaurar o nível de financiamento, “milhões de pessoas vão mesmo morrer”, sendo o próximo desafio decidir como alocar o dinheiro que resta.

O estudo mostra que, entre 2002 e 2021, os programas de ajuda pública ao desenvolvimento contribuíram para reduzir em 39% a mortalidade infantil e para evitar 70% das mortes por VIH (vírus da imunodeficiência humana) / SIDA e diminuir em 56% as mortes, por malária e por carências nutricionais.

A equipa de investigação projetou dois cenários para analisar como as tendências de cortes no financiamento podem afetar a saúde e o desenvolvimento globais, até 2030. No cenário de retirada de financiamento moderado, com redução de 10,6% (média dos cortes dos dois últimos anos), os cortes podem traduzir-se em 9,4 milhões de mortes evitáveis, incluindo 2,5 milhões de crianças com menos de cinco anos. Porém, no cenário de retirada de financiamento severo, em que os cortes continuam a agravar-se, podem causar mais de 22,6 milhões de mortes adicionais, incluindo 5,4 milhões em crianças com menos de cinco anos. “Pelo menos, três em quatro pessoas, no planeta, vivem em países onde duas décadas de progressos no desenvolvimento podem ser revertidas, os avanços no combate às doenças desaparecem e podem ocorrer perdas de vidas que seriam evitáveis”, referem os investigadores, frisando que estas projeções não são previsões exatas da mortalidade, em 2030, mas comparações relativas entre trajetórias de financiamento, concebidas para isolar o impacto das alterações na APD.

Os cortes no financiamento, além de afetarem a prestação de cuidados de saúde, limitam o número de médicos no terreno e a troca de informação entre países.

Os investigadores defendem que muitos dos benefícios da APD chegam por vias menos visíveis. Há muitos aspetos a considerar, incluindo a vigilância epidemiológica e a preparação para epidemias e choques relacionados com o clima. “O estudo mostra que uma parte da razão pela qual fazemos isto [ajuda internacional] é porque salva vidas numa escala incrível, para o montante que está a ser gasto”, disse Eric Pelofsky, vice-presidente para a recuperação económica global na Fundação Rockefeller, acrescentando que investir no desenvolvimento traz estabilidade e prosperidade de que todo o Mundo pode beneficiar.

Segundo Pelofsky, uma parte importante do problema está na forma como a ajuda externa é enquadrada na política interna, muitas vezes, como escolha entre gastar dentro de portas e gastar em questões apresentadas como distantes do interesse nacional. “A verdade é que gastar dinheiro no estrangeiro é, muitas vezes, pensado para proteger as pessoas, no próprio país, ou para promover uma economia mundial ou uma estabilidade global, que são valiosas para essas mesmas pessoas”, explicou o perito.

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Não há vacinas, nem tratamentos disponíveis para o vírus Bundibugyo. No entanto, a UE está a contribuir com 7,4 milhões de euros para o desenvolvimento de vacinas e de tratamentos, em colaboração com a OMS, no âmbito de um plano de investigação e desenvolvimento, destinado a acelerar os ensaios clínicos. Ao mesmo tempo, a UE e a UNICEF (Fundo das Nações Unidas para a Infância) enviaram 100 toneladas de ajuda humanitária para a província de Ituri, na RDC, para apoiar a resposta ao surto de Ébola. O carregamento inclui medicamentos essenciais, material para a prevenção e controlo de infeções, equipamento de proteção individual, material para o tratamento da cólera e da malária, tendas de alta resistência e equipamento relacionado.

A ajuda, que partiu, a 25 de maio, de Liège, na Bélgica, deverá apoiar cerca de 100 mil pessoas afetadas pelo surto. E, segundo a comissária europeia para a Preparação e Gestão de Crises, Hadja Lahbib, a ajuda também beneficiará cinco milhões de pessoas que dependem, em grande medida, da ajuda humanitária, das quais um milhão são deslocados e “estão espalhados por cerca de 60 campos”.

A comissária Lahbib, a 17 de maio, afirmou que este surto representa um “perigo para a região, para o país e para os países vizinhos”.

Segundo a Comissão Europeia, a UE está a coordenar, na questão das vacinas, as suas abordagens em matéria de prevenção e preparação com os Centros Africanos de Controlo e Prevenção de Doenças (CDC África), com a OMS e com os estados-membros da UE, através do Comité de Segurança Sanitária (HSC).

Desde o primeiro surto registado em 1976, a RDC registou 17 surtos de Ébola, nove dos quais nos últimos 16 anos. Ora, como a doença se propaga pelo contacto direto com os fluidos corporais de doentes sintomáticos, o Centro Europeu de Prevenção e Controlo das Doenças (ECDC) afirma que a probabilidade de transmissão a pessoas que vivem na UE e no Espaço Económico Europeu (EEE) continua baixa.

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Os conflitos, em vez de desarmarem, multiplicam-se; a destruição, as epidemias, a fome e a morte não se fazem esperar; e as ONG não desistem. Porém, os governos e os ricos têm outras prioridades: lucro, prestígio, fama e poder.

2026.05.26 – Louro de Carvalho

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