segunda-feira, 13 de julho de 2026

A polémica da contaminação da Base Aérea das Lajes, nos Açores

 

Um estudo realizado na Universidade de Coimbra (UC), por um doutorando em Antropologia Forense, revela que um conjunto de esqueletos de habitantes do concelho da Praia da Vitória, na ilha Terceira, nos Açores – onde se situa a Base Aérea n.º 4 –, apresenta concentrações de chumbo e de outros metais pesados muito superiores às dos esqueletos de Angra do Heroísmo, a 23 quilómetros das zonas contaminadas pelos derrames de combustíveis realizados ao longo de décadas pelos militares norte-americanos.

Disto nos dá conta o jornalista do Expresso Vítor Matos em, pelo menos, seis artigos, dos quais se retiram os dados mais pertinentes, complementados com informações da Lusa, do Diário de Notícias e do Observador.

Segundo a tese de Félix Rodrigues, de 32 anos, natural da Terceira, os metais mais relevantes são o cádmio, o crómio e o molibdénio, como “provável resultado de exposição ambien­tal, durante a vida”, pois “são contaminantes conhecidos nos solos e aquíferos da zona”, como escreve o grupo de cientistas ligados ao projeto – financiado pelo governo regional – em artigo publicado na revista científica Springer Nature, em março de 2025. Já o chumbo só foi detetado, em volume relevante, quando a amostra de esqueletos cresceu de 64 para 97.

O problema é se houver relação comprovada de causa/efeito entre a contaminação dos solos e as doenças oncológicas, o que levará centenas de pessoas a pedir indemnizações ao Estado americano ou ao português. Porém, como não há certezas, os investigadores propõem um estudo epidemiológico sobre a prevalência de doenças oncológicas junto à Base Aérea.

Os casos de cancro surgidos na zona foram objeto de estudo, mas alguém alegava que a causa não estava no tabaco que se fumava, mas em causas ambientais. E estudo foi cancelado, porque, segundo um dos investigadores nele envolvidos, “a universidade não quis que se concluísse o estudo, porque tinha uma parceria com uma universidade no Massachusetts e estávamos a pôr em causa os americanos”. Contudo, apesar de várias fontes apontarem para uma espécie de “silenciamento”, o governo regional está a financiar o projeto de investigação de Félix Rodrigues, que encontrou chumbo nos esqueletos.

Outro problema é a saúde dos funcionários da Base das Lajes. Vários trabalhadores atuais e reformados referiram a falta de um programa preventivo de saúde, por parte do empregador, a Força Aérea norte-americana. Os trabalhadores são apenas submetidos a um audiograma anual e só algumas categorias, como os bombeiros, fazem radiografias e análises anuais, por estarem mais expostos a elementos tóxicos.

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No entanto, entre 2020 e 2022, os Estados Unidos da América (EUA) não fizeram trabalhos para remediar os danos ambientais na zona da Base das Lajes, por entenderem que a contaminação de solos e aquíferos – identificada, desde 2003, por estudos dos norte-americanos – não é prejudicial à saúde de quem ali vive e trabalha. E os responsáveis pela Força Aérea dos Estados Unidos na Europa (USAFE) ameaçaram parar os trabalhos de mitigação dos contaminantes nas zonas poluídas, onde a investigação de doutoramento detetou metais pesados e chumbo (potencialmente cancerígenos) em esqueletos de habitantes. Tal intenção dos EUA, que mantêm um destacamento militar de cerca de 170 efetivos na Base Aérea nº 4, após a grande redução de há 10 anos, foi comunicada em reunião por videoconferência, a 11 de setembro de 2025.

A informação consta no relatório de 2025, conhecido em abril deste ano, do Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC), de “Análise e Acompanhamento dos Trabalhos de Reabilitação Ambiental” no concelho da Praia da Vitória, classificado como “reservado”. Por sua vez, os peritos do LNEC participantes na reunião referiram “esperar que, face à revisão dos resultados, essa decisão fosse reapreciada”.

