domingo, 26 de julho de 2026

As alterações climáticas aumentam o risco de afogamento

 

Mais de 90% das mortes por afogamento ocorrem em países de baixo e médio rendimentos, sendo as principais vítimas as crianças e os jovens. A subida das temperaturas e os fenómenos extremos têm aumentado a ocorrência de afogamentos. Por isso, a Organização Mundial de Saúde (OMS) aposta na promoção da interação segura com a água.

Neste 25 de julho, a Organização das Nações Unidas (ONU) marcou o Dia Mundial da Prevenção do Afogamento, uma das 10 principais causas de morte, entre crianças dos cinco aos 14 anos, e responsável pela morte de cerca de 300 mil pessoas, por ano. 

A OMS – verificando que mais de 90% das mortes, por afogamento, ocorre em rios, lagos, canais, embarcações, poços, reservatórios domésticos de água e piscinas, sobretudo, em países de rendimentos baixos e médios, tendo sido os mais afetados as crianças e os adolescentes das zonas rurais – lançou um novo guia técnico para ajudar os governos e as comunidades a implementar medidas para redução da mortalidade associada ao afogamento. 

O diretor-geral da OMS, Tedros Ghebreyesus, afirma que cada afogamento constitui uma tragédia e adverte que a grande maioria dos casos é evitável.

Neste ano, o tema “Unir para inverter a maré” reflete a necessidade de uma ação coordenada entre governos, setores e comunidades, para prevenir afogamentos e salvar vidas. As sete estratégias traduzem a visão da primeira Estratégia Global para a Prevenção do Afogamento, lançada em 2025, em orientações sustentadas por evidências.

Entre as medidas sugeridas, destacam-se a promoção de infraestruturas seguras, a formação de profissionais de socorro, a promoção da natação e a criação de sistemas de proteção de crianças, bem como a preparação para cheias e para outras emergências similares.

Nos últimos anos, as alterações climáticas têm vindo a aumentar os riscos de afogamento. À medida que os fenómenos extremos, como as ondas de calor, ocorrem com maior frequência, verifica-se um aumento do risco de afogamento.

No Reino Unido, a subida de 1° C (centígrado) na temperatura está associada ao aumento de 7,2% do número de afogamentos. O risco é também quase cinco vezes superior em dias em que as temperaturas ultrapassam os 25°C, em comparação com dias abaixo dos 10 °C.

O Dia Mundial da Prevenção do Afogamento foi proclamado pela Assembleia Geral da ONU em 2021, com vista a ampliar a conscientização sobre uma causa evitável de morte (o afogamento não é inevitável) e a reforçar a responsabilidade dos formuladores de políticas públicas, dos governos e das comunidades na criação de ambientes mais seguros junto à água.

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O referido guia técnico é o pacote técnico PROTECT – Seven strategies to prevent drowning, ou seja, sete estratégias para reduzir as mortes por afogamento, que a OMS apresentou, a 23 de julho, num evento online, às vésperas do Dia Mundial da Prevenção do Afogamento, celebrado em 25 de julho, e que transforma a Estratégia Global para Prevenção do Afogamento em medidas práticas para governos e para formuladores de políticas.

O documento é um pacote técnico para apoiar decisões públicas e para orientar a implementação de ações de prevenção, estimulando a interação segura com a água e oferecendo aos responsáveis por políticas públicas um conjunto de medidas aplicáveis em diferentes contextos.

A OMS associa o agravamento do risco às temperaturas mais elevadas e à ocorrência de fenómenos extremos, fatores que ampliam a exposição das populações a situações perigosas. O lançamento do pacote técnico reuniu representantes de governos, da ONU, das academias e da sociedade civil, para urgir a adoção das estratégias e a troca de experiências.

O pacote “Sete estratégias para prevenir afogamentos” oferece aos formuladores de políticas orientações práticas e baseadas em evidências, para ajudar governos a fortalecer a prevenção de afogamentos, por meio de políticas, de leis e de regulamentações. Apresenta sete estratégias prioritárias que abrangem: a infraestrutura física; o resgate e a reanimação; a segurança ocupacional para trabalhos em áreas aquáticas; as normas de segurança no transporte aquático; a educação em natação básica e em segurança na água; os sistemas de cuidados e proteção infantil; e a preparação para inundações e para outras emergências com múltiplos riscos.

Em conjunto, as estratégias promovem uma abordagem sistémica para a redução dos afogamentos e apoiam objetivos amplos de saúde, de desenvolvimento e de equidade.

Desenvolvido para formuladores de políticas de diversos setores, o pacote foi concebido para apoiar os países no desenvolvimento, na implementação e no fortalecimento de políticas que criem ambientes mais seguros, em relação à água. E, como os países se encontram em diferentes estágios de desenvolvimento, o pacote deve ser adaptado aos contextos nacionais e utilizado, em conjunto com os esforços já existentes, em saúde pública, em desenvolvimento sustentável, em resiliência climática e em desenvolvimento socioeconómico.

