A
liturgia do 15.º Domingo do Tempo Comum convidou-nos a tomar consciência da
importância da Palavra de Deus e da centralidade que ela deve assumir na vida
dos crentes.
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A
primeira leitura (Is 55,10-11) garante que a Palavra de Deus é fecunda e
criadora de vida: dá-nos esperança, indica-nos os caminhos que devemos
percorrer e dá-nos o ânimo para intervirmos no Mundo. Produz sempre efeito,
embora não atue, sempre, de acordo com os nossos critérios.
O
Deuteroisaías é um profeta que exerce a sua missão entre os exilados da
Babilónia, consolando e mantendo acesa a esperança do povo amargurado,
desiludido e dececionado. Por isso, chama-se “Livro da Consolação” aos textos
que recolhem a sua mensagem (Is 40-55).
Na
primeira parte desse livro (cf. Is 40-48), o profeta anuncia aos
exilados a libertação do cativeiro e o novo êxodo do Povo de Deus para a Terra
Prometida; e, na segunda (cf. Is 49-55), fala da reconstrução e da
restauração de Jerusalém. O trecho em apreço aparece no final do “Livro da
Consolação”. Após convidar o Povo, que ainda está na Babilónia, a buscar e
invocar o Senhor, o profeta relembra a eficácia da Palavra de Deus proclamada
aos exilados.
Estamos
na fase final do Exílio (à volta de 550/540 a.C.). A comunidade está farta de
palavras e de promessas de libertação que tardam a concretizar-se. A
impaciência, a dúvida e o ceticismo minam, lentamente, a resistência e a fé dos
exilados. Porém, as promessas de Deus vão concretizar-se Deus, pois Ele não se
esquece do seu Povo. A sua Palavra não deixará de se concretizar, porque Ele é,
eternamente, fiel às suas promessas. A Palavra de Deus, eficaz, transformadora,
geradora de vida, nunca falha.
Para
expressar a ideia da eficácia da Palavra de Deus, o profeta dá o exemplo da
chuva e da neve: “Assim como a chuva e a neve que descem do céu fecundam a
terra e multiplicam a vida nos campos, assim a Palavra de Javé não deixará de
se concretizar e de criar vida plena para o Povo de Deus.”
A
imagem sugestiva lembra aos exilados na Babilónia as chuvas que caem no Norte
de Israel e as neves do monte Hermon. A água caída do céu alimenta o rio Jordão,
o qual, por sua vez, correndo por toda a terra de Israel, deixa um rasto de
vida e de fecundidade. Ora, a Palavra de Deus é como essa água bendita que,
inevitavelmente, gera a vida que nutre o Povo de Deus.
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O
Evangelho (Mt 13,1-23) propõe-nos, em primeiro lugar, uma reflexão sobre
a forma como acolhemos a Palavra e exorta-nos a ser a “boa terra”, disponível
para escutar as propostas de Jesus, para as acolher e para deixar que deem
abundantes frutos na nossa vida de cada dia. Garante-nos também que o “Reino” anunciado
por Jesus será imparável realidade, onde se manifestará, em todo o seu
esplendor e fecundidade, a vida de Deus.
Em
três domingos, o Evangelho apresenta-nos parábolas de Jesus. A parábola é
imagem, símile ou comparação, que ilustra determinada mensagem ou ensinamento.
A
linguagem parabólica não foi inventada por Jesus. É habitual na literatura dos
povos do Médio Oriente: o génio oriental gosta mais de instruir por imagens,
comparações e alegorias, do que por discursos lógicos, frios e racionais,
típicos da civilização ocidental.
A
linguagem parabólica várias vantagens, face ao discurso lógico e impositivo. A
imagem ou comparação da linguagem parabólica é mais rica, em força de
comunicação e em poder de evocação, do que a exposição teórica. Sendo mais
profunda, mais carregada de sentido, mais evocadora, mexe mais com os ouvintes.
Por ser excelente arma de controvérsia, a linguagem figurada leva o
interlocutor a admitir certos pontos que, de outro modo, não mereceriam a sua
concordância. E, por constituir um verdadeiro método pedagógico, que ensina as
pessoas a refletirem, a medirem os prós e os contras, a encontrarem soluções
para os dilemas da vida, estimula a curiosidade, incita à busca, insta à descoberta
da verdade.
