Mais
de 90% das mortes por afogamento ocorrem em países de baixo e médio rendimentos,
sendo as principais vítimas as crianças e os jovens. A subida das temperaturas
e os fenómenos extremos têm aumentado a ocorrência de afogamentos. Por isso, a
Organização Mundial de Saúde (OMS) aposta na promoção da interação segura com a
água.
Neste
25 de julho, a Organização das Nações Unidas (ONU) marcou o Dia Mundial da
Prevenção do Afogamento, uma das 10 principais causas de morte, entre crianças
dos cinco aos 14 anos, e responsável pela morte de cerca de 300 mil pessoas,
por ano.
A
OMS – verificando que mais de 90% das mortes, por afogamento, ocorre em rios,
lagos, canais, embarcações, poços, reservatórios domésticos de água e piscinas,
sobretudo, em países de rendimentos baixos e médios, tendo sido os mais
afetados as crianças e os adolescentes das zonas rurais – lançou um novo guia
técnico para ajudar os governos e as comunidades a implementar medidas para
redução da mortalidade associada ao afogamento.
O
diretor-geral da OMS, Tedros Ghebreyesus, afirma que cada afogamento
constitui uma tragédia e adverte que a grande maioria dos casos é evitável.
Neste
ano, o tema “Unir para inverter a maré” reflete a necessidade de uma ação
coordenada entre governos, setores e comunidades, para prevenir afogamentos e
salvar vidas. As sete estratégias traduzem a visão da primeira Estratégia
Global para a Prevenção do Afogamento, lançada em 2025, em orientações
sustentadas por evidências.
Entre
as medidas sugeridas, destacam-se a promoção de infraestruturas seguras, a
formação de profissionais de socorro, a promoção da natação e a criação de
sistemas de proteção de crianças, bem como a preparação para cheias e para outras
emergências similares.
Nos
últimos anos, as alterações climáticas têm vindo a aumentar os riscos de
afogamento. À medida que os fenómenos extremos, como as ondas de calor, ocorrem
com maior frequência, verifica-se um aumento do risco de afogamento.
No
Reino Unido, a subida de 1° C (centígrado) na temperatura está associada ao
aumento de 7,2% do número de afogamentos. O risco é também quase cinco vezes
superior em dias em que as temperaturas ultrapassam os 25°C, em comparação com
dias abaixo dos 10 °C.
O
Dia Mundial da Prevenção do Afogamento foi proclamado pela Assembleia Geral da
ONU em 2021, com vista a ampliar a conscientização sobre uma causa evitável de
morte (o afogamento não é inevitável) e a reforçar a responsabilidade dos
formuladores de políticas públicas, dos governos e das comunidades na criação
de ambientes mais seguros junto à água.
***
O
referido guia técnico é o pacote técnico PROTECT – Seven strategies to
prevent drowning, ou seja, sete estratégias para reduzir as mortes por
afogamento, que a OMS apresentou, a 23 de julho, num evento online, às
vésperas do Dia Mundial da Prevenção do Afogamento, celebrado em 25 de julho, e
que transforma a Estratégia Global para Prevenção do Afogamento em medidas
práticas para governos e para formuladores de políticas.
O
documento é um pacote técnico para apoiar decisões públicas e para orientar a
implementação de ações de prevenção, estimulando a interação segura com a água
e oferecendo aos responsáveis por políticas públicas um conjunto de medidas
aplicáveis em diferentes contextos.
A
OMS associa o agravamento do risco às temperaturas mais elevadas e à ocorrência
de fenómenos extremos, fatores que ampliam a exposição das populações a
situações perigosas. O lançamento do pacote técnico reuniu representantes de
governos, da ONU, das academias e da sociedade civil, para urgir a adoção das
estratégias e a troca de experiências.
