quarta-feira, 15 de julho de 2026

A UE deve produzir energia limpa, armazená-la e recorrer a baterias

 

A Europa está a produzir mais eletricidade renovável do que nunca, mas parte dela não é usada, quando a procura é máxima. E, na União Europeia (UE), há excedentes de eletricidade produzida através de fontes renováveis que são desperdiçados, por não haver capacidade suficiente para os armazenar, até serem necessários. Por isso, as centrais elétricas a combustíveis fósseis continuam a ser necessárias, quando a produção renovável diminui.

Na verdade, a procura de eletricidade está a aumentar, graças ao crescente fabrico de veículos elétricos, de bombas de calor e de centros de dados baseados em inteligência artificial (IA). Por conseguinte, expandir o armazenamento de energia tornou-se mais importante para manter o sistema elétrico fiável e verde. Por isso, os governos da UE viram-se na necessidade de reforçar o armazenamento de energia, para tornar a eletricidade limpa fiável e para, assim, reduzir a dependência de combustíveis fósseis. E, enquanto a UE fixou a necessidade de, até 2030, produzir, pelo menos, 42,5% de energia renovável e de armazenar 200 gigawatts (GW), face aos 55 atuais, 22 estados-membros comprometeram-se a acrescentar 30 a 35 GW de armazenamento, até 2028, contribuindo, assim, para a concretização da meta da União, e acordaram em eliminar barreiras regulamentares e disponibilizar apoio financeiro para acelerar a construção de projetos de armazenamento. Espera-se que os outros estados-membros adiram até ao fim do ano.

O compromisso dos estados-membros inscreve-se no âmbito do acordo tripartido da UE assinado, a 26 de junho, pelos ministros europeus da Energia, visando o aumento da capacidade de armazenamento de energia do bloco e o reforço da segurança energética da Europa.

O acordo, que se insere no Plano de Energia Acessível da Comissão Europeia, junta instituições financeiras, produtores de energia limpa e indústrias intensivas em energia, para garantir procura estável, custos previsíveis, previsões anuais de armazenamento e financiamento. E a Comissão lidera a sua implementação e acompanha, anualmente, os progressos, até 2028.

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A 14 de julho, a Euronews publicou um artigo das jornalistas Leticia Batista e de Elisabeth Heinz, intitulado “União Europeia quer triplicar armazenamento de energia para travar desperdício de renováveis”, a relevar que o acordo “procura responder a um problema que se tornou urgente com a transição verde da Europa: como armazenar os crescentes excedentes de energia provenientes de fontes renováveis intermitentes, como a eólica e a solar”.

Embora a quota de energias renováveis esteja a crescer (23%, em 2020, para 25,2%, em 2024), a capacidade de armazenamento da UE é demasiado limitada para absorver toda essa energia. A Europa desperdiça excedentes de energia renovável gerados em picos sazonais, o que a torna dependente de combustíveis fósseis. E, o acordo aumenta, como observam as jornalistas, a capacidade de armazenamento da UE, permitindo conservar energia excedentária e garantir um abastecimento fiável, durante aumentos súbitos da procura, reduzir a dependência de combustíveis fósseis importados e estabilizar os preços da energia.

Nestes termos, os estados-membros, as instituições financeiras, os produtores de energia limpa e as indústrias consumidoras de energia são os principais intervenientes, responsáveis por garantir previsões anuais de armazenamento, procura de energia estável, custos previsíveis e acesso a financiamento. “Pela primeira vez, a UE definiu uma orientação política clara, transformando o armazenamento de uma tecnologia facilitadora numa prioridade de execução”, afirmou Walburga Hemetsberger, diretora-executiva da SolarPowerEurope.