No
capítulo 13 do seu Evangelho, Mateus apresenta-nos sete parábolas, pelas quais
Jesus revela aos discípulos a realidade do Reino. São as “parábolas do Reino”. Dessas
parábolas, três provêm da tradição sinóptica (o semeador e a semente, o grão de
mostarda, o fermento); as outras (o trigo e o joio, o tesouro escondido, a
pérola preciosa, a rede) não se encontram em Marcos, nem em Lucas. Serão
originárias da antiga fonte dos “ditos” de Jesus, que Mateus usou,
abundantemente, na composição do seu Evangelho.
A
preocupação do evangelista é a vida da sua comunidade. Nestas parábolas e na
interpretação que as acompanha, percebe-se a preocupação do pastor que exorta,
anima, ensina e fortalece a fé dos crentes a quem destina o seu Evangelho.
A
parábola do trecho em referência – o semeador que saiu a semear a sua semente –
é uma das mais conhecidas e emblemáticas das parábolas de Jesus. Porém, o texto
do Evangelho vai um pouco mais além da parábola em si. Apresenta três partes: a
parábola, um conjunto de “ditos” sobre a função das parábolas e a explicação da
parábola.
A
primeira parte contém a parábola, que assenta nas técnicas agrícolas usadas na
Palestina de então: o agricultor lançava a semente à terra e passava a arar o
terreno. Assim, compreende-se porque é que parte da semente pôde cair “à beira
do caminho”, outra em “sítios pedregosos onde não havia muita terra” e outra
“entre os espinhos”.
As
diferenças do terreno significam, neste símile, as diferentes formas como é
acolhida a semente, mas nem isso é o mais significativo: o que é impressionante
é a espantosa quantidade de frutos que a semente lançada na “boa terra” produz.
Tendo em conta que, à época, a colheita de sete por um era considerada farta,
os cem, sessenta e trinta por um deviam parecer aos ouvintes de Jesus algo
surpreendente, exagerado, miraculoso.
Mateus
enuncia esta parábola num contexto em que a ideia de Jesus parece condenada ao
malogro. As cidades do lago (Corozaim, Betsaida, Cafarnaum) tinham rejeitado a
sua pregação; os fariseus atacavam-No, por Ele não respeitar o sábado, e
queriam matá-Lo. Além disso acusavam-No de agir, não pelo poder de Deus, mas
pelo poder de Belzebu, príncipe dos demónios. Não acreditavam nas suas palavras
e exigiam d’Ele sinais. O Reino anunciado sofria grande contestação e parecia
encaminhar-se para um rotundo fracasso. É possível que a parábola tenha sido
apresentada por Jesus neste contexto de crise.
Àqueles
que manifestavam desânimo e desconfiança, em relação ao êxito do projeto do
“Reino”, Jesus fala de resultado final grandioso. Com a parábola, Jesus exorta
os discípulos desiludidos a que não desanimem, pois apesar do aparente
fracasso, o Reino é imparável; e o resultado final será surpreendente,
maravilhoso, inimaginável.
A
segunda parte comporta um excurso sobre a função das parábolas. O ponto de
partida é a questão levantada pelos discípulos sobre o motivo por que Jesus
fala em parábolas. E Mateus vê nelas a ocasião para que apareçam, com nitidez,
o acolhimento e a recusa da mensagem de Jesus. Ou seja, as parábolas apresentam
o “Reino” numa linguagem sugestiva, rica, clara, concreta, questionante,
interpelante. Tornam tudo claro para os ouvintes. Por isso, após escutar a
mensagem das parábolas, só não aceita a mensagem quem tiver o coração
endurecido e não estiver mesmo interessado na mensagem. As parábolas são, pois,
o fator decisivo: propõem, inequivocamente, a realidade do “Reino”. Quem
acolher a mensagem, receberá mais e terá em abundância, isto é, irá entrando,
cada vez mais, na dinâmica do “Reino”; mas quem não a acolher, apesar da sua clareza
e acessibilidade, está a rejeitar o “Reino” e a possibilidade de integrar a
comunidade da salvação. Nos que rejeitam Jesus, cumpre-se a profecia de Isaías,
que fala de um povo de coração endurecido, que quanto mais ouve a profecia,
mais se irrita, agravando a sua culpa.
Os
discípulos são os que escutam a proposta do “Reino” e estão dispostos a
acolhê-la. Portanto, compreendem, as parábolas e aceitam a realidade que elas contêm.
