domingo, 12 de julho de 2026

Irão sepultou, em festa, Ali Khamenei e ameaçou vingar a sua morte

 

Arrancou, a 4 de julho, em Teerão, a homenagem pública ao antigo líder supremo iraniano ayatollah Ali Khamenei, morto num ataque israelo-americano, 28 de fevereiro deste ano. Milhares ou milhões de fiéis (as estatísticas divergem) juntaram-se para a grande demonstração de força, após a guerra contra Israel e contra os Estados Unidos da América (EUA).

A televisão estatal anunciou o início das cerimónias fúnebres nacionais, por volta das 6h00 locais, mas muitos participantes, a maioria deles vestida de preto, chegaram antes do amanhecer, e várias centenas mantinham-se em vigília, desde a noite do dia 3, na esperança de serem os primeiros a entrar. Alguns choravam e outros aguardavam sentados no chão, enquanto eram recitados poemas e tocadas canções religiosas.

Passaram mais de quatro meses desde a morte do ayatollah. O seu caixão, com o turbante preto que usava, ficou exposto sob a cúpula da Mosalla (bairro de Teerão que alberga a extensa Mesquita do Imã Khomeini Mosalla, onde os fiéis se reúnem para cerimónias religiosas e orações semanais), ladeado por duas filas de bandeiras iranianas. Ao lado estavam os caixões dos quatro familiares mortos: uma filha, um genro, uma nora e uma neta de 14 meses. As paredes do recinto cobriam-se de grandes retratos de Ali Khamenei em diferentes fases da sua vida, os iranianos pediam vingança. “Não estamos aqui para um funeral, mas para uma vingança”, bradou um recitador de elogios fúnebres, diante de fiéis em lágrimas. Muitos agitavam bandeiras vermelhas com a inscrição “mártir” e as bandeiras amarelas do Hezbollah do Líbano, enquanto entoavam: “Morte à América, morte a Israel!”.

Numa das faixas lia-se “#MatarTrump”, quando os EUA assinalavam o 250.º aniversário da independência e o presidente norte-americano, em Washington, no seu discurso, celebrava a “recente vitória, ao afundar toda a Marinha iraniana”.

As autoridades esperavam 15 a 20 milhões de pessoas, na capital, que se converteu num campo fortificado: blocos de betão e carros da polícia cortaram as ruas de acesso ao recinto, num raio de cerca de dois quilómetros. Num parque, montaram-se mais de 400 tendas do Crescente Vermelho e posicionaram-se camiões-cisterna para refrescar a multidão, com temperaturas acima dos 35 graus centígrados (35º C). E muitas pessoas ostentavam retratos de Mojtaba Khamenei, o filho que sucedeu ao pai, em março. Ferido no ataque que lhe matou o pai, o novo líder supremo não aparece em público e fala só por comunicados que lhe são atribuídos.

O Irão nomeou o almirante Ali Ozmaei novo chefe da Marinha da Guarda Revolucionária, que frisou que a vingança divina contra os EUA e Israel não está longe, apesar do cessar-fogo e com Teerão e Washington em negociações no Qatar sobre o memorando de 17 de junho.

As comemorações começaram, no dia 3, com uma cerimónia oficial de homenagem, na qual participaram altos responsáveis iranianos e delegações estrangeiras. No dia 4, abriu a despedida pública, o primeiro dos seis dias de cerimónias que se prolongaram até ao dia 9, com o corpo em câmara ardente na Mosalla. No dia 5, Teerão realizou a oração fúnebre pelo antigo líder supremo, com a participação de dezenas de milhares de pessoas. Segundo a Lusa, estiveram presentes o presidente iraniano, Masud Pezeshkian, o presidente do Parlamento, Mohamad Baqer Qalibaf, e o chefe do Poder Judicial, Gholam Hossein Mohseni Ejei, entre outras autoridades. Devido à afluência maciça, os meios de comunicação iranianos noticiaram que a sala principal da mesquita foi encerrada ao público. No dia 6, o cortejo fúnebre percorreu as ruas da capital, para seguir, no dia 7, para a cidade santa de Qom (cidade sagrada do Xiismo). No dia 8, houve as cerimónias no Iraque e, no dia 9, Ali Khamenei foi sepultado em Mashhad (cidade do Irão, na província do Coração Razavi, da qual é capital), no Nordeste do país, junto ao santuário do Imã Reza, o principal local de peregrinação do Irão e a cidade onde o ayatollah nasceu em 1939.