O
pacote “Sete estratégias para prevenir afogamentos” oferece aos formuladores de
políticas orientações práticas e baseadas em evidências, para ajudar governos a
fortalecer a prevenção de afogamentos, por meio de políticas, de leis e de
regulamentações. Apresenta sete estratégias prioritárias que abrangem: a
infraestrutura física; o resgate e a reanimação; a segurança ocupacional para
trabalhos em áreas aquáticas; as normas de segurança no transporte aquático; a
educação em natação básica e em segurança na água; os sistemas de cuidados e
proteção infantil; e a preparação para inundações e para outras emergências com
múltiplos riscos.
Em
conjunto, as estratégias promovem uma abordagem sistémica para a redução dos
afogamentos e apoiam objetivos amplos de saúde, de desenvolvimento e de
equidade.
Desenvolvido
para formuladores de políticas de diversos setores, o pacote foi concebido para
apoiar os países no desenvolvimento, na implementação e no fortalecimento de
políticas que criem ambientes mais seguros, em relação à água. E, como os
países se encontram em diferentes estágios de desenvolvimento, o pacote deve
ser adaptado aos contextos nacionais e utilizado, em conjunto com os esforços
já existentes, em saúde pública, em desenvolvimento sustentável, em resiliência
climática e em desenvolvimento socioeconómico.
Crianças
pequenas, adolescentes, trabalhadores expostos à água, comunidades costeiras e
populações dependentes de transporte fluvial correm riscos distintos. E os
episódios não fatais também podem produzir lesões neurológicas, respiratórias,
psicológicas e funcionais graves, com necessidades de cuidados intensivos e de
reabilitação prolongada. Enfim, o afogamento, que não acontece só no mar ou
durante atividades recreativas, é um problema de saúde pública.
As
sete estratégias do referido pacote técnico são: estruturas físicas junto à
água; capacidade de salvamento e de reanimação; segurança profissional em
trabalhos aquáticos; normas de segurança no transporte por água; ensino de
natação básica e de segurança aquática; sistemas de segurança e de proteção
infantil; e preparação para cheias e para outras ameaças.
*
Estruturas físicas junto à água. A preparação começa antes de se entrar na
água. Barreiras físicas em redor de massas de água, coberturas adequadas,
manutenção de poços, iluminação e desenho seguro de margens podem impedir
exposições perigosas, devendo-se juntar a supervisão infantil e o ensino
estruturado de competências aquáticas.
Saber
nadar não elimina o risco de afogamento, mas redu-lo. E é de advertir que água
fria, traumatismos, fadiga, álcool e problemas de saúde podem afetar mesmo
nadadores experientes.
*
Capacidade de salvamento e de reanimação. Quando ocorre uma emergência, os
primeiros minutos são decisivos. São necessários sistemas que aliem capacidade
de salvamento, acesso rápido aos serviços de emergência e formação em
reanimação. A tentativa de resgate deve ser feita sem colocar uma segunda
pessoa em perigo. Quem não tem formação específica não deve entrar, diretamente,
na água (entrar na água sem formação pode criar uma segunda vítima), mas pedir
ajuda e procurar alcançar ou lançar um objeto flutuante, a partir de uma
posição segura.
E
profissionais de saúde, professores, trabalhadores marítimos, responsáveis por
piscinas e comunidades isoladas podem receber formação adequada ao contexto em
que trabalham.
Muitas
vítimas não conseguem agitar os braços nem gritar, e o episódio pode ocorrer
rapidamente e em modo de silêncio.
*
Segurança profissional em trabalhos aquáticos. No contexto profissional, a
prevenção deve integrar avaliação de risco, equipamento de proteção, trabalho
em equipa, planos de emergência e formação periódica. E há que advertir que
pescadores, tripulações, trabalhadores portuários, equipas de manutenção,
forças de segurança e profissionais de turismo podem estar expostos a riscos
específicos.
*
Normas de segurança no transporte por água. A OMS recomenda normas para
embarcações, como utilização de coletes, limitação de lotação, formação de
tripulações, comunicações de emergência e adaptação às condições
meteorológicas.
