segunda-feira, 13 de julho de 2026

“Quem tem ouvidos, ouça!”

 

A liturgia do 15.º Domingo do Tempo Comum convidou-nos a tomar consciência da importância da Palavra de Deus e da centralidade que ela deve assumir na vida dos crentes.

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A primeira leitura (Is 55,10-11) garante que a Palavra de Deus é fecunda e criadora de vida: dá-nos esperança, indica-nos os caminhos que devemos percorrer e dá-nos o ânimo para intervirmos no Mundo. Produz sempre efeito, embora não atue, sempre, de acordo com os nossos critérios.

O Deuteroisaías é um profeta que exerce a sua missão entre os exilados da Babilónia, consolando e mantendo acesa a esperança do povo amargurado, desiludido e dececionado. Por isso, chama-se “Livro da Consolação” aos textos que recolhem a sua mensagem (Is 40-55).

Na primeira parte desse livro (cf. Is 40-48), o profeta anuncia aos exilados a libertação do cativeiro e o novo êxodo do Povo de Deus para a Terra Prometida; e, na segunda (cf. Is 49-55), fala da reconstrução e da restauração de Jerusalém. O trecho em apreço aparece no final do “Livro da Consolação”. Após convidar o Povo, que ainda está na Babilónia, a buscar e invocar o Senhor, o profeta relembra a eficácia da Palavra de Deus proclamada aos exilados.

Estamos na fase final do Exílio (à volta de 550/540 a.C.). A comunidade está farta de palavras e de promessas de libertação que tardam a concretizar-se. A impaciência, a dúvida e o ceticismo minam, lentamente, a resistência e a fé dos exilados. Porém, as promessas de Deus vão concretizar-se Deus, pois Ele não se esquece do seu Povo. A sua Palavra não deixará de se concretizar, porque Ele é, eternamente, fiel às suas promessas. A Palavra de Deus, eficaz, transformadora, geradora de vida, nunca falha.

Para expressar a ideia da eficácia da Palavra de Deus, o profeta dá o exemplo da chuva e da neve: “Assim como a chuva e a neve que descem do céu fecundam a terra e multiplicam a vida nos campos, assim a Palavra de Javé não deixará de se concretizar e de criar vida plena para o Povo de Deus.”

A imagem sugestiva lembra aos exilados na Babilónia as chuvas que caem no Norte de Israel e as neves do monte Hermon. A água caída do céu alimenta o rio Jordão, o qual, por sua vez, correndo por toda a terra de Israel, deixa um rasto de vida e de fecundidade. Ora, a Palavra de Deus é como essa água bendita que, inevitavelmente, gera a vida que nutre o Povo de Deus.

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O Evangelho (Mt 13,1-23) propõe-nos, em primeiro lugar, uma reflexão sobre a forma como acolhemos a Palavra e exorta-nos a ser a “boa terra”, disponível para escutar as propostas de Jesus, para as acolher e para deixar que deem abundantes frutos na nossa vida de cada dia. Garante-nos também que o “Reino” anunciado por Jesus será imparável realidade, onde se manifestará, em todo o seu esplendor e fecundidade, a vida de Deus.

Em três domingos, o Evangelho apresenta-nos parábolas de Jesus. A parábola é imagem, símile ou comparação, que ilustra determinada mensagem ou ensinamento.

A linguagem parabólica não foi inventada por Jesus. É habitual na literatura dos povos do Médio Oriente: o génio oriental gosta mais de instruir por imagens, comparações e alegorias, do que por discursos lógicos, frios e racionais, típicos da civilização ocidental.

A linguagem parabólica várias vantagens, face ao discurso lógico e impositivo. A imagem ou comparação da linguagem parabólica é mais rica, em força de comunicação e em poder de evocação, do que a exposição teórica. Sendo mais profunda, mais carregada de sentido, mais evocadora, mexe mais com os ouvintes. Por ser excelente arma de controvérsia, a linguagem figurada leva o interlocutor a admitir certos pontos que, de outro modo, não mereceriam a sua concordância. E, por constituir um verdadeiro método pedagógico, que ensina as pessoas a refletirem, a medirem os prós e os contras, a encontrarem soluções para os dilemas da vida, estimula a curiosidade, incita à busca, insta à descoberta da verdade.

