Lídia
Jorge, para quem a literatura é um caminho pessoal e não uma carreira, vence o Prémio
Camões 2026, “um prémio que se sabe que existe, mas ninguém imagina que vai
ter”. “Dedico este prémio a todas as mulheres que o receberam antes de mim, foi
nelas que pensei no momento em que soube”, declarou, após se dizer surpreendida.
A
dedicatória estendeu-se aos professores portugueses, principalmente, aos que
lecionam no estrangeiro, que julga tão importantes para que se continue a
cultivar a língua portuguesa. “Dedico também a todos os professores portugueses
que estão em todo o Mundo a ensinar a nossa língua. Precisam de uma palavra de
força, neste momento”, frisou.
O
Ministério da Cultura avançou, a 2 de julho, em comunicado, que a decisão do
vencedor da 38.ª edição do Prémio Camões foi tomada pelo júri, por unanimidade.
O júri, reunido em formato online, destacou o “diversificado
conjunto” da obra e “o grande contributo para o enriquecimento do património
literário e cívico-cultural da língua portuguesa” e realçou a escrita “marcada
por uma prosa poética densa” e os temas abordados, como “a transição
democrática em Portugal, a condição feminina, a emigração, os conflitos
geracionais, as transformações sociais e o papel da memória coletiva na
construção da identidade contemporânea”.
O
Prémio Camões, que foi criado, em 1988, por Portugal e pelo Brasil, para
distinguir autores reconhecidos pela valorização da língua portuguesa, é de 100
mil euros, repartidos por ambos os países. É organização do Ministério da
Cultura (Portugal) e da Fundação Biblioteca Nacional (Brasil). O júri é
composto por dois portugueses, dois brasileiros, e duas personalidades de
países africanos de língua oficial portuguesa (PALOP). Nesta edição, integraram-no
José Carlos Seabra Pereira, da Universidade de Coimbra, e Ana Mafalda Leite,
poeta, ensaísta e professora da Universidade de Lisboa, os brasileiros José
Bessa, professor, jornalista e historiador, e Lúcia Santaella, professora e
investigadora, e Odete Semedo, escritora, poeta e professora guineense, e
Lopito Feijóo, escritor e crítico literário angolano, dos PALOP.
A
distinção surge um ano depois de ter sido convidada pelo Presidente da
República para presidir à Comissão do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades
Portuguesas e de discursar, nessa qualidade, nas comemorações, em Lagos, e
depois de importantes prémios em França e na Áustria, sucedendo, assim, à
poetisa angolana Ana Paula Tavares, galardoada, em 2025, com a mais alta
distinção para autores de língua portuguesa.
A
escritora reagiu, dizendo-se “muito feliz por integrar esta já longa fila de
escritores que têm recebido o prémio. ao longo de todos estes anos, de todas as
partes do Mundo onde se fala a língua portuguesa”, mas, ao mesmo tempo, sentindo
respeito, pois Camões, na ótica da galardoada, “representa aquilo que é a alma
e a vida portuguesa”. “Fiquei um bocado incrédula. É um prémio que se sabe que
existe, mas ninguém imagina que vai ter”, afirmou, a 2 de julho, pouco depois
de ter sido anunciada a vencedora do galardão.
Enquanto
o júri destaca o “contributo para o enriquecimento do património literário e
cívico-cultural da língua portuguesa”, a escritora explica as razões por que o
prémio é relevante para si: “Camões, a vida dele e a obra, são duas coisas
juntas, juntas e indissociáveis. E, quando se tem o prémio Camões, há dois
sinais: […] ter um patrono de uma qualidade literária insuperável e […] um
exemplo de uma vida de diáspora extraordinária que representa aquilo que é a
alma e a vida portuguesa. Então, esses dois símbolos dão-me uma alegria
enorme”. Para a galardoada, em 2025, como o Prémio Pessoa, os prémios dão
“alegria para continuar”.