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Com grande número de pessoas nas ruas, os primeiros dias das exéquias do líder supremo assassinado transmitem uma mensagem significativa. O Irão mostrou que o seu regime é coeso, mas atrás das multidões vestidas de negro, das delegações estrangeiras e dos cânticos de vingança, permanecem dúvidas sobre quem, realmente, detém o poder.

Sob um sol escaldante (cerca de 36º C), a capital do Irão, encheu-se de trajes negros. As autoridades iranianas apontavam para entre 15 e 20 milhões de pessoas, em todas as cerimónias, número questionável, apesar de o país contar 93 milhões de habitantes.

O funeral foi adiado, devido à guerra. Prolongou-se até 9 de julho, com o caixão de Khamenei pai a passar em várias zonas do vasto Irão e do Iraque, e, por fim, para o local de descanso final.

Mais de quatro meses depois do seu assassínio, as orações fúnebres pelo líder supremo e por quatro parentes seus tornaram-se num espetáculo político na Grande Mosalla Imam Khomeini. O luto e os apelos à vingança misturaram-se, sem o calor ter parecido ser desafio significativo para os milhões de peregrinos vestidos de preto. No entanto, camiões de bombeiros lançavam jatos de água sobre a multidão que passava, inúmeras bancas ofereciam melancia e bebidas frescas, era aspergida água sobre as multidões, a partir dos telhados, para as refrescá-las e para atender aos alertas da Sociedade do Crescente Vermelho Iraniano sobre o risco de insolação, enquanto potentes altifalantes faziam entoar canções religiosas e vendedores ambulantes comercializavam bandeiras com o rosto sorridente do falecido líder supremo.

Aparentemente, o governo e a República Islâmica têm o apoio popular, apesar de dirigirem o país com mão de ferro. Os analistas sustentam que não se trata da maioria da população, mas que subsiste uma base popular, entre 20% e 30%. Há, de facto, uma considerável minoria que apoia, ideologicamente, o regime, tal como grande parte da sociedade que depende dele para os seus empregos, incluindo funcionários públicos, professores e quem trabalha em empresas da Guarda Revolucionária, já que 40% a 50% dos setores está nas suas mãos.

O funeral do homem que deteve o poder, durante 36 anos, líder espiritual e figura incontornável para a tradição persa, foi um grande acontecimento histórico que muitas pessoas queriam testemunhar. Como sempre, as multidões são formadas pela combinação de segmentos da sociedade. Assim, no Irão, alguns estão, genuinamente, de luto, outros sentem que os seus empregos os obrigam a comparecer, outros entram num espetáculo emocional de conotação religiosa e nacionalista.

De acordo com o jornal britânico The Guardian, muitas pessoas, mesmo com poucos recursos, percorreram longas distâncias, para estarem na despedida do antigo líder supremo, tendo dormido no chão, durante três dias, em Teerão, em dormitórios improvisados ​​em salas de aula, em escritórios da indústria petrolífera ou em casas particulares. Mesquitas, bairros e amigos montaram bancas, em redor da zona da mesquita, a funcionar até altas horas da noite, para fornecerem aos peregrinos melancias, kebabs (espetada de pedaços de carne, por vezes, entremeados com vegetais, que vão a assar no forno ou a grelhar na brasa) e sumos de fruta.

O presidente dos EUA reagiu, com espanto, ao ver tantos enlutados em lágrimas: “Pensei que o odiassem. […] Talvez sejam lágrimas falsas”, afirmou Donald Trump.

