segunda-feira, 6 de julho de 2026

Se a ciência está com os eruditos, a sabedoria está nos simples

 

A liturgia do 14.º domingo do Tempo Comum, no Ano A, ensina-nos onde Deus quer ser encontrado Deus e assegura-nos que Deus não Se revela na arrogância, no orgulho, na prepotência, mas na simplicidade, na humildade, na pobreza, na pequenez.

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No Evangelho (Mt 11,25-30), Jesus louva o Pai, porque a salvação que oferece aos homens, mas que foi rejeitada pelos “sábios e inteligentes”, achou acolhimento no coração dos “pequeninos”. Os grandes, instalados no orgulho e na autossuficiência, não têm disponibilidade para os desafios de Deus; já os pequenos, na sua pobreza e simplicidade, estão sempre disponíveis para acolher a novidade libertadora de Deus.

Após o “discurso da missão” e o envio dos discípulos ao Mundo para continuarem a obra libertadora de Jesus, o evangelista insere uma secção sobre as atitudes que as várias pessoas e grupos tomam frente a Jesus e ao Reino (cf. Mt 11,2-12,50).

O trecho em apreço integra esta secção. Antes, Jesus havia dirigido veemente crítica aos habitantes de algumas cidades situadas à volta do lago de Tiberíades (Corozaim, Betsaida, Cafarnaum), por terem sido testemunhas da proposta de salvação e se manterem indiferentes, pois, cheios de si, instalados nas certezas, calcificados nos preconceitos, não aceitavam questionar-se e abrir o coração à novidade. Em contraponto, Jesus manifesta-Se convicto de que sua proposta rejeitada pelos habitantes daquelas cidades terá acolhimento nos pobres e nos marginalizados, desiludidos com a religião e ansiosos pela libertação.

O texto evangélico apresenta três “sentenças” que terão sido pronunciadas em ambientes diversos deste. Duas (Mt 11,25-27) aparecem também em Lucas (cf. Lc 10,21-22), devendo provir de um documento que reuniu os ditos de Jesus e que Mateus e Lucas utilizaram na composição dos seus Evangelhos. A terceira (Mt 11,28-30), exclusiva de Mateus, deve provir de fonte própria.

A primeira sentença (Mt 11,25-26) é um louvor que Jesus dirige ao Pai, porque escondeu “estas coisas” aos “sábios e inteligentes” e as revelou aos “pequeninos”.

Os “sábios e inteligentes” são os fariseus e os doutores da Lei, que absolutizavam a Lei, que se tinham por justos e dignos de salvação por cumprirem escrupulosamente a Lei e que não estavam dispostos a deixar pôr em causa o sistema religioso em que se instalaram, o que, na sua ótica, lhes garantia a salvação. Já os “pequeninos” são os discípulos, os primeiros a responder à oferta do Reino, bem como os pobres e marginalizados (doentes, publicanos, mulheres de má vida, o povo da Terra) que Jesus encontrava, todos os dias, pelos caminhos da Galileia, considerados malditos pela Lei, mas que acolhiam, com alegria e entusiasmo, a proposta de Jesus.

A segunda sentença (Mt 11,27), conexa com a anterior, explicita o que foi escondido aos sábios e inteligentes e revelado aos pequeninos: o conhecimento (isto é, a experiência íntima) de Deus. Os sábios e inteligentes estavam convictos de que a Lei lhes dava o conhecimento de Deus. A Lei era uma espécie de linha direta para Deus, pela qual ficavam a conhecer Deus, a sua vontade, o seu desígnio. Por isso, assumiam-se como detentores da verdade, representantes de Deus, capazes de interpretar a vontade e os planos divinos.

Jesus esclarece que quem quiser fazer experiência profunda e íntima de Deus tem de aceitar Jesus e segui-Lo. Ele é o Filho e só Ele tem experiência profunda de intimidade e de comunhão com o Pai. Quem rejeita Jesus não pode conhecer Deus; só encontra imagens distorcidas de Deus e as aplica para julgar. Ao invés, quem aceitar Jesus e O seguir, aprende a viver em comunhão com Deus, na obediência total aos seus projetos e na incondicional aceitação dos seus planos.

