sábado, 18 de julho de 2026

Os países ibéricos têm uma espécie própria de coelho

 

Uma equipa do Instituto de Estudos Sociais Avançados (IESA-CSIC) e de várias universidades espanholas, portuguesas e britânicas concluiu que o coelho-europeu reúne duas espécies distintas, separadas há dois milhões de anos, uma delas em declínio e própria de Portugal e de Espanha. Todavia, segundo os cientistas, reconhecer esta diversidade “não significa descobrir um animal novo e desconhecido, mas classificar, corretamente, uma linhagem já identificada, concedendo-lhe o estatuto apropriado, para travar a sua extinção por substituição”.

A este respeito, o jornalista Jesús Maturana, em artigo publicado, a 18 de julho, pela Euronews, intitulado “Cientistas concluem: Portugal e Espanha têm uma espécie própria de coelho”, revela que um estudo publicado na revista Biological Conservation vem pôr em causa a ideia, assumida pela comunidade científica, durante mais de um século, de que, na Península Ibérica, existia só uma espécie de coelho, com, no máximo, duas variantes regionais. Agora, com base na teoria das espécies crípticas, descobriu-se que falar do coelho, na Península Ibérica, é tratar de “duas espécies com histórias evolutivas distintas: duas linhagens, uma única designação”.

Espécies crípticas são duas ou mais espécies distintas que são tão semelhantes na aparência que são classificadas, erroneamente, como uma única espécie. Embora morfologicamente idênticas, apresentam diferenças genéticas, comportamentais, ecológicas ou reprodutivas e pertencem a linhagens evolutivas separadas.

O fenómeno ocorre porque populações da espécie original se separam (geralmente, por barreiras geográficas) e evoluem, de forma independente, ao longo de milhares de anos. Embora acumulem diferenças no ADN (ácido desoxirribonucleico), no canto de acasalamento ou na fisiologia, a aparência física não muda, ou muda tão pouco que passa despercebida a olho nu.

A sua identificação exige o uso de técnicas avançadas de taxonomia, destacando-se o uso de marcadores genéticos e a análise molecular do Código de Barras de ADN. Exemplos conhecidos incluem certos anfíbios, insetos e até mamíferos cujas diferenças são detetadas pela análise acústica ou por estudos de filogenia.

O estudo “When taxonomy lags behind evolution: Consevation implications of cryptic diversity in the Iberian rabbit”, coordenado por Rafael Villafuerte e Miguel Delibes-Mateos, em colaboração com investigadores do grupo TRAMAS, distingue coelho ibérico “Oryctolagus algirus” (O. algirus) de coelho europeu “Oryctolagus cuniculus” (O. cuniculus). O primeiro ocorre, naturalmente, em Portugal e no Oeste de Espanha; o segundo domina o Leste da Península e está na origem das populações introduzidas na Europa, na Oceânia e na América, onde se comporta, muitas vezes, como espécie invasora.

Diz Jesús Maturana que ambos os animais divergiram, há aproximadamente dois milhões de anos, quando ficaram isolados em refúgios distintos, durante os períodos glaciais: um, no vale do Ebro, e outro, no golfo de Cádis, quase não se tendo voltado a cruzar, de forma significativa, apesar de, à primeira vista, serem muito semelhantes.

As diferenças não se limitam ao genoma, pois o O. algirus é mais pequeno, tem pelame mais escuro, orelhas e patas traseiras mais curtas, ninhadas menos numerosas e maturação sexual mais precoce do que o O. Cuniculus. E diferem no microbioma intestinal, na composição da carne e nas comunidades de parasitas que hospedam. Nas palavras de Villafuerte, “as duas espécies sempre estiveram aí, o que mudou foi o nosso conhecimento sobre elas”.

Os próprios autores citam precedentes: “Algo semelhante aconteceu com as girafas, agrupadas numa única espécie, até que a genómica revelou que eram afinal quatro, ou com os elefantes-africanos, hoje divididos em espécie de savana e espécie de floresta.”

Segundo os investigadores, esta descoberta é importante, pois, enquanto o coelho europeu mantém populações estáveis ou em crescimento, em grande parte da sua área de distribuição, chegando a provocar prejuízos agrícolas, em algumas regiões, o coelho ibérico atravessa um declínio acentuado (em mais de 50%) em Portugal e no Sudoeste de Espanha. Ora, gerir ambos como se fossem uma única espécie tem ocultado a gravidade dessa queda.

As repovoações cinegéticas costumam introduzir exemplares de coelho europeu, mais abundante e prolífico, em áreas onde antes só existia o coelho ibérico, o que acelera a sua substituição, pela competição e pela hibridação. E Delibes-Mateos adverte: “Não podemos continuar a gerir como uma só espécie dois coelhos que evoluíram separadamente, durante quase dois milhões de anos.”

A questão vai para lá do próprio animal. O coelho é presa de até 40 espécies de predadores, entre eles, o lince ibérico e a águia imperial, pelo que o seu estado de conservação condiciona o de grande parte da fauna mediterrânica.

