Foi
detetada, no Porto, uma espécie de aranha venenosa originária da América do Sul,
tornando-se o primeiro registo confirmado da aranha-reclusa-do-Chile na
Península Ibérica, marcando
o terceiro registo confirmado na Europa. Os investigadores garantem que, apesar
da descoberta, não há motivo para alarme, visto que se trata de uma espécie
discreta, pouco agressiva e com baixa probabilidade de contacto com a população.
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De
acordo com a “Wikipédia – a Enciclopédia livre” a Loxosceles reclusa (ou Loxosceles
laeta), conhecida como como aranha-violinista ou aranha-reclusa-castanha, é uma
espécie de aranha araneomorfa (subordem da classe Arachnida: das aranhas comuns
e peçonhentas) da família Sicariidae, capaz de infligir mordeduras venenosas proteolíticas,
de significativas consequências para o ser humano.
Este
aracnídeo pode apresentar entre seis e 20 mm (milímetros) de comprimento,
raramente maior, com coloração entre o castanho-claro e o bege, mas podendo
apresentar tons de castanho mais escuro. Distingue-se, ainda, pelas pernas
finas e pela epónima mancha em forma de violino no cefalotórax.
A
aranha-reclusa-castanha é uma espécie insetívora, que costuma alimentar-se à
noite. Ao invés das outras espécies de aranhas, que se servem de venenos de ação
neurotóxica, a aranha-reclusa-castanha injeta as presas com veneno de ação hemolítica.
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A
espécie tem distribuição natural ampla na parte Leste da América do Norte,
desde o Norte do México até à Nova Inglaterra, em habitats abrigados e húmidos,
sobretudo, entre pedras, madeira ou lenhas deixadas no exterior ou em recantos
húmidos e escuros de edifícios.
O
Jornal de Notícias (JN) online, a 1 de julho, refere que a
primeira ocorrência desta espécie, na Península Ibérica, foi documentada
num estudo da Universidade do Porto (UP), publicado em maio deste ano
e divulgado, agora, na Imprensa, levado a cabo pelos biólogos Francisco Gil e
José Manuel Grosso-Silva.
José
Manuel Grosso-Silva, entomólogo (biólogo especializado no estudo dos insetos)
do Museu de História Natural e da Ciência da UP, garantiu, em entrevista à Euronews,
que, devido ao comportamento desta espécie, não há razões para alarme. “A
probabilidade de as pessoas se cruzarem com esta espécie ou serem mordidas por
ela é reduzida”, explicou.
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Sob
o título “Há uma nova espécie de aranha venenosa em Portugal”, a jornalista Ana
Filipa Palma, também a 1 de julho, releva que “a descoberta da
aranha-reclusa-chilena (Loxosceles laeta), no Porto, marca o primeiro registo
desta espécie venenosa na Península Ibérica. Apesar da sua mordida poder
provocar lesões graves na pele, os investigadores garantem que o risco para a
população é reduzido. devido ao comportamento discreto”. “Uma nova espécie de
aranha venenosa, a aranha-reclusa-chilena, cientificamente conhecida como Loxosceles
laeta, foi descoberta na cidade do Porto, no norte de Portugal”, resume.
A
peça jornalística de Ana Filipa Palma dá conta da referida entrevista à Euronews
do já referido cientista José Manuel Grosso-Silva, entomólogo do Museu de
História Natural e da Ciência da UP e um dos investigadores responsáveis pela
descoberta. “Trata-se de uma espécie tímida e pouco propensa a morder, mas a
sua mordida pode causar danos consideráveis na pele, resultando, frequentemente,
em lesões cutâneas necróticas”, descreve o estudo realizado pelos
biólogos Francisco Gil e José Manuel Grosso-Silva, sobre a descoberta da
primeira ocorrência desta espécie na Península Ibérica.
Dizem
os especialistas que a aranha-reclusa-chilena, laeta, é nativa
da região ocidental da América do Sul, sendo encontrada, habitualmente, em
países como o Brasil e a Argentina. Porém, tem conseguido expandir-se para
regiões distantes do seu habitat de origem, impulsionada pelas trocas
comerciais internacionais. A primeira descoberta, no país, foi casual, conta o
biólogo, e ocorreu a 10 de setembro de 2025, quando um macho foi encontrado
numa parede no Campo dos Mártires da Pátria, no Porto.
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A
segunda descoberta, também de um macho, ocorreu a 10 de janeiro de 2026, tendo
o exemplar sido recolhido já morto, numa armadilha adesiva que não lhe era
destinada. “Apesar da descoberta desta nova espécie, outra aranha venenosa da
mesma família habita Portugal, há várias décadas, e apresenta uma distribuição
alargada. Trata-se da Loxosceles rufescens, ou
aranha-reclusa-do-mediterrâneo, originária da América do Norte e presente na
Europa, há mais de 200 anos”, dizem os dois especialistas.
“Não
sabemos se esta nova espécie existe apenas aqui no Porto ou se já está mais
dispersa. Como a aranha-reclusa-chilena se pode confundir, facilmente, com a
aranha-reclusa-do-mediterrâneo, é possível que existam registos fotográficos
identificados como sendo desta última que, na realidade, correspondam à nova
espécie”, diz o biólogo José Grosso-Silva.