A terceira sentença (Mt 11,28-30) insta a ir ao encontro de Jesus e a aceitar a sua proposta: “vinde a Mim”; “tomai sobre vós o meu jugo”. Entre os fariseus, a imagem do jugo era aplicada à Lei de Deus, a suprema norma de vida. Assim, para os fariseus, a Lei não era jugo pesado, mas jugo glorioso, que devia ser carregado com alegria. Porém, era um jugo pesadíssimo. Com efeito, a impossibilidade de cumprir, no quotidiano, os 613 preceitos da Lei escrita e oral, atormentava as consciências. Os crentes, incapazes de estarem em dia com a Lei, sentiam-se condenados e malditos, afastados de Deus e indignos da salvação. A Lei aprisionava, em vez de libertar, e afastava de Deus, em vez de levar à comunhão com Deus.

Jesus veio libertar o homem da escravidão da Lei. A sua proposta de libertação plena dirige-se aos doentes (oficialmente, vítimas de castigo de Deus), aos pecadores (publicanos, mulheres de má vida, todos os que tinham, publicamente, comportamentos política, social ou religiosamente incorretos), ao povo simples do país (que, pela dureza da vida, não podia cumprir todos os ritos da Lei), a todos aqueles que a Lei exclui e amaldiçoa. Jesus garante-lhes que Deus não os exclui, nem amaldiçoa e convida-os a integrar o mundo novo do Reino. É nessa dinâmica proposta por Jesus que encontrarão a alegria e a felicidade que a Lei recusa dar-lhes.

Contudo, o Reino não é reservado a uma classe determinada – pobres, débeis, marginalizados –, em detrimento de outra: ricos, poderosos, os da situação. O Reino destina-se a todos os homens e mulheres, sem exceção. No entanto, são os pobres e débeis, os que já desesperaram do socorro humano, que têm o coração mais disponível para acolher a proposta de Jesus. Os outros estão cheios de si próprios, dos seus interesses, dos seus esquemas organizados, para aceitarem arriscar na novidade de Deus. Ora, acolhendo a proposta de Jesus e seguindo-O, os pobres e oprimidos encontrarão o Pai, tornar-se-ão filhos de Deus e descobrirão a vida plena, a salvação definitiva, a felicidade total.

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A primeira leitura (Zc 9,9-10) apresenta-nos um enviado de Deus que vem ao encontro dos homens na pobreza, na humildade, na simplicidade; e é assim que elimina os instrumentos de guerra e de morte e instaura a paz definitiva.

O Livro de Zacarias é um livro profético com 14 capítulos. Os estudiosos reconhecem que, entre os oito primeiros capítulos e os restantes, há diferença de contexto, de estilo, de vocabulário e de temática, pelo que haverá, aqui, dois livros em um e de dois autores diversos. Dado que não se conhece o nome do autor do segundo livro (capítulos 9-14), convencionou-se chamar-lhe o “Deuterozacarias”. É a este que pertence o trecho em referência.

A maioria dos comentadores situa estes oráculos no final do século IV ou nos princípios do século III a.C. O ambiente é pós-exílico. O contexto parece revelar a época posterior às vitórias de Alexandre da Macedónia, com o Povo de Deus integrado no império helénico.

O livro está marcado por forte acento messiânico. Refere, com frequência, a figura do Messias, apresentado como rei, como pastor e como servo do Senhor. Na primeira parte (Zc 9,1-11,7), o profeta anuncia a intervenção definitiva de Deus em favor do seu Povo, na figura do Messias; na segunda parte (Zc 12,1-14,21), descreve a salvação e a glória futura de Jerusalém.

