No
Evangelho, a força feminina surge discreta, profunda e decisiva: não como
domínio, imposição, conquista de poder, mas como fidelidade, permanência,
coragem, maternidade espiritual, escuta, serviço, profecia e testemunho. As
mulheres do Evangelho não são meros figurantes na História da Salvação. Participam
no caminho de Jesus, acolhem a sua Palavra, servem a sua missão, permanecem ao
pé da cruz e são as primeiras testemunhas da Ressurreição. Entre elas, Maria
Madalena ocupa um lugar singular. É uma das figuras mais luminosas do Novo
Testamento. A sua presença junto ao túmulo vazio, descrita no Evangelho de
João, revela admirável força. Chora, procura, permanece e ama. E a cena mostra
um dito de enorme intensidade: “Diz-me onde o puseste, e eu irei buscá-lo” (cf.
Jo 20,15).
No
dito, há uma teologia inteira do amor. A Madalena não sabe onde Jesus está. Não
compreende o mistério da Ressurreição. Pensa que terão levado o corpo do
Senhor, mas dispõe-se a procurá-lo. Não pergunta se terá força. Não calcula os
riscos. Não se intimida, ante a impossibilidade. Apenas ama. E por isso, diz: “Eu
vou buscá-lo.” Esta força feminina nasce do amor fiel, não se rende à ausência,
não foge ante a dor e não aceita a morte como última palavra.
***
Jesus
causa uma profunda valorização da mulher. Numa cultura de silenciamento da voz
feminina, Ele acolhe, escuta, cura, perdoa, envia e confia missões às mulheres.
No Evangelho de Lucas, lê-se que algumas acompanhavam Jesus e os Doze: “Os Doze
iam com Ele, e também algumas mulheres que haviam sido curadas de espíritos
malignos e enfermidades: Maria, a Madalena, da qual haviam saído sete demónios;
Joana, mulher de Cusa, administrador de Herodes; Susana e muitas outras, que os
serviam com seus bens” (Lc 8,1-3).
O
texto mostra que as mulheres não estavam só à margem, a observar de longe, mas
participavam na missão: ajudavam, serviam, sustentavam, caminhavam com Jesus.
Entre elas, aparece Maria Madalena, profundamente tocada pela misericórdia do
Senhor. A saída de sete demónios indica libertação radical. O número sete, na
linguagem bíblica, indica totalidade. Assim, a Madalena é a mulher
profundamente restaurada de todos os males, e a sua força nasce da experiência
da misericórdia. Quem foi levantado por Cristo sabe permanecer com Ele.
As
mulheres aparecem e permanecem junto da cruz, quando muitos discípulos se
dispersam: “Estavam ali muitas mulheres, olhando de longe; tinham seguido Jesus,
desde a Galileia, prestando-lhe serviços” (Mt 27,55). “Estavam ali
também algumas mulheres, olhando de longe. Entre elas, Maria Madalena, Maria,
mãe de Tiago menor e de José, e Salomé. Elas seguiam-No e serviam, quando Ele
estava na Galileia” (Mc 15,40-41). “Junto à cruz de Jesus estavam a sua
mãe, a irmã de sua mãe, Maria de Cléofas, e Maria Madalena” (Jo 19,25).
Aqui
aparece uma das dimensões profundas da força feminina: a capacidade de
permanecer, tudo parecendo perdido. Elas não impedem a crucifixão, mas
permanecem. Não têm poder político para salvar Jesus, mas estão. Não podem
retirar os cravos, mas sustentam com presença, com lágrimas e com amor. É uma força
não barulhenta, mas de presença corajosa.
***
A
Madalena não pode ser compreendida, só a partir do túmulo vazio. Para a entender,
é de recordar que fez caminho com Jesus. Foi libertada, acompanhou-O, esteve
junto à cruz, viu onde o corpo foi colocado e voltou ao túmulo. Não abandona o
Senhor. Está presente na paixão, na sepultura e na manhã da Ressurreição. Viu
onde Jesus foi colocado: “Maria Madalena e Maria, mãe de José, observavam onde
ele era colocado” (Mc 15,47). Foi ao túmulo com outras mulheres:
“Passado o sábado, Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago, e Salomé compraram
perfumes para ungir o corpo de Jesus” (Mc 16,1). E, no Evangelho de
João, a sua presença é mais pessoal: “No primeiro dia da semana, Maria Madalena
foi ao túmulo de madrugada, quando ainda estava escuro, e viu que a pedra tinha
sido retirada do túmulo” (Jo 20,1).
