quinta-feira, 9 de julho de 2026

EUA celebraram, em festa, os 250 anos da independência

 

Os Estados Unidos da América (EUA) celebraram, em festa, por todo o país, a 4 de julho (aliás, abrangeu o fim de semana), os 250 anos da sua independência.

Em Nova Iorque, realizou-se um festival de exibição aérea, onde também não faltaram relíquias da Marinha norte-americana no porto da cidade. Em Times Square (área formada na confluência e cruzamento de duas grandes avenidas da cidade), a bola que desce, habitualmente, na passagem de ano foi utilizada para assinalar a data. E, em Filadélfia, onde foi assinada a Declaração de Independência, a 4 de julho de 1776, foi encerrada uma cápsula do tempo com objetos, como um iPhone, uma garrafa de Coca-Cola e um osso de baleia-branca, que se crê estar extinta em 2276, quando forem assinalados os 500 anos.

Foi Nova Iorque, nas imediações do Monte Rushmore, onde, em meados do século XX, foram esculpidos os rostos dos quatro presidentes fundadores da República, que Donald Trump escolheu para passar com o avião oferecido pela família real do Qatar e para, depois, proferir um discurso divisivo dirigido à ala progressista do Partido Democrata.

Em reminiscência da invasão do Capitólio, em 2021, a comunicação social mostrou imagens de grupos radicais de extrema-direita, como a Frente Patriótica, a dirigirem-se ao local dos festejos principais, em Washington, onde Donald Trump discursou, no epicentro de uma celebração que, apesar dos alertas para o calor, incluiu concertos, desfiles e fogos de artifício.

Foi assinada há 250 anos, a 4 de julho, a Declaração da Independência. Os signatários, conhecidos como os “pais fundadores” (“founding fathers”), brindaram com vinho da Madeira, e Portugal foi um dos primeiros países (o quinto) a reconhecer a nova nação. Mais de dois séculos depois, a “terra das oportunidades” enfrenta outros desafios e está “altamente dividida”.

O documento fundador, que deu as primeiras linhas-guia da Constituição do país, ainda utilizada, “é um documento muito simples, muito reduzido ao essencial”, como explicou Raquel Abecassis, diretora de comunicação da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento (FLAD), em declarações à Rádio Renascença. Porém, tal como Portugal teve a ironia da celebração dos 50 anos da implantação da democracia, sob o governo dito social-democrata condicionado por um partido da direita radical, também os EUA celebram a alvorada da nação, sob a égide de Donald Trump, senhor absoluto da nação e ambicioso dominador do Mundo.

“Consideramos estas verdades como evidentes por si mesmas: que todos os homens são criados iguais, que são dotados pelo seu Criador de certos inalienáveis, e que, entre estes, estão a vida, a liberdade e a procura da felicidade”, escreveu Thomas Jefferson, na primeira parte da Declaração da Independência. Porém, como esclareceu João Miguel Tavares (JMT), no jornal Público, a 4 de julho, a redação original de Jefferson, em vez da expressão “por si evidentes”, continha a expressão “sagradas e inegáveis” (“sacred undeniable”). Terá sido Benjamin Franklin, de acordo com JMT, quem sugeriu a substituição de “sagradas” por “evidentes”, “para que o espírito iluminista dos founding fathers não deixasse o território da razão demasiado exposto a uma fundamentação religiosa”.

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Entretanto, a 28 de junho, os EUA assinalaram o 250.º aniversário da independência, em Bruxelas no Parc du Cinquantenaire, situado junto das instituições da União Europeia (UE), apesar da atual complexidade do diálogo transatlântico. Contudo, o evento restrito a convidados reuniu cerca de 10 mil pessoas, incluindo o secretário-geral da Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO), Mark Rutte, e motivou protestos locais pelo encerramento do parque público, durante todo o fim de semana.