Nos últimos anos, as relações com os EUA, neste âmbito, foram difíceis. Em 2021, um documento da Entidade Reguladora dos Serviços de Águas e Resíduos dos Açores (ERSARA), comunicava ao governo regional que os EUA ocultavam informação sobre as obras ambientais. Um dos casos relatados versava um furo não declarado pela Força Aérea norte-americana, em 2019, realizado junto à pista, apesar de análises realizadas pela USAFE (não comunicadas) apresentarem “valores de hidrocarbonetos em concentrações elevadas”. Mais tarde, um estudo do Ministério da Defesa verificava que os valores tinham baixado, mas o LNEC não afastava riscos de contaminação. Além disso, as autoridades portuguesas queixavam-se de os representantes norte-americanos na Comissão Técnica bilateral (CTB) alegarem a “inexistência de obrigações legais, por parte dos EUA, na descontaminação de locais situados fora dos limites das instalações militares”, apesar de a poluição ser devida às suas atividades.

Para o governo regional, como “a análise de risco” norte-americana deixa “de fora o risco potencialmente existente fora das áreas militares”, a posição dos EUA “não” abrange “os interesses de proteção da saúde pública da ilha Terceira como um todo”.

A ERSARA concluiu que “a simples presença de hidrocarbonetos na água não é desejável”. Coincidentemente, há obras a decorrer no valor de 5,3 milhões de euros, para mudar a captação de água, em alguns locais no concelho. Com efeito, nos 10 anos anteriores, tinham sido identificados “36 casos de amostras com concentrações de hidrocarbonetos acima do limite”, apesar de o LNEC sustentar que a água da rede pública apresenta “parâmetros em conformidade com as normas”.

O ministro da Defesa, Nuno Melo, desvalorizou a tese de doutoramento que detetou metais potencialmente cancerígenos nos esqueletos, mas Artur Lima, líder do partido do Centro Democrático Social dos Açores (CDS Açores) e vice-presidente do governo regional, diz “manter a linha” e financiará “mais doutoramentos” sobre o tema. Nuno Melo disse aos deputados que o “foco são entidades públicas certificadas”, com “respeito por teses legítimas”, mas que não pode “validar cientificamente”, e que são “ótimas” para “consumo da comunicação social”. E desconsiderou a UC, ao dizer que “essa certificação não aconteceu ao nível das entidades públicas” – o LNEC e a ERSARA, que têm relatórios críticos dos EUA a apontar riscos para a saúde nos locais contaminados.

Contudo, Nuno Melo, defende o empenho do governo na monitorização da contaminação de solos e aquíferos na Base das Lajes e apelou aos EUA para assumirem as suas responsabilidades.

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Apesar de, pelo menos, desde 2003, os terrenos estarem identificados como contaminados por hidrocarbonetos, clorofórmio e combustíveis, nenhuma autoridade mandou interditá-los ao pastoreio. Dois biólogos – Cristina Branquinho, professora catedrática da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, e Miguel Pardal, professor e biólogo marinho da Universidade de Coimbra –, face aos dados do relatório do LNEC, alertam que não pode haver gado nessas pastagens e que é urge fazer análises, para ver se há contaminação de pastos e de carne.

“Nessas zonas não se deve dar nenhum uso que possa contaminar a cadeia humana”, diz Cristina Branquinho. “Neste tipo de solos, não pode lá estar nada, por princípio de precaução”, pelo risco de os contaminantes entrarem na cadeia alimentar. “Nenhuma carne alimentada em zonas com hidrocarbonetos pode ser consumida, mesmo sem haver grandes concentrações”, sustenta Miguel Pardal, que orientou teses sobre a entrada na cadeia alimentar de peixes contaminados. “Se os solos estão contaminados, não podem ter usos para nenhum derivado usado para alimentação humana, nem o leite”, considera, vincando: “Depois, logo se trata dos solos, mas as vacas têm de sair de lá.”