A
expressão “quando ainda estava escuro” tem valor simbólico. Era noite fora e no
coração de Maria, que deambulava na escuridão da perda, da dor, da
incompreensão. Porém, foi. A fé nem sempre começa com clareza, mas com um passo
no escuro. A Madalena vai ao túmulo, porque ama. O amor move-a, antes da
compreensão. A sua fidelidade leva-a ao lugar onde o mistério será revelado.
Ela é a imagem do coração inquieto de que fala Santo Agostinho, ao comentar a
busca de Deus, afirmando que o coração humano permanece inquieto, enquanto não
repousa no Senhor. Ela não se contenta com explicações. Não se satisfaz com a
ausência. Não aceita que tudo terminou. Busca Aquele que dá sentido à sua vida.
A sua força está nessa busca. Não se acomoda, ante do vazio. Vê o túmulo
aberto, vê a ausência do corpo, vê os sinais, mas procura. Quem ama não desiste
ao primeiro sinal de perda.
O
Evangelho de João narra: “Maria estava do lado de fora do túmulo, chorando.
Enquanto chorava, inclinou-se para olhar dentro do túmulo” (Jo 20,11) –
uma imagem humana. Está do lado de fora e chora. Este choro não é fragilidade
negativa. Na Bíblia, o choro é, por vezes, a linguagem da alma. As lágrimas
expressam dor, amor, saudade, impotência e esperança. E algumas não significam
falta de fé, mas profundidade do amor. Jesus chorou diante do túmulo de Lázaro:
“Jesus chorou” (Jo 11,35). Se o Filho de Deus chora, as lágrimas não são
sinal de fraqueza espiritual: podem ser lugar de encontro com Deus. E a
Madalena chora, porque perdeu o Senhor. O seu pranto exprime o amor fiel.
A
força feminina irrompe: não nega a dor; não finge estar bem; não espiritualiza
a perda de modo superficial. Chora, mas não fica paralisada. Inclina-se para
olhar para dentro do túmulo. Há movimento na dor. Há busca no pranto. Essa
atitude é significativa: chora, mas procura. Maria Madalena representa a força
feminina que não precisa de negar a própria sensibilidade para ser forte. A
sensibilidade é parte da força. Ela ama com profundidade. E quem ama
profundamente sofre profundamente. O amor que sofre é capaz de ir além. Maria
olha para dentro do túmulo e vê dois anjos vestidos de branco e sentados onde
estivera o corpo de Jesus, um à cabeceira e outro aos pés. E perguntam:
“Mulher, por que choras?” (Jo 20,13). O céu interessa-se pelas lágrimas
de Maria. Deus não despreza o sofrimento. A dor da mulher diante do túmulo é
acolhida pela pergunta dos anjos, que não a repreendem. E a resposta revela o
coração: “Levaram o meu Senhor, e não sei onde o puseram” (Jo 20,13).
Não
diz que levaram o corpo, mas: “Levaram o meu Senhor”. Esta frase mostra
intimidade, pertença, amor. Jesus não é lembrança distante. Ele é “o meu
Senhor”. Maria fala tem uma relação pessoal com Cristo. A espiritualidade
cristã nasce dessa relação pessoal. Jesus não é só doutrina a estudar, tradição
a preservar ou personalidade religiosa a admirar. É o Senhor vivo, amado,
procurado, seguido.
São
Gregório Magno vê, em Maria Madalena, o ardor da alma que ama. Ela procura o
Senhor e, porque procura com amor, torna-se digna de O anunciar. A busca de
Maria é pedagógica para a Igreja: quem deseja anunciar Cristo precisa de O amar
e de O procurar. Maria não se impressiona com os anjos. Eles aparecem diante
dela, mas o coração dela está voltado para Jesus. Os sinais, as consolações e
as experiências espirituais são importantes, mas nada substitui o Senhor. Maria
não quer só experiências religiosas; quer Cristo.
O
texto joânico prossegue: “Dito isto, voltou-se para trás e viu Jesus de pé, mas
não sabia que era Jesus” (Jo 20,14). Esta cena revela uma verdade
espiritual profunda: às vezes, Jesus está perto, mas a dor impede os olhos de O
reconhecerem. Ela vê-O, mas não sabe que é Ele. A ausência que sente é tão
forte que não percebe a Presença diante de si. Isto sucede connosco!