Os convidados desfrutaram de um dia de atividades e de atuações, coroado por um espetáculo de drones e de fogo de artifício, com a presença de muitos militares norte-americanos estacionados na capital belga. Sob o lema “250 anos de independência: construir o nosso futuro em conjunto”, a celebração incluiu várias “atividades americanas”, como jogos de basebol, um touro mecânico, danças em linha, música e uma passagem aérea cerimonial.

Bill White, embaixador dos EUA em Bruxelas, iniciou as comemorações ante uma audiência de alto nível, numa sessão de discursos de várias personalidades, entre elas o primeiro-ministro belga, Bart De Wever, o secretário-geral da NATO, Mark Rutte, e a presidente do Parlamento Europeu (PE), Roberta Metsola.

Numa videomensagem, o presidente norte-americano agradeceu aos participantes, recordando que os povos da Bélgica e dos EUA “defenderam a nossa civilização comum, desde as trincheiras da I Guerra Mundial até às forças belgas livres que combateram ao lado dos americanos na II Guerra Mundial”. E disse que os 14 mil soldados norte-americanos que descansam, para sempre, em solo belga lembram “o que é preciso para preservar a liberdade que celebramos com alegria”.

O secretário-geral da NATO sublinhou que, para um neerlandês como ele e para tantos outros, os EUA, tal como Ronald Reagan os descreveu, são e serão sempre “a cidade luminosa sobre a colina, um farol e um guia”.

“Estamos aqui para celebrar uma relação e uma amizade transatlânticas que criaram alguns dos melhores momentos da História e se mantiveram firmes nos piores momentos”, afirmou a presidente do PE, elogiando o evento e lembrando o ditado americano: “Go big, or go home, e vós correspondestes plenamente”, disse, dirigindo-se a White.

Não obstante, o local escolhido foi polémico por o evento ser por convite, num parque público, o que gerou frustração entre muitos habitantes de Bruxelas. Com efeito, o Parc du Cinquantenaire esteve totalmente encerrado, desde a noite de sábado, dia 27 de junho, e manteve-se fechado até segunda-feira, dia 29, com controlo de identidade efetuado por uma empresa privada de segurança. Por conseguinte, moradores da zona manifestaram desagrado pela falta de informação sobre o evento e pelo encerramento de um dos maiores parques públicos da cidade, durante vários dias, com uma vaga de calor a atingir a Europa, havia mais de uma semana. Além disso, o evento deu azo a manifestações contra os EUA, organizadas por várias associações, que decorreram no lado oposto do parque e em ruas próximas, fora do perímetro de segurança. Por exemplo, Greenpeace estendeu uma enorme faixa na histórica praça Grand-Place. No pano, com 600 metros quadrados, lia-se: “Guerra. Ganância. Crise energética. O que há para celebrar?”

Em comunicado, a Greenpeace condenou a utilização da ocasião para “promover a agenda política e empresarial de Trump”. “A celebração, em Bruxelas, decorre num contexto de crescente instabilidade global alimentada pela Casa Branca”, frisou.

Também protestaram outros grupos, como o Extinction Rebellion, Indivisible Belgium e Rise for Climate. E Christopher Hunter, do Indivisible Belgium, considerou a iniciativa do embaixador um esquema para a Freedom 250, empresa privada criada por Trump e James D. Vance, captar dinheiro dos EUA, da Bélgica e de outras empresas europeias. E acusou: “Pegaram no aniversário dos EUA e transformaram-no em mais uma oportunidade de fazer dinheiro.”

Confrontado com os protestos e perturbações, White disse desconhecer os seus motivos concretos. E, quanto ao financiamento do evento, revelou ter recolhido mais de cinco milhões de dólares junto de mais de 220 doadores, com contribuições de empresas e particulares norte-americanos e belgas. Entre os patrocinadores, contam-se multinacionais norte-americanas como a Meta, a Microsoft, a Nike e o McDonald’s, bem como empresas belgas de referência, como a Leonidas, o Porto de Antuérpia-Bruges, a Sabena, a Van Moer Logistics e a Sibelco.

