A
Europa está a produzir mais eletricidade renovável do que nunca, mas parte dela
não é usada, quando a procura é máxima. E, na União Europeia (UE), há excedentes
de eletricidade produzida através de fontes renováveis que são desperdiçados,
por não haver capacidade suficiente para os armazenar, até serem necessários. Por
isso, as centrais elétricas a combustíveis fósseis continuam a ser necessárias,
quando a produção renovável diminui.
Na
verdade, a procura de eletricidade está a aumentar, graças ao crescente fabrico
de veículos elétricos, de bombas de calor e de centros de dados baseados em
inteligência artificial (IA). Por conseguinte, expandir o armazenamento de
energia tornou-se mais importante para manter o sistema elétrico fiável e
verde. Por isso, os governos da UE viram-se na necessidade de reforçar o
armazenamento de energia, para tornar a eletricidade limpa fiável e para,
assim, reduzir a dependência de combustíveis fósseis. E, enquanto a UE fixou a
necessidade de, até 2030, produzir, pelo menos, 42,5% de energia renovável e de
armazenar 200 gigawatts (GW), face aos 55 atuais, 22 estados-membros comprometeram-se
a acrescentar 30 a 35 GW de armazenamento, até 2028, contribuindo, assim, para
a concretização da meta da União, e acordaram em eliminar barreiras
regulamentares e disponibilizar apoio financeiro para acelerar a construção de
projetos de armazenamento. Espera-se que os outros estados-membros adiram até
ao fim do ano.
O
compromisso dos estados-membros inscreve-se no âmbito do acordo tripartido da UE
assinado, a 26 de junho, pelos ministros europeus da Energia, visando o aumento
da capacidade de armazenamento de energia do bloco e o reforço da segurança
energética da Europa.
O
acordo, que se insere no Plano de Energia Acessível da Comissão Europeia, junta
instituições financeiras, produtores de energia limpa e indústrias intensivas
em energia, para garantir procura estável, custos previsíveis, previsões anuais
de armazenamento e financiamento. E a Comissão lidera a sua implementação e
acompanha, anualmente, os progressos, até 2028.
***
A
14 de julho, a Euronews publicou um artigo das jornalistas
Leticia Batista e de Elisabeth Heinz, intitulado “União Europeia quer triplicar
armazenamento de energia para travar desperdício de renováveis”, a relevar que
o acordo “procura responder a um problema que se tornou urgente com a transição
verde da Europa: como armazenar os crescentes excedentes de energia
provenientes de fontes renováveis intermitentes, como a eólica e a solar”.
Embora
a quota de energias renováveis esteja a crescer (23%, em 2020, para 25,2%, em
2024), a capacidade de armazenamento da UE é demasiado limitada para absorver
toda essa energia. A Europa desperdiça excedentes de energia renovável gerados
em picos sazonais, o que a torna dependente de combustíveis fósseis. E, o
acordo aumenta, como observam as jornalistas, a capacidade de armazenamento da
UE, permitindo conservar energia excedentária e garantir um abastecimento
fiável, durante aumentos súbitos da procura, reduzir a dependência de
combustíveis fósseis importados e estabilizar os preços da energia.
Nestes
termos, os estados-membros, as instituições financeiras, os produtores de
energia limpa e as indústrias consumidoras de energia são os principais
intervenientes, responsáveis por garantir previsões anuais de armazenamento,
procura de energia estável, custos previsíveis e acesso a financiamento. “Pela
primeira vez, a UE definiu uma orientação política clara, transformando o
armazenamento de uma tecnologia facilitadora numa prioridade de execução”,
afirmou Walburga Hemetsberger, diretora-executiva da SolarPowerEurope.
As
energias renováveis, como a solar e a eólica, geram eletricidade de acordo com
os padrões meteorológicos, e não em função dos picos da procura humana. Ora,
sem armazenamento otimizado, a UE continua dependente de gás fóssil importado
para colmatar as falhas, quando o Sol se põe ou não brilha para a Terra e o
vento abranda. Apesar de as renováveis fornecerem 44% da eletricidade da UE, o
bloco importa cerca de 55% da energia total, incluindo petróleo e gás.
