terça-feira, 14 de julho de 2026

Fátima propõe uma inteligência do coração

 

A Academia de Estudos do Santuário de Fátima (AESF), que organiza os Cursos de Verão Santuário de Fátima, escolheu, para 11.ª edição, que se desenvolveu, de 1 a 3 de julho, no Centro Pastoral Paulo VI, o tema “Fátima depois de outubro de 1917: o ciclo cordimariano”.

Marco Daniel Duarte, diretor da AESF e coordenador do curso, na sinopse de apresentação, explica: “No ano em que se celebra o centenário das aparições de Pontevedra (1925 e 1926), o Santuário de Fátima […] dedica o Curso de Verão a aprofundar o conhecimento sobre esta temática. Com recurso a abordagens científicas multidisciplinares, asseguradas por investigadores de diferentes academias, será analisado o contexto histórico, espiritual e religioso contemporâneo, as devoções ao Sagrado Coração de Jesus e ao Imaculado Coração de Maria, a narrativa dos ciclos angélico, mariano e cordimariano e outros conteúdos da Mensagem de Fátima, como o Imaculado Coração e a devoção dos Cinco Primeiros Sábados. No curso estará ainda presente a dimensão artística relacionada com a iconografia do Imaculado Coração de Maria.”

Uma vista de olhos pelo programa, vê a agenda do dia 1 de julho, com os seguintes subtemas: “Portugal e o mundo no(s) século(s) de Fátima”, por Teresa Maria e Sousa Nunes, da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (FL-UL); “Espiritualidades quentes num mundo frio: os Corações de Jesus e de Maria”, por José Eduardo Franco, da Universidade Aberta (UA); “As mariofanias segundo o magistério da Igreja”, por Tiago Freitas, da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa (FT-UCP); “Ciclo angélico: as visões do Anjo da Paz, da Pátria e da Eucaristia”, pelo bispo D. Alexandre Palma, da FT-UCP; “Roteiro do Imaculado Coração de Maria no Santuário de Fátima”: visita guiada por Marco Daniel Duarte, do Museu do Santuário de Fátima; e Visita temática à exposição “Refúgio e Caminho: exposição comemorativa do centenário das aparições de Nossa Senhora de Fátima em Pontevedra”, na galeria de exposições temporárias do Museu do Santuário de Fátima (piso inferior da Basílica da Santíssima Trindade).

No dia 2, os temas em agenda eram: “Ciclo mariano: as visões da Senhora mais brilhante que o sol”, por Luís Miguel Ferraz, da AESF; “O Imaculado Coração de Maria nas aparições de Fátima, pelo padre Carlos Cabecinhas, reitor do Santuário de Fátima; “Lúcia no Instituto de Santa Doroteia (Porto, Pontevedra, Tui e Gaia)”, por Marco Daniel Duarte, da AESF; “Fontes e narrativa das aparições de Pontevedra (10 de dezembro de 1925 e 15 de fevereiro de 1926)”, por Sónia Vazão, da AESF; e Apresentação do livro “As Aparições de Fátima no jornal O Mensageiro (1917–1927): história e teologia do seu impacto para a revitalização do catolicismo no contexto da I República e da I Guerra Mundial”, da autoria de Luís Miguel Ferraz, por  Paulo Fontes, do Centro de Estudos de História Religiosa (CEHR) da UCP.

Para o dia 3, os temas em agenda eram:Iconografia do Imaculado Coração de Maria: tradução artística da espiritualidade cordial de Fátima”, por Marco Daniel Duarte, do Museu do Santuário de Fátima; “A reparação na Mensagem de Fátima”, por da Teresa Messias, FT-UCP; “A linguagem da pedagogia: os preceitos dos Cinco Primeiros Sábados [aula de campo na exposição Refúgio e Caminho], por Marco Daniel Duarte, já referido; e “A linguagem da pedagogia: as razões de serem cinco os Primeiros Sábados [aula de campo na exposição Refúgio e Caminho], por Marco Daniel Duarte, já referido.  

