domingo, 5 de julho de 2026

Em Angola, vala comum com 603 ossadas levanta muita desconfiança

 

A partir de 1974, Nito Alves, posteriormente, ministro da Administração Interna do novo Estado angolano, tornou-se poderoso membro da direção do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA). E o seu movimento fracionista, no MPLA, constituiu enorme desafio ao poder de Agostinho Neto, entre o final de 1975 e o início de 1976.

Entre os meses de fevereiro e março de 1976, Alves visitou a União Soviética e convenceu-se da necessidade de implantação da linha marxista-leninista e do modelo soviético no partido e no Estado. Os seus discursos inflamavam-se contra as políticas socioeconómicas e contra a suposta elite branco-mestiça que dominava as estruturas partidárias e estatais. Agostinho Neto procurou neutralizar os nitistas, por dividirem o partido. Em contraponto, Nito Alves e José Jacinto Van-Dunem, ex-membro do Estado-Maior das Forças Armadas Populares e Libertação de Angola (FAPLA), planearam um golpe de Estado contra Agostinho Neto.

Na madrugada de 27 de maio de 1977, Alves liderou o movimento de protesto que se dirigiu para o palácio presidencial, alegadamente, a pedir a Agostinho Neto que se posicionasse contra a aliança entre a social-democracia e o maoísmo que definia o rumo do MPLA, defendendo a linha marxista-leninista. Paralelamente, Virinha da Conceição e Nandy Delfim, dirigentes do destacamento feminino das FAPLA dirigem o assalto à cadeia de São Paulo, onde estava, em visita inspetiva, Helder Ferreira Neto, chefe dos Serviços de Informação e Análise (INFANAL) das FAPLA. Para impedir o ataque, Ferreira Neto liberta alguns presos e dá-lhes armas para o ajudarem, mas os rebeldes libertaram mais de 150 detidos, entre eles, os nitistas Pedro Fortunato e Galiano da Silva, e o chefe da INFANAL morreu no confronto.

Luís dos Passos, num jipe com seis militares, dirigiu a tomada da Rádio Nacional de Angola, com atentado à bomba (que matou integrantes da cúpula do MPLA), e anunciaram o autodenominado golpe “Comité de Ação do MPLA – Unidade FAPLA-Povo”. Os nitistas organizaram uma manifestação em frente ao palácio presidencial, mas o presidente Agostinho Neto havia transferido a sua base de operações do Palácio para o Ministério da Defesa. E, nos musseques, Sita Valles e José Jacinto Van-Dunem incitaram à revolta operários e populares.

Ainda pela manhã, o major Saíde Mingas, ministro das Finanças, um dos irmãos de Rui Mingas, fiel a Agostinho Neto e um dos alvos da tentativa de golpe, reuniu e liderou um grupo de soldados para retomar o quartel da 9.ª Brigada e controlar as tropas em motim, mas foi preso por nitistas da Direção de Informação e Segurança de Angola (DISA) e levado com Eugénio Nzaji e outros para o musseque Sambizanga, onde foram queimados vivos. O irmão de Saíde Mingas, José (Zé) Rodrigues Mingas, comandante da DISA, era apoiante e um dos principais agentes de informação do grupo nitista. Zé Mingas não conhecia os planos dos nitistas da DISA de sequestrar e matar o seu irmão, mas acabou morto na repressão à tentativa de golpe.

Por volta das 11h00, tropas das Forças Armadas de Cuba retomaram a zona do Palácio. A resposta do governo, liderada por Henrique Onambwé, diretor-adjunto da DISA, deu-se pelo meio-dia, quando reagrupou as FAPLA e, com a ajuda das tropas cubanas, marchou até à estação da Rádio Nacional de Angola, retomando a cadeia e a rádio e dispersando os manifestantes em outras zonas da cidade, pelas 13h30. Enquanto a força cubana recapturava o Palácio e a estação de rádio, os nitistas intercetaram os veículos dos membros do Conselho da Revolução Paulo Mungungo Dangereux, Bula Matadi e Eurico Manuel Correia Gonçalves, que se dirigiam para debelar os confrontos, sendo queimados, vivos, nos carros, na metade da tarde.