Cristina Branquinho diz que, “se a água está contaminada”, é de “bom senso” fazer, “urgentemente, análises ao solo, com elevada resolução espacial, para se mapear, exatamente, os limites dessa contaminação”, visto que “os hidrocarbonetos são bioacumulados nos tecidos gordos” e “alguns são associados a leucemias”, como o benzeno. Por isso, “se fosse investigar, ia analisar estes compostos no leite”. E Miguel Pardal reforça que se devem “analisar as plantas que as vacas comem, os músculos das vacas, e o leite”, pois, “se a ciência diz que um local está contaminado e é perigoso para vida, qualquer organismo que vive numa zona contaminada tem grande probabilidade de estar contaminado”.

Na Porta de Armas da Base Aérea n.º 4, classificada como “site 3001”, em junho de 2025 “detetaram-se concentrações de Hidrocarbonetos Totais do Petróleo (HTP) acima do limiar, na maioria dos piezómetros [aparelho de medição], embora, em setembro, os valores tenham baixado”. Segundo o LNEC, “foram encontrados vestígios de clorofórmio e de vários Hidrocarbonetos Aromáticos Policíclicos (HAP) acima dos limites nacionais, mas abaixo das normas internacionais (Canadá/Holanda)”. Apesar de classificado como “reservado”, o relatório foi distribuído a 29 de junho aos grupos parlamentares da Assembleia Regional dos Açores e disponibilizado, publicamente, no site da Câmara Municipal da Praia da Vitória.

A quase dois quilómetros, fica a South Tank Farm, os enormes depósitos de combustível, onde houve, em 1982, grandes derrames, e em que lamas de combustível com chumbo foram usadas para compactar os solos. E havia gado nos terrenos adjacentes aos tanques.

Todavia, junto à zona Porta de Armas da Base Aérea nº 4, dispersam-se dezenas de enormes rolos pretos com erva para alimentar o gado e é comum encontrar vacas nas pastagens de fronteira com a pista. a forragem e o gado pertencem à Força Aérea Portuguesa (FAP), que conhece bem os locais contaminados e que possui, anualmente, entre 80 e 120 vacas (10% das quais usadas para consumo nas messes e o resto para venda no mercado).

Parte da alimentação do gado é a forragem que a FAP corta junto à pista – onde se veem 15 aviões reabastecedores KC-46 dos EUA, que participaram na guerra do Irão – contaminada pelos metais pesados dos combustíveis das aeronaves. Além disso, a erva que cresce junto à pista continua a ser “regada” por hidrocarbonetos, porque os resíduos causados pela água da chuva que entra nos pits de abastecimento das aeronaves são despejados no solo. Porém, a FAP garante o cumprimento das medidas de segurança alimentar: “A presença destes animais é regulada por entidades competentes, internas e externas, que asseguram a saúde e a qualidade de vida dos mesmos”, respondeu ao Expresso o gabinete de relações públicas do Estado-Maior da FAP.

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Quem não está com meias tintas é o governo dos Açores que vai contratar uma empresa estrangeira, para fazer cessar o monopólio do LNEC nos estudos sobre a contaminação em redor da Base das Lajes, e determinou a constituição de uma Comissão Técnica Independente (CTI), para analisar a contaminação dos solos na ilha Terceira, provocado pela atividade militar norte-americana, na Base Aérea, em décadas, devendo apresentar relatórios semestrais. Trata-se de uma deliberação dos partidos com assento na Assembleia Legislativa Regional dos Açores, exceto o partido do Chega.

Entretanto, foram adiadas as duas reuniões da CTB que junta representantes de Portugal e dos EUA, que também tem a missão de acompanhar os trabalhos de descontaminação e de discutir as conclusões dos relatórios do LNEC sobre poluição de solos e aquíferos. Foi numa destas reuniões, em setembro de 2025, que os peritos da USAFE informaram o LNEC de que os norte-americanos não continuariam os trabalhos de remediação ambiental, por entenderem que a contaminação verificada não afeta a saúde humana.