A
procura de eletricidade está a aumentar, rapidamente. A Agência Internacional
da Energia (AIE) prevê que o consumo de IA e de centros de dados duplique até
2030. Estas instalações já representam cerca de 3% do fornecimento de
eletricidade e ultrapassarão 28 GW.
Os
centros de dados precisam de fornecimento constante de eletricidade, 24 horas,
por dia, e sete dias, por semana. Não podem suspender operações de IA, quando a
produção renovável diminui. Sem armazenamento, os operadores têm de recorrer a
centrais fósseis para garantir a fiabilidade, comprometendo o objetivo de
neutralidade climática da UE. E o armazenamento permite que o excesso de
energia solar gerado de dia alimente a infraestrutura digital de noite.
Paralelamente,
a Europa está a eletrificar os transportes e o aquecimento, transferindo dois
setores intensivos em carbono dos combustíveis fósseis para a rede elétrica. A
UE pretende pôr mais de 30 milhões de veículos elétricos na estrada e instalar
50 milhões de bombas de calor, até 2030, o que postula soluções de
armazenamento, em grande escala. “Creio que o maior problema será não tratar o
armazenamento de energia como infraestrutura essencial”, afirmou Jacopo Tosoni,
secretário-geral-adjunto da Energy Storage Europe, frisando que desperdiçamos a
eletricidade renovável barata, enquanto a indústria paga preços elevados pela
energia.
No
início de 2026, a Europa registou períodos recorde de preços negativos da
eletricidade, quando a produção solar e eólica excedeu a capacidade da rede. Só
no primeiro trimestre, os mercados diários da UE contabilizaram 1223 horas de
preços negativos, cerca do dobro dos níveis anteriores, com a Alemanha e a Espanha
entre os países mais afetados.
Quando
a oferta supera a procura, as redes têm de limitar a produção renovável,
desperdiçando eletricidade limpa e reduzindo as receitas dos projetos. O
armazenamento responde a este problema, ao absorver o excesso de energia,
quando os preços são baixos, e ao devolvê-lo, quando a procura aumenta. “Já
vivemos uma espécie de bloqueio da rede. Os preços negativos estão a tornar-se
comuns, porque temos um excedente de renováveis e armazenamento insuficiente
para utilizar essa energia, mais tarde”, observa Tosoni.
Como
referem as jornalistas, o acordo aumenta a capacidade da Europa para armazenar e
utilizar mais energia solar e eólica, em caso de aumentos súbitos da procura, e
define como objetivo, entre 2026 e 2028, pelo menos, mais 20% (45 GW) de
capacidade do que a instalada, anualmente, em 2025 (12 GW). As reservas de
armazenamento deverão cobrir cerca de 10% da procura de ponta, face aos cerca
de 5%, em 2025. Maior segurança energética ajuda a equilibrar a rede, a manter
a sua estabilidade e a reduzir os preços da energia.
Maior
capacidade de armazenamento permitirá à Europa depender cada vez mais da
energia verde produzida, internamente, e aproximar-se da meta de, pelo menos,
42,5% de produção de energia renovável em 2030. Reduz a dependência de
combustíveis fósseis importados, que a UE procura cortar, mas que continuam
elevados. Em 2024, o petróleo e os derivados representavam 67% das importações
de energia, segundo o Eurostat.
Segundo
Hemetsberger, para chegar aos 200 GW, é necessária ambição e o acordo, que é um
“passo muito positivo”, requer a implementação. Isto é, a UE tem de ampliar as infraestruturas
de armazenamento, aumentando a flexibilidade dos mercados. E, embora seja
importante desenvolver todos os tipos de armazenamento de energia, as baterias
são o verdadeiro “game changer”. “Podem ser instaladas muito rapidamente, são
altamente escaláveis e permitem cortar 55 mil milhões de euros, por ano, nos
custos de operação do sistema elétrico, além de reduzirem as importações de gás
e os preços da eletricidade”, explicitou Hemetsberger.
