terça-feira, 14 de julho de 2026

“Só vem de Deus, aquilo que nos une, nunca aquilo que nos divide”

 

Celebrou-se, a 12 e 13 de julho, a terceira peregrinação internacional aniversária ao Santuário de Nossa Senhora do Rosário de Fátima (abreviadamente, Santuário de Fátima), sob a presidência do bispo de Portalegre-Castelo Branco, D. Pedro Alexandre Simões Gouveia Fernandes. Para esta peregrinação, inscreveram-se, nos serviços do Santuário de Fátima, 83 grupos de peregrinos, provenientes de 18 países. Além de Portugal, os países com mais peregrinos inscritos foram a Espanha e a Polónia.

Entretanto, como o dia 12 foi domingo, já na missa principal havia muitos peregrinos, que foram desafiados a deixar que a Palavra atinja e determine todos os aspetos e dimensões da vida. 

Para esta missa, inscreveram-se, nos serviços do Santuário de Fátima, 12 grupos de peregrinos, a maioria de origem portuguesa, mas também de países estrangeiros, nomeadamente, da Espanha, dos Estados Unidos da América (EUA), dos Camarões e da Costa do Marfim.

O reitor do Santuário de Fátima, padre Carlos Cabecinhas, que presidiu, no Recinto de Oração, à missa dominical, cujo tema fulcral era a semeadura da Palavra de Deus, desafiou os peregrinos a deixarem-se transformar pela Palavra divina, acolhendo-a por forma que ela determine todas as opções, atitudes e dimensões da vida. “Deixemo-nos transformar pela Palavra de Deus. Deixemos que ela atinja e determine todos os aspetos e dimensões da vida de cada um de nós”, exortou o presidente da celebração.

Carlos Cabecinhas iniciou a homilia com um diagnóstico das palavras que são ruídos do Mundo atual, alertando para o perigo de não permitirem distinguir o essencial do supérfluo. “Nós vivemos num Mundo cheio de palavras, de tal modo que muitas delas se tornam, para nós, apenas música de fundo, ruído a que se não presta atenção. Quantas vezes não se corre o risco de que a Palavra de Deus proclamada pertença a este grupo de ruído?”, lembrou o reitor, desafiando cada peregrino a interrogar-se se, ao fim da missa, saberia responder do que falavam as leituras.

A partir dos textos proclamados, em que o profeta Isaías vinca a eficácia e a ação transformadora da Palavra de Deus, Carlos Cabecinhas advertiu que, se a nossa vida não muda, a falha não é da Palavra, mas da nossa “desatenção” ou da “falta de disponibilidade interior” para a acolher. Neste sentido, elencou alguns obstáculos que impedem a Palavra de dar fruto: as preocupações do dia a dia, a inconstância do coração, o medo das incompreensões alheias e o erro de “não darmos a Deus o lugar que só a Deus é devido”, na nossa vida.

E, a concluir, apresentou Nossa Senhora como modelo de escuta e vivência da Palavra, descrevendo a Mãe de Deus como o “exemplo perfeito” de quem guarda a Palavra no coração e a leva à vida prática. “Foi com ela que os santos Pastorinhos de Fátima, Francisco e Jacinta, aprenderam a ser terreno fértil, onde a Palavra de Deus deu fruto abundante”, frisou o padre Carlos Cabecinhas, instando os peregrinos a entrarem nesta “Escola de Maria”, para aprenderem a arte da escuta da Palavra de Deus.

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O bispo de Portalegre-Castelo Branco deixou clara, na noite do dia 12, a que é, no seu entender, a missão urgente dos cristãos, no momento atual: “valorizar e propor valores mais altos e plenos, que ultrapassem o círculo estreito e mortífero da busca do simples poder, do simples ter e do simples prazer”.

Na Celebração da Palavra, o prelado alacrense e albicastrense lembrou os peregrinos que, no Mundo contemporâneo, tão marcado por projetos egoístas e parciais, “só Cristo pode trazer plenitude e consistência à vida”.

Dirigindo-se aos cerca de 10 mil peregrinos presentes no Recinto de Oração e aos que acompanharam a transmissão pelos canais televisivos e digitais, o presidente da peregrinação propôs que a vontade de Deus fosse o critério fundamental para orientar as relações humanas e os projetos de vida. Neste sentido, a partir da leitura do Evangelho de São Mateus, salientou que Cristo propõe um critério para a construção de relações que ultrapassa os laços de parentesco: “Quem faz a vontade de Deus” pertence verdadeiramente à sua família, ou seja, as relações humanas são “mais positivas e autênticas”, quando deixam de estar centradas nos próprios interesses e se tornam “integradoras da diferença, tolerantes e fraternas”, clarificou.

Na reflexão que partilhou com os peregrinos, o presidente da celebração apresentou Maria como modelo de quem “procura ver Jesus”, “sempre aberta a Deus, sempre disponível para se deixar iluminar por Ele e, desse modo, se tornar luminosa para os outros”. “A grandeza de Maria reside na pureza da sua relação com Deus, na sua disponibilidade à ação do Espírito Santo e na sua determinação em conduzir todos a Cristo”, Observou.

