O
capítulo dedicado a Portugal do “Relatório sobre o Espaço Cívico 2026” (“Civic
Space Report), que foi apresentado, a 15 de julho, pela Academia Cidadã,
parceira do Fórum Cívico Europeu (ECF), alerta para a ascensão da
extrema-direita e para a crescente normalização de narrativas xenófobas e
contrárias aos direitos humanos, tornando Portugal mais hostil.
A
16 de julho, a Euronews publicou um artigo intitulado “Relatório alerta
para ascensão da extrema-direita e deterioração do espaço cívico em Portugal”,
em que a jornalista Ana Filipa Palma, começa por esclarecer que o Fórum Cívico
Europeu – um projeto cofinanciado pela União Europeia (UE), que monitoriza a
evolução do espaço cívico e das liberdades fundamentais da sociedade civil, nos
estados-membros – publica, anualmente, o seu “Relatório sobre o Espaço
Cívico”, cuja última edição foi lançada em maio.
A
seguir, observa que, embora o país continue classificado, pelo Monitor CIVICUS,
como país com espaço cívico “aberto”, o relatório identifica a deterioração em
várias áreas, entre as quais sobressaem as reformas atinentes à migração e à nacionalidade,
consideradas mais restritivas; a insegurança no financiamento das organizações
da sociedade civil, que lhes complica a capacidade
de cumprir as missões; a pressão imobiliária sobre espaços associativos e
culturais; o uso desproporcionado da força policial e de sanções durante
manifestações; e o crescimento da influência da extrema-direita, das campanhas
de desinformação e dos crimes de ódio. “A ascensão da
extrema-direita e a normalização de narrativas
xenófobas e contrárias aos direitos humanos contribuem para
o aumento dos crimes de ódio e para um ambiente hostil à defesa
dos direitos humanos”, lê-se no documento.
Também
o Diário de Notícias (DN) publicou um texto da jornalista Armanda
Lima sob o título “Relatório europeu alerta para aumento da xenofobia e da
violência contra imigrantes em Portugal”, frisando que é a primeira edição com
um capítulo sobre Portugal.
O
relatório alerta para a escalada de crimes de ódio e de ações neonazis, em
Portugal, entre 2021 e 2024, coincidente com o crescimento da extrema-direita,
que se reflete na ascensão do partido Chega, que passou de um deputado, em
2019, para 12 deputados, em 2022, para 50, em 2024, e para 60, em 2025,
tornando-se a terceira força política no na Assembleia da República (AR). “A
sua ascensão eleitoral foi acompanhada por uma retórica centrada na migração
descontrolada, bem como por discursos xenófobos, racistas e homofóbicos
difundidos online e, posteriormente, também no plenário da Assembleia da
República”, defende o autor do capítulo sobre Portugal Jonni Lopes, diretor
executivo da Academia Cidadã.
O
relatório apresenta vários exemplos para sustentar esta análise, nomeadamente,
a “descoberta de que um candidato do Chega esteve entre os maiores
financiadores do grupo neonazi 1143”, liderado por Mário Machado. E sustenta
que o crescimento do partido tornou o discurso extremista mais presente e
passou a constituir “uma voz institucional com tempo de antena”, tendo “a normalização
da retórica xenófoba” levado a episódios de violência organizada, com apelos
explícitos à violência remunerada. Com efeito, a monitorização das redes
sociais identificou vários casos, no final de 2025, de extremistas portugueses que
“ofereciam incentivos financeiros para violência contra brasileiros”.
O
relatório aponta outros episódios de violência atribuídos à extrema-direita,
nos últimos dois anos, como a interrupção, pelo grupo neonazi Habeas Corpus, de
uma sessão de leitura LGBTQI+, organizada pela ILGA; o espancamento de um
ator por membros do grupo Reconquista, à porta do Teatro A Barraca; o “Churrasco
do Porco”, organizado pelo partido Ergue-te e pelo movimento Habeas Corpus, a
25 de Abril, no Martim Moniz, que terminou em confrontos com manifestantes
antifascistas e agentes da Polícia de Segurança Pública (PSP); e a presença de elementos neonazis nas forças de
segurança, como a PSP e a Guarda Nacional Republicana (GNR), e na Marinha,
revelada por investigações da Polícia Judiciária (PJ), em junho de 2025, constituindo
ameaça grave ao Estado de direito, pois mostra que pessoas associadas à
violência racista e à subversão da ordem constitucional democrática se
infiltraram nas polícias.