São felizes, porque abriram o coração a Jesus, escutaram as suas palavras,
viram e entenderam os seus gestos e sinais; são felizes, pois, ao invés dos que
endurecem o coração e fecham os ouvidos, integram o “Reino”.
A
terceira parte apresenta a explicação da parábola, aplicando-a à vida dos
cristãos.
Na
explicação, a parábola deixa de ser a apresentação da forma grandiosa como o
“Reino” se vai manifestar, para passar a ser uma reflexão sobre as diversas
atitudes com que a comunidade acolhe a Palavra de Jesus. E é essa a grande
preocupação das comunidades cristãs.
Na
perspetiva dos catequistas que prepararam esta aplicação, o acolhimento do
Evangelho não depende da semente, nem de quem semeia, mas da qualidade da
terra. Ao semeador compete sair a semear a sua semente, sem olhar para trás e
sem fazer escolhas de terreno. Deus não faz aceção de pessoas. E a semeadura é
do semeador e não de outrem.
Face
à Palavra de Jesus, há várias atitudes, espelhadas nas imagens de terreno
apontadas na parábola. Há os que têm o coração duro como o chão de terra batida
dos caminhos: a Palavra de Jesus não penetra nessa terra, pelo que não dará
fruto. Há os que têm o coração inconstante, capaz de se entusiasmar, de
imediato, mas que desanimam ante as primeiras dificuldades: a Palavra de Jesus
não cria raízes aí. Há os que têm um coração materialista, que prioriza, sempre,
a riqueza e os bens materiais: a Palavra de Jesus é aí facilmente sufocada por
esses interesses dominantes. E há aqueles que têm um coração disponível e bom,
aberto aos desafios de Deus: a Palavra de Jesus é aí acolhida e dá muito fruto.
Os verdadeiros discípulos, a “boa terra”, identificam-se com os que escutam as
parábolas, as entendem e acolhem o “Reino”.
Há,
portanto, aqui, uma exortação aos cristãos no sentido de acolherem a Palavra de
Jesus, sem deixarem que as dificuldades, os acidentes da vida, os outros
valores a asfixiem e a tornem em semente estéril, sem vida. E é de atentar no
repto de Jesus: “Quem tem ouvidos, ouça!” – que significa que a
responsabilidade de atender ou não atender a palavra é nossa.
***
Leão
XIV comentou este passo evangélico aos fiéis reunidos na Praça da Liberdade, em
Castel Gandolfo, para a oração do Angelus, sustentando que a parábola do
semeador que saiu a semear a sua semente descreve a generosidade e a confiança
com que Deus espalha a sua Palavra no nosso coração e o seu poder em nós. O próprio
Jesus, “o Verbo que Se fez homem e deu a sua vida pela nossa salvação, é a
semente que o Pai espalha pelo Mundo, para que, ao morrer, dê muito fruto”.
Ele, às vezes, encontra em nós terreno duro e insensível e, outras vezes,
distraído, semelhante ao solo batido dos caminhos, ao terreno pedregoso ou aos
arbustos espinhosos. Porém, há momentos em que encontra uma terra recetiva e
fértil e, “então, desencadeiam-se milagres de amor capazes de mudar tudo”, como
nós já experimentámos na vida. Por isso, o Pai não desiste de semear, porque “o
poder do seu amor é mais forte do que a nossa fraqueza”.
Di-lo
São João Crisóstomo, referindo-se à semente da Palavra de Deus: “Como pode ser
razoável semear entre espinhos, em terreno pedregoso, à beira do caminho? No
caso das sementes e da terra, isso não seria razoável, mas no caso das almas e
dos ensinamentos, isso é muito louvável.” Com efeito, “é possível que, nas mãos
de Deus, o terreno pedregoso se transforme em terra fértil; que o caminho deixe
de ser pisado e de estar exposto a todos os transeuntes, passando a ser solo
fértil; que os espinhos sejam eliminados e as sementes desfrutem de grande
segurança”.
A
generosidade de Deus para connosco não é ingénua, mas sábia, e aproveita, em
nós, a possibilidade do bem do qual, por vezes, nem nos apercebemos. Por isso,
o Senhor, que conhece o terreno do nosso coração melhor do que nós, acredita em
nós, no que somos e naquilo em que nos podemos tornar, dia após dia, se nos
entregarmos a Ele com fé.