Neste contexto, D. Pedro Fernandes convidou cada peregrino a interrogar-se sobre as motivações que o trouxeram ao Santuário de Fátima, naquela noite, e sobre o projeto de vida que deseja construir. “Que me trouxe a Fátima, nesta peregrinação do aniversário de uma das aparições? A que projeto de vida me convida Maria?”, perguntou, enquanto incentivava os fiéis a descobrirem o desejo mais profundo inscrito por Deus na alma de cada um.

Por fim, lembrou que “só Cristo pode trazer plenitude e consistência à vida” e pediu a intercessão de Maria para que os fiéis permaneçam abertos à ação do Espírito Santo, deixando-se guiar por Deus na construção de uma sociedade mais fraterna e orientada para o bem comum.

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Na missa da peregrinação internacional aniversária – em que participaram, pelo menos, sete mil peregrinos e concelebraram, além de D. José Ornelas, bispo de Leiria-Fátima, o cardeal D. António Marto, bispo emérito de Leiria-Fátima, D. Augusto César, bispo emérito de Portalegre-Castelo Branco, 89 presbíteros e oito diáconos –, D. Pedro Fernandes convidou os peregrinos a serem construtores da justiça e da paz.

Na homilia proferida no Recinto de Oração, o bispo de Portalegre-Castelo Branco, recorreu à antítese metafórica bíblica luz-trevas, para refletir sobre os desafios da sociedade contemporânea, desde as guerras e dos discursos de ódio até às divisões que ameaçam a comunhão na Igreja. “Atravessamos, hoje, uma época de insegurança e desorientação”, referiu. “Povos invadindo povos, pessoas violentando pessoas, discursos de ódio e divisão que proliferam e tentam impor-se à comunidade humana”, sublinhou.

A partir do relato da Anunciação, D. Pedro Fernandes apresentou Maria como exemplo de humildade e de disponibilidade à ação de Deus. “A atitude de Maria não é de heroicidade conquistadora, é, antes, de disponibilidade humilde, de quem se coloca à escuta do que Deus quer, reconhecendo n’Aquele que é a fonte de toda a vida a única autoridade capaz de transformar as nossas trevas em luz e a nossa violência em mansidão”, afirmou.

Neste contexto, evocou a recente encíclica Magnifica Humanitas, do Papa Leão XIV, para alertar para a ambiguidade dos avanços tecnológicos. “Se os recursos da tecnologia e da inteligência artificial [IA] nos podem abrir as portas para um quase imediato acesso à informação e um fácil recurso a soluções complexas, podem também introduzir-nos num perigoso jogo em que verdade e falsidade se confundem”, lembrou.

Para D. Pedro Fernandes, tal confusão favorece discursos manipuladores e estratégias populistas que exploram o medo e a insegurança, dividindo pessoas e povos. “À tenebrosa estratégia populista do ‘dividir para reinar’ opõe-se a luminosa proposta da Palavra de Deus, que nos fala de ‘uma Paz sem fim’, alcançada pelo ‘direito e pela justiça’ e não pela força e pela arrogância”, discorreu, evocando os conflitos que destroem o Médio Oriente, a Ucrânia e outras regiões do Mundo, com as raízes da guerra e da violência a manifestarem-se, de modo subtil, nos corações e na forma como as pessoas criam relações pessoais, sociais, políticas e económicas.

No âmbito eclesial, o antístite do Sever e do Pônsul alertou para o perigo das atitudes sectárias e da arrogância espiritual. Ao relembrar o recente caso de uma comunidade que se pôs em situação de excomunhão, sustentou que a pretensão de um grupo se considerar mais próximo de Deus “gera divisão que não pode vir de Deus”. Assim, o bispo, instando os fiéis a regressarem à humildade de Maria e a prepararem o Reino de Cristo através de opções concretas de paz, reconciliação e perdão, deixou claro que “só vem de Deus, aquilo que nos une, nunca aquilo que nos divide”, e que a unidade da Igreja e a construção de uma sociedade baseada nos valores do Evangelho são da responsabilidade de todos os cristãos.

Por fim, implorou a intercessão de Maria, para que os peregrinos renovem a determinação de combater todas as formas de violência, de preconceito e de exclusão, através da oração, do discernimento, da solidariedade e do compromisso na construção da justiça e da paz.

Na palavra aos doentes, André Pereira, diretor do Departamento de Acolhimento e Pastoral do Santuário de Fátima, afirmou que a eucaristia congrega os fiéis como membros de um só corpo, transformando cada pessoa em sofrimento num “sacrário vivo” da presença de Jesus. “Na tua fragilidade, és constituído sua testemunha privilegiada e sacramento do seu amor: Jesus dá-te – e, em ti, a todos nós – a mais eficaz das curas, a única que verdadeiramente restabelece as forças, mesmo que o corpo permaneça fraco: a da oferta de tudo por amor, o amor que salva”, vincou.