O inquilino da Casa Branca não teve em conta que a guerra dos EUA e de Israel com o Irão teve, neste país, o efeito de união nacional, que prevalece, mas que diminuirá com o tempo, à medida que as queixas que motivaram os protestos de dezembro de 2025 e janeiro deste ano voltarem à tona. Seja como for, a capacidade de mobilização do regime torna proibitiva qualquer invasão terrestre por parte dos EUA, porque, embora o regime não tenha 100% de apoio da população, tem capacidade para gerar apoio suficiente para se defender.

Muitos populares lutariam pela defesa do sistema contra qualquer tentativa de ocupação estrangeira, o suficiente para tornar qualquer esforço deste tipo complicado e dispendioso, pois, apesar de a base de apoio não se ter alargado, desde a guerra, a sua maior intensidade facilitará o controlo da dissidência interna pelo regime.

Os iranianos planearam, ao pormenor, o funeral do ayatollah Ali Khamenei. Não queriam realizá-lo enquanto a guerra estivesse ativa, apesar de os últimos dois meses terem sido de cessar-fogo calejado de altos e baixos. Não foi por acaso que decidiram fazer as cerimónias no fim de semana em que os EUA comemoraram o 250.º aniversário da sua independência. Trump deu ao Irão o fim de semana de folga, e tudo decorreu sem incidentes. E este funeral é utilizado como grande evento para reforçar a resiliência do Irão e para projetar o seu poder na região, como demonstram os preparativos que incluíram atos em cidades-santuário do Iraque. Enfim, tudo foi meticulosamente pensado, para impressionar o Mundo e para mostrar a determinação do Irão em preservar a sua independência, em prestigiar a sua soberania e em afirmar o seu desejo de retaliação.

No funeral, o poeta Mohammad Rasouli foi aplaudido, após a sua mensagem de vingança: “De agora em diante, o sudário é a nossa indumentária. Juro pelo seu sangue; o assassínio de Trump é nossa responsabilidade. Porque ainda está vivo o homem mais desprezível do Mundo? O Mundo já não é um bom lugar para Trump. Porque não matar o homem que matou o nosso imã? Seria uma vergonha se não o fizéssemos.”

A projeção de coesão e força de Teerão não desfez a dúvida sobre quem comanda o regime. A ausência do novo líder supremo nas exéquias do pai (apesar do forte dispositivo de segurança) serviu para adensar as dúvidas. Pela primeira vez, desde o início da guerra, foi visto em público o comandante interino da Guarda Revolucionária Islâmica, general Ahmad Vahidi. O recém-nomeado líder supremo, Mojtaba Khamenei, poderia ter aproveitado ensejo para fazer a sua primeira aparição pública, já que outros três filhos de Ali Khamenei rezaram sobre o seu corpo: Mostafa, influente político e clérigo xiita, de 64 anos, o mais velho dos filhos do líder morto; Masoud, o terceiro, de 52 anos, dirigente do Gabinete para a Preservação e Publicação das Obras de Khamenei e responsável pela preservação e promoção de propaganda e dos discursos do líder supremo; e Meysam, de 48 anos, o mais novo e discreto.

Todos os cargos da República Islâmica estão ocupados – o líder supremo e o presidente –, mas, sob esta estrutura, está a ocorrer uma mudança de poder, à medida que a Guarda Revolucionária se torna mais central na tomada de decisões. Tanto assim é que o novo líder supremo era contrário ao acordo com os EUA, mas a Guarda Revolucionária era favorável.

Outros sinais de apreço pelo Irão saem do funeral de Ali Khamenei, pois a emissora estatal iraniana IRIB informou que representantes de mais de cem países deveriam comparecer. Segundo a embaixada do Irão na Indonésia, pelo menos, 30 países admitiram ter enviado delegações oficiais, para acompanhar o cortejo fúnebre. Assim, talibãs afegãos, o primeiro-ministro do Paquistão, Shehbaz Sharif, altos funcionários da Rússia, da China e da Turquia, e representantes dos grupos Hamas e Hezbollah estiveram no Irão. Porém, nenhum dirigente ocidental ou europeu compareceu. E a presença mais surpreendente foi a do vice-ministro dos Negócios Estrangeiros da Arábia Saudita, já que o reino foi um dos países atacados pelo Irão, durante a guerra.