Nascida
em Boliqueime, em 1946, Lídia Jorge estreou-se como romancista com “O Dia dos
Prodígios”, em 1980. Tem vasta e diversificada obra literária, que inclui
títulos, como “O Cais das Merendas” (1982), “Notícia da Cidade
Silvestre” (1984), “A Costa dos Murmúrios” (1988), “O Vale da
Paixão” (1998) e, mais recentemente, “Estuário” (2018), “O Vento
Assobiando nas Gruas” (2002) e “Misericórdia” (2022). Só este último
(em grande parte autoficcional, baseado na experiência com a mãe vitimada pela covid-19
enquanto estava num lar), editado pela Dom Quixote, recebeu o Grande Prémio de
Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores (APE) (2022), o Prémio
Urbano Tavares Rodrigues (2023), o Prémio do PEN Clube Português (2023), o
Prémio Fernando Namora (2015 e 2023) e o Prémio Médicis Estrangeiro (2023), na
França.
Do
seu currículo literário constam ainda: o Prémio Luso-Espanhol de Arte e Cultura
(2014), o Prémio Jean Monnet de Literatura Europeia (2000), o Prémio Literário
Vergílio Ferreira (2015), o Prémio FIL (Feira Internacional do Livro em
Guadalajara) de Literatura em Línguas Românicas, atribuído em 2020, e o Prémio
Estatal Austríaco de Literatura Europeia (2026). E, em junho deste ano, o governo
atribuiu-lhe a Medalha de Mérito Cultural, numa cerimónia realizada em Loulé,
no âmbito da 4.ª edição do Fórum Cultura.
Lídia
Jorge, que foi conselheira de Estado, tem-se distinguido também pela intervenção
cívica, que a faz dizer que é “uma escritora, de certa forma, fora de
moda”, a maior parte dos escritores “dedica-se à sua obra e não se envolve com
esta matéria confusa que é a política, a sociedade”. E eu sou irrequieta,
não é? Sou irrequieta e, portanto, envolvo-me”, diz a escritora, para quem esta
faceta está “ao lado da obra”, mas sendo possível que as pessoas, ao olharem
para ela, vejam “os dois campos”.
Está
a escrever um novo livro para ser lançado em 2027. “Será sobre o povo, sim. É o
meu sujeito, é o meu personagem, é este povo. Este povo de que eu gosto, cheio
de defeitos e de qualidades. É sobre ele que eu escrevo e vou escrever até ao
fim”, explica.
Para
Margarida Balseiro Lopes, ministra da Cultura, Juventude e Desporto, “o
Prémio Camões 2026 reconhece uma das mais relevantes vozes da literatura
portuguesa contemporânea”, visto que, “ao longo de décadas, Lídia Jorge
construiu uma obra de enorme exigência intelectual e literária, contribuindo
para afirmar a língua portuguesa como espaço de criação, [de] pensamento e [de]
diálogo entre culturas”.
***
O
Presidente da República, António José Seguro, felicitou, de imediato, a
escritora pelo Prémio Camões 2026, e considerou que é “uma das grandes vozes na
literatura contemporânea de todas as línguas”. “É com muita alegria e honra que
o Presidente da República celebra e cumprimenta a escritora Lídia Jorge, hoje
distinguida com o Prémio Camões, o mais alto galardão literário da nossa língua”,
lê-se em nota publicada no sítio da Presidência da República, em que o chefe de
Estado refere que a escritora “construiu uma polifonia deslumbrante e
trágica, comovente e cheia de inteligência sobre a natureza humana e a condição
portuguesa”, com livros como “A Costa dos Murmúrios”, “O Vento Assobiando nas
Gruas” e “Misericórdia”.
“A
sua obra, distribuída pelo romance, conto, ensaio, crónica, teatro e poesia,
abriu caminhos singulares na nossa literatura e na forma de pensar Portugal, a
nossa sensibilidade, a vida das mulheres portuguesas e a memória de eventos
marcantes para a história recente do nosso país”, acrescenta o Presidente da
República. “Nessa medida, é um barómetro que tem detetado os sinais de
mudança e os movimentos transformadores da sociedade, sem nunca perder um cunho
estético de primeira grandeza, o que faz dela uma das grandes vozes na
literatura contemporânea de todas as línguas”. diz António José Seguro,
vincando: “O Prémio Camões é um dos corolários de uma carreira literária que o
Presidente da República saúda e felicita. A sua voz é, neste momento, a
nossa voz.”
