O
projeto Waterwise está a recolher uma quantidade, sem precedentes, de dados de
todos os picos alpinos, com o objetivo de compreender melhor a vulnerabilidade
das bacias hidrográficas daquelas importantes nascentes europeias.
A
6 de julho, a Euronews publicou um artigo do jornalista Cyril Fourneris,
sob o título “Os Alpes estão a ficar mais secos: projeto da UE avalia a ‘torre
de água’ da Europa”, o qual, citando o Painel Intergovernamental sobre as
Alterações Climáticas (IPCC), sustenta que “o derretimento dos glaciares
alpinos ameaça o abastecimento de água das comunidades montanhosas e dos
milhões de pessoas que vivem a jusante”, estimando-se que “a maior cordilheira
da Europa esteja a aquecer a um ritmo cerca de duas vezes superior à média
global”.
Tal
situação leva os especialistas a interrogarem-se se “os Alpes continuarão a ser
a reserva de água inesgotável da Europa”. Para obter resposta a esta
questão, o projeto transnacional Waterwise, que intenta modelar a forma como evoluirão
os recursos hídricos alpinos, em diferentes cenários climáticos e sob as
diversas pressões que afetarão estes ecossistemas no futuro, elegeu como um dos
locais-piloto a Reserva Natural de Contamines-Montjoie, situada perto do lado
francês do Monte Branco.
Neste
âmbito, segundo o jornalista, o projeto visa colmatar o fosso entre os
cientistas e as comunidades locais, e levá-los a desenvolverem, em conjunto,
estratégias sustentáveis conexas com a água. “Só protegemos aquilo que
conhecemos. Este projeto visa aumentar o conhecimento e, consequentemente,
reforçar a proteção”, esclarece Geoffrey Garcel, o guarda da reserva, que subiu
ao Plan Jovet, onde se encontram dois lagos junto a um glaciar que desapareceu.
Esta é, tal como muitas bacias hidrográficas de nascente, “uma zona de difícil
acesso, onde a recolha de dados sobre o estado da água pode revelar-se
complicada”.
“Concentramo-nos
nas bacias hidrográficas das nascentes dos rios, pois são áreas que se tornarão
altamente vulneráveis, no contexto das alterações climáticas. E também, porque
tudo o que acontece a montante irá afetar o que acontece a jusante”, explicou Solène
Pignard, do Waterwise Research Officer, Réserves Naturelles de France.
Com
um orçamento total de 2,69 milhões de euros, o projeto Waterwise é cofinanciado
com 1,61 milhões de euros pelo Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional
(FEDER) e congrega 12 parceiros da França, da Alemanha, da Suíça, da Áustria e
da Eslovénia.
Para
Cyril Fourneris, o Waterwise tem por objetivo reunir um vasto conjunto de
informações existentes e identificar os dados em falta, através de
levantamentos no terreno e da instalação de sensores leves, conhecidos como “smart
rocks”, colocados no interior dos cursos de água, esperando-se que os dados
recolhidos incluam informações sobre a quantidade de água, sobre o estado
ecológico e sobre a temperatura – informações que “são cruzadas com dados
socioeconómicos, tais como a agricultura, a produção de energia e o turismo”.
Por
exemplo, a Reserva de Contamines-Montjoie é atravessada, todos os anos, por
milhares de caminhantes que percorrem o “Tour du Mont Blanc”. No verão, manadas
de vacas pastam ao longo dos ribeiros das montanhas. E a empresa francesa de
energia EDF retira parte da água para abastecer uma central elétrica no vale
vizinho, constituindo uma das pressões que levaram a reserva a adotar medidas
de adaptação, nos últimos anos. “Se compararmos diferentes bacias hidrográficas,
em diferentes países, talvez possamos identificar alguns padrões comuns e
desenvolver soluções sustentáveis que possam depois ser aplicadas noutras
regiões dos Alpes”, admite Markus Noack, professor de engenharia hidráulica e
gestão de recursos hídricos na Universidade de Ciências Aplicadas de Karlsruhe.
