domingo, 5 de julho de 2026

O Prémio Camões 2026 foi atribuído à escritora Lídia Jorge

 

Lídia Jorge, para quem a literatura é um caminho pessoal e não uma carreira, vence o Prémio Camões 2026, “um prémio que se sabe que existe, mas ninguém imagina que vai ter”. “Dedico este prémio a todas as mulheres que o receberam antes de mim, foi nelas que pensei no momento em que soube”, declarou, após se dizer surpreendida.

A dedicatória estendeu-se aos professores portugueses, principalmente, aos que lecionam no estrangeiro, que julga tão importantes para que se continue a cultivar a língua portuguesa. “Dedico também a todos os professores portugueses que estão em todo o Mundo a ensinar a nossa língua. Precisam de uma palavra de força, neste momento”, frisou.

O Ministério da Cultura avançou, a 2 de julho, em comunicado, que a decisão do vencedor da 38.ª edição do Prémio Camões foi tomada pelo júri, por unanimidade. O júri, reunido em formato online, destacou o “diversificado conjunto” da obra e “o grande contributo para o enriquecimento do património literário e cívico-cultural da língua portuguesa” e realçou a escrita “marcada por uma prosa poética densa” e os temas abordados, como “a transição democrática em Portugal, a condição feminina, a emigração, os conflitos geracionais, as transformações sociais e o papel da memória coletiva na construção da identidade contemporânea”.

O Prémio Camões, que foi criado, em 1988, por Portugal e pelo Brasil, para distinguir autores reconhecidos pela valorização da língua portuguesa, é de 100 mil euros, repartidos por ambos os países. É organização do Ministério da Cultura (Portugal) e da Fundação Biblioteca Nacional (Brasil). O júri é composto por dois portugueses, dois brasileiros, e duas personalidades de países africanos de língua oficial portuguesa (PALOP). Nesta edição, integraram-no José Carlos Seabra Pereira, da Universidade de Coimbra, e Ana Mafalda Leite, poeta, ensaísta e professora da Universidade de Lisboa, os brasileiros José Bessa, professor, jornalista e historiador, e Lúcia Santaella, professora e investigadora, e Odete Semedo, escritora, poeta e professora guineense, e Lopito Feijóo, escritor e crítico literário angolano, dos PALOP.

A distinção surge um ano depois de ter sido convidada pelo Presidente da República para presidir à Comissão do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas e de discursar, nessa qualidade, nas comemorações, em Lagos, e depois de importantes prémios em França e na Áustria, sucedendo, assim, à poetisa angolana Ana Paula Tavares, galardoada, em 2025, com a mais alta distinção para autores de língua portuguesa.

A escritora reagiu, dizendo-se “muito feliz por integrar esta já longa fila de escritores que têm recebido o prémio. ao longo de todos estes anos, de todas as partes do Mundo onde se fala a língua portuguesa”, mas, ao mesmo tempo, sentindo respeito, pois Camões, na ótica da galardoada, “representa aquilo que é a alma e a vida portuguesa”. “Fiquei um bocado incrédula. É um prémio que se sabe que existe, mas ninguém imagina que vai ter”, afirmou, a 2 de julho, pouco depois de ter sido anunciada a vencedora do galardão.

Enquanto o júri destaca o “contributo para o enriquecimento do património literário e cívico-cultural da língua portuguesa”, a escritora explica as razões por que o prémio é relevante para si: “Camões, a vida dele e a obra, são duas coisas juntas, juntas e indissociáveis. E, quando se tem o prémio Camões, há dois sinais: […] ter um patrono de uma qualidade literária insuperável e […] um exemplo de uma vida de diáspora extraordinária que representa aquilo que é a alma e a vida portuguesa. Então, esses dois símbolos dão-me uma alegria enorme”. Para a galardoada, em 2025, como o Prémio Pessoa, os prémios dão “alegria para continuar”.