Reconhecer, formalmente, as duas espécies permitiria, segundo os investigadores, criar programas de monitorização, planos de recuperação e normas de caça específicas para cada linhagem, em vez de aplicar critérios concebidos para apenas uma delas.

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Observam os investigadores que “a delimitação de espécies baseada na morfologia tradicional subestima, frequentemente, a biodiversidade”, pois “muitas espécies nominais compreendem táxons crípticos distinguíveis, apenas, por evidências genéticas ou por outras evidências não morfológicas”. Ora, “avanços na genética molecular, filogenómica, bioacústica, morfometria geométrica e modelagem de nicho ecológico transformaram a compreensão da biodiversidade e da especiação”, mostrando que “uma divergência evolutiva substancial se pode acumular com pouca diferenciação morfológica evidente”. Por conseguinte, as espécies crípticas são cada vez mais reconhecidas como resultados comuns da diversificação evolutiva em sistemas terrestres, de água doce e marinhos.

O estudo sustenta que “os lagomorfos (coelhos e lebres) oferecem exemplos particularmente esclarecedores de diversificação críptica, visto que “várias linhagens morfologicamente conservadoras passaram por uma divergência evolutiva substancial, durante as oscilações climáticas do Pleistoceno e em períodos de isolamento geográfico”. Estudos moleculares revelaram uma diversidade anteriormente não reconhecida tanto em Lepus (lebre-ibérica) como em Sylvilagus (coelho-de-cauda-de-algodão), sugerindo que a taxonomia tradicional subestimou a distinção evolutiva do grupo.

Os lagomorfos constituem uma ordem de pequenos mamíferos herbívoros, que inclui os coelhos, lebres e ocotonídeos, na qual se incluem duas famílias: Leporidae e Ochotonidae. Os lagomorfos diferenciam-se dos roedores por terem quatro incisivos na mandíbula superior, ao contrário dos roedores que têm apenas dois.

O Oryctolagus cuniculus constitui um exemplo particularmente notável entre os lagomorfos. Na Península Ibérica, a espécie divide-se, atualmente, em duas subespécies: O. algirus e O. cuniculus. A domesticação originou-se, exclusivamente, a partir de O. cuniculus, cujos descendentes assilvestrados foram, depois, introduzidos em diversos continentes e em mais de 800 ilhas, onde, não raro, se comportaram como pragas invasoras. Em contraponto, O. algirus permanece restrito ao Sudoeste da Península Ibérica, com introduções limitadas na Madeira e nos Açores.

Segundo os investigadores, evidências genéticas e biogeográficas acumuladas nas últimas três décadas indicam que essas linhagens divergiram, há aproximadamente dois milhões de anos, e andam, desde então, isoladas, do ponto de vista reprodutivo. Durante os ciclos glaciais do Pleistoceno, persistiram em refúgios distintos, antes de se expandirem para uma estreita zona de contacto que, atualmente, divide a Península a meio. Esse padrão é consistente com o papel da Península Ibérica como um dos principais refúgios europeus do Quaternário, onde o isolamento prolongado promoveu a diversificação em muitos grupos de vertebrados. Por isso, utilizar os coelhos da Península Ibérica como estudo de caso e examinar como o reconhecimento tardio da diversidade crítica pode distorcer avaliações de conservação, desviar ações de manejo e, ambientalmente, acelerar a perda de biodiversidade.

Em conclusão, os investigadores consideram que as espécies crípticas são, frequentemente, identificadas, principalmente, por meio da divergência molecular. Porém, as duas linhagens de coelhos na Península Ibérica diferem não apenas geneticamente, mas também em morfologia, na reprodução, no comportamento, na ecologia e nas trajetórias demográficas. Essas múltiplas e independentes linhas de evidência corroboram, fortemente, o reconhecimento do coelho-ibérico, O. algirus, como espécie distinta do coelho-europeu, O. cuniculus, apesar da semelhança morfológica. Por consequência, propõem o reconhecimento formal de O. algirus para a linhagem ibérica, mantendo O. cuniculus para a linhagem do coelho-europeu distribuída pelo Nordeste da Península Ibérica, pelo Sul da França e em populações introduzidas em todo o Mundo. E sugerem que seja priorizada uma reavaliação taxonómica formal.

Além disso, sustentam que, em contexto mais amplo, “o caso desses coelhos reflete um desafio maior na biologia da conservação”. Com efeito, “avanços na genómica estão revelando uma diversidade oculta substancial em muitos táxons, enquanto as estruturas de conservação baseadas na taxonomia histórica, muitas vezes, não acompanham esse ritmo”. Em resultado disso, podem linhagens crípticas permanecer não reconhecidas, levando as avaliações de conservação a superestimar a viabilidade populacional, a extensão da distribuição geográfica e a resiliência genética. Reconhecer e conservar a diversidade críptica tem implicações importantes, pois a delimitação de espécies fundamenta as avaliações para a Lista Vermelha, para a legislação sobre vida selvagem, para o planeamento de áreas protegidas, para a restauração ecológica e para o financiamento da conservação.