Questionado pelos jornalistas sobre a questão de saber se a dimensão do evento foi pensada para reparar as tensas relações transatlânticas, White rejeitou a ideia de conflito profundo e preferiu destacar a História partilhada entre os dois países. “Vamos ignorar algum do ruído mediático sobre a criação de conflitos ou sobre divisões maiores do que as que existem, de facto”, afirmou White, vincando a relação excelente, a preservar e a fazer perdurar.

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Enquanto os norte-americanos celebravam o 250.º aniversário da independência do país, o presidente dos EUA subiu ao palco, embora com bastante atraso, devido ao mau tempo, por volta das 23h00 (hora local) do da 4 de julho, para proferir um discurso de 40 minutos no National Mall, em Washington.

Durante o dia, as temperaturas ultrapassaram os 40 graus Celsius (40º C), mas, à noite, fortes tempestades obrigaram ao protelamento da intervenção presidencial. Os participantes foram afastados do National Mall por causa da chuva e, quando o tempo melhorou, regressaram à área controlada pelos serviços secretos. Trump exaltou o excecionalismo americano e recorreu à História, para celebrar o “marco mais importante” para o país. “O sonho americano está de volta”, bradou à multidão que o aclamava. E prosseguiu: “Nenhum povo fez mais o bem, demonstrou mais coragem, alcançou maiores progressos, corrigiu mais injustiças ou atingiu uma grandeza superior à vossa, povo americano. […] Durante 250 anos, os Estados Unidos da América têm sido a esperança, a promessa, a luz e a glória entre todas as nações do Mundo.”

Mais adiante referiu-se às intervenções militares de Washington no estrangeiro, entre as quais, a Venezuela, onde os EUA capturaram o ex-presidente Nicolás Maduro, em janeiro, e a guerra com o Irão, afirmando que os EUA “aniquilaram” as forças armadas de Teerão. E, na sequência do que afirmou, no Monte Rushmore, no dia 3, de que o comunismo é “ameaça mortal” à liberdade dos EUA, criticou os opositores, “um bando de comunistas”. “Os nossos guerreiros não combateram o comunismo nos campos de batalha de todo o Mundo, só para se ver essa ameaça reaparecer aqui mesmo, na América. É como um cancro. Tem de ser erradicado”, vincou.

Após o discurso presidencial, grande espetáculo de fogos de artifício, que terá custado 850 mil dólares, iluminou os céus da capital. “Os melhores fogos de artifício de sempre”, escreveu Trump, no Truth Social.

No resto do país, foram organizados concertos e eventos para celebrar a data. Em Nova Iorque, o presidente da câmara, Zohran Mamdani, iluminou o Empire State Building nas cores dos EUA. Porém, durante o espetáculo de fogo de artifício, na Ponte de Brooklyn, uma avaria provocou um breve incêndio, que os bombeiros extinguiram e de que não houve feridos. E, em Chicago, um avião da Delta Airlines, provindo de Atlanta, foi atingido por fogo de artifício, enquanto se preparava para aterrar. “Acabámos de ouvir o estrondo no avião”, disse o piloto à torre de controlo. Os meios de comunicação dos EUA falam de vários relatos deste tipo, devido aos fogos de artifício lançados em todo o país, nas celebrações.

Os líderes mundiais (incluindo o Papa Leão XIV), chefes de Estado e membros de casas reais enviaram mensagens de felicitações aos EUA, na antecipação da celebração do dia 4, pelo 250.º aniversário do país, entre os quais o presidente ucraniano, a presidente da Comissão Europeia e o soberano do Reino Unido, Carlos III.

Carlos III divulgou uma mensagem dirigida a Trump a classificar a relação entre o Reino Unido e os EUA como “relação de evolução extraordinária” e “uma das alianças mais estreitas e produtivas que o Mundo já viu”. “Nos domínios da defesa e da segurança, do comércio e dos investimentos, da ciência, da investigação, da educação, da cultura e das artes, os laços entre o Reino Unido e os Estados Unidos são únicos e de grande alcance”, explanou.