A lista de convidados internacionais mostra que os EUA terminaram a guerra, diplomaticamente, em posição pior, na região, do que antes. Pelos vistos, a influência dos EUA, no Médio Oriente, irá enfrentar grandes dificuldades, no futuro.

A representação diplomática de alto nível da Arábia Saudita indicia que alguns países concluíram que manter a guerra com o Irão é um erro e que é tempo de reconstruir relações diplomáticas. Riade percebeu que a República Islâmica não desaparecerá e que precisa de manter uma relação aceitável com o Irão. No entanto, os Emirados Árabes Unidos (EUA), o Barém e o Kuwait não enviaram representantes, mostrando que não estão prontos para tanto.

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Na noite do dia 11, surgiu o chanceler federal da Alemanha, Friedrich Merz, numa alegada “lista de vingança” publicada pelo jornal ultraconservador Hamshahri, próximo do regime iraniano. Na imagem, Merz aparece de roupa de prisioneiro, ao lado de outros responsáveis políticos ocidentais que deverão “pagar” pela morte do líder supremo iraniano, Ali Khamenei.

Na lista figuram, entre outros, o presidente francês, Emmanuel Macron, a primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, e o ministro da Defesa dos Estados Unidos, Pete Hegseth.

Lideram a lista o presidente norte-americano, Donald Trump, e o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, ambos com a testa assinalada por uma mira.

Até ao momento, não há qualquer indicação de que a imagem divulgada pelo jornal tenha sido oficialmente aprovada pelas autoridades iranianas. Porém, a retórica da “vingança” contra países ocidentais, em particular, contra os EUA e contra Israel, não é nova no contexto da morte de Ali Khamenei. “A vingança é a vontade do nosso povo e tem de ser, inevitavelmente, levada a cabo”, afirmou, no dia 11, o seu filho e sucessor, Mojtaba Khamenei, na primeira mensagem escrita, desde o funeral do pai.

Acrescentou que o Irão elaborou uma lista de pessoas que deverão ser alvo de ações, mas não indicou nomes. “Estes criminosos, cujos nomes constam de uma lista, levarão para a sepultura o desejo de morrerem, pacificamente, na própria cama”, lê-se na declaração.

Segundo uma reportagem do canal norte-americano CNN, os serviços secretos israelitas terão informado Washington sobre um plano iraniano “concreto” para assassinar Donald Trump. A estação citou fontes não identificadas, familiarizadas com o caso.

Antes, o Wall Street Journal já havia noticiado que Israel havia alertado os EUA sobre um plano semelhante.

Ali Khamenei foi morto em 28 de fevereiro, no primeiro dia da guerra iniciada por Israel e pelos Estados Unidos, num ataque conjunto norte-americano e israelita. O filho, Mojtaba Khamenei, assumiu o cargo de líder espiritual. E, durante a guerra, Teerão acusou vários países europeus de não terem impedido nem condenado os ataques contra o Irão e de os terem apoiado, indiretamente, ao abrirem o seu espaço aéreo a aviões militares norte-americanos.

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O presidente dos EUA afirmou, no dia 11, que tem mil mísseis armados, preparados e apontados contra o Irão, caso Teerão tente assassiná-lo, após informações segundo as quais Israel teria alertado Washington para um plano nesse sentido. “Existem mil mísseis armados, preparados e apontados para a República Islâmica do Irão, seguidos, imediatamente, por milhares mais, caso o governo iraniano concretize a sua ameaça”, escreveu o líder norte-americano, na rede social que lhe pertence, a Truth Social. E assinou a mensagem, escrevendo: “Louvado seja Alá! Presidente Donald J. Trump”.

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Estamos nisto: guerras, bloqueios, acordos de cessar-fogo, retaliações, ameaças de morte e de destruição, vinganças. Os animais não fariam pior. E enfatizamos a Paz!

2026.07.12 – Louro de Carvalho

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