Na saudação final, o bispo da Diocese de Leiria-Fátima, apelou à solidariedade global, evocando as populações em sofrimento, com destaque para a Venezuela, devastada por um sismo recente, e para as vítimas das ondas de calor na Europa e das guerras que espalham terror e morte (esqueceu o grande incêndio de Vouzela). E, a terminar, exortou os peregrinos a não deixarem que os “ventos de guerra” apaguem a chama da esperança e da paz, devendo cada peregrino regressar a casa como um “mensageiro e agente” de justiça, fraternidade e solidariedade no Mundo.

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Para facilitar o acesso ao Santuário de Fátima, foram estabelecidos os Caminhos de Fátima, isto é, uma rede de itinerários religiosos e culturais que partem de diversos locais e terminam no Santuário de Fátima.  

São eles: Caminho do Norte ao Centro – 364 Km (quilómetros): Valença-Fátima; Caminho da Nazaré (54 Km): Nazaré-Fátima; Caminho do Tejo (150 Km); Lisboa-Fátima; Rota Carmelita (111 Km): Coimbra-Fátima; Caminho do Médio Tejo: Rota de Tomar (31 Km), Rota da Sertã (98 Km) e Rota de Abrantes (91 Km); Caminho dos Candeeiros (63 Km): Rio Maior- Fátima; e Caminho do Centenário (212 Km): Vila Nova de Gaia-Fátima.

Desenvolvidos pelo Centro Nacional de Cultura CNC, desde 1996, em parceria com múltiplas instituições e em articulação com o Santuário de Fátima, criam condições seguras e aprazíveis, sobretudo, para peregrinos e caminhantes que se dirigem, a pé, ao Santuário de Fátima, evitando as estradas de grande circulação automóvel, em favor de caminhos de terra e de pequenas estradas rurais. Proporcionam verdadeira espiritualidade, em ligação com a Natureza e com as vivências religiosas e culturais. São itinerários que percorrem territórios variados, com grande interesse cultural e paisagístico e articulam-se com outros itinerários de âmbito nacional e internacional. 

Para facilitar a utilização destes itinerários, foram editados os Roteiros dos Caminhos de Fátima, que disponibilizam, de forma sistemática, informação completa sobre estes percursos, destacando a paisagem, o património, a cultura e as ambiências locais. 

Apresentam cartografia associada a cada um dos Caminhos, bem como conteúdos descritivos sobre os respetivos itinerários. No final de cada Roteiro, há um conjunto de informações sobre o Santuário de Fátima, com a descrição dos lugares mais emblemáticos, desde as Basílicas à Capelinha, evidenciando a História e a simbologia de cada um destes espaços. 

Estão disponíveis para consulta e download, nas plataformas caminhosdefatima.org e pathsoffaith.com, incluindo a cartografias no formato GPX e KML.

Estes itinerários de peregrinação são identificados pela marca “Caminhos de Fátima”, que incorpora elementos simbólicos: uma azinheira, local de aparição da virgem aos pastorinhos, árvore caraterística da paisagem onde se enquadra Fátima e espécie botânica protegida em Portugal (quercus ilex); e a cor azul, símbolo do azul celeste e da ambiência atmosférica que se experiencia, diretamente, no Santuário e no espaço envolvente.

A marca é propriedade do CNC e a sua utilização exige autorização.

O CNC é uma Associação Cultural de utilidade pública. Criado, a 13 de maio de 1945, por um grupo de monárquicos e católicos de oposição ao regime, foi concebido como um “clube de intelectuais” para debate de ideias. Registou os seus estatutos em 1952. 

Sempre com o objetivo da “defesa de uma cultura livre”, nos anos 60, sob a liderança de Sophia de Mello Breyner Andresen, Francisco Sousa Tavares, Gonçalo Ribeiro Telles, João Bénard da Costa e António Alçada Baptista, afirmou-se como um fórum democrático participado por intelectuais e criadores culturais.

Depois do 25 de Abril de 1974, sob o impulso da equipa liderada por Helena Vaz da Silva, iniciou uma nova fase, centrada na internacionalização e na valorização da cultura e do património, com atividades muito variadas e dirigidas a um público diversificado: “Passeios de Domingo”, ciclos de viagens culturais , cursos de formação e de divulgação, encontros internacionais, seminários, exposições, edições, concursos literários e artísticos, prémios e bolsas, atividades infantis, prestação de serviços culturais a escolas, a empresas e a grupos estrangeiros de visita a Portugal.

No século XXI, reforça a sua matriz identitária, valorizando a memória histórica, promovendo a criação contemporânea e fortalecendo o debate no plano da cultura e da cidadania ativa. Tem como grandes linhas de ação a defesa, divulgação e valorização do património cultural, com base numa noção integrada de território, de comunidade, de ambiente, de património e de turismo. No quotidiano, a sua ação pode resumir-se como uma política de “pôr em contacto”, de “articular”, de “fazer acontecer”. 

A partir do bairro do Chiado em Lisboa, onde tem as suas instalações, incluindo uma biblioteca e um café literário (Café no Chiado), desenvolve atividades e projetos. O CNC é membro de redes internacionais e assegura a representação oficial da Europa Nostra em Portugal. É a entidade titular do projeto Caminhos de Fátima e proprietária da respetiva marca.

2026.07.13 – Louro de Carvalho


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