Avultaram
as mensagens de ódio nas campanhas eleitorais de 2024 e 2025, sobretudo, através
das redes sociais, que são terrenos férteis para tais narrativas. E são
referidos episódios de violência verbal, incluindo insultos como “volta para a
tua terra”.
O
relatório estabelece ligação entre as alterações que tornaram a política
migratória restritiva e o agravamento dos fenómenos xenófobos. “A combinação de
políticas migratórias punitivas, atitudes racistas e xenófobas persistentes
documentadas por mecanismos da ONU [Organização das Nações Unidas] e por
inquéritos nacionais, bem como a hostilidade quotidiana baseada na linguagem,
contribui para a redução do espaço cívico”, conclui, descrevendo as plataformas
online como “campos de batalha cruciais para determinar se o espaço
cívico, em Portugal, se manterá aberto, seguro e inclusivo para os migrantes e [para]
comunidades racializadas, ou se continuará a restringir-se de formas que minam
a igualdade democrática”.
Um
dos casos mais mediáticos de 2025 foi o do menino brasileiro de nove anos, que
redundou em mutilação. O relatório sustenta que incidentes como este, em
instituições públicas, “revelam a crescente fragilidade do espaço cívico
português”. “Fragilizam a confiança das crianças migrantes nas instituições
públicas, enquanto garantias dos seus direitos, enfraquecendo as condições para
que, mais tarde, possam exercer liberdade de expressão, participação e
organização coletiva em igualdade com os seus pares”, refere o autor.
O
autor destaca as 987 queixas, por discriminação, racismo, xenofobia e
incitamento ao ódio recebidas pela PSP e pela GNR, bem como as 228
investigações abertas pela PJ, em 2024, e considera: “As taxas de condenação
são ainda mais baixas, com apenas 13 condenações, por discriminação racial, em
todo o país, entre 2017 e 2024. Isto representa uma taxa de condenação inferior
a 1% das queixas apresentadas – um valor que sugere ou fragilidade sistemática
da prova ou falta de vontade institucional para processar crimes de ódio.”
O
documento critica a remoção, pelas autoridades, do capítulo “Extremismo e
Ameaças Híbridas” do Relatório Anual de Segurança Interna (RASI) e pede mais
atenção à presença de neonazis nas forças de segurança, pois são “grave
ameaça ao Estado de direito”.
Por
fim, é recomendada a criação de um sistema de supervisão independente, para
reforçar a responsabilização das forças de segurança, em casos de alegado
racismo institucional ou de uso ilegal da força. E, para “combater a
discriminação, os crimes de ódio e o racismo institucional, reforçando as
respostas aos crimes de ódio”, é defendida a alocação de mais recursos e
autonomia à Comissão para a Igualdade e Contra a Discriminação Racial (CICDR).
***
O
relatório do Instituto para as Políticas Públicas e Sociais (IPPS), do ISCTE –
Instituto Universitário de Lisboa, coordenado por Pedro Adão e Silva,
intitulado “O Estado da nação e as políticas públicas 2026” – considerando que o
governo age por “obsessão com a imigração”, aponta falhas no combate à pobreza
e prevê que a descida do imposto sobre o rendimento das pessoas Coletivas (IRC)
tenha “impacto diminuto no crescimento”.
O
relatório deste ano é dedicado ao tema “Governar com um parlamento
fragmentado”, com 16 ensaios sobre várias áreas da governação. Uma delas é a
imigração, uma bandeira dos dois últimos governos. E os académicos Cláudia
Ferreira, José Leitão e Rui Pena Pires dizem que, apesar da perceção de que a
imigração cresce “descontroladamente”, os dados relativizam essa ideia, frisando
que “o que faz aumentar ou diminuir estes fluxos, em todo o Mundo, é a
economia”, e não opções de “portas abertas” ou de “portas fechadas”.