*
Ensino de natação básica e de segurança aquática. Saber nadar reduz o risco,
mas não evita o afogamento. Correntes, fadiga, água fria, álcool, doença súbita
e sobrestimação das capacidades individuais podem criar uma emergência. Por
conseguinte, os programas, além da natação, devem capacitar em competências
práticas, como: segura entrada na água e respetiva saída; flutuação e controlo
respiratório; reconhecimento de correntes e de outros perigos; utilização de
coletes de salvação; pedido de ajuda; e resgate sem entrar na água.
*
Sistemas de segurança e de proteção infantil. A supervisão infantil deve ser
próxima, continuada e feita por adulto que possa intervir. Muita gente não
garante, por si, eficácia. Conversas ao telemóvel, outras conversas e refeições
podem interromper a vigilância. E é de anotar que o afogamento costuma ser
rápido e discreto.
Os
sistemas de creche e de supervisão comunitária são importantes para crianças que
vivem ou brincam junto de rios, de canais, de lagos e de lagunas ou de poços de
água. E lembro-me de uma criança que se afogou num pocito junto a uma obra em
construção, em dia de feira, estando os pais ocupados no seu terrado comercial
e a criança a brincar em sossego.
*
Preparação para cheias e para outras ameaças. Isso implica a boa gestão das
barragens, a limpeza de vias de escoamento de águas (valetas, aquedutos,
sarjetas), a regularização de pequenos cursos de água, a monitorização (e
reforço, se necessário) de diques, de edifícios e de infraestruturas públicas e
a limitação de construções junto a linhas de água.
A
OMS avisa que ondas de calor, tempestades e cheias podem aumentar a exposição à
água e criar novos riscos. Efetivamente, elevadas temperaturas levam mais
pessoas a procurar rios, lagos e praias, incluindo locais sem vigilância. E o
risco é aumentado, através de comportamentos inadequados, de ingestão de
álcool, bebidas geladas, tempo de exposição, caraterísticas locais e falta de
vigilância no terreno.
***
Os
profissionais de saúde podem e devem contribuir para a minimização dos riscos,
através de aconselhamento, de identificação de famílias vulneráveis, de
educação em supervisão infantil e de promoção de primeiros socorros. Nos
cuidados após um episódio de afogamento não fatal, é preciso avaliar se há
complicações respiratórias, lesão neurológica, necessidade de reabilitação,
impacto psicológico e segurança no local do acidente.
Os
cuidados e medidas individuais não substituem as políticas públicas – aliás,
muitas medidas constantes das Sete Estratégias do pacote postulam decisões
políticas (por exemplo, a gestão de barragens, a regularização de cursos de
água ou a limitação de construções em determinados locais) –, mas podem reduzir
os riscos. Em especial, as crianças devem ser supervisionadas permanentemente,
as piscinas devem ter barreiras adequadas e devem ser utilizados coletes de
salvação nas embarcações. E é importante respeitar a sinalização, evitar a
ingestão de álcool, antes de nadar, verificar as condições meteorológicas e
escolher zonas vigiadas.
O
PROTECT tem, obviamente limitações. De facto, é um pacote de orientação para
políticas e não um ensaio clínico. A eficácia depende da aplicação em concreto,
da fiscalização, do financiamento, da adaptação cultural e da qualidade dos
sistemas de vigilância.
Os
registos de afogamento podem levar à subestimação do problema, sobretudo,
quando as mortes associadas a cheias, a transporte ou a acidentes são
catalogadas de forma diferente.
As
prioridades devem ser adaptadas ao perfil do país ou da região, identificando
os grupos, os locais e as atividades de maior risco.