Pelas 17 horas, Luanda estava controlada, e os manifestantes procuravam refúgio. No musseque do Sambizanga, são queimados, vivos, os militares leais ao governo que foram capturados pelos nitistas, tendo conseguido fugir, ileso, o comandante Ciel da Conceição Gato. E, no final da tarde, o golpe já tinha sido debelado na cidade, mas os organismos de repressão entraram nas zonas rebeldes em busca dos participantes na intentona. Na Rádio Nacional, Agostinho Neto resumiu os factos e declarou que os fracionistas teriam de fazer grande trabalho de reabilitação para regressarem às fileiras do MPLA como dirigentes.

O poder restabelecido em Luanda impôs o recolher obrigatório do pôr do sol ao nascer do sol, realizado com a ajuda de barreiras de rua pela cidade. Enquanto cubanos, em tanques e em blindados, guardavam edifícios públicos, a DISA, sob comando de Ludy Kissassunda e Henrique Onambwé, fazia buscas nas casas à procura dos líderes nitistas. E, no final da tarde, numa última tentativa de levar o golpe em frente, surgiu um atentado contra Agostinho Neto, organizado por Nito Alves e concretizado pelo segurança particular de Neto. O presidente Neto, que escapou ileso, ficou abalado e, pouco tempo depois, num discurso mais agressivo, garantiu que iriam proceder “de uma maneira firme e dura”.

Na sequência do discurso, o MPLA prendeu dezenas de milhares de suspeitos de associação ao nitismo, de maio a novembro de 1977 e ao longo de 1978 e de 1979, e julgou-os em tribunais secretos. Os culpados, incluindo Nito Alves, José Jacinto Van Dunem, Sita Valles, David Minerva Machado, Arsénio Totó Sihanouk, Jacob Monstro Imortal e Eduardo Ernesto Bakalof, foram mortos e enterrados em valas secretas. Estima-se que, pelo menos, dois mil nitistas (ou supostos nitistas) foram mortos na repressão, mas há estimativas de até 40 mil.

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A 9 de maio de 2026, em artigo intitulado “Encontrada vala comum com 500 ossadas em Angola”, publicado pela Euronews, o jornalista Ricardo Figueira, dá conta da existência de uma vala comum, conhecida há 49 anos, mas cuja localização exata era desconhecida, sendo as pessoas ali sepultadas, provavelmente, vítimas das purgas que se seguiram à tentativa de golpe protagonizada por Nito Alves, a 27 de maio de 1977.

Na verdade, as autoridades angolanas anunciaram terem encontrado, num cemitério de Luanda, conhecido como “cemitério do 14”, uma vala comum com ossadas de cerca de 500 pessoas, que podem ter sido vítimas das purgas que se seguiram ao alegado golpe falhado de 27 de maio de 1977. Trata-se da maior descoberta, desde que o presidente João Lourenço fundou, em 2019, a Comissão para a Implementação do Plano de Reconciliação em Memória das Vítimas dos Conflitos Políticos (CIVICOP), para cimentar a reconciliação, após os conflitos de entre a independência, em novembro de 1975, e o fim da guerra civil em 2002, sendo a procura e localização de campas e de valas comuns o objetivo principal. Ora, a existência desta vala era conhecida desde 1977, mas a sua localização não tinha sido determinada.

A administração de Agostinho Neto acusou Nito Alves, ministro da Administração Interna, desencadear um golpe de Estado a 27 de maio de 1977, para mudar a orientação do governo. Tal acusação desencadeou uma onda de purgas e de execuções. A repressão pode ter morto entre duas mil e 40 mil pessoas, sendo desconhecido o número exato.

Até agora, a CIVICOP encontrou restos mortais de 316 pessoas, em oito províncias, e confirmou a morte de 3248 pessoas nos conflitos que se seguiram à independência de Angola. Segundo Marcy Lopes, ministro da Justiça e dos Direitos Humanos angolano e coordenador da CIVICOP, em declarações à TPA (televisão angolana) citadas pelo jornal Público, “os restos mortais serão encaminhados para exames laboratoriais, com vista à confirmação das identidades e ao apoio às famílias, no processo de reconhecimento dos seus entes queridos”. E Marcy Lopes referiu que tal descoberta se segue a cinco anos de investigação.