Na
ótica dos académicos, as alterações da lei de estrangeiros respondem mais à “obsessão
com a imigração” do que a soluções da irregularidade migratória e da sua subida;
a consolidação da extrema‑direita não é alheia à radicalidade das mudanças e do
discurso que as acompanha. Por isso, defendem “nova política de vistos” e “melhor
regulação efetiva do mercado de trabalho”, pois, “sem essas soluções,
mecanismos como a manifestação de interesses, que devem sempre responder à
exceção” podem transformar-me em regra, “deixando o funcionamento inicial do
fluxo migratório aberto à intervenção das agências de contrabando de migrantes”.
Na
proteção social, o relatório conclui que o aumento do valor do complemento solidário
para idosos (CSI), entre 2023 e 2024, e do número de beneficiários não se
traduziu em impacto no combate à pobreza. Por isso, questiona a eficácia de
equiparar o CSI ao salário mínimo, concluindo que uma equiparação ao limiar de
pobreza seria mais vantajosa.
Na
Defesa, Pedro Seabra realça que, da verba reportada à Organização do Tratado do
Atlântico Norte (NATO) de 6,1 mil milhões de euros – 2% do produto interno
bruto (PIB), só 4,1 mil milhões foram executados em despesa usualmente
associada às Forças Armadas, com os outros dois mil milhões a ser executados
por outras áreas governativas. E alerta que o empréstimo do Instrumento de Ação
para a Segurança da Europa SAFE, apesar de ter de ser aplicado até
2030, “os seus encargos financeiros, operacionais e de manutenção
prolongam‑se por décadas”. E, segundo o Conselho de Finanças Públicas (CFP), o aumento
da despesa em Defesa para 3% do PIB, até 2030, resultaria no agravamento do
saldo orçamental para cerca de 2% do PIB e no impacto de mais 3,1% no
rácio de dívida pública. Além disso, “o reforço do investimento militar tende a
competir com outras prioridades públicas, incluindo saúde, educação ou
prestações sociais, com efeitos ao nível da opinião pública.
***
Já
em outubro de 2025, viralizou, na rede social Instagram, um vídeo de um
artista brasileiro, que vivia em Portugal, há nove anos, em que enumera motivos
que o levaram a sair. Entre eles, estão a culpabilização dos imigrantes por
tudo, os movimentos de extrema-direita e o facto de não conseguir arrendar casa. Nos
comentários, outros imigrantes manifestaram o mesmo sentimento e muitos portugueses
deixaram comentários em que relatam cansaço do ambiente político e social do
país. Cada vez mais pessoas falam do tema na Internet e abandonam o
país. Os dados da Segurança Social, trabalhados pelo Banco de Portugal (BdP),
confirmam que duplicou o número de trabalhadores imigrantes que sai do país, passando
do ritmo mensal médio de 1,9 mil saídas, em 2022, para 3,8 mil, em 2024. Pessoas
que saíram referiram pontos comuns que pesaram na decisão: dificuldades
burocráticas na documentação, xenofobia, sentimento de “ambiente hostil”,
elevado custo da habitação e mudanças nas leis.
Um
casal (o marido é advogado) mudou-se para Portugal, ambos com visto de
rendimentos próprios. Após ano e meio de planeamento, chegada e estabilidade
profissional, o cenário alterou-se. tendo conseguido estabilizar e estabelecer-se, aconteceu
a “mudança completa de ambiente, com incertezas, alterações constantes de
entendimento e legislativas, aumento do discurso anti-imigração e um ambiente
hostil”. O casal mudou-se para a Espanha, que já visitava, com frequência, onde
identifica ambiente mais favorável e pode requerer a nacionalidade, ao fim de
dois anos. E, verificando que a tendência é cada vez mais os imigrantes em
Portugal se sentirem obrigados a deixar o país, alerta para os excessos
burocráticos, mesmo para quem tem visto, e para limitações e restrições ao
reagrupamento familiar.