A
Universidade do Algarve, em mensagem de congratulação com a atribuição do
Prémio Camões 2026 a Lídia Jorge, Doutora Honoris Causa pela UAlg, e uma das
grandes vozes da literatura portuguesa contemporânea, refere que a contemplada “vê,
agora, reconhecido, com a mais importante distinção literária da língua
portuguesa, um percurso literário, intelectual e cívico de exceção, marcado por
uma obra amplamente traduzida, premiada e estudada em Portugal e no estrangeiro”.
E considera que sua ligação à Universidade do Algarve “tem sido marcada por uma
relação próxima e duradoura”, de tal forma que, “em 2010, a escritora foi
distinguida com o título de Doutora Honoris Causa em Literatura pela UAlg e,
entre 2009 e 2016, integrou o Conselho Geral da UAlg.
Recordando
que a escritora viveu, em Angola e em Moçambique, experiências que marcaram,
profundamente, o seu olhar literário sobre a memória, a História recente de
Portugal, a condição humana e as transformações sociais, a UAlg sublinha a “vasta
e diversificada obra literária, tendo construído uma das carreiras mais
prestigiadas da literatura portuguesa”, destacando, entre os seus títulos mais
emblemáticos, “O Dia dos Prodígios” (1980), “O Cais das Merendas” (1982), “Notícia
da Cidade Silvestre” (1984), “A Costa dos Murmúrios” (1988), “O Vale da Paixão”
(1998), “O Vento Assobiando nas Gruas” (2002) e “Misericórdia” (2022).
Lembra
a UAlg que, ao longo do seu percurso, a escritora recebeu inúmeros prémios
nacionais e internacionais, entre os quais o Prémio Médicis Étranger e o Prémio
Pessoa, recebeu a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique, foi distinguida
pelo Estado francês como Dama da Ordem das Artes e das Letras e, em reconhecimento
do seu percurso intelectual e cívico, foi designada pelo anterior Presidente da
República, Marcelo Rebelo de Sousa, para integrar o Conselho de Estado,
ocupando o lugar, antes, desempenhado pelo filósofo Eduardo Lourenço.
Também
a Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Algarve, Instituto
Público (CCDR-A, IP) congratula a escritora algarvia pela atribuição do Prémio
Camões 2026, distinção que reconhece o percurso singular de uma das mais
relevantes figuras da literatura portuguesa contemporânea e constitui um
momento de particular significado para o Algarve.
“Natural
de Boliqueime, no concelho de Loulé, Lídia Jorge construiu uma das mais
marcantes obras da literatura portuguesa contemporânea, afirmando-se como uma
voz de referência no espaço lusófono e internacional. A sua escrita,
profundamente humanista, tem sabido interpretar os grandes desafios do nosso
tempo, cruzando memória, identidade, liberdade e transformação social, sem
nunca perder a ligação às raízes que a viram nascer”, escreveu a CCDR-A,
frisando que, “para o Algarve, este reconhecimento assume um significado
particularmente especial”, por celebrar “uma autora cuja obra transporta, de
forma subtil e universal, marcas da paisagem, da cultura e das vivências do Sul
do país, projetando o território muito para lá das suas fronteiras geográficas”
e por reconhecer a capacidade da região em “gerar talento, pensamento crítico e
criação artística de excelência”.
Vincando
que “a cultura constitui um dos pilares do desenvolvimento regional, reforçando
a identidade coletiva, promovendo a coesão social e valorizando os recursos
materiais e imateriais dos territórios, a CCDR-A salienta o percurso de Lídia
Jorge como “exemplo maior do contributo que a criação literária pode oferecer
para a afirmação do Algarve, enquanto região de conhecimento e criatividade”.