Crianças pequenas, adolescentes, trabalhadores expostos à água, comunidades costeiras e populações dependentes de transporte fluvial correm riscos distintos. E os episódios não fatais também podem produzir lesões neurológicas, respiratórias, psicológicas e funcionais graves, com necessidades de cuidados intensivos e de reabilitação prolongada. Enfim, o afogamento, que não acontece só no mar ou durante atividades recreativas, é um problema de saúde pública.

As sete estratégias do referido pacote técnico são: estruturas físicas junto à água; capacidade de salvamento e de reanimação; segurança profissional em trabalhos aquáticos; normas de segurança no transporte por água; ensino de natação básica e de segurança aquática; sistemas de segurança e de proteção infantil; e preparação para cheias e para outras ameaças.

* Estruturas físicas junto à água. A preparação começa antes de se entrar na água. Barreiras físicas em redor de massas de água, coberturas adequadas, manutenção de poços, iluminação e desenho seguro de margens podem impedir exposições perigosas, devendo-se juntar a supervisão infantil e o ensino estruturado de competências aquáticas.

Saber nadar não elimina o risco de afogamento, mas redu-lo. E é de advertir que água fria, traumatismos, fadiga, álcool e problemas de saúde podem afetar mesmo nadadores experientes.

* Capacidade de salvamento e de reanimação. Quando ocorre uma emergência, os primeiros minutos são decisivos. São necessários sistemas que aliem capacidade de salvamento, acesso rápido aos serviços de emergência e formação em reanimação. A tentativa de resgate deve ser feita sem colocar uma segunda pessoa em perigo. Quem não tem formação específica não deve entrar, diretamente, na água (entrar na água sem formação pode criar uma segunda vítima), mas pedir ajuda e procurar alcançar ou lançar um objeto flutuante, a partir de uma posição segura.

E profissionais de saúde, professores, trabalhadores marítimos, responsáveis por piscinas e comunidades isoladas podem receber formação adequada ao contexto em que trabalham.

Muitas vítimas não conseguem agitar os braços nem gritar, e o episódio pode ocorrer rapidamente e em modo de silêncio.

* Segurança profissional em trabalhos aquáticos. No contexto profissional, a prevenção deve integrar avaliação de risco, equipamento de proteção, trabalho em equipa, planos de emergência e formação periódica. E há que advertir que pescadores, tripulações, trabalhadores portuários, equipas de manutenção, forças de segurança e profissionais de turismo podem estar expostos a riscos específicos.

* Normas de segurança no transporte por água. A OMS recomenda normas para embarcações, como utilização de coletes, limitação de lotação, formação de tripulações, comunicações de emergência e adaptação às condições meteorológicas.

* Ensino de natação básica e de segurança aquática. Saber nadar reduz o risco, mas não evita o afogamento. Correntes, fadiga, água fria, álcool, doença súbita e sobrestimação das capacidades individuais podem criar uma emergência. Por conseguinte, os programas, além da natação, devem capacitar em competências práticas, como: segura entrada na água e respetiva saída; flutuação e controlo respiratório; reconhecimento de correntes e de outros perigos; utilização de coletes de salvação; pedido de ajuda; e resgate sem entrar na água.   

* Sistemas de segurança e de proteção infantil. A supervisão infantil deve ser próxima, continuada e feita por adulto que possa intervir. Muita gente não garante, por si, eficácia. Conversas ao telemóvel, outras conversas e refeições podem interromper a vigilância. E é de anotar que o afogamento costuma ser rápido e discreto.

Os sistemas de creche e de supervisão comunitária são importantes para crianças que vivem ou brincam junto de rios, de canais, de lagos e de lagunas ou de poços de água. E lembro-me de uma criança que se afogou num pocito junto a uma obra em construção, em dia de feira, estando os pais ocupados no seu terrado comercial e a criança a brincar em sossego. 

* Preparação para cheias e para outras ameaças. Isso implica a boa gestão das barragens, a limpeza de vias de escoamento de águas (valetas, aquedutos, sarjetas), a regularização de pequenos cursos de água, a monitorização (e reforço, se necessário) de diques, de edifícios e de infraestruturas públicas e a limitação de construções junto a linhas de água.

A OMS avisa que ondas de calor, tempestades e cheias podem aumentar a exposição à água e criar novos riscos. Efetivamente, elevadas temperaturas levam mais pessoas a procurar rios, lagos e praias, incluindo locais sem vigilância. E o risco é aumentado, através de comportamentos inadequados, de ingestão de álcool, bebidas geladas, tempo de exposição, caraterísticas locais e falta de vigilância no terreno.

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Os profissionais de saúde podem e devem contribuir para a minimização dos riscos, através de aconselhamento, de identificação de famílias vulneráveis, de educação em supervisão infantil e de promoção de primeiros socorros. Nos cuidados após um episódio de afogamento não fatal, é preciso avaliar se há complicações respiratórias, lesão neurológica, necessidade de reabilitação, impacto psicológico e segurança no local do acidente.