O ministro da Defesa chegou a dizer que os EUA tinham de “assumir as suas responsabilidades”, mas a decisão da USAFE parece que vai em frente.

A CTI, criada por iniciativa do Bloco de Esquerda (BE) – e que funcionará a partir de janeiro de 2027, para dar resposta ao passivo ambiental e sanitário na Terceira –, fará recomendações, mas, segundo a lei, Portugal é responsável por despoluir o que os EUA contaminaram.

Há a perceção, entre a população e os profissionais de saúde, da elevada incidência de cancros em zonas mais expostas do concelho da Praia da Vitória, bem como a desconfiança de que há muitos casos de crianças com autismo, mas nada está esclarecido, cientificamente, apesar de haver um estudo sobre o cancro, há seis anos, na secretária Regional da Saúde.

Outro aspeto a considerar, segundo Artur Lima, é a Lei de Finanças Regionais cuja revisão está a ser negociada entre Ponta Delgada e Lisboa. Segundo a nossa lei, a responsabilidade da descontaminação ou da mitigação ambiental não é obrigação da entidade poluente – no caso, os EUA – mas do Estado português. Os EUA só fazem as obras ambientais, como as que realizaram entre 2022 e 2025, se quiserem. A Lei de Finanças Regionais protege os EUA e atribui todas as responsabilidades a Portugal, ao estabelecer: “A solidariedade nacional traduz-se ainda na obrigação de o Estado repor a situação anterior à prática de danos ambientais, por ele ou por outros Estados, causados nas regiões autónomas, decorrentes do exercício de atividades, nomeadamente, em virtude de acordos ou tratados internacionais, ou de disponibilizar os meios financeiros necessários à reparação desses danos.”

Esta norma consta do n.º do artigo 8.º da Lei Orgânica n.º 2/2013, de 2 de setembro, quando Paulo Portas era ministro dos Negócios Estrangeiros de Passos Coelho e a administração norte-americana de Barack Obama ameaçava reduzir, fortemente, o contingente na Lajes, o que acabou por acontecer. Ricos governantes que nós tivemos e grande presidente dos EUA!

A Direção Regional da Agricultura, Veterinária e Alimentação (DRAVA) dos Açores também vai avançar com ações imediatas, nos próximos 30 dias, para obter de cartografia atualizada das plumas de combustíveis que contaminam os solos e aquíferos nas imediações da Base das Lajes, e cruzar esses dados com a localização das explorações, captação de águas e pastagens usadas nas explorações pecuárias. E António Ventura, secretário Regional que tutela a área, anunciou que iam ser tomadas medidas, entre as quais, segundo o Diário Insular, a criação de níveis de ação preventiva para solos e pastagens, a fim de se gizarem medidas cautelares, antes de se confirmarem incumprimentos legais nos alimentos para o consumo humano. O objetivo é garantir que a gestão do risco ambiental na envolvente da Base Aérea se baseie em evidência científica, para salvaguardar a saúde pública e a rastreabilidade dos produtos de origem animal.

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Por fim, é de referir que o Chega recomenda ao governo da República que acompanhe, institucionalmente, o estudo da UC sobre a zona envolvente da Base das Lajes, que aponta níveis elevados de metais pesados em amostras humanas, e o futuro estudo epidemiológico. E o Partido Comunista Português (PCP) questiona o governo de Lisboa sobre a mesma matéria.

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A sujeição do governo aos interesses dos EUA não é só de hoje, como o controlo da investigação não surge apenas da parte dos decisores políticos, também a ciência é condicionada por acordos entre universidades. Como se pode dispensar da tarefa da descontaminação a entidade poluente? Como pode a FAP incumprir os requisitos de salubridade ambiental e pública?

2026.07.13 – Louro de Carvalho

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