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A AESF propôs que a edição deste ano dos Curso de Verão, que juntou cerca da dezena de investigadores e mais da centena de participantes, decorresse sob a perspetiva de, em tempo de inteligência artificial (IA), se promover uma interpretação e um entendimento do Mundo à luz de uma “inteligência cordial”. O mote, lançado na sessão de abertura, dissipou as interrogações que o tema desta edição pudesse ter gerado. Afinal, do que se fala, quando o diálogo se desenrola em torno desta invulgar palavra: “cordimariano”?

A abrir os Cursos de Verão, que se realizaram com o tema “Fátima depois de outubro de 1917: o ciclo cordimariano”, Marco Daniel Duarte, coordenador da formação, colocou Fátima em diálogo direto com o presente. Na verdade, na ótica do orador, em tempos de IA, Fátima propõe uma inteligência cordial”, uma forma de ler o Mundo que não parte apenas da razão, mas, sobretudo, do coração. É essa “inteligência que vem do coração” que atravessou o programa do curso e ajudou a compreender por que razão o episódio de Fátima não se esgota nos acontecimentos de 1917, prolongando-se em ciclos sucessivos, com impacto nos dias de hoje.

Marco Daniel Duarte recordou que a ideia de “inteligência cordial” encontra reflexo nas recentes palavras do Papa Leão XIV, cuja primeira encíclica, a Magnifica Humanitas, repete, por dezenas de vezes, a palavra “coração”. Em particular, preocupa o Santo Padre que o crescimento da técnica leve a Humanidade a perder a sua beleza e que o Mundo deixe de reconhecer no coração humano “o lugar onde Deus deseja habitar”. E, na linha de Leão XIV, reiterou que também Fátima propõe essa inteligência, que nasce da afetividade, e não apenas da razão.

Esta linha de pensamento foi particularmente aprofundada pelo investigador José Eduardo Franco, ao trazer aos Cursos de Verão o tema “Espiritualidades quentes num mundo frio: os corações de Jesus e de Maria”. 

José Eduardo Franco defende que existem, ao longo da História do Cristianismo, duas correntes de espiritualidade: as frias, racionalistas e distanciadoras entre o Homem e Deus; e, em contraste, as quentes, afetivas e centradas na proximidade e na misericórdia divinas. É nesta segunda família que se inserem o que designa de “espiritualidades sinedocais”, na medida em que tomam uma parte pelo todo, ou seja, uma parte do corpo de Cristo para significar o todo do mistério cristão. É aqui que o historiador enquadra a devoção aos Sagrados Corações de Jesus e de Maria e, por extensão, mensagem de Fátima.

A espiritualidade “cordial” nasceu contra as correntes racionalistas e severas que emergiram a partir do Renascimento e da Reforma. O Calvinismo e o Jansenismo punham Deus numa posição distante e viam a religião pelo prisma de rigor moral e da desconfiança, face às emoções. Contra esse pano de fundo, autores, como Santo Agostinho, Santo Inácio de Loyola, São João Eudes, entre outros, foram, ao longo dos séculos, desenvolvendo a teologia do coração, como símbolo do amor, da interioridade e do encontro entre o Homem e Deus.

O historiador percorreu os marcos históricos que conduziram ao século XIX, “século do coração de Jesus”, até indicar Fátima como “ponto de chegada” do longo processo que associa a espiritualidade dos corações de Jesus e de Maria; o Santuário enquadra-se na História florescente da espiritualidade dos corações, que a legitima e lhe dá projeção mundial, no dealbar do século XX; e a espiritualidade cordimariana – devoção ao Coração de Maria – ganha, em Fátima, interiorização profunda e assume, definitivamente, dimensão eclesial e global.

Fátima não criou esta devoção, mas foi decisiva para a transformar numa espiritualidade de alcance universal. A ideia foi reforçada pelo reitor do Santuário de Fátima, padre Carlos Cabecinhas, que defendeu que, embora a devoção já existisse, foi em Fátima que adquiriu um protagonismo inédito e passou a ocupar um lugar central na vida da Igreja.