Então,
Jesus pergunta: “Mulher, por que choras? Quem procuras?” (Jo 20,15). À
pergunta dos anjos Jesus acrescenta: “Quem procuras?” É a pergunta central da
vida cristã. Procuramos apenas soluções ou procuramos o Senhor? Maria responde,
pensando que Jesus era o jardineiro: “Senhor, se foste tu que o levaste, diz-me
onde o puseste, e eu irei buscá-lo” (Jo 20,15).
A
resposta de Maria é uma das mais belas expressões de amor. Ela está diante de
um suposto jardineiro. Acredita que o corpo de Jesus foi retirado. Não sabe
onde está, mas declara a sua disposição: “Eu irei buscá-lo”. Essa frase parece humanamente
impossível. Maria não poderia carregar, sozinha, o corpo de Jesus, e seria
duramente criticada. Porém, o amor não começa pelo cálculo, mas pela entrega. Maria
não diz que não pode fazer nada, não pede ajuda, nem pede que avisem os
discípulos. Diz que O vai buscar. Esta é a força feminina segundo o Evangelho:
a força de quem, ante o impossível, não abandona o amor.
A
frase de Maria é legível a vários níveis. Expressa o amor pessoal por Jesus,
pois Maria deseja encontrar o Senhor, de modo que o seu coração não aceita a
ausência. Expressa coragem, manifesta na disposição de agir, de procurar, de encontrar
e de trazer de volta. Expressa fidelidade, pois, mesmo quando Jesus parece
morto, desaparecido ou perdido, Maria continua a pertencer-Lhe. E expressa uma
dimensão profundamente eclesial, porque Maria é figura da Igreja que procura
Cristo, enquanto o Mundo tenta escondê-lo. Ou seja, representa a comunidade dos
discípulos, que não aceita viver sem o seu Senhor.
“Eu
vou buscá-lo” é a frase da Igreja missionária, que sai à procura de Cristo nos
pobres, nos feridos, nos esquecidos, nos afastados, nos que perderam a fé, nos
que estão nos sepulcros da dor.
Buscar
Cristo, portanto, é também buscar os irmãos. Quem diz “eu vou buscá-lo” precisa
de estar disposto a encontrar Cristo onde Ele se deixa encontrar: nos pobres,
nos doentes, nos abandonados, nos que choram, nos que foram esquecidos.
O
sepulcro é o lugar onde tudo parece terminar, mas, para Maria, é lugar de
busca. O “sim” de Maria de Nazaré abriu espaço para a Encarnação. O “eu vou
buscá-lo” de Maria Madalena anuncia a força da discípula que não abandona o
Senhor. Uma acolhe o Verbo no seu ventre; a outra procura-O no jardim da
Ressurreição. Ambas revelam a força feminina como disponibilidade radical
diante de Deus. Maria Madalena não aceita o sepulcro como a palavra final. A sua
busca antecipa a missão da Igreja: anunciar que a morte foi vencida. Essa
capacidade aparece, de maneira luminosa, em Maria Madalena, cuja vida se tornou
anúncio de que o amor de Deus reergue, cura, envia e transforma.
***
O
momento decisivo acontece quando Jesus diz o seu nome: “Jesus lhe disse: Maria!
Ela voltou-se e exclamou. em hebraico: Rabuni!, que quer dizer: Mestre” (Jo
20,16). Maria, que não havia reconhecido Jesus, viu-O, ouviu a sua voz. Tudo
muda, quando Ele a chama pelo nome. Maria é a ovelha que reconhece o Pastor
quando Ele a chama pelo nome. A voz do Ressuscitado atravessa a dor e desperta a
fé. A mulher que procurava um corpo morto encontra o Senhor vivo. E não
encontra Jesus apenas, porque O procura, mas, sobretudo, porque Ele a chama. A
iniciativa última é sempre da graça. Também nós procuramos Deus, porque,
primeiro, fomos procurados por Ele. “Nós amamos, porque Ele nos amou primeiro”
(1Jo 4,19).
Maria
Madalena ensina que a busca humana e a graça divina se encontram. O coração
procura, mas é Deus quem se revela. O amor caminha, mas é Cristo quem chama
pelo nome.