As energias renováveis, como a solar e a eólica, geram eletricidade de acordo com os padrões meteorológicos, e não em função dos picos da procura humana. Ora, sem armazenamento otimizado, a UE continua dependente de gás fóssil importado para colmatar as falhas, quando o Sol se põe ou não brilha para a Terra e o vento abranda. Apesar de as renováveis fornecerem 44% da eletricidade da UE, o bloco importa cerca de 55% da energia total, incluindo petróleo e gás.

A procura de eletricidade está a aumentar, rapidamente. A Agência Internacional da Energia (AIE) prevê que o consumo de IA e de centros de dados duplique até 2030. Estas instalações já representam cerca de 3% do fornecimento de eletricidade e ultrapassarão 28 GW.

Os centros de dados precisam de fornecimento constante de eletricidade, 24 horas, por dia, e sete dias, por semana. Não podem suspender operações de IA, quando a produção renovável diminui. Sem armazenamento, os operadores têm de recorrer a centrais fósseis para garantir a fiabilidade, comprometendo o objetivo de neutralidade climática da UE. E o armazenamento permite que o excesso de energia solar gerado de dia alimente a infraestrutura digital de noite.

Paralelamente, a Europa está a eletrificar os transportes e o aquecimento, transferindo dois setores intensivos em carbono dos combustíveis fósseis para a rede elétrica. A UE pretende pôr mais de 30 milhões de veículos elétricos na estrada e instalar 50 milhões de bombas de calor, até 2030, o que postula soluções de armazenamento, em grande escala. “Creio que o maior problema será não tratar o armazenamento de energia como infraestrutura essencial”, afirmou Jacopo Tosoni, secretário-geral-adjunto da Energy Storage Europe, frisando que desperdiçamos a eletricidade renovável barata, enquanto a indústria paga preços elevados pela energia.

No início de 2026, a Europa registou períodos recorde de preços negativos da eletricidade, quando a produção solar e eólica excedeu a capacidade da rede. Só no primeiro trimestre, os mercados diários da UE contabilizaram 1223 horas de preços negativos, cerca do dobro dos níveis anteriores, com a Alemanha e a Espanha entre os países mais afetados.

Quando a oferta supera a procura, as redes têm de limitar a produção renovável, desperdiçando eletricidade limpa e reduzindo as receitas dos projetos. O armazenamento responde a este problema, ao absorver o excesso de energia, quando os preços são baixos, e ao devolvê-lo, quando a procura aumenta. “Já vivemos uma espécie de bloqueio da rede. Os preços negativos estão a tornar-se comuns, porque temos um excedente de renováveis e armazenamento insuficiente para utilizar essa energia, mais tarde”, observa Tosoni.

Como referem as jornalistas, o acordo aumenta a capacidade da Europa para armazenar e utilizar mais energia solar e eólica, em caso de aumentos súbitos da procura, e define como objetivo, entre 2026 e 2028, pelo menos, mais 20% (45 GW) de capacidade do que a instalada, anualmente, em 2025 (12 GW). As reservas de armazenamento deverão cobrir cerca de 10% da procura de ponta, face aos cerca de 5%, em 2025. Maior segurança energética ajuda a equilibrar a rede, a manter a sua estabilidade e a reduzir os preços da energia.

Maior capacidade de armazenamento permitirá à Europa depender cada vez mais da energia verde produzida, internamente, e aproximar-se da meta de, pelo menos, 42,5% de produção de energia renovável em 2030. Reduz a dependência de combustíveis fósseis importados, que a UE procura cortar, mas que continuam elevados. Em 2024, o petróleo e os derivados representavam 67% das importações de energia, segundo o Eurostat.

Segundo Hemetsberger, para chegar aos 200 GW, é necessária ambição e o acordo, que é um “passo muito positivo”, requer a implementação. Isto é, a UE tem de ampliar as infraestruturas de armazenamento, aumentando a flexibilidade dos mercados. E, embora seja importante desenvolver todos os tipos de armazenamento de energia, as baterias são o verdadeiro “game changer”. “Podem ser instaladas muito rapidamente, são altamente escaláveis e permitem cortar 55 mil milhões de euros, por ano, nos custos de operação do sistema elétrico, além de reduzirem as importações de gás e os preços da eletricidade”, explicitou Hemetsberger.