Por
seu turno, a Câmara Municipal de Loulé (CML) manifesta “o seu mais
profundo orgulho e alegria pela distinção da consagrada escritora louletana
Lídia Jorge com o Prémio Camões 2026”. Na verdade, atribuído pelo
júri, por unanimidade, “é o galardão literário mais importante e prestigiado de
toda a Lusofonia”, que reconhece o extraordinário contributo da autora para o
enriquecimento e projeção internacional do património literário e cultural da
Língua Portuguesa. E, tendo em conta que o Prémio Camões, atribuído, anualmente,
desde 1988, foi instituído para estreitar os laços culturais entre os vários
países lusófonos e para enriquecer o seu património literário e cultural,
homenageando a sua maior voz, Luís Vaz de Camões, a CML vê Lídia Jorge a juntar-se
a outros grandes nomes vencedores do galardão, como Sophia de Mello Breyner
Andresen, José Saramago, Jorge Amado, Pepetela ou Mia Couto.
No
dizer da autarquia, a escritora natural de Boliqueime, concelho de Loulé, “consolidou-se
como uma das vozes mais marcantes da literatura contemporânea do pós-25 de
Abril”, surgindo atribuição do Prémio Camões “no seguimento de um percurso
ascendente de aclamação global” e celebrando, “de forma justa, uma escrita
profundamente humanista”, que versa temas universais, como a identidade, a
memória, a liberdade, a condição humana e o papel da mulher.
Telmo
Pinto, presidente da CML expressa a admiração da autarquia e de todos os
louletanos ante esta consagração: “Lídia Jorge tem levado a alma algarvia
e a identidade louletana aos quatro cantos do Mundo, através de uma obra
intemporal e amplamente reconhecida. Este Prémio Camões não honra apenas a sua
excelência, mas eleva também o nome de Loulé no panorama da cultura mundial, no
preciso momento em que a escritora assume o papel de Patrona da nossa
candidatura a Capital Portuguesa da Cultura 2028. É um dia histórico para a
nossa terra. Muitos parabéns, Lídia Jorge!”
A
relevância do Prémio Camões junta-se a uma imensa e prestigiada lista de
distinções que a autora acumulou ao longo da sua carreira. Só nos últimos
meses, Lídia Jorge foi galardoada com o prestigiado Prémio Pessoa 2025, o
Prémio Estatal Austríaco de Literatura Europeia 2026 e a Medalha de Mérito
Cultural entregue pelo governo português na sua terra natal. O seu aclamado
romance “Misericórdia” (2022) venceu igualmente o prémio
francês Médicis Étranger e o Grande Prémio de Romance e Novela da APE.
Do seu currículo constam ainda, segundo o edil, o Prémio Luso-Espanhol de Arte
e Cultura, o Prémio Jean Monnet de Literatura Europeia e o Prémio Literário
Vergílio Ferreira. Assim, o Município de Loulé continuará a promover e a apoiar
a divulgação do legado literário de Lídia Jorge, cuja obra, iniciada, em 1980, com “O
Dia dos Prodígios”, é “uma referência cultural e cívica inestimável”.
***
Antes
de Lídia Jorge, por nove vezes, o Prémio Camões foi atribuído a uma mulher.
Rachel de Queiroz (1993), Sophia de Mello Breyner Andresen (1999), Maria Velho
da Costa (2002), Augustina Bessa-Luís (2004), Lygia Fagundes Telles (2005),
Hélia Correia (2015), Paula Chiziane (2021), Adélia Prado (2024) e Ana Paula
Tavares (2025).
Depois
de, há dias, ter reafirmado no festival Babel, no Porto, o teor do discurso de
10 de junho de 2025 – que, em Portugal “ninguém tem sangue puro” –, Lídia Jorge,
cujo notável discurso, de genuína matriz histórico-sociologia, foi aclamado pelos
Portugueses, foi hostilizada por falsos patriotas, reforçou, com a intrepidez
das grandes mulheres, a ideia de que não há qualquer circunstância justificativa
da retirada da nacionalidade a um cidadão. “Receber uma nacionalidade é como
nascer de novo; retirá-la é uma forma de matar”, afirmou.
Lídia
Jorge, que se estreou na na ficção com “O Dia dos Prodígios” (1980), construiu,
em mais de quatro décadas de atividade literária, uma obra reconhecida em
Portugal e no estrangeiro, traduzida para várias línguas e estudada em
universidades de diversos países.
Por
mim, registo a dedicação do prémio às mulheres e aos professores.
2026.07.05
– Louro de Carvalho
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