Observa
a jornalista, escudada nas declarações do investigador, que a principal
diferença entre as duas espécies se encontra nos pedipalpos dos machos,
apêndices articulados localizados na parte frontal do corpo das aranhas machos,
que desempenham funções sensoriais e reprodutivas, servindo para transferir o
esperma para a fêmea, durante o acasalamento. Ao nível da morfologia e do
comportamento, são muito semelhantes. “São castanhas uniformes, não têm aquelas
cores que lhes permitem camuflar-se na vegetação e não fazem as teias que,
normalmente, vemos nas plantas, para apanhar insetos. Constroem teias em
paredes, cantos e locais mais escondidos e sombrios, sendo mais ativas durante
a noite”, explica o entomólogo.
Há
diferentes níveis de gravidade, desde casos ligeiros até casos graves,
incluindo alguns fatais, na sequência da mordida deste tipo de aranhas. “O
risco existe, mas parece-me reduzido, pelo que tento não contribuir para o
pânico ou alarme excessivo”, reforça o biólogo.
A
jornalista recorda que, em 2023, Portugal registou um caso de loxoscelismo,
síndrome causada pelo veneno da aranha, provocado pela mordida da Loxosceles
rufescens, ou aranha-reclusa-do-mediterrâneo. Com efeito, a revista SPMI
Case Reports, publicação científica digital da Sociedade Portuguesa de
Medicina Interna, divulgou o caso de uma mulher de 48 anos que foi mordida por
esta espécie, enquanto se encontrava num parque urbano.
Após
a mordida na nuca, a mulher apresentou um inchaço, sem dor imediata. Porém, nas
24 horas subsequentes, agravaram-se os sintomas, com aumento das dores de
cabeça, mal-estar, sensação de febre, cansaço e o surgimento de necrose com
eritema na zona da lesão. Depois, verificou-se descamação da pele noutras zonas
do corpo, nomeadamente, em redor dos olhos, na região dos glúteos, nas coxas, nos
lábios e na mucosa oral. Daí resultou
que a paciente teve de ser internada, vindo a ter alta hospitalar, 16 dias
depois, sem apresentar sintomas.
Ana
Filipa Palma refere que estão estabelecidas, em Portugal, mais de 300 espécies
de insetos oriundas de várias regiões do Mundo, muitas delas introduzidas pelo
ser humano, devido ao aumento do transporte de mercadorias. “Estamos, cada vez
mais, a alterar o ambiente que nos rodeia. Introduzimos, propositadamente,
muitas plantas que, muitas vezes, trazem consigo insetos que não pretendíamos”,
observa o entrevistado.
O
biólogo recorda o caso da vespa asiática, introduzida na Europa, através
de França, num transporte de bonsais chineses, e que, também “através do
urbanismo e das monoculturas, como os eucaliptos, que ocupam áreas enormes, mas
também de culturas extensivas, como o milho, têm-se reduzido os habitats
naturais”, o que contribui para a alteração dos ecossistemas e favorece o
aparecimento de novas espécies. O aumento das temperaturas à escala global, com
a Europa a aquecer a ritmo acelerado, pode favorecer a reprodução e a
expansão destas espécies exóticas. “Não sabemos como evoluirá cá, na Península
Ibérica, isso é uma situação para acompanhar nos próximos anos”, alerta José
Manuel Grosso-Silva.
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Como
dissemos, além de esta descoberta constituir o primeiro registo desta aranha na
Península Ibérica, trata-se do terceiro na Europa. Na verdade, o primeiro
registo europeu desta espécie data de 1972, num edifício dos Departamentos de
Zoologia e Genética da Universidade de Helsínquia, na Finlândia.
Acredita-se
que a espécie tenha sido transportada pelo ser humano e se tenha instalado no
interior do edifício, para beneficiar das temperaturas mais elevadas, uma vez
que, dificilmente, sobreviveria ao clima exterior da Finlândia.
Em
2025, a Universidade Eberhard Karl de Tübingen, na Alemanha, também identificou
um exemplar desta espécie, na cave da instituição. E há referências à sua
possível presença na Itália. Contudo, o sítio onde tal informação foi
originalmente publicada já não se encontra disponível e, por isso, esse registo
permanece por confirmar.
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Também
no mesmo dia 1 de julho, Francisco Laranjeira, no “Executive digest”, faz
referência à
a
Loxosceles laeta, conhecida como aranha-reclusa-do-Chile e que foi identificada
por investigadores ligados ao Museu de História Natural e da Ciência da UP, correspondendo
ao primeiro registo desta espécie, em Portugal e em toda a Península Ibérica.
Salienta,
fazendo-se eco da asserção do biólogo, que a probabilidade de as pessoas se
cruzarem com esta aranha é reduzida, pois a espécie tem hábitos reservados: é,
sobretudo, noturna e tende a esconder-se em locais escuros e pouco expostos. Apesar
de ser pouco inclinada a morder, o seu veneno pode causar lesões significativas
cutâneas, incluindo necrose.
