Uma
equipa internacional liderada por investigadores do Observatório Europeu do Sul
(ESO) anunciou, a 22 de julho, o que pode ser o indício da primeira lua
descoberta fora do Sistema Solar, com massa semelhante à de Júpiter – de 1,899
x1027 kg, isto é, cerca de 317,82 vezes a da Terra. Os
investigadores salientam que, “por mais exótico que seja”, trata-se de um
achado que é “verdadeiramente único e representa um importante avanço”
científico A descoberta pode marcar um momento histórico na Astronomia, pois a
lua acabada de encontrar não orbita um planeta, mas uma anã castanha.
A
este respeito o Expresso online publicou, a 22 de julho, dia do anúncio,
por parte do ESO, uma peça jornalística de André Manuel Correia que refere a
existência, a 73 anos-luz da Terra, de “um objeto que parece recusar todas as
etiquetas que os cientistas lhe tentam atribuir”, tendo o Universo desafiado,
mais uma vez, “as definições criadas pelo ser humano para o compreender”. Ou
seja, no dizer do jornalista, “voltou a fazer aquilo que faz melhor”.
Os
autores do estudo, publicado na revista Nature, admitem ainda não
saberem como designar o objeto, pois o caso é peculiar, até para os padrões da Astronomia
recente: o candidato a satélite não orbita um planeta, mas uma anã
castanha que, por sua vez, orbita uma estrela.
Essa
anã castanha tem mais massa do que qualquer planeta conhecido – 37 vezes a
massa de Júpiter –, mas não o suficiente para sustentar, no seu núcleo, a fusão
de hidrogénio que mantém a estrela a brilhar, durante milhares de milhões de
anos. É, pois, um objeto de transição entre um planeta e uma estrela. E, porque
não é uma estrela, arrefece e escurece, lentamente, ao longo da sua existência,
em vez de manter o brilho. Por isso, estes corpos são, comumente, designados
como “estrelas falhadas”.
***
A
revista Science, da NASA, exibe um texto sob o título “O que torna os
anões marrons únicos?” que nos lembra a dificuldade de distinguir, a
olho nu, estrela e planeta, “quando se olha para o céu noturno”. Não obstante, os
astrónomos da Antiguidade notavam que algumas luzes se moviam pelo céu,
enquanto outras pareciam estar numa posição fixa. Os Gregos, na continuidade do
trabalho dos cientistas anteriores, chamaram “plánês” ou “planêtês” (errante,
vagabundo) a cada um dos pontos de luz itinerantes. E ainda hoje os chamamos
planetas (“planêtoi”).
Mas,
além de orbitar uma estrela, há algo mais a definir um planeta. À medida que os
telescópios se tornam mais sofisticados e aprendemos mais sobre o Universo,
ficam ultrapassadas e sem sentido “algumas definições antigas”. Hoje sabemos
que alguns planetas são rochosos, como a Terra, enquanto outros são gigantes
gasosos, como Júpiter, e que o Sol, na sua fase de meia-idade, é apenas um tipo
entre vários tipos de estrelas, classificadas de acordo com a fase do seu ciclo
de vida que ainda estamos a tentar compreender. Uma estrela brilha, ao
produzir a sua própria luz, a partir da “fusão nuclear no seu núcleo denso e
quente”, ao passo que os planetas brilham, aos nossos olhos, na Terra,
refletindo a luz das estrelas.
Essas
eram as definições simples e precisas de estrelas e planetas, até à descoberta
de uma anã castanha (marron), em 1995. Teorizado já na década de 1960, o novo
tipo de corpo celeste tornou tênue a linha divisória entre estrela e planeta,
exigindo um repensamento empolgante do Universo.