“Portanto, a incerteza taxonómica não deve justificar a inação na conservação”, advertem.

E, considerando que, mesmo quando os limites das espécies estão em debate, o princípio da precaução apoia a proteção de linhagens evolutivas diferenciadas, sempre que múltiplas linhas de evidência indicam divergência a longo prazo, advertem que “enfrentar esse desafio exigirá uma integração mais sólida entre taxonomia, biologia evolutiva e conservação aplicada”. Por conseguinte, “as instituições de conservação precisam de responder melhor às evidências genómicas, adotando estruturas de avaliação dinâmicas, monitoramento específico por linhagem e estratégias de manejo que preservem a integridade genómica e a adaptação local”.

Em última análise, na ótica dos investigadores, “o coelho-ibérico ilustra um risco de conservação mais amplo na era genómica: a biodiversidade pode ser perdida não apenas pela destruição de habitats, superexploração ou mudanças climáticas, mas também por atrasos no reconhecimento e na proteção da própria diversidade evolutiva”. Por isso, “conservar espécies crípticas, antes que desapareçam, será essencial para salvaguardar o património evolutivo e a resiliência ecológica da biodiversidade”.

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Também o WWF Espanha – que integra a rede WWF (World Wide Fund for Nature - Fundo Mundial para a Natureza), a maior organização independente do Mundo dedicada à proteção da Natureza e do meio ambiente – insta as autoridades a considerarem as evidências científicas que justificam o reconhecimento do coelho-ibérico (Oryctolagus algirus) como espécie distinta do coelho-europeu (Oryctolagus cuniculus). Este avanço científico deve traduzir-se em medidas urgentes para melhorar a sua conservação e para evitar o desaparecimento de uma das espécies-chave dos ecossistemas mediterrânicos.

Ambas as populações eram consideradas uma única espécie, diferenciada em duas subespécies. Porém, décadas de pesquisa mostram que se trata de duas linhagens evolutivas independentes. Evidências genéticas, morfológicas, ecológicas e biológicas corroboram o reconhecimento do coelho ibérico como uma espécie distinta.

A análise do genoma mostra que as duas linhagens divergiram, há aproximadamente dois milhões de anos. O grau de diferenciação genética é comparável ao encontrado em outras espécies reconhecidas, como girafas ou elefantes africanos.

Além disso, as duas espécies apresentam diferenças visíveis e funcionais. O coelho ibérico é menor, tem orelhas e patas traseiras mais curtas e pelagem mais escura do que o coelho europeu. Também possui biologia reprodutiva diferente, com ninhadas menores, maturidade sexual precoce e período reprodutivo mais curto. Tais diferenças são acentuadas por variações no microbioma intestinal e pela resistência a doenças, refletindo as suas distintas histórias evolutivas. Contudo, apesar das diferenças, ambas as espécies têm sido geridas, até agora, como um único grupo, situação que mascarou o grave declínio sofrido pelo coelho ibérico.

Enquanto as populações de coelhos europeus no Leste e no Nordeste da Espanha permanecem estáveis ​​ou até aumentam – causando danos significativos à agricultura e infraestrutura –, o coelho ibérico enfrenta uma situação crítica em Portugal no Sudoeste da Espanha. De facto, algumas de suas populações diminuíram em mais de 50%, na última década.

Acredita a WWF Espanha que esta descoberta tem implicações importantes na conservação, pelo que insta as autoridades a adaptarem as práticas de gestão às necessidades específicas de cada espécie, a aumentarem a atenção política e social ao coelho-ibérico e a tomarem medidas urgentes para travar o seu declínio.

Também alerta que a falta de reconhecimento taxonómico incentiva práticas que podem agravar mais a situação. Já o reconhecimento do coelho-ibérico como espécie distinta permite a avaliação adequada do seu estado de conservação, o desenvolvimento de planos específicos de recuperação, a adaptação das normas de caça e a prevenção de ações que comprometam o seu futuro. Tratando-se de espécie fundamental nos ecossistemas mediterrâneos e da principal presa de numerosas espécies ameaçadas, como o lince-ibérico e a águia-imperial-ibérica, a sua conservação é essencial para garantir o equilíbrio ecológico de grande parte da nossa riqueza natural. Por isso, a WWF Espanha pretende que as autoridades a incorporem, rapidamente, os avanços científicos nas políticas de conservação e adaptem os quadros legais e os sistemas de avaliação às evidências científicas. Efetivamente, não se pode permitir que a burocracia taxonómica se torne obstáculo a impedir o desaparecimento de espécie única do património natural ibérico.

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O estudo postula a revisão urgente das decisões relativas à gestão da fauna na Península Ibérica e, em particular, em Portugal, nomeadamente, o ajuste dos períodos e das quotas de caça, pois a dinâmica demográfica mais lenta do coelho ibérico torna-o vulnerável à sobre-exploração. E apela à sensibilização das comunidades de caçadores, dos gestores ambientais e dos decisores políticos para a urgência de planos específicos de recuperação do coelho ibérico.

2026.07.18 – Louro de Carvalho

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