Um
outro casal denuncia o aumento do discurso xenófobo, um dos motivos para o
regresso ao Brasil, assim como a mudança da lei e da política, o que leva os
imigrantes a sentir no dia a dia, sobretudo, no trabalho, nas discussões que,
antes, não existiam sobre partidos políticos e imigração, de que os imigrantes são
inferiores. O racismo começou a acontecer, com coisas que, antes, eram mais
difíceis de ver. A escola pública não é a mesma, os ambientes de rua não são os
mesmos, bem como as cafetarias, os locais de trabalho e os locais de turismo.
Nas
redes sociais, o aumento da xenofobia é discutido diariamente. No
entanto, é difícil ter estatísticas oficiais do fenómeno: a xenofobia não
é, efetivamente, um crime, em Portugal, logo não existem dados. Já a CICDR, que
tinha relatórios anuais, na prática, não está ativa. O tema da
xenofobia esteve na cimeira entre Brasil e Portugal em fevereiro de 2025, com a
declaração final a citar um compromisso dos países em combater estes crimes.
Porém,
não são apenas os imigrantes que estão, há vários anos, em Portugal, que
decidem sair. As mudanças na legislação e nos procedimentos burocráticos afastam
trabalhadores que chegam ao país com visto. Uma delas foi a alteração da
regra para a obtenção do número de identificação da Segurança Social (NISS). Até
ao verão de 2024, era possível fazer o pedido online. Agora, o governo
exige a existência prévia de contrato de trabalho para a solicitação. Ora,
para obter o NISS, é preciso ter contrato de trabalho e, para ter contrato de
trabalho é preciso ter o NISS. É um quiasmo doloroso!
O DN
Brasil, que acompanha a situação, diz que o governo lhe respondeu que os
empregadores podem solicitar o NISS para os seus trabalhadores e até fez apelos
públicos neste sentido. Porém, uma parte
dos empresários recusa fazê-lo. Um casal de brasileiros que chegou a
Portugal com visto de procura de trabalho, em julho de 2025, relatou, no Instagram,
a impossibilidade de obter o NISS, que lhes paralisou a vida, em Portugal,
pondo fim, em poucos meses, ao sonho de aqui viver. O casal diz ter perdido
mais de 40 ofertas de emprego, devido à falta do NISS. E, apesar de reconhecerem
que também são felizes com a experiência, concluíram que não é o momento certo
para se mudarem para Portugal, mesmo com visto.
Voltando
ao trabalho do BdP sobre dados da Segurança Social, olhando para cada
mês, percebe-se o aumento do abandono do país, sobretudo, a partir de
junho de 2024, quando o governo lançou o primeiro pacote de medidas para
regular a imigração e acabar com o regime de “porta aberta”, expressão usada
pelo ministro da Presidência, António Leitão Amaro.
É
verdade que a falta de mão de obra preocupa o governo. Por isso, Luís
Montenegro diz que os imigrantes continuarão a procurar Portugal, para
trabalharem, mas de forma “regulada”, como é a atual política. Contudo, por
causa da barreira de acesso ao NISS, mesmo quem chega com visto enfrenta
dificuldades. O visto de procura de trabalho foi extinto nos moldes usuais e
será para trabalhadores “altamente qualificados”, mas a lista destes
profissionais, a definir por portaria, não foi publicada, embora tenha sido prometida
para este ano.
***
A
operação “Portugal Sempre Seguro”, trimestral, foca-se na dissuasão de práticas
ilícitas, com incidência na fiscalização de estabelecimentos de venda e consumo
de bebidas alcoólicas, no combate à imigração ilegal e em fiscalização
rodoviária. Entre 1 e 7 de junho, foram feitas 2527 fiscalizações de
estrangeiros: 13406 pessoas, 8988 veículos, 69 embarcações e 854
estabelecimentos. O número de imigrantes abordados pelas autoridades mais do que
triplicou, em comparação com a edição anterior, ocorrida entre 2 e 8 de março, em
que as autoridades abordaram 779 estrangeiros. Apesar do aumento nas
fiscalizações, o número de estrangeiros identificados em situação irregular não
acompanhou tal crescimento.
***
Criticar
políticas de imigração não obsta à fiscalização e à correção de erros. Isso também
é integração.
2026.07.16
– Louro de Carvalho
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