Observa
que a aranha-reclusa-do-Chile é nativa da região ocidental da América do Sul e que
a sua presença longe do habitat original tem sido associada ao comércio
internacional e ao transporte acidental de mercadorias. E diz que os
investigadores não sabem se a espécie está limitada à cidade do Porto ou se já
se está mais disseminada, pois, uma das dificuldades está na semelhança com
outra aranha venenosa da mesma espécie, a Loxosceles rufescens, conhecida como
aranha-reclusa-mediterrânica, existente em Portugal, há várias décadas, e
amplamente distribuída. A distinção entre ambas passa, sobretudo, pela análise
dos pedipalpos dos machos, apêndices da parte frontal do corpo das aranhas e
usados em funções sensoriais e reprodutivas. Visualmente, as duas espécies são
muito semelhantes. Têm coloração castanha uniforme, não apresentam padrões
vistosos e não constroem as teias visíveis em plantas para capturar insetos.
O
risco para a população é o baixo, mas não inexistente. As mordeduras destas
aranhas podem causar quadros de gravidade variável, desde lesões ligeiras até
situações mais graves. Em casos raros, podem ocorrer complicações sistémicas.
Francisco
Laranjeira também refere que Portugal já tinha registado um caso de
loxoscelismo em 2023, síndrome causada pelo veneno destas aranhas, associado à
Loxosceles rufescens, para o que citou o caso, publicado na ‘SPMI Case
Reports’, acima descrito.
Por
fim, sustenta que a descoberta no Porto se insere num fenómeno mais amplo: a
chegada e fixação de espécies exóticas a Portugal, com o aumento do transporte
internacional de mercadorias, com a introdução de plantas ornamentais, com o
incremento da urbanização, com a alteração de habitats e até com as
temperaturas mais elevadas, que podem favorecer a dispersão de espécies que
antes dificilmente sobreviveriam fora das suas regiões de origem. E refere que,
entre as mais de 300 espécies de insetos de várias regiões do Mundo
estabelecidas em Portugal, muitas introduzidas, involuntariamente, através da
atividade humana, a vespa-asiática é um dos exemplos mais conhecidos de uma
espécie que chegou à Europa por transporte acidental e que acabou por se
expandir.
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No
entanto, as aranhas são vitais para a saúde do planeta.
Insetos
e aracnídeos – aranhas, escorpiões e opiliões das patas longas – “raramente
recebem a mesma atenção que animais carismáticos populares, como leões e pandas”,
diz Laura Figueroa, professora de conservação ambiental na Universidade de
Massachusetts Amherst, nos Estados Unidos da América (EUA). Todavia, em 2017,
parecia que esta tendência se estava a inverter. Um estudo publicado na revista
científica “PLOS One” revelou a redução de 75% na biomassa de insetos voadores,
em 27 anos, em 63 reservas naturais, na Alemanha.
A
notícia de iminente apocalipse dos insetos fez manchetes no Mundo, desencadeou estudos
semelhantes e impulsionou programas de monitorização e iniciativas de proteção
destes animais. A partir do alarme causado por estes declínios, Figueroa e o
seu estudante de pós-graduação, Wes Walsh, passaram a avaliar o estado de insetos e
aracnídeos na América do Norte, com resultados preocupantes, tendo ficado surpreendidos
pela falta de informação disponível e por 88,5% das espécies de insetos e
aracnídeos não ter “qualquer estatuto de conservação”.
Entre
as poucas salvaguardas, as borboletas e as libélulas recebem fatia
desproporcionada da atenção, tal como espécies aquáticas importantes para a
monitorização da qualidade da água, como as efémeras, as moscas-de-pedra e as
frigâneas. “Os aracnídeos, em particular, estão praticamente ausentes das
políticas de conservação; a maioria dos estados nem sequer protege uma única
espécie”, observa Walsh.
As
aranhas, são muitas vezes, demonizadas como predadores, mas só uma fração
mínima das espécies é, realmente, perigosa para os humanos; as suas capacidades
de caça são inestimáveis para controlar populações de insetos, pois mantêm sob
controlo moscas, mosquitos, pulgões e outras pragas agrícolas; como
presas, fornecem relevante fonte de alimento para aves, lagartos e
outros predadores, fazendo a energia subir na cadeia alimentar.
A
sua presença é indicador precoce fundamental da saúde dos ecossistemas: ajudam
na polinização e no controlo biológico de pragas; servem de monitores da
qualidade do ar e da água, pelo estão enraizados em muitas culturas, em
todo o Mundo. “Insetos e aracnídeos são mais do que objetos de medo. […] Precisamos
de os valorizar pela sua importância ecológica, e isso começa por recolher mais
dados e por considerá-los dignos de conservação, defende Walsh.
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Não
se pode julgar pelas aparências; e o medo, o asco ou o risco não podem impedir
a beneficiação que estes bichinhos oferecem aos ecossistemas. Todavia, convém prevenir
e tratar as lesões.
2026.07.01 – Louro de carvalho
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