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Entretanto, a 21 de março de 2023, sobreviventes e familiares das vítimas do 27 de maio confirmaram as suas piores suspeitas. Com efeito, o médico legista Duarte Nuno Vieira, professor catedrático da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra, explicou que se comprovou que o ADN (ácido desoxirribonucleico) recolhido em ossadas apresentadas pela (CIVICOP) não corresponde às vítimas do massacre do 27 de maio. Ou seja, os testes de ADN mostram que ossadas apresentadas pelo governo angolano como pertencendo a Edmar Valles, Sita Valles, José Van-Dúnem, Rui Coelho não são das vítimas daquele episódio. Por isso, os familiares escreveram carta de indignação a exigir a verdade.

Na Carta a Angola, sustentam que há muito por desvendar sobre os factos que precederam o 27 de maio e sobre a barbárie subsequente. Sentem-se condenados a viverem como “filhos de sombras”, pois nunca puderam dar “sepultura digna” aos pais, segundo os costumes locais e como “qualquer filho quer fazer”. Lembram que as mães e as viúvas “que nunca viram nem receberam os cadáveres dos companheiros, conheceram a perseguição, o opróbrio, o ostracismo e, em alguns casos, foram condenadas à miséria”. E referem que, há ano e meio, os familiares viram “uma luz no fundo deste longo túnel”, que trouxe alguma esperança. Na verdade, como escrevem, “João Lourenço, pela primeira vez, na História de Angola independente, reconheceu os excessos do Estado nos acontecimentos que se seguiram ao 27 de maio, prometeu justiça e dignidade para os mortos, paz e reconciliação entre os vivos”.

Porém, a metodologia da CIVICOP, criada sob a égide do ministro da Justiça, para concretizar o programa do Presidente da República, foi questionada pelos familiares das vítimas, por envolver pessoas “ligadas à repressão do maio de 1977”, que não terão interesse na “reposição da verdade”, por não incluir representantes das vítimas e por não ter clarificado “os procedimentos que estava a seguir na localização e [na] identificação dos cadáveres”. Além disso, denunciam a criação da máquina de propaganda que não garante “trabalho rigoroso”, nem “resultado sério”: exibiu imagens de aparelho que serviria para localizar corpos e de equipamentos semelhantes a retroescavadoras, que estariam a remover restos mortais; e anunciou a possível localização de cadáveres de pessoas cujos nomes foram publicitados, enquanto mostrava esqueletos humanos, “reavivando sentimentos de profunda comoção e sofrimento nas famílias”.

Sabe-se que as ossadas não são de Sita Valles, José Van-Dúnem, Rui Coelho, nem de qualquer das vítimas do massacre. Assim, os “órfãos da associação M27” lamentam ter assistido a exercício de crueldade, em que se reavivaram “sentimentos de perda, de dor e de mágoa”. E, porque “estão vivos e identificados muitos dos responsáveis e participantes na repressão”, os familiares reivindicam que estes sejam chamados a indicar, sob juramento, “os locais onde foram enterrados ou lançados os corpos a que tiraram ou mandaram tirar a vida”.

Enfim, além de declararem a sua deceção e indignação, os parentes das vítimas exigem a verdade, pois, como dizem, “é a única que nos pode verdadeiramente permitir acertar contas com o passado e construir um futuro liberto de mágoas e de ressentimentos”.

Para o investigador Fernando Guelengue, citado pela Voz da América, é escândalo que prejudica o trabalho do governo, a reconciliação nacional e a pacificação dos espíritos. Parte inferior do formulário

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A 1 de julho deste ano, o site da Esquerda Net publicou um texto do jornalista Luís Leiria, sob o título “Angola: Descoberta de vala comum levanta muita desconfiança”, que assinala a contradição entre o lema da CIVICOP “abraçar e perdoar” e o desconhecimento, por parte dos serviços de segurança do Estado, da existência de uma vala comum que sepultava as ossadas de 603 pessoas e que foi anunciada, há anos, nos muros do próprio cemitério.