Os
operadores de sistemas de armazenamento e os promotores de energias renováveis fornecerão
estimativas anuais da nova capacidade de armazenamento. As indústrias
intensivas em energia desenvolverão projetos de armazenamento nas suas instalações,
acompanharão a procura de eletricidade e apresentarão previsões de longo prazo.
As instituições financeiras, incluindo bancos nacionais e regionais,
financiarão estas iniciativas e atrairão investimento. O Banco Europeu de
Investimento (BEI) planeia ampliar o programa de compras de eletricidade por
empresas, no valor de 500 milhões de euros, para soluções de armazenamento e para
aumento do apoio de 1,5 mil milhões de euros à produção de equipamentos de
rede, de forma a abranger novas tecnologias de armazenamento. E a Comissão
acompanhará, anualmente, a execução do acordo, acelerará o financiamento de
projetos e apoiará a descarbonização das indústrias intensivas em energia,
através do BEI, para a descarbonização industrial.
Os
países da UE decidem quanta nova capacidade de armazenamento construir, 22
assinaram o acordo e 17 apresentaram compromissos concretos. Como o acordo não
é vinculativo, torna-se importante acompanhar de perto e registar os progressos.
Os compromissos vão de cinco mil megawatts, na Áustria, 500, em Portugal, 11 mil,
na Polónia, e 376, na Eslováquia. A Alemanha, os Países Baixos, a Grécia, a
Finlândia e a Dinamarca deverão aderir até ao fim do ano. No conjunto, os
países da UE, como dissemos, acrescentarão 30 a 35 GW de capacidade de
armazenamento até 2028, elevando a capacidade do bloco para cerca de 65 GW. Este
valor continua abaixo da meta da UE, para 2030. Por isso, os estados-membros terão
de reforçar os projetos de armazenamento, acelerando os processos de
licenciamento, abrindo novas fontes de receita, garantindo o enquadramento
regulatório e a ligação rápida à infraestrutura de rede.
Os
governos concordaram em facilitar a implantação de soluções de armazenamento,
removendo barreiras regulamentares e acelerando a aprovação de projetos. Reverão
as regras de tarifação, permitindo às autoridades nacionais definir tarifas de
rede não discriminatórias.
Para
os países da UE, o incumprimento das metas significa perda de competitividade,
incluindo preços de energia mais baixos, num panorama de faturas de
eletricidade elevadas e voláteis e de agregados familiares a pagar mais, de necessidade
de mais centrais a gás, para cobrir períodos de baixa produção eólica ou solar,
e de milhões de proprietários com painéis solares de pouco benefício pela
eletricidade produzida, por a rede não absorver toda a energia.
A
energia renovável armazenada pode substituir a produção cara em centrais a gás,
durante os períodos de pico da procura; baterias e tecnologias inteligentes permitirão
aos consumidores tornarem-se participantes ativos, carregando veículos
elétricos ou baterias domésticas, quando a eletricidade é barata, e vendendo de
volta à rede, quando os preços sobem.
***
Evi
Kiorri, em artigo intitulado “Podem as baterias salvar a energia renovável
desperdiçada na União Europeia?”, publicado pela Euronews, a 15 de julho
sustenta que o acordo de 26 de junho põe as baterias no centro dos planos para
aproveitar a energia solar e eólica.
A
jornalista observa que, por trás dos números acima indicados, “está um problema
que os reguladores já não conseguem ignorar”, isto é, “à medida que a produção
solar e eólica dispara, multiplicam‑se as horas em que a eletricidade é barata,
tem preço negativo ou é, simplesmente, desligada, porque a rede não a consegue
absorver”. E, citando Hemetsberger, alerta que “isto tem um impacto muito
negativo na viabilidade económica” das renováveis, pois, sem baterias para
estabilizar o sistema, não serão atingidas as metas de renováveis, até 2030, e
o armazenamento é “a única forma de baixarmos, estruturalmente, os preços,
reforçarmos a resiliência e reduzirmos a dependência dos combustíveis fósseis”.
