Avelino
Lima, que lidera a Diretoria do Centro da Polícia Judiciária (PJ), revela, em
entrevista ao jornalista do Expresso Hugo Franco, publicada a
edição online, a 9 de julho, que metade dos incendiários padece de
distúrbios psicológicos e garante que, nas investigações da PJ, os inspetores
não têm encontrado “relação entre a autoria dolosa dos incêndios e possíveis
interesses económicos”.
A
Diretoria do Centro da PJ centraliza as investigações aos incêndios florestais
que assolam, em todos os anos, o país. E, para Avelino Lima, líder desta
equipa, o perfil de incendiário que mais o preocupa é o do que padece de
distúrbios psicológicos. “São pessoas que deviam estar a ser tratadas pela
saúde mental. E que acabam por nos provocar enormes problemas”, adianta.
Confrontado
com a questão se os diretos televisivos fazem subir o número de incêndios,
considera que o espetáculo mediático provoca um “efeito muito grande” nos
autores de incêndios florestais, pois muitos incendiários “gostam de ver a sua
obra a ser publicitada nas televisões”. Porém, não arrisca dizer que as
televisões são responsáveis pelos incêndios, mas sustenta que “este mediatismo
não tem ajudado nada a conter algumas iniciativas deste tipo de pessoas” e
acusa as televisões do crescendo de colheita e de exibição de “imagens da
desgraça, o mais violentas possível, das pessoas que estão ali a ser objeto das
chamas e da proximidade das chamas junto das habitações”, considerando que “isto
é um negócio para as televisões, que passam horas e horas a dar as mesmas
imagens”. Deduz-se, pois, que parece haver, em sua tácita opinião, certa
cumplicidade, não propositada, entre as televisões e o incendiarismo.
Sobre
o hipotético crescimento da sofisticação dos incendiários, pensa que, “historicamente,
não temos tido grandes profissionais dos incêndios”. Contudo, menciona o caso, “fora
do comum”, de um engenheiro da Zona Centro, que está a cumprir a pena mais
elevada em Portugal, de 25 anos, agora, de 23, por decisão do Supremo Tribunal
de Justiça (STJ). De resto, apontas “as franjas mais débeis da nossa sociedade”,
como “pessoas do interior muito isolado, com fragilidades sociais, económicas e
algumas debilidades mentais”. Depois, fala em episódios de “um ou outro
indivíduo que tem uma tendência para atear fogos” e de “alguns indivíduos que
já percebem um bocado da teoria do fogo: como se projeta, como se alastra, que
usam retardantes para poderem ter tempo para se afastarem”.
Este
último grupo é mais preocupante, na ótica de Lima, porque se trata de pessoas
que não ateiam apenas um incêndio e, embora não sejam muitos casos, “têm
crescido, nos últimos anos”.
Quanto
à suposição de Luís Neves, ministro da Administração Interna e ex-diretor nacional
da PJ, da existência de mão criminosa num incêndio de grandes proporções que
terá sido ateado durante a noite, em Vouzela, o diretor do Centro da PJ, teceu
o seguinte comentário: “Parece-me pacífico que alguma intervenção humana
terá ocorrido, não acredito na espontaneidade do incêndio. A investigação está
no terreno, para determinar as causas.”
Questionado
pelo jornalista sobre se estes incendiários ateiam o fogo de noite, por ser
mais difícil serem detetados, Avelino Lima desenvolve que tem havido “muitas
combustões cujo alerta é dado à noite”, visto que, “por norma, é propício haver
ventos”, “muito do calor que está ainda no subsolo pode extravasar por outras
áreas e reinicia-se uma combustão”. Por isso, adverte que “nem sempre o facto
de ser de noite significa que haja uma autoria intencional para prática do
crime”. E, cautelosamente, observa que, “por vezes, de noite, também acontecem
acidentes”, que já houve “incêndios que se iniciaram através de veículos, com a
faísca de travagens, com peças sobreaquecidas que se soltam dos carros”, que “houve,
recentemente, um incêndio em que a combustão começou com uma ave que foi
carbonizada num poste de alta tensão” e que os maiores incêndios de 2025 se
deram “por causas naturais”.