Refere
Cyril Fourneris que os dados recolhidos através do Waterwise serão também
utilizados para alimentar uma “caixa de ferramentas digital” de acesso aberto,
que ajudará os decisores e as comunidades alpinas a debater, em conjunto, as
medidas de adaptação necessárias para garantir a resiliência dos seus
territórios. Na verdade, aproveitar os conhecimentos das partes interessadas do
território montanhoso é outra vertente importante do projeto transnacional.
***
A
preocupação com o destino desta cadeia montanhosa não é só de agora.
Efetivamente, Aurora Velez, em artigo intitulado “Alpes, um espaço comum de
desafios e soluções”, publicado pela Euronews, a 3 de agosto de 2020,
aborda projetos de sete países da região alpina que já estavam a partilhar
“soluções comuns para problemas de todos”.
Entre
eles, sobressai o “Espaço Alpino”, programa europeu cujo objetivo é dar
respostas para melhorar a qualidade de vida, nos Alpes, e em que se enquadra o “Atlas
Europeu” – um dos cerca de 60 projetos no âmbito do programa – de que um dos
objetivos é a preservação, em colaboração com os municípios e com arquitetos,
do património edificado das Dolomitas italianas, onde há, como em toda a região,
construções típicas de montanha e ricas em História.
Por
exemplo, como referia a jornalista, Elmar Gruber e a família decidiram
restaurar uma casa edificada, em 1819, nos Alpes, uma das primeiras construções
civis a ter eletricidade. E os donos quiseram recuperá-la, preservando a
identidade do edifício e torná-lo eficiente, do ponto de vista energético. “Queríamos
preservar, tanto quanto possível, o caráter desta casa. Nas janelas, por
exemplo, fizemos uma renovação energética, com o compromisso de não perder a
identidade que tinha, e o resultado é muito bom. Tínhamos algumas dúvidas sobre
algumas coisas, mas, depois, ficámos surpreendidos com o que podíamos fazer”,
afirma Elmar.
Como
recordava Aurora Velez, o “Atlas Europeu” – um dos mais antigos programas
apoiados pela Política de Coesão da União Europeia (UE), que visa promover a
cooperação entre sete países dos Alpes e melhorar a qualidade de vida na região
– estabelece uma base de dados dos edifícios históricos a restaurar e fornece aos
arquitetos um guia de soluções técnicas e de boas práticas. E Franziska Haas,
coordenadora do projeto, revela que recolheram “exemplos, para mostrar que é
possível renovar edifícios antigos e ter um conforto moderno”, além de manter a
história e o velho encanto da casa e a identidade da aldeia, do município e da
região.
Outro
projeto do “Espaço Alpino” é o “AlpES”, que mapeia as áreas e os ecossistemas
mais ameaçados e estabelece definições comuns, para os gerir em benefício de
todos.
Embora
a cooperação na região alpina exista, há décadas, o primeiro programa de
cooperação transnacional da UE para os Alpes só foi lançado em 2000. Entre 2014
e 2020, o “Espaço Alpino” investiu 139 milhões de euros, com vista a encontrar
soluções integradas e reforçar a cooperação entre os países envolvidos no
projeto: a Áustria, a França, a Alemanha, a Eslovénia, a Itália, o Liechtenstein
e a Suíça.
Para
Lukas Egarter, ecologista de ecossistemas, é nossa responsabilidade manter
estes ecossistemas saudáveis, para que possam servir também às gerações futuras.
“Os ecossistemas de água doce são um dos ecossistemas mais cruciais da região
alpina, aliás, estão na base de toda a vida no planeta”, diz o ecologista.
O
“AlpES” analisa, como observa a jornalista, os principais serviços, como o
abastecimento de água, as zonas de relaxamento, a captura de dióxido de carbono
(CO2) pelas florestas, ou os polinizadores, em mais de 70 mil
municípios do espaço alpino, partindo da premissa de que “o bem-estar humano
depende da saúde dos ecossistemas”.