A
partir da gratuitidade e da confiança com que a semente é lançada e da
humildade e disponibilidade com que é recebida, crescem em nós e difundem-se,
como ensina São Paulo, os frutos do Espírito Santo: “amor, alegria, paz,
paciência, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, autodomínio”. E mundo
precisa deles e de ser preenchido e transformado por eles.
Por
isso, o Papa exorta a que nos empenhemos em dedicar tempo à escuta, à leitura e
à meditação da Palavra de Deus, cultivando momentos significativos de silêncio
e de oração, para que, renovados no corpo e no espírito, estejamos prontos para
anunciar a Boa Nova do Evangelho e cada vez mais capazes de cooperar no
crescimento do Reino de Deus. “Que Maria, Rainha dos Apóstolos e Estrela da
Evangelização, nos ajude nisto”.
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A
segunda leitura (Rm 8,18-23) apresenta a temática da solidariedade entre
o homem e o resto da criação” que não parece relacionada com o tema desta
dominga, a Palavra de Deus. Contudo, é a Palavra de Deus que fornece os
critérios para que o homem viva “segundo o Espírito” e para que possa construir
o “novo Céu e a nova Terra” com que sonhamos.
Paulo
oferece-nos uma catequese sobre o rumo a tomar para acolher a salvação que Deus
oferece. A salvação é dom de Deus, dom gratuito, que é fruto da bondade e do
amor de Deus; chega por Jesus Cristo; e atua em nós pelo Espírito que Jesus
derrama sobre os que aderem ao seu projeto e entram na sua comunidade.
Nos
versículos anteriores ao trecho em causa, o apóstolo mostrou aos crentes o
exemplo de Cristo e convidou-os a seguirem a mesma rota. Em especial,
disse-lhes que seguir o exemplo de Cristo implica deixar a vida “segundo a
carne”, isto é, a vida do egoísmo, do orgulho, da autossuficiência e aderir à
vida “segundo o Espírito”, ou seja, a vida de escuta de Deus, de obediência ao
desígnio de Deus, de doação aos homens.
Na
perspetiva paulina, o homem não é o único interessado na opção pela vida
“segundo o Espírito”: toda a criação está dependente das escolhas que o homem
faz. Na verdade, em resultado do pecado do homem, a criação inteira ficou
submetida ao império do egoísmo e da desordem e está condenada à finitude e à
caducidade. Se o homem aderir a Cristo e passar a viver “segundo o Espírito”,
superará o destino de maldição e de morte em que o pecado o lançou. Por
conseguinte, também o resto da criação será libertado e nascerá o novo Céu e a
nova Terra. É a solidariedade entre o homem, os outros animais e a Natureza,
tão enraizada na Bíblia.
Assim,
toda a criação aguarda, ansiosamente, que o homem escolha a vida “segundo o
Espírito”. Até lá, vai nascendo – na dificuldade e na dor – o Homem Novo e Novo
Céu e Nova Terra com que todos sonhamos. Isso acontece na dificuldade e na dor,
porque a vida “segundo o Espírito” supõe a renúncia ao egoísmo, aos interesses
mesquinhos, ao comodismo, ao orgulho e a opção por uma senda de entrega e de
dom da própria vida a Deus e aos outros. Paulo utiliza o exemplo das dores do
parto, para iluminar a mensagem que está a transmitir. O nascimento da criança ocorre
na dor, que é via obrigatória para o nascimento de nova vida.
Vale
a pena viver segundo o Espírito. Padecimentos, renúncias, dificuldades, não são
nada, em comparação com a felicidade sem fim que espera os crentes no fim do
caminho.
***
É,
pois, justo enaltecer a força da Palavra de Deus e ter consciência de que o
semeador é Cristo, que sai a semear a sua semente. Já nós, quando saímos a
semear, devemos semear, não a nossa semente, mas a de Cristo, que devemos
assumir como nossa.
“A
semente caiu em boa terra e deu muito fruto.”
Visitastes
a terra e a regastes, / enchendo-a de fertilidade. / As fontes do céu
transbordam em água / e fazeis brotar o trigo.
“Coroastes
o ano com os vossos benefícios, / por onde passastes brotou a abundância. /
Vicejam as pastagens do deserto / e os outeiros vestem-se de festa.
“Os
prados cobrem-se de rebanhos / e os vales enchem-se de trigo. / Tudo canta e
grita de alegria.”
“Aleluia.
Aleluia.” “A semente é a palavra de Deus e o semeador é Cristo. / Quem O
encontra viverá eternamente.”
2026.07.12
– Louro de Carvalho
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