As
estratégias mostram que prevenir afogamentos é mais do que recomendar prudência
em praias, já que o afogamento pode ocorrer em mais lugares e em mais
circunstâncias. Requer-se uma abordagem abrangente que combine infraestruturas,
educação, proteção da infância, segurança profissional, transporte seguro,
resposta de emergência e preparação climática. Para decisores políticos, para
profissionais de saúde, para escolas, para municípios e para as comunidades, a
mensagem é clara: “A maioria dos afogamentos pode ser prevenida através de
sistemas bem concebidos e bem planeados e por ações iniciadas antes da
emergência.”
***
Em
Portugal, o Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM), adverte que o
afogamento não envolve grito de ajuda, porque é rápido e silencioso. A pessoa
em transe de afogamento não pede ajuda, pois tenta respirar. Assim, os
comportamentos típicos de quem se está a afogar incluem: dificuldade dentro de
água e de se manter à superfície; desaparecimento súbito debaixo de água; e realização
de movimentos semelhantes ao de subir um escadote (na vertical e com as mãos a
pressionar, ligeiramente, a superfície da água) ou de movimentos circulares e
para trás com os braços estendidos na lateral.
O
afogamento pode ocorrer em: praias, piscinas, albufeiras, lagoas, rios, parques
aquáticos, tanques de água e poços sem muros de proteção. No caso de crianças,
os principais locais de afogamento são as piscinas (28%), seguidas das praias
(22%), tanques e poços (22%) e os rios, ribeiros e lagoas (22%). A maior parte
dos acidentes ocorre devido à má avaliação dos riscos, nomeadamente: o estado
do mar (em termos de corrente, vento, rebentação); a profundidade dos locais de
mergulho; a sobrevalorização das capacidades do nadador; a realização de
desportos sem a devida proteção; o consumo excessivo de álcool ou de drogas
ilícitas; e a existência de doenças debilitantes.
O
afogamento é uma das principais causas de morte de crianças e jovens, logo a
seguir ao acidente de viação. A maioria das mortes por afogamento ocorre no
verão (mais de um terço das mortes é por afogamento), por ser quando a
população de risco mais se expõe aos ambientes aquáticos. Uma criança
pode afogar-se em menos três minutos, a menos de um palmo de água. Porém,
a gravidade do afogamento não se limita aos casos de morte, já que a pessoa
hospitalizada na sequência de afogamento tem, não raro, prognóstico reservado.
A
forma mais eficaz de prevenção do afogamento é o controlo do acesso à água. Ou
seja, a prevenção implica eliminar ou minimizar as causas, que se podem
controlar, a saber: frequentar praias vigiadas e respeitar os sinais das
bandeiras e as instruções dos nadadores-salvadores; cumprir as regras de
segurança na praia e nas piscinas (públicas ou privadas) e seguir as indicações
dos nadadores-salvadores; em piscinas privadas, colocar uma vedação e um trinco
de fecho automático, para impedir o acesso das crianças à água. Fazer o mesmo
para o acesso a poços e a reservatórios de água; em espaço desconhecido,
inspecionar o local e tapar poços, tanques e depósitos de armazenamento de água
com redes pesadas e não mergulhar, nem deixar as crianças mergulhar; vigiar as
crianças (não confiar a segurança de criança pequena a outra mais velha e não
deixar correr atrás de bola perdida); ensinar as crianças a nadar, o mais cedo
possível; em atividades de recreio, usar colete de salvação e outros
dispositivos de segurança; não entrar de repente na água, após longo período de
exposição ao sol; evitar refeições pesadas e bebidas alcoólicas e
esperar três horas após a refeição, antes de entrar na água; verificar a
profundidade da água e se há rochas ou outros obstáculos; evitar nadar sozinho;
avisar as pessoas próximas, dos riscos, quando fizer caminhada em rios e em lagoas;
e, em caso de cãibra, fora de pé, respirar fundo, pôr-se de costas e boiar até
poder nadar para a margem.
***
Enfim,
toda a cautela é pouca. A vida acima de tudo!
2026.07.26 – Louro de Carvalho
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