Os
projetos em referência pretendem contrariar ou, pelo menos, minimizar as
ameaças à Natureza alpina, sendo as principais:
*
a urbanização, com a expansão dos centros urbanos às zonas de planície alpina a
levar os vales de fácil acesso e os grandes rios a perderem a maior parte da
sua biodiversidade;
*
o tráfego – uma das principais causas da fragmentação do habitat – com o grande
impacto das grandes infraestruturas (densas redes rodoviárias e ferroviárias) no
espaço natural, para cuja destruição se aliam às infraestruturas o ruído e a
poluição atmosférica;
*
a agricultura, a provocar a diminuição da biodiversidade, pela tendência do
abandono das zonas agrícolas remotas e do sobrepovoamento das zonas mais
atrativas;
*
a destruição dos habitats de água doce, com a forte alteração dos cursos de
água alpinos e com a separação entre os rios e as zonas ribeirinhas, que
regulam as cheias, mas que foram separadas dos rios e convertidas em campos
agrícolas ou em zonas urbanas;
*
e as alterações climáticas, com o aquecimento global a causar o retrocesso de
todos os glaciares alpinos, o que levou à migração crescente de plantas alpinas.
***
A
região alpina, a cordilheira maior e mais importante da Europa Ocidental, fica
no Centro-Sul da Europa, abrange um território de, aproximadamente, 190700 km²
(quilómetros quadrados) estende-se, em arco, por oito países europeus: a
Áustria, a França, a Alemanha, a Itália, o Liechtenstein, o Mónaco, a Eslovénia
e a Suíça. O lendário Mont Blanc, na fronteira entre a França e a Itália, é o
ponto culminante da cordilheira, ficando a 4810 m (metros) acima do nível das
águas do mar, e a altitude da cordilheira diminui de Oeste para Leste. A sua
diversidade geográfica significa acesso a múltiplos destinos icónicos de neve,
cada um de caraterísticas únicas e de particular charme.
A
cordilheira pode ser dividida em três grandes secções: Alpes Orientais, Alpes
Centrais e Alpes Ocidentais. Localizados, principalmente, na Áustria, mas
também na Alemanha, na Itália e na Eslovénia, os Alpes Orientais também
compreendem o Alpes Bávaros, os Alpes Cárnicos, os Alpes Dináricos, os Alpes
Dolomitas e os Alpes Julianos. Os Alpes Centrais ocupam a área entre o Grande
Passo de São Bernardo, na fronteira suíço-italiana, e o Passo do Brennero, na
fronteira da Itália com a Áustria. Essa extensa região compreende os Alpes
Berneses e Glanoreses, no lado Norte, e os Alpes Lepontinos, de Venoste,
Valaisanos e Réticos, na parte Sul. E os Alpes Ocidentais concentram muitos
destinos turísticos famosos e estendem-se dos Alpes Marítimos, perto da costa
mediterrânea, ao Grande Passo de São Bernardo, abrangendo as fronteiras da
França, da Itália e da Suíça. É composto pelos Alpes Cócios, Lígures e Graios,
bem como o maciço do Mont Blanc e o Vale de Aosta, no Noroeste da Itália.
Além
de serem um destino popular para os entusiastas dos desportos de inverno, os
Alpes também são fundamentais para a hidrologia europeia, sendo a fonte de rios
importantes como o Ródano, o Reno e o Pó. Por outro lado, são cruciais na
História da Europa: têm sido a barreira natural e o palco de acontecimentos
históricos, desde as campanhas de Aníbal Barca até à II Guerra Mundial; hoje,
simbolizam a unidade e a diversidade da Europa, atraindo milhões de turistas,
anualmente; e, ao mesmo tempo, funcionam como a “torre de água” do continente,
pois o derretimento da neve e dos glaciares fornece a nascente de importantes
rios que ligam toda a Europa.
Esta
cadeia montanhosa é a fonte vital do continente em diversas frentes:
*
hidrológica, por ser a nascente de grandes rios europeus, como o Reno, que
desagua no Mar do Norte, o Ródano, que desagua no Mediterrâneo, o Pó, que
atravessa a Itália, e o Danúbio;
*
ecológica e energética, pois as suas bacias e albufeiras atuam como reguladores
naturais de água e fornecem grande parte da energia hidroelétrica e potável aos
países vizinhos;
*
climática, ao bloquear as massas de ar, separando o clima ameno do
Mediterrâneo do clima mais temperado do Norte e do Centro da Europa;
*
e geológica, pois, nascidas da colisão das placas tectónicas Africana e
Euroasiática, há cerca de 65 milhões de anos, constituem um laboratório natural
para a geologia moderna.