Apesar
do nome, as anãs castanhas podem ser até 70 vezes mais massivas do que gigantes
gasosos como Júpiter, Saturno, Úrano e Neptuno. Formam-se como as estrelas,
pela contração de gás que colapsa em denso núcleo, sob a força da própria
gravidade, enquanto os planetas se formam a partir do acúmulo de detritos
remanescentes desses nascimentos estelares. Contudo, as anãs castanhas não têm
massa suficiente nos seus núcleos, para queimar combustível nuclear e emitir
luz estelar. Por isso, chamam-se “estrelas falhadas”. São menores e mais frias do
que o Sol e possuem atmosferas externas complexas, semelhantes às de planetas,
incluindo nuvens e moléculas como H₂O (água). Atualmente, os astrónomos
divergem sobre se alguns corpos “flutuantes” detetados no espaço, que não
orbitam uma estrela, mas também não brilham como uma estrela, devem ser
chamados de planetas ou de anãs castanhas.
(Cf.
https://science.nasa.gov/mission/webb/science-overview/science-explainers/what-makes-brown-dwarfs-unique/)
[consultado em 22-07-2026]
Os
terraplanistas dizem que a Terra se chama “planeta” porque é um plano. Nada
mais desconcertante: “planeta” provém dos termos gregos “plánês” e “planêtês” (errante,
vagabundo) – do verbo “planáô: errar, desencaminhar) – e não de “planus, a, um”
(liso, direito, plano), que, em Grego, se diria “ísos, ê, ón” ou homalós, ê, ón”.
Parece
incrível, mas ainda há quem, no século XXI, acredite que a Terra é plana: são
os terraplanistas, que, juntamente com os antivacinistas, formam a maior parte
dos negacionistas (o sufixo ‑ista de todos eles evidencia que são seguidores de
ideologias ou de doutrinas e constituem verdadeiros movimentos ou seitas). Há
ainda outros negacionistas, como os que negam a morte de Elvis Presley e os que
negam a morte de Hitler (segundo eles, o Führer está vivo e forte, aos mais de 130
anos de idade). E há os que acreditam que Paul McCartney morreu em 1967 e quem
está, até hoje, a gravar discos e fazendo shows em seu lugar é um
impostor.
Entende-se
que os nossos antepassados da Antiguidade ou da Pré-História pensassem que a
Terra é chata, pois a extensão de território que eles conseguiam percorrer era demasiado
pequena para que percebessem a curvatura deste corpo celeste. Porém, já Aristóteles
argumentava que, se a Terra fosse plana, os navios não desapareceriam no
horizonte. E os eclipses mostravam sobre a Lua a sombra circular da Terra, o
que os Gregos também já haviam percebido. Aliás, foi na Grécia antiga que se
mediu, pela primeira vez, a circunferência da Terra. O autor do brilhante feito
foi o matemático e astrónomo Eratóstenes de Cirene, e o seu erro, face à medida
atual, foi de apenas 300 quilómetros.
Foi
dada à Terra a designação de “planeta”, porque as palavras gregas “plánês” e “planêtês”
(viajante, errante) não tem qualquer parentesco com a latina “planus”, que deu
o português “plano”. Ou seja, os Gregos não só sabiam que os planetas são
esféricos, como também que se movem no espaço. É verdade que o modelo
geocêntrico de Ptolomeu colocava a Terra no centro do Mundo, em posição imóvel
em torno da qual os outros planetas giravam. Logo, a denominação “planeta” não
se aplicava, inicialmente, à Terra. Foram os astrónomos renascentistas, a
partir de Copérnico, que compreenderam que o centro era o Sol e que a Terra
também se movia (eppur si muove, “e, no entanto, se move”, terá dito Galileu,
após ter abjurado do sistema heliocêntrico, ante a Inquisição, a fim de
preservar a vida). Portanto, a Terra também era um planeta, isto é, um
viajante, um corpo errante no Universo.
(Cf. Ciberdúvidas da Língua Portuguesa,
https://ciberduvidas.iscte-iul.pt/artigos/rubricas/idioma/o-planeta-tem-esse-nome-porque-e-plano/4965)
[consultado em 22-07-2026]
***
Voltando
ao sistema estelar em estudo, chamado CD-35 2722, a anã castanha, com 37 vezes
a massa de Júpiter, orbita, numa trajetória larga e muito alongada, uma estrela
com cerca de metade da massa do Sol. É em torno dessa anã castanha, e não da
estrela, que orbita o objeto que motivou o estudo: um corpo com massa que ronda
a de Júpiter, a completar uma volta a cada 170 dias, à distância equivalente a
cerca de metade da que separa Mercúrio do Sol.