Nascida em Boliqueime, em 1946, Lídia Jorge estreou-se como romancista com “O Dia dos Prodígios”, em 1980. Tem vasta e diversificada obra literária, que inclui títulos, como “O Cais das Merendas” (1982), “Notícia da Cidade Silvestre” (1984), “A Costa dos Murmúrios” (1988), “O Vale da Paixão” (1998) e, mais recentemente, “Estuário” (2018), “O Vento Assobiando nas Gruas” (2002) e “Misericórdia” (2022). Só este último (em grande parte autoficcional, baseado na experiência com a mãe vitimada pela covid-19 enquanto estava num lar), editado pela Dom Quixote, recebeu o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores (APE) (2022), o Prémio Urbano Tavares Rodrigues (2023), o Prémio do PEN Clube Português (2023), o Prémio Fernando Namora (2015 e 2023) e o Prémio Médicis Estrangeiro (2023), na França.

Do seu currículo literário constam ainda: o Prémio Luso-Espanhol de Arte e Cultura (2014), o Prémio Jean Monnet de Literatura Europeia (2000), o Prémio Literário Vergílio Ferreira (2015), o Prémio FIL (Feira Internacional do Livro em Guadalajara) de Literatura em Línguas Românicas, atribuído em 2020, e o Prémio Estatal Austríaco de Literatura Europeia (2026). E, em junho deste ano, o governo atribuiu-lhe a Medalha de Mérito Cultural, numa cerimónia realizada em Loulé, no âmbito da 4.ª edição do Fórum Cultura.

Lídia Jorge, que foi conselheira de Estado, tem-se distinguido também pela intervenção cívica, que a faz dizer que é “uma escritora, de certa forma, fora de moda”, a maior parte dos escritores “dedica-se à sua obra e não se envolve com esta matéria confusa que é a política, a sociedade”. E eu sou irrequieta, não é? Sou irrequieta e, portanto, envolvo-me”, diz a escritora, para quem esta faceta está “ao lado da obra”, mas sendo possível que as pessoas, ao olharem para ela, vejam “os dois campos”.

Está a escrever um novo livro para ser lançado em 2027. “Será sobre o povo, sim. É o meu sujeito, é o meu personagem, é este povo. Este povo de que eu gosto, cheio de defeitos e de qualidades. É sobre ele que eu escrevo e vou escrever até ao fim”, explica.

Para Margarida Balseiro Lopes, ministra da Cultura, Juventude e Desporto, “o Prémio Camões 2026 reconhece uma das mais relevantes vozes da literatura portuguesa contemporânea”, visto que, “ao longo de décadas, Lídia Jorge construiu uma obra de enorme exigência intelectual e literária, contribuindo para afirmar a língua portuguesa como espaço de criação, [de] pensamento e [de] diálogo entre culturas”.

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O Presidente da República, António José Seguro, felicitou, de imediato, a escritora pelo Prémio Camões 2026, e considerou que é “uma das grandes vozes na literatura contemporânea de todas as línguas”. “É com muita alegria e honra que o Presidente da República celebra e cumprimenta a escritora Lídia Jorge, hoje distinguida com o Prémio Camões, o mais alto galardão literário da nossa língua”, lê-se em nota publicada no sítio da Presidência da República, em que o chefe de Estado refere que a escritora “construiu uma polifonia deslumbrante e trágica, comovente e cheia de inteligência sobre a natureza humana e a condição portuguesa”, com livros como “A Costa dos Murmúrios”, “O Vento Assobiando nas Gruas” e “Misericórdia”.

“A sua obra, distribuída pelo romance, conto, ensaio, crónica, teatro e poesia, abriu caminhos singulares na nossa literatura e na forma de pensar Portugal, a nossa sensibilidade, a vida das mulheres portuguesas e a memória de eventos marcantes para a história recente do nosso país”, acrescenta o Presidente da República. “Nessa medida, é um barómetro que tem detetado os sinais de mudança e os movimentos transformadores da sociedade, sem nunca perder um cunho estético de primeira grandeza, o que faz dela uma das grandes vozes na literatura contemporânea de todas as línguas”. diz António José Seguro, vincando: “O Prémio Camões é um dos corolários de uma carreira literária que o Presidente da República saúda e felicita. A sua voz é, neste momento, a nossa voz.”