No capítulo 13 do seu Evangelho, Mateus apresenta-nos sete parábolas, pelas quais Jesus revela aos discípulos a realidade do Reino. São as “parábolas do Reino”. Dessas parábolas, três provêm da tradição sinóptica (o semeador e a semente, o grão de mostarda, o fermento); as outras (o trigo e o joio, o tesouro escondido, a pérola preciosa, a rede) não se encontram em Marcos, nem em Lucas. Serão originárias da antiga fonte dos “ditos” de Jesus, que Mateus usou, abundantemente, na composição do seu Evangelho.

A preocupação do evangelista é a vida da sua comunidade. Nestas parábolas e na interpretação que as acompanha, percebe-se a preocupação do pastor que exorta, anima, ensina e fortalece a fé dos crentes a quem destina o seu Evangelho.

A parábola do trecho em referência – o semeador que saiu a semear a sua semente – é uma das mais conhecidas e emblemáticas das parábolas de Jesus. Porém, o texto do Evangelho vai um pouco mais além da parábola em si. Apresenta três partes: a parábola, um conjunto de “ditos” sobre a função das parábolas e a explicação da parábola.

A primeira parte contém a parábola, que assenta nas técnicas agrícolas usadas na Palestina de então: o agricultor lançava a semente à terra e passava a arar o terreno. Assim, compreende-se porque é que parte da semente pôde cair “à beira do caminho”, outra em “sítios pedregosos onde não havia muita terra” e outra “entre os espinhos”.

As diferenças do terreno significam, neste símile, as diferentes formas como é acolhida a semente, mas nem isso é o mais significativo: o que é impressionante é a espantosa quantidade de frutos que a semente lançada na “boa terra” produz. Tendo em conta que, à época, a colheita de sete por um era considerada farta, os cem, sessenta e trinta por um deviam parecer aos ouvintes de Jesus algo surpreendente, exagerado, miraculoso.

Mateus enuncia esta parábola num contexto em que a ideia de Jesus parece condenada ao malogro. As cidades do lago (Corozaim, Betsaida, Cafarnaum) tinham rejeitado a sua pregação; os fariseus atacavam-No, por Ele não respeitar o sábado, e queriam matá-Lo. Além disso acusavam-No de agir, não pelo poder de Deus, mas pelo poder de Belzebu, príncipe dos demónios. Não acreditavam nas suas palavras e exigiam d’Ele sinais. O Reino anunciado sofria grande contestação e parecia encaminhar-se para um rotundo fracasso. É possível que a parábola tenha sido apresentada por Jesus neste contexto de crise.

Àqueles que manifestavam desânimo e desconfiança, em relação ao êxito do projeto do “Reino”, Jesus fala de resultado final grandioso. Com a parábola, Jesus exorta os discípulos desiludidos a que não desanimem, pois apesar do aparente fracasso, o Reino é imparável; e o resultado final será surpreendente, maravilhoso, inimaginável.

A segunda parte comporta um excurso sobre a função das parábolas. O ponto de partida é a questão levantada pelos discípulos sobre o motivo por que Jesus fala em parábolas. E Mateus vê nelas a ocasião para que apareçam, com nitidez, o acolhimento e a recusa da mensagem de Jesus. Ou seja, as parábolas apresentam o “Reino” numa linguagem sugestiva, rica, clara, concreta, questionante, interpelante. Tornam tudo claro para os ouvintes. Por isso, após escutar a mensagem das parábolas, só não aceita a mensagem quem tiver o coração endurecido e não estiver mesmo interessado na mensagem. As parábolas são, pois, o fator decisivo: propõem, inequivocamente, a realidade do “Reino”. Quem acolher a mensagem, receberá mais e terá em abundância, isto é, irá entrando, cada vez mais, na dinâmica do “Reino”; mas quem não a acolher, apesar da sua clareza e acessibilidade, está a rejeitar o “Reino” e a possibilidade de integrar a comunidade da salvação. Nos que rejeitam Jesus, cumpre-se a profecia de Isaías, que fala de um povo de coração endurecido, que quanto mais ouve a profecia, mais se irrita, agravando a sua culpa.

Os discípulos são os que escutam a proposta do “Reino” e estão dispostos a acolhê-la. Portanto, compreendem, as parábolas e aceitam a realidade que elas contêm. São felizes, porque abriram o coração a Jesus, escutaram as suas palavras, viram e entenderam os seus gestos e sinais; são felizes, pois, ao invés dos que endurecem o coração e fecham os ouvidos, integram o “Reino”.