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Não obstante, as opiniões europeias sobre o país e sobre o seu líder não são festivas. Segundo um estudo do Pew Research Center, mais de oito cidadãos, em cada dez, da Suécia, dos Países Baixos, da França, da Alemanha e da Itália não confiam que Trump tome as decisões certas em assuntos internacionais. E os níveis de confiança nele caíram, significativamente, em oito países europeus, desde 2025, incluindo quedas de 15%, na Grécia e na Itália.

Em geral, o presidente dos EUA é mais popular entre europeus com opinião favorável sobre partidos populistas de direita. Contudo, também a confiança destes diminuiu. Por exemplo, o apoio a Trump entre os eleitores gregos do partido Solução Grega caiu 29%, entre 2025 e 2026. Dos italianos com opinião positiva sobre o partido Irmãos de Itália, 49 % confiava em Trump, em 2025, contra 30 %, neste ano. E, em média, 85 % dos inquiridos franceses, alemães, gregos, húngaros, italianos, neerlandeses, polacos, espanhóis, suecos e britânicos desaprova a forma como o inquilino da Casa Branca gere a questão da Gronelândia e a das tarifas.

Estas não são as únicas questões que os europeus pensam estar a ser mal geridas por Trump. De acordo com o estudo, 78 % dos participantes, nos dez países analisados, não aprova a forma como está a lidar com as guerras na Ucrânia e no Irão.

Os EUA não são vistos como fiáveis, em muitos países europeus. A Hungria e a Polónia são os únicos países onde a maioria considera os EUA parceiro fiável. Já noutros oito países, a proporção dos que julgam os EUA fiáveis caiu entre 28% e 52%, desde 2022.

Os europeus também estão menos inclinados a crer que os EUA têm em conta os interesses de outros países, ao definirem a política externa, tendência que se nota, especialmente, na Alemanha e no Reino Unido. Entre 2022 e 2026, esta perceção reduziu-se para metade no Reino Unido, na Alemanha, na Polónia, na Espanha e na França.

O estudo refere que, nos países onde se fez a pergunta, as atitudes assemelham-se às do início dos anos 2000, “outro período de tensões transatlânticas resultantes de uma guerra no Médio Oriente e de outras questões”.

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É lamentável os EUA terem chegado a esta situação, pois a génese da sua adultez foi de tenacidade na luta. Já foi penosa a desvinculação da Grã-Bretanha das iniciais 13 colónias. Depois veio a guerra civil e a luta contra a escravatura, até à consolidação do país com os atuais estados, numa História de copiosa efusão de sangue, que importa celebrar e não apagar.

O local da Batalha de Gettysburg continua terreno sagrado e palco de peregrinações. Mais de 50 mil americanos morreram ali, no início de julho de 1863, quase um século após a Declaração da Independência. Todavia, até naquele local surgem divisões sobre o passado e como se interpreta a História, devido à polarização entre a América pró e anti Trump. Uma casa no topo da colina é o centro do embate entre duas fações, como em 1863. Na altura, a Brian House (habitação e pequeno celeiro) pertencia a Abraham Brian, escravo que fugira do Sul, onde a dignidade humana era reservada aos brancos. Sem o saber, o 11.º Regimento de Infantaria do Mississípi, combatendo pela manutenção da escravatura, usou-a como referência, durante o avanço. Apesar disso, o valor simbólico da casa resistiu a polémicas. Agora, opondo-se às políticas de diversidade, de equidade e de inclusão, Trump recusa-se a financiar a sua preservação.

Discutir genocídio dos indígenas, escravatura, emancipação da mulher e movimento dos direitos cívicos lesa a narrativa de Trump, única e glorificadora. EUA são isto, hoje!

2026.07.09 – Louro de Carvalho

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