Quanto
às investigações abertas, neste ano, pela PJ, por suspeita de crimes de
incêndio florestal, referiu estarem abertos 316 inquéritos, mas que é difícil
comparar com o período homólogo de anos anteriores”, pelo que “é preferível
esperar com calma e ter os números completos”. E, no atinente aos perfis de
suspeitos destes crimes, a PJ fala de “uma ferramenta com o número de pessoas
que foram detidas e [com] o perfil psicológico do incendiário florestal,
construída a partir de 2015”, sendo, no total, um número muito próximo de mil.
***
Em
15 de agosto de 2024, Hugo Franco escrevia, no Expresso online, que a PJ
tinha “uma lista com mais de 800 incendiários” (“um número recorde”) que foram
constituídos arguidos ou detidos, o que permitia à PJ “perceber a evolução dos
perfis dos suspeitos e as novas tendências deste crime, podendo até antecipar
possíveis repetições de fogo posto”.
Dizia
o jornalista que fonte policial revelara que “o perfil dos incendiários é hoje
bem diferente do do passado recente”: “É cada vez mais raro o fogo ser ateado
pelo ‘tolinho’ da aldeia, desinserido socialmente ou com problemas de
alcoolismo, que nem se apercebia bem do que fazia.” Por outro lado, como
escrevia Hugo Franco, “os casos tornaram-se mais complexos de investigar,
porque o crime se tornou mais ‘sofisticado’, muitas vezes, envolvendo engenhos
tecnológicos que permitem o retardamento da chama, que, quando deflagra, já o
incendiário se encontra longe do local do crime, tornando-se mais difícil de o
apanhar”.
Parece
que o diretor do Centro da PJ não se cola muito a este discurso.
Entretanto,
jornalista sustentava que A PJ se apercebeu de que “muitos destes fogos são
espoletados por desavenças criadas e ampliadas nas redes sociais entre vizinhos
ou ex-cônjuges e que os suspeitos agem motivados por ‘uma vingança fria’”,
tendo a grande maioria dos incendiários “plena consciência do que vai fazer”, sendo
“mais organizada, mais elaborada”, e atuando “por mera futilidade”.
Uma
das dores de cabeça das autoridades é a repetição do crime de incêndio
florestal por pessoas que foram alvo de pena de prisão. Segundo fontes
judiciais, até à referida data de 2024, tinham sido detetados casos de fogo
posto cometidos por “caras bem conhecidas das autoridades”. Vários estudos
mostram que metade dos incendiários detidos é reincidente.
Desde
o início de 2024, diz Hugo Franco, a PJ abriu cerca de 650 investigações por estes
crimes. O número elevado é inferior ao de 2023. “Houve uma redução
significativa das ignições, graças ao trabalho mais ágil e de partilha das
informações entre as polícias, a proteção civil e Instituto da Conservação da
Natureza e das Florestas [ICN]”, resumia fonte da PJ.
Depois
da pandemia, as autoridades têm intensificado o uso de tecnologia no combate às
chamas. Nas zonas onde costumam ser ateados fogos, há câmaras de
videovigilância (as autoridades dizem ‘videoproteção’), “para se evitarem
repetições” e, todos os dias, são postos drones no ar com a missão de prevenir
ou de, pelo menos, detetar, atempadamente, as primeiras chamas. Uma beata de
cigarro que terá feito deflagrar um fogo florestal foi alvo de perícias
biológicas com meios tecnológicos sofisticados, algo que, há poucos anos, não se
fazia.
A
investigação criminal considera o “ponto de início” como o momento-chave para
se descobrir a autoria destes crimes. Os bombeiros têm, por exemplo, indicações
de “não encharcarem de água” a área suspeita de início do incêndio para se preservarem
possíveis provas do crime. O incêndio florestal não é “investigação fácil, por
causa da erosão dos indícios”, dizia o jornalista, com base em informação policial.
Lembrava
Hugo Franco que a Justiça estava a encarar estes crimes com maior dureza. Os
serviços prisionais indicavam, em 2024, que havia 69 pessoas a cumprir pena
efetiva e em prisão preventiva, ao passo que, em 2013, havia 21 pessoas a
cumprir pena por atearem fogos na floresta. E, se no passado recente muitos dos
suspeitos de incêndio saíam em liberdade, após o primeiro interrogatório, agora,
as medidas de coação, como internamento compulsivo, pulseira eletrónica e
prisão domiciliária, são “já cerca de metade” do total, sendo até superiores
aos últimos anos, permitindo, segundo a PJ, “melhor qualidade na investigação
aos fogos”.