A terceira parte apresenta a explicação da parábola, aplicando-a à vida dos cristãos.

Na explicação, a parábola deixa de ser a apresentação da forma grandiosa como o “Reino” se vai manifestar, para passar a ser uma reflexão sobre as diversas atitudes com que a comunidade acolhe a Palavra de Jesus. E é essa a grande preocupação das comunidades cristãs.

Na perspetiva dos catequistas que prepararam esta aplicação, o acolhimento do Evangelho não depende da semente, nem de quem semeia, mas da qualidade da terra. Ao semeador compete sair a semear a sua semente, sem olhar para trás e sem fazer escolhas de terreno. Deus não faz aceção de pessoas. E a semeadura é do semeador e não de outrem.

Face à Palavra de Jesus, há várias atitudes, espelhadas nas imagens de terreno apontadas na parábola. Há os que têm o coração duro como o chão de terra batida dos caminhos: a Palavra de Jesus não penetra nessa terra, pelo que não dará fruto. Há os que têm o coração inconstante, capaz de se entusiasmar, de imediato, mas que desanimam ante as primeiras dificuldades: a Palavra de Jesus não cria raízes aí. Há os que têm um coração materialista, que prioriza, sempre, a riqueza e os bens materiais: a Palavra de Jesus é aí facilmente sufocada por esses interesses dominantes. E há aqueles que têm um coração disponível e bom, aberto aos desafios de Deus: a Palavra de Jesus é aí acolhida e dá muito fruto. Os verdadeiros discípulos, a “boa terra”, identificam-se com os que escutam as parábolas, as entendem e acolhem o “Reino”.

Há, portanto, aqui, uma exortação aos cristãos no sentido de acolherem a Palavra de Jesus, sem deixarem que as dificuldades, os acidentes da vida, os outros valores a asfixiem e a tornem em semente estéril, sem vida. E é de atentar no repto de Jesus: “Quem tem ouvidos, ouça!” – que significa que a responsabilidade de atender ou não atender a palavra é nossa.

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Leão XIV comentou este passo evangélico aos fiéis reunidos na Praça da Liberdade, em Castel Gandolfo, para a oração do Angelus, sustentando que a parábola do semeador que saiu a semear a sua semente descreve a generosidade e a confiança com que Deus espalha a sua Palavra no nosso coração e o seu poder em nós. O próprio Jesus, “o Verbo que Se fez homem e deu a sua vida pela nossa salvação, é a semente que o Pai espalha pelo Mundo, para que, ao morrer, dê muito fruto”. Ele, às vezes, encontra em nós terreno duro e insensível e, outras vezes, distraído, semelhante ao solo batido dos caminhos, ao terreno pedregoso ou aos arbustos espinhosos. Porém, há momentos em que encontra uma terra recetiva e fértil e, “então, desencadeiam-se milagres de amor capazes de mudar tudo”, como nós já experimentámos na vida. Por isso, o Pai não desiste de semear, porque “o poder do seu amor é mais forte do que a nossa fraqueza”.

Di-lo São João Crisóstomo, referindo-se à semente da Palavra de Deus: “Como pode ser razoável semear entre espinhos, em terreno pedregoso, à beira do caminho? No caso das sementes e da terra, isso não seria razoável, mas no caso das almas e dos ensinamentos, isso é muito louvável.” Com efeito, “é possível que, nas mãos de Deus, o terreno pedregoso se transforme em terra fértil; que o caminho deixe de ser pisado e de estar exposto a todos os transeuntes, passando a ser solo fértil; que os espinhos sejam eliminados e as sementes desfrutem de grande segurança”.

A generosidade de Deus para connosco não é ingénua, mas sábia, e aproveita, em nós, a possibilidade do bem do qual, por vezes, nem nos apercebemos. Por isso, o Senhor, que conhece o terreno do nosso coração melhor do que nós, acredita em nós, no que somos e naquilo em que nos podemos tornar, dia após dia, se nos entregarmos a Ele com fé.

A partir da gratuitidade e da confiança com que a semente é lançada e da humildade e disponibilidade com que é recebida, crescem em nós e difundem-se, como ensina São Paulo, os frutos do Espírito Santo: “amor, alegria, paz, paciência, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, autodomínio”. E mundo precisa deles e de ser preenchido e transformado por eles.