No
dizer da jornalista, prevê‑se que o armazenamento em baterias nos segmentos
comercial e industrial quase triplique, de nove gigawatts, por hora (GWh), em
2026, para 24 GWh, em 2028. Os acordos de compra de energia (PPA) com recurso a
armazenamento crescerão de 1,5 GW para 4,5 GW, no mesmo período. E a economia
começa a acompanhar esta ambição: os custos das baterias caíram cerca de 93%,
entre 2010 e 2024. Só em 2024, a Europa instalou 21,9 GWh de novos sistemas de
baterias, o 11.º ano consecutivo de recordes.
Para
Jacopo Tosoni, as baterias deixaram de ser uma tecnologia de reserva para
passarem a fazer parte da própria infraestrutura de rede. “Em 2030, estaremos a
instalar cerca de 30 vezes mais do que instalávamos, há apenas cinco anos”, prevê.
Alguns
países já começaram a tratar o armazenamento em conformidade. A Alemanha criou a
categoria jurídica de “reforços de rede”, classificando as baterias como
infraestruturas que melhoram a utilização da rede. E, nos países bálticos, o
armazenamento funcionou como “rede de segurança”, durante a sincronização da
região com a rede elétrica da Europa continental, após décadas de ligação à
Rússia e à Bielorrússia.
Os
estudos da Aurora/Amber preveem que o armazenamento substitua até 60% das
importações de gás, até 2030, poupando cerca de nove mil milhões de euros em
compras desta fonte energética. E o Centro Comum de Investigação estima que
melhor implantação do armazenamento e sinais de mercado mais claros reduzam, em
mais de 60% os custos de congestionamento da rede associados à integração das
renováveis.
Todavia,
o acordo reconhece que só reduzirá, parcialmente, as barreiras que travam as
baterias. O desenho do mercado continua a ser o maior obstáculo. Em vários estados‑membros,
as baterias pagam tarifas e encargos de rede, quando carregam e quando
descarregam. Esta dupla contagem leva a que elas sejam tratadas como produtoras
e consumidoras. Os mercados raramente remuneram todo o conjunto de serviços destas
baterias: capacidade, equilíbrio do sistema e alívio de congestionamentos. E muitos
projetos acabam dependentes de receitas voláteis e de muito curto prazo.
O
armazenamento é, muitas vezes, integrado nos processos de planeamento centrados
na produção convencional. A classificação pouco clara da produção por baterias,
da carga ou de outros elementos significa que os projetos enfrentam filas de
licenciamento e de ligação como as energias renováveis, sem serem considerados
como ativos de flexibilidade. E a política industrial ténue é outra limitação.
A UE montou uma arquitetura de apoio, mas o Tribunal de Contas Europeu concluiu
que o bloco continua longe da indústria de baterias autossuficiente, apontando
um défice comercial crescente e a dependência de células asiáticas.
Hemetsberger
diz que o acordo não é suficiente para criar a cadeia de valor completa das
baterias e que o futuro Industrial Accelerator Act (iniciativa legislativa para
fortalecer a base industrial da UE e criar mercados líderes para tecnologias de
baixo carbono) fará a diferença, se a definição de “Made in Europe” for
suficientemente restrita para apoiar a produção na UE. Além disso, aponta que a
UE tem autossuficiência quase nula em grafite e reduzida em lítio, em cobalto e
em níquel. Por isso, terá de investir em projetos mineiros.
***
A
Europa desindustrializou-se, parou a exploração mineira, ficou dependente de
matérias-primas. Entretanto, com infraestruturas velhas, renuncia aos
combustíveis fósseis (de qua ainda precisa), quer bastar-se em energia
renovável e garantir a sua defesa. A tecnologia não basta. Tem de se mobilizar
em bloco e caminhar com segurança. Caso contrário, o milagre não acontecerá!
2026.07.15
– Louro de Carvalho
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