Os cuidados e medidas individuais não substituem as políticas públicas – aliás, muitas medidas constantes das Sete Estratégias do pacote postulam decisões políticas (por exemplo, a gestão de barragens, a regularização de cursos de água ou a limitação de construções em determinados locais) –, mas podem reduzir os riscos. Em especial, as crianças devem ser supervisionadas permanentemente, as piscinas devem ter barreiras adequadas e devem ser utilizados coletes de salvação nas embarcações. E é importante respeitar a sinalização, evitar a ingestão de álcool, antes de nadar, verificar as condições meteorológicas e escolher zonas vigiadas.

O PROTECT tem, obviamente limitações. De facto, é um pacote de orientação para políticas e não um ensaio clínico. A eficácia depende da aplicação em concreto, da fiscalização, do financiamento, da adaptação cultural e da qualidade dos sistemas de vigilância.

Os registos de afogamento podem levar à subestimação do problema, sobretudo, quando as mortes associadas a cheias, a transporte ou a acidentes são catalogadas de forma diferente.

As prioridades devem ser adaptadas ao perfil do país ou da região, identificando os grupos, os locais e as atividades de maior risco.

As estratégias mostram que prevenir afogamentos é mais do que recomendar prudência em praias, já que o afogamento pode ocorrer em mais lugares e em mais circunstâncias. Requer-se uma abordagem abrangente que combine infraestruturas, educação, proteção da infância, segurança profissional, transporte seguro, resposta de emergência e preparação climática. Para decisores políticos, para profissionais de saúde, para escolas, para municípios e para as comunidades, a mensagem é clara: “A maioria dos afogamentos pode ser prevenida através de sistemas bem concebidos e bem planeados e por ações iniciadas antes da emergência.”

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Em Portugal, o Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM), adverte que o afogamento não envolve grito de ajuda, porque é rápido e silencioso. A pessoa em transe de afogamento não pede ajuda, pois tenta respirar. Assim, os comportamentos típicos de quem se está a afogar incluem: dificuldade dentro de água e de se manter à superfície; desaparecimento súbito debaixo de água; e realização de movimentos semelhantes ao de subir um escadote (na vertical e com as mãos a pressionar, ligeiramente, a superfície da água) ou de movimentos circulares e para trás com os braços estendidos na lateral.

O afogamento pode ocorrer em: praias, piscinas, albufeiras, lagoas, rios, parques aquáticos, tanques de água e poços sem muros de proteção. No caso de crianças, os principais locais de afogamento são as piscinas (28%), seguidas das praias (22%), tanques e poços (22%) e os rios, ribeiros e lagoas (22%). A maior parte dos acidentes ocorre devido à má avaliação dos riscos, nomeadamente: o estado do mar (em termos de corrente, vento, rebentação); a profundidade dos locais de mergulho; a sobrevalorização das capacidades do nadador; a realização de desportos sem a devida proteção; o consumo excessivo de álcool ou de drogas ilícitas; e a existência de doenças debilitantes.

O afogamento é uma das principais causas de morte de crianças e jovens, logo a seguir ao acidente de viação. A maioria das mortes por afogamento ocorre no verão (mais de um terço das mortes é por afogamento), por ser quando a população de risco mais se expõe aos ambientes aquáticos. Uma criança pode afogar-se em menos três minutos, a menos de um palmo de água. Porém, a gravidade do afogamento não se limita aos casos de morte, já que a pessoa hospitalizada na sequência de afogamento tem, não raro, prognóstico reservado.

A forma mais eficaz de prevenção do afogamento é o controlo do acesso à água. Ou seja, a prevenção implica eliminar ou minimizar as causas, que se podem controlar, a saber: frequentar praias vigiadas e respeitar os sinais das bandeiras e as instruções dos nadadores-salvadores; cumprir as regras de segurança na praia e nas piscinas (públicas ou privadas) e seguir as indicações dos nadadores-salvadores; em piscinas privadas, colocar uma vedação e um trinco de fecho automático, para impedir o acesso das crianças à água. Fazer o mesmo para o acesso a poços e a reservatórios de água; em espaço desconhecido, inspecionar o local e tapar poços, tanques e depósitos de armazenamento de água com redes pesadas e não mergulhar, nem deixar as crianças mergulhar; vigiar as crianças (não confiar a segurança de criança pequena a outra mais velha e não deixar correr atrás de bola perdida); ensinar as crianças a nadar, o mais cedo possível; em atividades de recreio, usar colete de salvação e outros dispositivos de segurança; não entrar de repente na água, após longo período de exposição ao sol; evitar refeições pesadas e bebidas alcoólicas e esperar três horas após a refeição, antes de entrar na água; verificar a profundidade da água e se há rochas ou outros obstáculos; evitar nadar sozinho; avisar as pessoas próximas, dos riscos, quando fizer caminhada em rios e em lagoas; e, em caso de cãibra, fora de pé, respirar fundo, pôr-se de costas e boiar até poder nadar para a margem.

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Enfim, toda a cautela é pouca. A vida acima de tudo!

2026.07.26 – Louro de Carvalho

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