Os operadores de sistemas de armazenamento e os promotores de energias renováveis fornecerão estimativas anuais da nova capacidade de armazenamento. As indústrias intensivas em energia desenvolverão projetos de armazenamento nas suas instalações, acompanharão a procura de eletricidade e apresentarão previsões de longo prazo. As instituições financeiras, incluindo bancos nacionais e regionais, financiarão estas iniciativas e atrairão investimento. O Banco Europeu de Investimento (BEI) planeia ampliar o programa de compras de eletricidade por empresas, no valor de 500 milhões de euros, para soluções de armazenamento e para aumento do apoio de 1,5 mil milhões de euros à produção de equipamentos de rede, de forma a abranger novas tecnologias de armazenamento. E a Comissão acompanhará, anualmente, a execução do acordo, acelerará o financiamento de projetos e apoiará a descarbonização das indústrias intensivas em energia, através do BEI, para a descarbonização industrial.

Os países da UE decidem quanta nova capacidade de armazenamento construir, 22 assinaram o acordo e 17 apresentaram compromissos concretos. Como o acordo não é vinculativo, torna-se importante acompanhar de perto e registar os progressos. Os compromissos vão de cinco mil megawatts, na Áustria, 500, em Portugal, 11 mil, na Polónia, e 376, na Eslováquia. A Alemanha, os Países Baixos, a Grécia, a Finlândia e a Dinamarca deverão aderir até ao fim do ano. No conjunto, os países da UE, como dissemos, acrescentarão 30 a 35 GW de capacidade de armazenamento até 2028, elevando a capacidade do bloco para cerca de 65 GW. Este valor continua abaixo da meta da UE, para 2030. Por isso, os estados-membros terão de reforçar os projetos de armazenamento, acelerando os processos de licenciamento, abrindo novas fontes de receita, garantindo o enquadramento regulatório e a ligação rápida à infraestrutura de rede.

Os governos concordaram em facilitar a implantação de soluções de armazenamento, removendo barreiras regulamentares e acelerando a aprovação de projetos. Reverão as regras de tarifação, permitindo às autoridades nacionais definir tarifas de rede não discriminatórias.

Para os países da UE, o incumprimento das metas significa perda de competitividade, incluindo preços de energia mais baixos, num panorama de faturas de eletricidade elevadas e voláteis e de agregados familiares a pagar mais, de necessidade de mais centrais a gás, para cobrir períodos de baixa produção eólica ou solar, e de milhões de proprietários com painéis solares de pouco benefício pela eletricidade produzida, por a rede não absorver toda a energia.  

A energia renovável armazenada pode substituir a produção cara em centrais a gás, durante os períodos de pico da procura; baterias e tecnologias inteligentes permitirão aos consumidores tornarem-se participantes ativos, carregando veículos elétricos ou baterias domésticas, quando a eletricidade é barata, e vendendo de volta à rede, quando os preços sobem.

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Evi Kiorri, em artigo intitulado “Podem as baterias salvar a energia renovável desperdiçada na União Europeia?”, publicado pela Euronews, a 15 de julho sustenta que o acordo de 26 de junho põe as baterias no centro dos planos para aproveitar a energia solar e eólica.

A jornalista observa que, por trás dos números acima indicados, “está um problema que os reguladores já não conseguem ignorar”, isto é, “à medida que a produção solar e eólica dispara, multiplicam‑se as horas em que a eletricidade é barata, tem preço negativo ou é, simplesmente, desligada, porque a rede não a consegue absorver”. E, citando Hemetsberger, alerta que “isto tem um impacto muito negativo na viabilidade económica” das renováveis, pois, sem baterias para estabilizar o sistema, não serão atingidas as metas de renováveis, até 2030, e o armazenamento é “a única forma de baixarmos, estruturalmente, os preços, reforçarmos a resiliência e reduzirmos a dependência dos combustíveis fósseis”.