A Universidade do Algarve, em mensagem de congratulação com a atribuição do Prémio Camões 2026 a Lídia Jorge, Doutora Honoris Causa pela UAlg, e uma das grandes vozes da literatura portuguesa contemporânea, refere que a contemplada “vê, agora, reconhecido, com a mais importante distinção literária da língua portuguesa, um percurso literário, intelectual e cívico de exceção, marcado por uma obra amplamente traduzida, premiada e estudada em Portugal e no estrangeiro”. E considera que sua ligação à Universidade do Algarve “tem sido marcada por uma relação próxima e duradoura”, de tal forma que, “em 2010, a escritora foi distinguida com o título de Doutora Honoris Causa em Literatura pela UAlg e, entre 2009 e 2016, integrou o Conselho Geral da UAlg.

Recordando que a escritora viveu, em Angola e em Moçambique, experiências que marcaram, profundamente, o seu olhar literário sobre a memória, a História recente de Portugal, a condição humana e as transformações sociais, a UAlg sublinha a “vasta e diversificada obra literária, tendo construído uma das carreiras mais prestigiadas da literatura portuguesa”, destacando, entre os seus títulos mais emblemáticos, “O Dia dos Prodígios” (1980), “O Cais das Merendas” (1982), “Notícia da Cidade Silvestre” (1984), “A Costa dos Murmúrios” (1988), “O Vale da Paixão” (1998), “O Vento Assobiando nas Gruas” (2002) e “Misericórdia” (2022).

Lembra a UAlg que, ao longo do seu percurso, a escritora recebeu inúmeros prémios nacionais e internacionais, entre os quais o Prémio Médicis Étranger e o Prémio Pessoa, recebeu a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique, foi distinguida pelo Estado francês como Dama da Ordem das Artes e das Letras e, em reconhecimento do seu percurso intelectual e cívico, foi designada pelo anterior Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, para integrar o Conselho de Estado, ocupando o lugar, antes, desempenhado pelo filósofo Eduardo Lourenço.

Também a Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Algarve, Instituto Público (CCDR-A, IP) congratula a escritora algarvia pela atribuição do Prémio Camões 2026, distinção que reconhece o percurso singular de uma das mais relevantes figuras da literatura portuguesa contemporânea e constitui um momento de particular significado para o Algarve.

“Natural de Boliqueime, no concelho de Loulé, Lídia Jorge construiu uma das mais marcantes obras da literatura portuguesa contemporânea, afirmando-se como uma voz de referência no espaço lusófono e internacional. A sua escrita, profundamente humanista, tem sabido interpretar os grandes desafios do nosso tempo, cruzando memória, identidade, liberdade e transformação social, sem nunca perder a ligação às raízes que a viram nascer”, escreveu a CCDR-A, frisando que, “para o Algarve, este reconhecimento assume um significado particularmente especial”, por celebrar “uma autora cuja obra transporta, de forma subtil e universal, marcas da paisagem, da cultura e das vivências do Sul do país, projetando o território muito para lá das suas fronteiras geográficas” e por reconhecer a capacidade da região em “gerar talento, pensamento crítico e criação artística de excelência”.

Vincando que “a cultura constitui um dos pilares do desenvolvimento regional, reforçando a identidade coletiva, promovendo a coesão social e valorizando os recursos materiais e imateriais dos territórios, a CCDR-A salienta o percurso de Lídia Jorge como “exemplo maior do contributo que a criação literária pode oferecer para a afirmação do Algarve, enquanto região de conhecimento e criatividade”.