***
Cada
país da região oferece caraterísticas únicas: os Alpes Franceses são famosos
pelas maiores áreas de esqui; os Alpes Suíços, pelo luxo e pela tradição, os
Alpes Italianos, pelas Dolomitas espetaculares (imponentes paredões de rocha
clara – rica em magnésio – em tons avermelhados); e os Alpes Austríacos, pela
hospitalidade. Os empresários do turismo têm resorts nos quatro principais
países alpinos (a França, a Suíça, a Áustria e a Itália), possibilitando a
escolha do destino que mais combina com o estilo de viagem e de estada do turista,
o qual, seja qual for sua escolha, tem garantido – dizem – o mesmo padrão de
qualidade e de conforto.
Nos
Alpes, há uma variedade de atividades. Desportos de inverno, como o esqui e o snowboard,
podem ser praticados nos maiores ski resorts do Mundo, mais
especificamente, nos Alpes Franceses, nos Alpes Suíços, nos Alpes Italianos e nos
Alpes Austríacos. Também são programas populares, na região, as caminhadas, o voo
de parapente e o alpinismo. E, no inverno, os Alpes oferecem uma variedade de
estações de esqui e pistas para todos os níveis de habilidade. Da maior área de
esqui do Mundo, os três vales, nos Alpes Franceses, até à sofisticada St.
Moritz, nos Alpes Suíços, há muitos destinos de neve perfeitos para uma
aventura de esqui ou de snowboard, entre outros desportos de inverno.
Inventado
e aperfeiçoado nos Alpes, o parapente é uma das melhores formas de admirar as
montanhas cobertas de neve. É possível fazer um voo duplo e desfrutar de uma
experiência contemplativa ou topar o chamado voo sensation, em que o
instrutor leva o turista numa jornada cheia de adrenalina, enquanto realiza uma
série de manobras.
Lar
dos picos mais altos da Europa, os Alpes são um paraíso para os montanhistas
experientes. Há uma série de rotas clássicas para escolher, incluindo escalar o
Mont Blanc, explorar a Matterhorn ou caminhar no Monte Rosa. No inverno, a
escalada no gelo também é uma atividade popular. Há muitos desafios, para
experts, e cursos de escalada para quem quer aprender a modalidade. Porém, a
melhor forma de explorar a paisagem alpina e respirar o ar puro das montanhas é
a caminhar. Há muitos percursos que permitem descobrir belos cenários, como
lagos, cascatas, florestas, glaciares e picos cobertos de neve. De curtas
caminhadas com raquetes nos pés até aventuras de trekking de vários
dias, há uma experiência perfeita para todos os fãs de caminhadas pela Natureza.
E, obviamente, há estâncias de alojamento e de refeição, que dispõem de rica e
diversificada gastronomia alpina.
***
O
turismo alpino é importante, sobretudo, para ricos. Todavia, se queremos
preservar o futuro do planeta e das gerações vindouras, nunca será demasiado ter
em conta que os Alpes estão a secar e a perder volume de gelo, a alarmante ritmo.
A “torre de água” da Europa enfrenta recuo histórico dos glaciares (desde 1850,
perderam mais de 60% do seu volume; e entre 2000 e 2020, desapareceram cerca de
40% dos seus glaciares) e drástica diminuição da cobertura de neve. Locais,
inteiramente brancos, durante o ano, são, agora, rochas e vales expostos.
Dá
que pensar e deveria dar que agir, nomeadamente, pela regulação e pela diminuição
da atividade humana na paisagem alpina. O homem não é só o lobo do homem, mas é
também o grande predador dos recursos naturais, o que os cientistas conseguem
evitar, porque os poderes políticos e económicos não querem.
2026.07.06
– Louro de Carvalho
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