O Deuterozacarias descreve, neste oráculo, o regresso do rei vitorioso a Jerusalém. A cidade é convidada a alegrar-se e regozijar-se, pois chegou o seu rei, “justo e salvador”. E a sua entrada vitoriosa na cidade é humilde e pacífica: ele não cavalgará um cavalo de guerra (símbolo do militarismo), mas um “jumentinho, filho de uma jumenta”. A sua atitude contrasta com as exibições de força, de poder, de agressividade dos grandes do Mundo.

No entanto, este rei humilde e pacífico terá a força para destruir a guerra (aniquilará os instrumentos de morte: os carros de combate, os cavalos de guerra, os arcos de guerra) e para proclamar a paz universal. O seu reino irá “de um mar ao outro mar” e do “rio” (Eufrates) “até aos confins da Terra”, ou seja, abarcará a totalidade do Mundo.

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Na segunda leitura (Rm 8,9.11-13), o apóstolo das Gentes convida os crentes, comprometidos com Jesus, desde o dia do Batismo, a viverem “segundo o Espírito” e não “segundo a carne”. A vida “segundo a carne” é a vida dos que se instalam no egoísmo, no orgulho e na autossuficiência; a vida “segundo o Espírito” é a vida dos que aceitam acolher o plano de Deus.

A Carta aos Romanos apresenta-nos um Paulo amadurecido que, após vários anos de incansável trabalho missionário, expõe, serenamente, uma reflexão sobre a salvação, perante as diferentes opções de acesso a ela, por parte dos crentes de então.

Na perspetiva paulina, a salvação é um dom não merecido (porque todos vivem mergulhados no pecado), que Deus oferece, por pura bondade, a todos os homens. A salvação chega-nos por Jesus Cristo e atua em nós pelo Espírito.

O trecho em apreço faz parte de um capítulo em que Paulo reflete sobre a vida no Espírito. O seu pensamento teológico atinge, aqui, um dos pontos culminantes: todos os grandes temas paulinos – o desígnio de Deus em favor dos homens; a ação libertadora de Cristo, através da sua vida de doação, da sua morte e da sua ressurreição; a nova vida que faz dos crentes Homens Novos e os torna filhos de Deus – se cruzam aqui. O Espírito aparece como o elemento fundamental que dá unidade a esta reflexão. Ele está presente por detrás do projeto salvador que Deus tem em favor do homem e de que Paulo não se cansa de dar testemunho.

Jesus, o Deus/Homem, gastou a vida a cumprir o projeto do Pai de dar vida ao homem. A sua ação colidiu com os interesses dos senhores do Mundo, que urgiram a sua crucifixão.

No entanto, essa morte na cruz não foi o fim da linha: o Espírito de Deus, sempre presente em Jesus, ressuscitou-O, porque, no projeto de Deus, oferecer a vida para concretizar o plano do Pai não pode gerar morte, mas vida plena e definitiva.

Ora, Jesus ofereceu aos seus discípulos o mesmo Espírito. Os discípulos têm de estar conscientes de que, se viverem como Jesus e se fizerem da vida um dom a Deus e aos irmãos, receberão essa mesma vida nova e definitiva que o Espírito deu a Jesus. E Paulo convida os cristãos a tirarem as conclusões práticas: se viverem segundo a carne, morrerão, isto é, não encontrarão a vida definitiva; mas, se viverem segundo o Espírito, ressuscitarão para a vida nova.

Temos aqui uma das mais sugestivas antíteses paulinas: a “carne” e o “Espírito”. Viver “segundo a carne” é, na ótica paulina, viver em oposição a Deus, ou seja, viver fechado a Deus, numa vida de egoísmo, de autismo, de autossuficiência que leva o homem a prescindir dos valores de Deus; “viver segundo o Espírito” é, segundo o apostolo, viver em relação com Deus, escutando as suas propostas e sugestões, na obediência ao seu desígnio e na doação da vida aos homens.

Por conseguinte, os cristãos são veementemente exortados por Paulo a fazerem a sua escolha. Sobretudo, o apóstolo está interessado em mostrar aos crentes que só o seguimento de Cristo garante ao homem a vida definitiva.