Por seu turno, a Câmara Municipal de Loulé (CML) manifesta “o seu mais profundo orgulho e alegria pela distinção da consagrada escritora louletana Lídia Jorge com o Prémio Camões 2026”. Na verdade, atribuído pelo júri, por unanimidade, “é o galardão literário mais importante e prestigiado de toda a Lusofonia”, que reconhece o extraordinário contributo da autora para o enriquecimento e projeção internacional do património literário e cultural da Língua Portuguesa. E, tendo em conta que o Prémio Camões, atribuído, anualmente, desde 1988, foi instituído para estreitar os laços culturais entre os vários países lusófonos e para enriquecer o seu património literário e cultural, homenageando a sua maior voz, Luís Vaz de Camões, a CML vê Lídia Jorge a juntar-se a outros grandes nomes vencedores do galardão, como Sophia de Mello Breyner Andresen, José Saramago, Jorge Amado, Pepetela ou Mia Couto.

No dizer da autarquia, a escritora natural de Boliqueime, concelho de Loulé, “consolidou-se como uma das vozes mais marcantes da literatura contemporânea do pós-25 de Abril”, surgindo atribuição do Prémio Camões “no seguimento de um percurso ascendente de aclamação global” e celebrando, “de forma justa, uma escrita profundamente humanista”, que versa temas universais, como a identidade, a memória, a liberdade, a condição humana e o papel da mulher.

Telmo Pinto, presidente da CML expressa a admiração da autarquia e de todos os louletanos ante esta consagração: “Lídia Jorge tem levado a alma algarvia e a identidade louletana aos quatro cantos do Mundo, através de uma obra intemporal e amplamente reconhecida. Este Prémio Camões não honra apenas a sua excelência, mas eleva também o nome de Loulé no panorama da cultura mundial, no preciso momento em que a escritora assume o papel de Patrona da nossa candidatura a Capital Portuguesa da Cultura 2028. É um dia histórico para a nossa terra. Muitos parabéns, Lídia Jorge!”

A relevância do Prémio Camões junta-se a uma imensa e prestigiada lista de distinções que a autora acumulou ao longo da sua carreira. Só nos últimos meses, Lídia Jorge foi galardoada com o prestigiado Prémio Pessoa 2025, o Prémio Estatal Austríaco de Literatura Europeia 2026 e a Medalha de Mérito Cultural entregue pelo governo português na sua terra natal. O seu aclamado romance “Misericórdia” (2022) venceu igualmente o prémio francês Médicis Étranger e o Grande Prémio de Romance e Novela da APE. Do seu currículo constam ainda, segundo o edil, o Prémio Luso-Espanhol de Arte e Cultura, o Prémio Jean Monnet de Literatura Europeia e o Prémio Literário Vergílio Ferreira. Assim, o Município de Loulé continuará a promover e a apoiar a divulgação do legado literário de Lídia Jorge, cuja obra, iniciada, em 1980, com “O Dia dos Prodígios”, é “uma referência cultural e cívica inestimável”.

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Antes de Lídia Jorge, por nove vezes, o Prémio Camões foi atribuído a uma mulher. Rachel de Queiroz (1993), Sophia de Mello Breyner Andresen (1999), Maria Velho da Costa (2002), Augustina Bessa-Luís (2004), Lygia Fagundes Telles (2005), Hélia Correia (2015), Paula Chiziane (2021), Adélia Prado (2024) e Ana Paula Tavares (2025).

Depois de, há dias, ter reafirmado no festival Babel, no Porto, o teor do discurso de 10 de junho de 2025 – que, em Portugal “ninguém tem sangue puro” –, Lídia Jorge, cujo notável discurso, de genuína matriz histórico-sociologia, foi aclamado pelos Portugueses, foi hostilizada por falsos patriotas, reforçou, com a intrepidez das grandes mulheres, a ideia de que não há qualquer circunstância justificativa da retirada da nacionalidade a um cidadão. “Receber uma nacionalidade é como nascer de novo; retirá-la é uma forma de matar”, afirmou.

Lídia Jorge, que se estreou na na ficção com “O Dia dos Prodígios” (1980), construiu, em mais de quatro décadas de atividade literária, uma obra reconhecida em Portugal e no estrangeiro, traduzida para várias línguas e estudada em universidades de diversos países.

Por mim, registo a dedicação do prémio às mulheres e aos professores.

2026.07.05 – Louro de Carvalho

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