Recorrendo aos estudos e a citações dos mariólogos Joaquim Maria Alonso e Stefano De Fiores, o reitor lembrou que o Imaculado Coração de Maria constitui “a alma da mensagem de Fátima” e o seu “fio condutor”. Desde as aparições do Anjo, em que o coração de Maria vem associado ao Sagrado Coração de Jesus, até às aparições na Cova da Iria e na Galiza, surge a espiritualidade cordimariana como via privilegiada para conduzir os crentes até Deus.

Carlos Cabecinhas pôs em relevo o papel das aparições de Pontevedra, em 1925 e 1926, e de Tui, em 1929, só com Lúcia de Jesus, na concretização prática desta devoção, nomeadamente, através da ação reparadora dos primeiros sábados. E, recordando o testemunho de vida dos Pastorinhos, sublinhou que, mais do que elaborações teológicas, Francisco, Jacinta e Lúcia encarnaram esta devoção, de forma afetiva e existencial. Lúcia dedicou toda a sua vida religiosa à missão de dar a conhecer esta devoção e de a transmitir à hierarquia da Igreja: “Foi incansável no cumprimento desta missão, ao longo da sua vida, procurando, por todos os meios ao seu alcance, divulgar os pedidos do Céu”, lembrou.

O reitor salienta que a influência de Fátima ultrapassou o âmbito devocional, ao contribuir, de forma decisiva, para a integração da memória litúrgica do Imaculado Coração de Maria no calendário universal da Igreja. Segundo explicou, foi a projeção mundial da mensagem de Fátima que permitiu que a celebração, até então, circunscrita a determinadas dioceses e congregações religiosas, passasse a fazer parte da vida litúrgica de toda a Igreja. Em 1996, a celebração foi elevada à categoria de memória obrigatória, decisão para a qual, em seu entender, “as aparições de Fátima tiveram direta e clara influência”.

Sobre a promessa de Nossa Senhora, na segunda parte do segredo de Fátima, “por fim, o meu Imaculado Coração triunfará”, o padre Carlos Cabecinhas reconhece o caráter aparentemente contraditório da expressão. Habitualmente, o triunfo associa-se à vitória dos fortes, ao êxito dos vencedores, ao poder de quem se impõe aos outros. Ao invés, o coração remete para a fragilidade. Porém, considera que é, precisamente, aquela leitura que importa evitar. O triunfo do Imaculado Coração de Maria não corresponde à lógica dos vencedores da História. Não se trata da vitória do guerreiro, do chefe, do herói. Basta recordar a forma como Nossa Senhora apresenta o seu coração, em Fátima, cravado de espinhos, em sinal de dor e de sofrimento.

Ao mesmo tempo, a promessa interpela a liberdade de cada pessoa. O triunfo do Imaculado Coração realiza-se sempre que alguém escolhe o bem, acolhe a vontade de Deus e responde ao seu chamamento, seguindo o exemplo de Maria. Nesse sentido, não corresponde a acontecimento espetacular nem a demonstração de poder. É a manifestação silenciosa da ação de Deus na História e na vida das pessoas: “É um triunfo que não se mede pela lógica do domínio do poder, mas pela lógica do amor, do serviço e da oferta da própria vida”, concluiu, estabelecendo a ponte com a parte final da intervenção de José Eduardo Franco.

O investigador sustenta que o triunfo de que fala a mensagem de Fátima é um caminho alternativo que se apresenta ao “Homem líquido” ou “Homem espuma” – expressões usadas por diversos autores, para classificar os que esvaziaram a sua dimensão afetiva – e defende que a espiritualidade da misericórdia, o “movimento do coração” que abre o ser humano ao outro e ao transcendente, continua a oferecer uma alternativa. Num tempo marcado pela “hipertecnização” e pela IA, elogiou e defendeu o conceito de “inteligência cordial”, antes avançado por Marco Daniel Duarte e que voltou a estar em destaque na intervenção que o diretor da AESF dedicou à iconografia do Imaculado Coração de Maria, no último dia dos Cursos de Verão.

Nesse contexto, sublinhou o coordenador da formação, Fátima, não só inaugura uma nova forma de apresentar o coração de Maria, cercando-o de espinhos – as dores da Humanidade –, como também recorre a esse símbolo para exprimir o amor de Jesus Cristo.