Depois
do encontro, Jesus envia Maria: “Vai a meus irmãos e diz-lhes: Subo para meu
Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus” (Jo 20,17). E Maria Madalena
anuncia: “Eu vi o Senhor” (Jo 20,18). Aqui está a plenitude da sua
missão. A mulher que chorava diante do túmulo torna-se anunciadora da
Ressurreição. A mulher que procurava Jesus torna-se testemunha do Cristo vivo.
A mulher que dizia “eu vou buscá-lo”, agora, proclama: “eu vi o Senhor”. Por
isso, a tradição cristã a chamou de “apóstola dos apóstolos”, porque
foi enviada pelo próprio Ressuscitado para anunciar aos discípulos a
notícia central da fé cristã: “Cristo vive!”
O
Papa Francisco, ao elevar a liturgia de Santa Maria Madalena (a 22 de julho) ao
grau de festa, destacou-a como testemunha da Ressurreição e exemplo de
evangelizadora. Nela, a Igreja contempla a força da mulher que, tendo sido
curada e amada, se torna enviada.
A
frase “eu vou buscá-lo” pode ser aplicada à vida espiritual contemporânea, como
um programa de vida espiritual. Em muitos ambientes, Deus parece ausente. Diante
disso, a espiritualidade de Maria Madalena ensina-nos a dizer: “Eu vou buscá-Lo,
quando a fé esfriar, quando a oração desaparecer, quando a dor confundir a minha
alma, quando a Igreja parecer ferida, quando os pobres forem esquecidos, quando
a esperança parecer morta, quando eu não compreender os caminhos de Deus.
Há
muitas formas de buscar Cristo, hoje. Buscamo-Lo na assembleia eclesial
reunida, na Palavra de Deus, na Eucaristia, na oração, na confissão, na
caridade, no silêncio, na comunidade, nos pobres, nos doentes, nos
encarcerados, nos que sofrem: “Tive fome e destes-Me de comer; tive sede e destes-Me
de beber; era estrangeiro e acolhestes-Me; estava nu e vestistes-Me; enfermo e visitastes-Me;
preso e fostes ver-Me”. (Mt 25,35-36).
A
Madalena revela três dimensões relevantes da força feminina: memória,
cuidado e profecia. Lembra o Senhor, não deixando que a sua vivência com Jesus
seja apagada pela violência da cruz. Vai ao túmulo, porque deseja cuidar do
corpo de Jesus. E torna-se anunciadora da Ressurreição. A sua voz leva aos
discípulos a notícia mais importante da História: “Cristo vive!”. A mulher que
foi ao túmulo para cuidar de um morto retorna como profeta da vida.
Maria
Madalena é imagem da Igreja. Como Madalena, a Igreja também atravessa noites, chora
e interroga-se sobre onde colocaram o seu Senhor, quando a fé parece
obscurecida. Assim, a pergunta de Jesus – “Quem procuras?” – precisa de ressoar
sempre na vida eclesial. Quem a Igreja procura? Procura prestígio e poder ou
procura Cristo Vivo?
Sem
Cristo, a Igreja é instituição vazia, a missão é ativismo, a liturgia é
formalidade, a caridade é filantropia e a palavra perde fogo. Por isso, cada
cristão precisa de aprender com Maria Madalena a dizer: “Eu vou busca-Lo!”
Maria
Madalena ensina-nos que a força feminina do Evangelho é pascal: nasce aos pés
da cruz, atravessa o silêncio do sábado, permanece diante do túmulo e floresce
no anúncio da Ressurreição. Maria Madalena continua a falar à Igreja e ao Mundo.
Quando tudo parecer perdido, quando a fé parecer sepultada, quando o amor
parecer vencido, quando a esperança parecer distante, é preciso escutar,
novamente, a força desta mulher diante do túmulo: “Diz-me onde o puseste, e eu
irei buscá-lo.” E transformar essa frase em oração:
Senhor,
se eu te perdi nos caminhos da vida, eu vou buscar-Te. Se a minha fé esfriou, eu
vou buscar-Te. Se a minha esperança foi ferida, eu vou buscar-Te. Se o meu
coração está a chorar diante de um túmulo vazio, eu vou buscar-Te.”
Quem
ama verdadeiramente não desiste de Deus. E quem procura o Ressuscitado, mesmo
entre lágrimas, acabará por ouvir a sua voz chamando pelo nome.
2026.06.22
– Louro de Carvalho
Sem comentários:
Enviar um comentário