No dizer da jornalista, prevê‑se que o armazenamento em baterias nos segmentos comercial e industrial quase triplique, de nove gigawatts, por hora (GWh), em 2026, para 24 GWh, em 2028. Os acordos de compra de energia (PPA) com recurso a armazenamento crescerão de 1,5 GW para 4,5 GW, no mesmo período. E a economia começa a acompanhar esta ambição: os custos das baterias caíram cerca de 93%, entre 2010 e 2024. Só em 2024, a Europa instalou 21,9 GWh de novos sistemas de baterias, o 11.º ano consecutivo de recordes.

Para Jacopo Tosoni, as baterias deixaram de ser uma tecnologia de reserva para passarem a fazer parte da própria infraestrutura de rede. “Em 2030, estaremos a instalar cerca de 30 vezes mais do que instalávamos, há apenas cinco anos”, prevê.

Alguns países já começaram a tratar o armazenamento em conformidade. A Alemanha criou a categoria jurídica de “reforços de rede”, classificando as baterias como infraestruturas que melhoram a utilização da rede. E, nos países bálticos, o armazenamento funcionou como “rede de segurança”, durante a sincronização da região com a rede elétrica da Europa continental, após décadas de ligação à Rússia e à Bielorrússia.

Os estudos da Aurora/Amber preveem que o armazenamento substitua até 60% das importações de gás, até 2030, poupando cerca de nove mil milhões de euros em compras desta fonte energética. E o Centro Comum de Investigação estima que melhor implantação do armazenamento e sinais de mercado mais claros reduzam, em mais de 60% os custos de congestionamento da rede associados à integração das renováveis.

Todavia, o acordo reconhece que só reduzirá, parcialmente, as barreiras que travam as baterias. O desenho do mercado continua a ser o maior obstáculo. Em vários estados‑membros, as baterias pagam tarifas e encargos de rede, quando carregam e quando descarregam. Esta dupla contagem leva a que elas sejam tratadas como produtoras e consumidoras. Os mercados raramente remuneram todo o conjunto de serviços destas baterias: capacidade, equilíbrio do sistema e alívio de congestionamentos. E muitos projetos acabam dependentes de receitas voláteis e de muito curto prazo.

O armazenamento é, muitas vezes, integrado nos processos de planeamento centrados na produção convencional. A classificação pouco clara da produção por baterias, da carga ou de outros elementos significa que os projetos enfrentam filas de licenciamento e de ligação como as energias renováveis, sem serem considerados como ativos de flexibilidade. E a política industrial ténue é outra limitação. A UE montou uma arquitetura de apoio, mas o Tribunal de Contas Europeu concluiu que o bloco continua longe da indústria de baterias autossuficiente, apontando um défice comercial crescente e a dependência de células asiáticas.

Hemetsberger diz que o acordo não é suficiente para criar a cadeia de valor completa das baterias e que o futuro Industrial Accelerator Act (iniciativa legislativa para fortalecer a base industrial da UE e criar mercados líderes para tecnologias de baixo carbono) fará a diferença, se a definição de “Made in Europe” for suficientemente restrita para apoiar a produção na UE. Além disso, aponta que a UE tem autossuficiência quase nula em grafite e reduzida em lítio, em cobalto e em níquel. Por isso, terá de investir em projetos mineiros.

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A Europa desindustrializou-se, parou a exploração mineira, ficou dependente de matérias-primas. Entretanto, com infraestruturas velhas, renuncia aos combustíveis fósseis (de qua ainda precisa), quer bastar-se em energia renovável e garantir a sua defesa. A tecnologia não basta. Tem de se mobilizar em bloco e caminhar com segurança. Caso contrário, o milagre não acontecerá!

2026.07.15 – Louro de Carvalho

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