Por isso, o Papa exorta a que nos empenhemos em dedicar tempo à escuta, à leitura e à meditação da Palavra de Deus, cultivando momentos significativos de silêncio e de oração, para que, renovados no corpo e no espírito, estejamos prontos para anunciar a Boa Nova do Evangelho e cada vez mais capazes de cooperar no crescimento do Reino de Deus. “Que Maria, Rainha dos Apóstolos e Estrela da Evangelização, nos ajude nisto”.

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A segunda leitura (Rm 8,18-23) apresenta a temática da solidariedade entre o homem e o resto da criação” que não parece relacionada com o tema desta dominga, a Palavra de Deus. Contudo, é a Palavra de Deus que fornece os critérios para que o homem viva “segundo o Espírito” e para que possa construir o “novo Céu e a nova Terra” com que sonhamos.

Paulo oferece-nos uma catequese sobre o rumo a tomar para acolher a salvação que Deus oferece. A salvação é dom de Deus, dom gratuito, que é fruto da bondade e do amor de Deus; chega por Jesus Cristo; e atua em nós pelo Espírito que Jesus derrama sobre os que aderem ao seu projeto e entram na sua comunidade.

Nos versículos anteriores ao trecho em causa, o apóstolo mostrou aos crentes o exemplo de Cristo e convidou-os a seguirem a mesma rota. Em especial, disse-lhes que seguir o exemplo de Cristo implica deixar a vida “segundo a carne”, isto é, a vida do egoísmo, do orgulho, da autossuficiência e aderir à vida “segundo o Espírito”, ou seja, a vida de escuta de Deus, de obediência ao desígnio de Deus, de doação aos homens.

Na perspetiva paulina, o homem não é o único interessado na opção pela vida “segundo o Espírito”: toda a criação está dependente das escolhas que o homem faz. Na verdade, em resultado do pecado do homem, a criação inteira ficou submetida ao império do egoísmo e da desordem e está condenada à finitude e à caducidade. Se o homem aderir a Cristo e passar a viver “segundo o Espírito”, superará o destino de maldição e de morte em que o pecado o lançou. Por conseguinte, também o resto da criação será libertado e nascerá o novo Céu e a nova Terra. É a solidariedade entre o homem, os outros animais e a Natureza, tão enraizada na Bíblia.

Assim, toda a criação aguarda, ansiosamente, que o homem escolha a vida “segundo o Espírito”. Até lá, vai nascendo – na dificuldade e na dor – o Homem Novo e Novo Céu e Nova Terra com que todos sonhamos. Isso acontece na dificuldade e na dor, porque a vida “segundo o Espírito” supõe a renúncia ao egoísmo, aos interesses mesquinhos, ao comodismo, ao orgulho e a opção por uma senda de entrega e de dom da própria vida a Deus e aos outros. Paulo utiliza o exemplo das dores do parto, para iluminar a mensagem que está a transmitir. O nascimento da criança ocorre na dor, que é via obrigatória para o nascimento de nova vida.

Vale a pena viver segundo o Espírito. Padecimentos, renúncias, dificuldades, não são nada, em comparação com a felicidade sem fim que espera os crentes no fim do caminho.

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É, pois, justo enaltecer a força da Palavra de Deus e ter consciência de que o semeador é Cristo, que sai a semear a sua semente. Já nós, quando saímos a semear, devemos semear, não a nossa semente, mas a de Cristo, que devemos assumir como nossa.

“A semente caiu em boa terra e deu muito fruto.”

Visitastes a terra e a regastes, / enchendo-a de fertilidade. / As fontes do céu transbordam em água / e fazeis brotar o trigo.

“Assim preparais a terra; / regais os seus sulcos e aplanais as leivas, / Vós a inundais de chuva /
e abençoais as sementes.

“Coroastes o ano com os vossos benefícios, / por onde passastes brotou a abundância. / Vicejam as pastagens do deserto / e os outeiros vestem-se de festa.

“Os prados cobrem-se de rebanhos / e os vales enchem-se de trigo. / Tudo canta e grita de alegria.”

“Aleluia. Aleluia.” “A semente é a palavra de Deus e o semeador é Cristo. / Quem O encontra viverá eternamente.”

2026.07.12 – Louro de Carvalho

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