***
Voltando
à entrevista, é de acentuar que Avelino Lima diz serem “as patologias” o que
mais o preocupa, pois trata-se de “pessoas que deviam estar a ser tratadas pela
saúde mental, porque muitas delas, não sendo inimputáveis, não deixam de ter um
conjunto de patologias ou necessidades saúde, que, sendo graves, acabam por nos
provocar enormes problemas”. Admite que alguns são pirómanos, pois, “no último
ano, 49% dos detidos por crime de incêndio florestal tinha problemas
psicológicos, 25% apresentava consumo excessivo de álcool e 6,3% pessoas têm as
duas patologias associadas”.
Em
relação ao facto de o primeiro-ministro ter apontado o dedo “aos interesses que
sobrevoam” os incêndios, o diretor do Centro da PJ sustenta que “não foi muito
clara a expressão”. É de recordar que, na noite de 17 de setembro de 2024, o
chefe do governo surgiu a culpar “os criminosos” pelo atear dos fogos, a
prometer pulso firme para os levar à Justiça e a anunciar a criação de uma “equipa
especializada” para trabalhar em articulação com a Procuradoria-Geral da
República e com o Ministério da Justiça. E foi taxativo: “Há coincidências a
mais”, disse, considerado que há “criminosos” que têm “interesses” nos fogos
florestais e é contra esses que o governo tem de ser implacável para os
identificar e levar à Justiça.
Todavia,
Avelino Lima contrapõe que, nas investigações, a PJ não tem encontrado
associação ou relação entre a autoria dolosa dos incêndios e os interesses
económicos, até porque “está mais do que documentado que a madeira queimada não
tem o mesmo valor económico”.
Por
outro lado, como sustenta, “dificilmente, agora, um juiz coloca um destes
suspeitos sem estar privado de liberdade. Em 2025, das 94 detenções da autoria
da PJ do Centro, cerca de 50 suspeitos ficaram privados de liberdade e 11 a 14 ficaram
em prisão domiciliária. Isto é, cerca de 64% ficaram com medidas privativas de
liberdade, o que, dificilmente, acontecerá com medidas de coação para suspeitos
de outros crimes.
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Mais
de 15 mil hectares arderam em Portugal nos primeiros dias de julho, tendo a
área ardida duplicado entre os dias 1 e 5, como revelam dados do Sistema de
Gestão Integrada de Fogos Rurais (SGIFR), que é gerido pela Agência para a
Gestão Integrada de Fogos Rurais (AGIFR) e, segundo o qual, os 4592 incêndios
florestais registados, neste ano, provocaram 30155 há (hectares) de área
queimada. Em relação a igual período de 2025, embora tenha diminuído o
incendiarismo, a área ardida quase quadruplicou, registando-se, neste ano, a
maior desde 2017. O incêndio que deflagrou em Tourelhe, na União das Freguesias
de Cambra e Carvalhal de Vermilhas no concelho de Vouzela, a 2 de julho,
tornou-se o maior da Europa, neste ano, concentrando 70% de toda a área ardida
no continente. Em três dias de calor extremo, o fogo na Beira Alta consumiu 14
mil hectares.
Passei,
a 3 de julho, de manhã e à tarde, pela ampla e dispersa zona do incêndio: várias
frentes de fogo e fumo, a ameaçar casas, pessoas, animais, culturas e estradas.
Segundo os bombeiros, os estímulos eram: vento forte de nordeste (“ventos
endiabrados”), temperaturas elevadas e vegetação extremamente seca. Temia-se o
comportamento errático do fogo e a mudança do vento. Eram permanentes a
incerteza e a vigilância e intenso o combate, com o apoio das populações. Porém,
a orografia dificultava o combate ao fogo. E, face ao agravamento das condições
meteorológicas, o governo declarou Situação de Alerta para o território
continental até dia 6, restringindo a atividade suscetível de provocar
incêndios.