A partir da definição bíblica de coração, centro da existência humana para o qual confluem a razão, a vontade e a sensibilidade, Marco Daniel Duarte reforçou que Fátima convida a uma inteligência cordial, a única capaz de trazer os Homens à reconciliação.

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Em pol do tema complementar “O coração que Deus tem e que o homem procura”, Frederico Lourenço, professor catedrático da Universidade de Coimbra, tradutor da Bíblia e especialista em Línguas e Literaturas Clássicas, na visita temática, de 1 de julho, à exposição temporária “Refúgio e Caminho”, mostrou que o coração pode ser dor, pureza, razão, memória ou humildade.

Face à pergunta “Que dizem os textos bíblicos sobre o coração?” Frederico Lourenço mostrou “o coração que Deus tem” e, olhando para o coração nas Escrituras, frisou que é nele que ocorre a verdadeira conversão.

À questão “Deus tem coração?” respondeu: “Tem, sim.” Com efeito, “inequívoca é a resposta da Bíblia”. A partir do Génesis, levou os 190 participantes da visita a ver as duas primeiras vezes em que surge a palavra “coração”: “uma fala do coração do homem; outra, do coração de Deus”. Citou dois versículos seguidos o Dilúvio (cf. Gn 6,5-6) e disse: “Deus viu a maldade dos homens, e o seu próprio coração sofreu amargamente”. Daí acentuou a asserção “o seu próprio coração sofreu”, referente ao coração de Deus, destacando-o como “lugar de encontro do homem com Deus”, “onde Deus Se revela ao homem”, e “lugar do chamamento de Deus”.

Dos manuscritos bizantinos de Lucas, Frederico Lourenço citou “uma versão de Isaías que não está nas edições modernas da Bíblia”: “o Espírito do Senhor está sobre mim, porque me ungiu para anunciar o amor aos mendigos e para curar os despedaçados no coração”. “Cristo cura o nosso coração partido”, concluiu. A expressão “coração partido” é originária não do anglicismo heartbroken, mas do profeta Isaías, notou.

Entre as obras “Banquete” de Platão e “A Cidade de Deus” de Santo Agostinho, formulou a ideia de que a pureza de coração decorre da intenção antes da ação, pois “a beleza de coração exigida para vermos Deus tem a ver com aquilo que o coração sente”.

Em percurso reflexivo, Frederico Lourenço levou os participantes a observarem o coração nos Quatro Evangelhos: Mateus, Marcos, Lucas e João. Em Mateus, mostrou que “o coração compreende”, quando Jesus diz: “Os olhos servem para ver, os ouvidos servem para ouvir e o coração serve para compreender.” “Compreender com o coração” é converter-se. De Marcos, mencionou, de novo, a pureza de coração, quando Jesus disse: “Nada há fora do homem que, entrando nele, o possa contaminar; mas o que sai do homem, isso é o que o contamina.” De João, destacou o momento em que Jesus consolou os Apóstolos: “Não se agite o vosso coração.” A Lucas, referiu-o como “evangelista de Nossa Senhora”, atento ao coração de Maria. Porque, depois da Adoração dos Pastores, notou que “Maria conservava todas estas coisas, ponderando-as no seu coração”. E, no Magnificat, Maria afirmou que “o Senhor derrubou os poderosos dos seus tronos e exaltou os humildes”.

A concluir, relacionou o Coração Imaculado de Maria e o Sagrado Coração de Jesus. Salientou o substantivo “humildade”, o qual, no conjunto dos quatro evangelhos, ocorre só no Magnificat, no segmento: “porque pôs os olhos na humildade da sua serva”. Pela humildade relacionou o Coração de Maria com o Coração de Jesus, pois, no Novo Testamento, o Coração de Jesus tem “mansidão e humildade”, “duas qualidades raras”, pelas quais “todos ganhamos em imitar Cristo”, disse.

Terminou com um convite: “Sejamos, pois, mansos e humildes.”

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Fátima não se limita ao acolhimento, ao culto e à formação a ele atinente, mas procura a formação explícita em torno do conhecimento do homem e do mundo, servindo-se de estudos académicos e apostando na via da pulcritude, educação artística, cultural e lúdica.

2026.07.14 – Louro de Carvalho

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