Trata-se
de uma exolua. Em geral, chama-se exolua a um satélite natural que orbita um
planeta fora do Sistema Solar. Porém, não há uma aceitação oficial do termo, o
que torna o caso mais complicado: o candidato a satélite não orbita um planeta,
mas uma anã castanha, que, por sua vez, orbita uma estrela – uma hierarquia de
três níveis, sem equivalente nos corpos do Sistema Solar que bem conhecemos.
A
deteção não foi feita por observação direta. A equipa mediu, em mais de dois
anos e mais de duas dezenas de noites de observação com o Very Large Telescope
do ESO, no Chile, o efeito da gravidade do potencial satélite sobre a anã
castanha: um pequeno vaivém periódico no espectro da anã castanha, de poucas
centenas de metros, por segundo. É a técnica da velocidade radial, levou a
descobrir, em 1995, o primeiro exoplaneta em torno de estrela semelhante ao
Sol, o que valeu o Nobel da Física a Michel Mayor e Didier Queloz. Neste caso,
o método foi aplicado, a nível mais fundo na hierarquia do sistema, ao espectro
da anã castanha em vez do da estrela.
“Este
sistema é um pouco difícil de definir, utilizando termos comuns do nosso
Sistema Solar, como ‘planeta’ e ‘satélite’”, resume Kevin Hoy, primeiro autor
do estudo, citado, em comunicado, descrevendo o sistema, que passou meses a
analisar, como “superestranho”, quando comparado com o nosso. E Alice Zurlo,
diretora do Núcleo Milénio sobre Exoplanetas Jovens e suas Luas (YEMS) e
coautora do estudo, explica o que a equipa julga ter encontrado: “O satélite
que parece termos identificado [é] um corpo gasoso gigante que orbita um
companheiro de massa elevada, que, por sua, vez tem várias vezes a massa de
Júpiter. […] No Sistema Solar, existe uma delimitação clara entre os planetas e
o Sol, pelo que definir elementos como satélites é simples. No CD-35 2722, onde
as fronteiras entre estrelas, planetas e satélites se tornam difusas, torna-se
mais complicado descrever o sistema.”
A
própria definição de planeta usada pela União Astronómica Internacional (UAI) colocaria
este corpo do lado dos planetas, e não das luas, já que a sua massa, face à da
anã castanha, fica bem abaixo do limite usado para separar um planeta de um
sistema binário. Todavia, o que pesa a favor de se lhe chamar lua não é o
tamanho, mas a posição na hierarquia do sistema.
Essa
posição intriga Kevin Hoy: “O exossatélite é claramente massivo o
suficiente para ser planeta, mas não orbita uma estrela, embora orbite um
objeto que, por sua vez, orbita uma estrela. O facto de se achar no
terceiro nível neste sistema leva-nos a querer identificá-lo como uma lua,
mesmo que não se pareça, em nada, com as pequenas luas rochosas que vemos no
nosso Sistema Solar”, diz o investigador.
Os
dados de velocidade radial não permitem, por si, distinguir entre dois cenários
igualmente compatíveis com as observações: uma única lua numa órbita
excêntrica, ou duas luas mais pequenas em órbitas quase circulares, numa
proporção de, aproximadamente, duas voltas de uma por cada volta da outra. Para
decidir, a equipa recorreu a simulações do comportamento do sistema, ao longo
do tempo. O cenário de duas luas revelou-se instável na maioria das
configurações testadas, com uma delas a ser ejetada do sistema, ao fim de
poucos séculos. Por isso, os autores consideram mais provável o cenário de uma
única lua, ainda que os dados, por si, não permitam excluir, por completo, a
outra hipótese.
A
procura de luas fora do Sistema Solar não é recente, mas nunca tinha produzido convincente
deteção. Nos últimos anos, outras equipas tinham aplicado o mesmo método a
companheiros substelares fotografados diretamente, sem detetarem qualquer sinal
com a precisão necessária. Há poucos meses, a equipa liderada por Quentin Kral
tinha anunciado indícios semelhantes noutro sistema, sem confirmação
definitiva. A precisão alcançada, agora, entre dez e cem vezes superior à das
tentativas anteriores, é o que a distingue. “Por mais exótico que seja, este
sistema é verdadeiramente único e representa um importante avanço: a primeira
deteção plausível de um exossatélite”, sublinha Zurlo.