***
Os
incêndios rurais (fenómenos de deflagração ou progressão do fogo, não planeada
ou não controlada, em território rural) são um dos principais obstáculos à
sustentabilidade da floresta e dos ecossistemas associados, causando a sua
degradação e o desequilíbrio no prover de bens e serviços, quer de natureza
económica e social, quer de natureza ambiental.
Segundo
o ICN, a área total ardida, anualmente, apresenta grande variabilidade, conexa
com a severidade meteorológica, tendo sido observados valores máximos, nos anos
de 2017, de 2003 e de 2005. O número de ocorrências (fogachos e incêndios
rurais) revela tendência de diminuição, desde 2006. A base de dados nacional de
incêndios rurais, para 2024, regista 6255 incêndios rurais de que resultaram
137651 ha de área ardida, entre povoamentos florestais (82009 ha), matos e
pastagens naturais (46089 ha) e áreas agrícolas (9553 ha).
O
ano de 2024 registou o valor mais reduzido do número de incêndios e o 3.º valor
mais elevado de área ardida da década 2014-2023. Observando a distribuição da
área ardida, por tipo de ocupação do solo, verifica-se que, entre 1995 e 2024,
os incêndios consumiram, maioritariamente, povoamentos florestais, áreas de
matos e pastagens naturais. E, no decénio de 2015-2024, ocorreram, em média, 12183
incêndios rurais, por ano, com a área ardida média, por ano, de 123938 ha,
sendo 67054 ha (54%) de povoamentos florestais, 47847 ha (39%) de matos e
pastagens naturais e 9037 ha (7%) de áreas agrícolas.
O
pinheiro-bravo e o eucalipto foram as espécies mais afetadas, correspondendo a
85% da área ardida. Esta situação contribuiu para a forte redução da área de
pinheiro-bravo (menos 265 mil hectares do que entre 1995 e 2015) e para o
aumento da área de matos.
Em
2024, os distritos que registaram maior número de incêndios, por ordem
decrescente, foram o do Porto (1376), o de Braga (650) e o de Viana do Castelo
(626). O mais afetado, no atinente à área ardida, foi o de Viseu, com 49931 ha,
seguido do de Aveiro, com 27006 ha, e do do Porto, com 19703 ha, representando,
respetivamente, 36%, 20% e 14% da área ardida.
Do
total de 6255 incêndios rurais que ocorreram em 2024, foram investigados 6164 e
têm o processo de averiguação de causas concluído (99% do número total de
incêndios, responsáveis por 89% da área ardida). Destes, a investigação levou à
atribuição de causa para 4354 incêndios (71% dos incêndios investigados,
responsáveis por 80% da área ardida).
Em
2024, as causas de incêndio mais frequentes foram o “incendiarismo – imputáveis”
(34%) e o “uso do fogo” (32%), sendo que nesta última se destacam as “queimadas
de sobrantes florestais ou agrícolas” (13%). Os reacendimentos representam 9%
do total das causas.
Em
2024, setembro foi o mês que registou maior número de incêndios rurais, com 1773
incêndios (28% do número total do ano), e o que apresentou a maior área ardida,
com o total de 126839 ha, o que corresponde a 92% do total de área ardida
registado no ano.
Tendo
em conta a cartografia de áreas ardidas, de 2024, na Rede Nacional de Áreas
Protegidas (RNAP) arderam 3572 ha de espaços rurais, o que corresponde a cerca
de 0,5% da totalidade da RNAP. Destaca-se a Paisagem Protegida Regional Parque
das Serras do Porto, pela maior extensão de área ardida, com 2011 há (56% da
área total ardida na RNAP.
A
área ardida média anual (75557 ha) ultrapassa os valores médios admissíveis
para 2020-2030 (60 mil hectares); a percentagem de incêndios com mais de 500 ha
(0,56%, em 2024) ultrapassa o valor estabelecido para a meta definida (0,3%); e
a área ardida está a aumentar.
***
São
muitas as causas dos incêndios, mas não são descartáveis, à partida, questões
atinentes a negócios, de forma explícita ou implícita. Há demasiadas coincidências.
E uma investigação deve considerar todas as hipóteses.
2026.07.15
– Louro de Carvalho
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