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O Sucessor de Pedro, a 5 de julho, aos fiéis reunidos na Praça de São Pedro, explicou o Evangelho desta dominga, convidando-nos a partilhar o louvor de Jesus ao Pai, “Senhor do Céu e da Terra”. De facto, “o Filho de Deus feito homem manifesta o seu amor envolvendo todas as criaturas nesta ação de graças”.

“A simplicidade de gesto tão espontâneo e alegre corresponde ao estilo de Deus, que gosta de Se revelar ‘aos pequeninos’, enquanto permanece oculto aos sábios e aos entendidos”, pois estes estão de tal modo cheios das próprias ideias que “não reconhecem a presença de Cristo, o Messias que visita o seu povo”. A sabedoria humana torna-se arrogância e a doutrina degenera em soberba. Ao invés, a sabedoria de Deus revela-se na humildade da carne e o seu ensinamento dirige-se aos que passam por dificuldades: “Vinde a mim, todos que estais cansados e oprimidos.” Ir ao encontro de Jesus é corresponder ao seu amor e partilhar a sua vida até à cruz, como Ele explicou: “Se alguém quiser vir comigo, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me.” “É o dom de si mesmo, por amor, que constitui o jugo de Jesus, ou seja, a síntese do seu ensinamento, o cerne da sua sabedoria, ardente de caridade para com todos.

“Como pode ser ‘leve’ e ‘suave’ o peso da cruz?”, pergunta Leão IX. E logo esclarece: “Porque o Senhor o carrega primeiro e com todos nós, sem nunca nos deixar sozinhos ante o que nos oprime. Como autêntico mestre, Jesus toma sobre Si a Humanidade ferida pelo mal, para cuidar dela. A sabedoria que Ele nos dá é um anúncio de salvação e o seu jugo levanta-nos de todas as quedas. Ao seguir Cristo, o nosso caminho não é ascese que mortifica; é escola de liberdade, que leva a sério o drama da História e ilumina sempre o seu sentido, sobretudo, nos momentos mais sombrios. Com efeito, só na cruz de Jesus é que o mal é redimido: só na sua paixão é que o nosso cansaço mortal encontra consolo e resgate.”

E o Papa reconhece: “Em situações de escravidão, Cristo é libertação. No flagelo da guerra, Cristo é esperança. Na hora do pecado, Cristo é perdão.” É a verdadeira sabedoria, isto é, o caminho que queremos percorrer juntos, unidos como discípulos em seu nome. Jesus ensina-no-lo como Filho, tornando-se irmão: com a força do Espírito Santo, Ele manifesta à Igreja a verdade de Deus e do homem, pois “ninguém conhece o Pai senão o Filho e aquele a quem o Filho O quiser revelar”.

Por fim, exorta: “Ao darmos graças ao Senhor por esta sua confidência cheia de amor, imploremos a intercessão de Maria, Rainha da Paz, pelo bem da Igreja e do Mundo inteiro.

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É, pois, justo cantar com o salmista e aceitar o convite de Cristo:

“Louvarei para sempre o vosso nome, / Senhor, meu Deus e meu Rei.”

“Quero exaltar-Vos, meu Deus e meu Rei, / e bendizer o vosso nome para sempre. / Quero bendizer-Vos, dia após dia, / e louvar o vosso nome para sempre.

“O Senhor é clemente e compassivo, / paciente e cheio de bondade. / O Senhor é bom para com todos / e a sua misericórdia se estende a todas as criaturas.

“Graças Vos deem, Senhor, todas as criaturas / e bendigam-Vos os vossos fiéis. / Proclamem a glória do vosso reino / e anunciem os vossos feitos gloriosos.

“O Senhor é fiel à sua palavra / e perfeito em todas as suas obras. / O Senhor ampara os que vacilam / e levanta todos os oprimidos.”

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“Aleluia. Aleluia.” “Bendito sejais, ó Pai, Senhor do Céu e da Terra, / porque revelastes aos pequeninos os mistérios do reino.”

2026.07.05 – Louro de Carvalho

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