Estatisticamente,
a confiança no sinal é elevada, com probabilidade inferior a um em mil de se
tratar de falso positivo. Contudo, os autores insistem que só observações
futuras poderão confirmar qual dos dois modelos está correto e se este objeto
cumpre critérios que nem sequer existem, de forma oficial, para se chamar
exolua. O futuro Extremely Large Telescope do ESO, com espelho de 39
metros, deverá permitir detetar luas ainda mais pequenas. Se a deteção for
confirmada e for essa a designação que a comunidade científica adotar, este
será o primeiro objeto do género alguma vez identificado: uma lua, ou algo
parecido, a orbitar, não um planeta, mas uma anã castanha, na direção da
constelação da Pomba, no céu do Sul.
A
atmosfera de anã castanha é mais fácil de estudar do que a de exoplaneta, que,
normalmente, fica obscurecida pela luz ofuscante da sua estrela hospedeira. Porém,
anãs castanhas pouco brilhantes também podem ser difíceis de encontrar, pois, eventualmente,
a luz visível remanescente do seu nascimento desaparece, completamente, além da
extremidade vermelha do espectro visível, e elas emitem apenas luz infravermelha.
Difíceis
de detetar, as anãs castanhas revelam as muitas maravilhas não descobertas que
o Universo guarda, ocultas por séculos. Grande parte da massa que mantém o Universo
unido pela gravidade e indetetável, até ao momento, é conhecida como matéria
escura. O Telescópio Espacial James Webb baseia-se no trabalho do Telescópio
Espacial Hubble e do Telescópio Espacial Spitzer, ambos da NASA, para sondar as
regiões mais distantes e “escuras” do Universo. O Webb enxerga mais
longe e com maior resolução, graças a câmaras e a espectrógrafos
infravermelhos, sem precedentes, em sua potência.
Quando
o Hubble foi lançado, os únicos planetas conhecidos eram os do Sistema Solar.
Não havia imagens de anãs castanhas. O Webb analisará as atmosferas
de anãs castanhas e de exoplanetas, determinando a suas temperaturas e
composições químicas. Com observações em infravermelho, o telescópio Webb
amplia a compreensão da evolução contínua do Universo e do lugar da Terra e do Sistema
Solar, nesse contexto mais amplo.
***
Apesar
de mais de seis mil exoplanetas terem sido descobertos, nenhum satélite
orbitando um exoplaneta (exolua) jamais foi detetado com segurança. Embora já haja
candidatos, carecem de confirmação clara e permanecem controversos. Além do
valor intrínseco da descoberta de novos tipos de objetos no Universo, os satélites
podem fornecer informações fundamentais dos mecanismos de formação e da
evolução dinâmica dos seus sistemas. Agora, surgiram evidências da existência
de um satélite a orbitar a anã castanha companheira da CD-35 2722 B, observada
por meio de imagem direta. Aplicou-se a análise de velocidade radial – técnica
utilizada para descobrir o primeiro exoplaneta ao redor de uma estrela do tipo
solar.
Foi
detetado o que parece ser o sinal periódico induzido por, pelo menos, um
satélite em órbita. É a primeira vez que tal técnica fornece evidências
bem-sucedidas da presença de satélites ao redor de uma anã castanha
companheira. Este modelo de melhor ajuste inclui um candidato a satélite com
massa mínima de cerca de 0,7
massas de Júpiter e com período orbital de cerca
de 170
dias. Embora não se saiba se tal satélite atende aos critérios (ainda não
definidos) para ser classificado como exolua, trata-se de um passo importante
rumo a essa deteção, já que o avanço tecnológico permitirá aplicar o mesmo
método a alvos de menor massa.
***
Ciência
sempre com novidades, num Universo com muito por descobrir!
2026.07.22
– Louro de Carvalho
Sem comentários:
Enviar um comentário