De facto, as vítimas não podem abraçar os algozes, se o governo não diz quem foram.

Quem descobriu a vala foi a CIVICOP, mas não se sabe quem lhe deu a verdadeira localização da vala comum no Cemitério da Mulemba. Era voz corrente que, em algum lugar do cemitério, estavam sepultadas vítimas do 27 de maio. Mas como descobrir o local preciso onde escavar?

A CIVICOP afirmou ter obtido as coordenadas da localização e verificou que a vala se encontrava sob a estrada asfaltada que atravessa o cemitério. Foram feitas escavações sem que o anúncio da descoberta tenha sido publicitado. Apenas quando a cova já estava feita e, pelo menos, parte das ossadas trazidas à luz do dia é que a TPA anunciou e exibiu uma reportagem mostrando os pormenores da “descoberta”. Porém, a presença deste sepultamento escondido chegou a ser denunciada num muro do próprio cemitério, onde alguém inscreveu. em grandes letras: “Aqui jazem vítimas do 27 de maio de 1977”.

O ministro que preside à CIVICOP diz que esta recebeu informações e investigou o terreno, usando tecnologia sofisticada, mas não diz qual. E, ao arrepio do bom senso, os familiares das vítimas receberam a informação da descoberta dos restos mortais, através da reportagem com imagens da referida retroescavadora em ação, na zona da vala comum; e não foram tomadas precauções para que não haja contaminação de materiais alheios aos restos mortais que tornem impossível identificação.

Também a CIVICOP recebeu uma lista de nomes das pessoas que estariam ali enterradas, mas que não tem credibilidade, já que pessoas vivas não podem ter as ossadas enterradas.

Um dos membros do Grupo de Sobreviventes que integra a Plataforma 27 de Maio aparece na lista como morto e sepultado na vala e afirma ter reconhecido 13 pessoas que sobreviveram ao massacre, mas estão na lista dos mortos. Além disso, detetou 83 pessoas que morreram noutras províncias, longe da capital angolana, onde foram encontrados estes restos mortais.

O governo apelou aos familiares dos desaparecidos a que fornecessem o seu ADN, para verificar a sua correspondência com o dos cadáveres, mas a Plataforma 27 de Maio afirma que a identificação exige “extrair o ADN da parte interior dos ossos” – “tecnologia que Angola não tem”. Assim, os funerais (até agora, 11) que estão a ser feitos por familiares que receberam os restos mortais e a garantia de que são do seu ou seus familiares, fazem-no para porem ponto final no luto que dura há 49 anos, mesmos nestas condições.

Na Organização das Nações Unidas (ONU), Angola quis apresentar a experiência da CIVICOP como exemplo de processo de reconciliação bem-sucedido. Porém, a ONU não reconhece seriedade a esta operação publicitária, porque a reconciliação não seguiu qualquer das boas práticas de comissões de verdade anteriores em outros países, como a África do Sul ou o Ruanda. Na verdade, como se referiu já, a composição da CIVICOP não foi transparente nem equilibrada, pelos motivos expostos, e é dirigida pelo governo, que se permite usá-la nos seus calendários políticos. Assim, o lema “abraçar e perdoar” pode impressionar os eleitores, mas as vítimas, os órfãos, os sobreviventes não podem abraçar em abstrato. Não se sabe quem são os algozes, quem ordenou as execuções, nem como foi o processo que levou tantos corpos a esta vala comum (se é que é, realmente, de vítimas do 27 de maio).

Enfim, como escreve o jornalista, os sobreviventes e órfãos do 27 de maio são levados a concluir que todo o processo que levou à criação da CIVICOP teve fins eleitorais, de propaganda do MPLA, e que nunca se quis chegar “nem à verdade, nem à reconciliação”.

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Reconciliação é para levar a sério (é algo com que não se pode brincar: seria blasfemo), não bastando que figure em campanha publicitária para efeitos de política partidária.

2026.07.04 – Louro de Carvalho


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