quinta-feira, 23 de julho de 2026

A força e a coragem exemplares de Maria Madalena

 

No Evangelho, a força feminina surge discreta, profunda e decisiva: não como domínio, imposição, conquista de poder, mas como fidelidade, permanência, coragem, maternidade espiritual, escuta, serviço, profecia e testemunho. As mulheres do Evangelho não são meros figurantes na História da Salvação. Participam no caminho de Jesus, acolhem a sua Palavra, servem a sua missão, permanecem ao pé da cruz e são as primeiras testemunhas da Ressurreição. Entre elas, Maria Madalena ocupa um lugar singular. É uma das figuras mais luminosas do Novo Testamento. A sua presença junto ao túmulo vazio, descrita no Evangelho de João, revela admirável força. Chora, procura, permanece e ama. E a cena mostra um dito de enorme intensidade: “Diz-me onde o puseste, e eu irei buscá-lo” (cf. Jo 20,15).

No dito, há uma teologia inteira do amor. A Madalena não sabe onde Jesus está. Não compreende o mistério da Ressurreição. Pensa que terão levado o corpo do Senhor, mas dispõe-se a procurá-lo. Não pergunta se terá força. Não calcula os riscos. Não se intimida, ante a impossibilidade. Apenas ama. E por isso, diz: “Eu vou buscá-lo.” Esta força feminina nasce do amor fiel, não se rende à ausência, não foge ante a dor e não aceita a morte como última palavra.

***

Jesus causa uma profunda valorização da mulher. Numa cultura de silenciamento da voz feminina, Ele acolhe, escuta, cura, perdoa, envia e confia missões às mulheres. No Evangelho de Lucas, lê-se que algumas acompanhavam Jesus e os Doze: “Os Doze iam com Ele, e também algumas mulheres que haviam sido curadas de espíritos malignos e enfermidades: Maria, a Madalena, da qual haviam saído sete demónios; Joana, mulher de Cusa, administrador de Herodes; Susana e muitas outras, que os serviam com seus bens” (Lc 8,1-3).

O texto mostra que as mulheres não estavam só à margem, a observar de longe, mas participavam na missão: ajudavam, serviam, sustentavam, caminhavam com Jesus. Entre elas, aparece Maria Madalena, profundamente tocada pela misericórdia do Senhor. A saída de sete demónios indica libertação radical. O número sete, na linguagem bíblica, indica totalidade. Assim, a Madalena é a mulher profundamente restaurada de todos os males, e a sua força nasce da experiência da misericórdia. Quem foi levantado por Cristo sabe permanecer com Ele.

As mulheres aparecem e permanecem junto da cruz, quando muitos discípulos se dispersam: “Estavam ali muitas mulheres, olhando de longe; tinham seguido Jesus, desde a Galileia, prestando-lhe serviços” (Mt 27,55). “Estavam ali também algumas mulheres, olhando de longe. Entre elas, Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago menor e de José, e Salomé. Elas seguiam-No e serviam, quando Ele estava na Galileia” (Mc 15,40-41). “Junto à cruz de Jesus estavam a sua mãe, a irmã de sua mãe, Maria de Cléofas, e Maria Madalena” (Jo 19,25).

Aqui aparece uma das dimensões profundas da força feminina: a capacidade de permanecer, tudo parecendo perdido. Elas não impedem a crucifixão, mas permanecem. Não têm poder político para salvar Jesus, mas estão. Não podem retirar os cravos, mas sustentam com presença, com lágrimas e com amor. É uma força não barulhenta, mas de presença corajosa.

***

A Madalena não pode ser compreendida, só a partir do túmulo vazio. Para a entender, é de recordar que fez caminho com Jesus. Foi libertada, acompanhou-O, esteve junto à cruz, viu onde o corpo foi colocado e voltou ao túmulo. Não abandona o Senhor. Está presente na paixão, na sepultura e na manhã da Ressurreição. Viu onde Jesus foi colocado: “Maria Madalena e Maria, mãe de José, observavam onde ele era colocado” (Mc 15,47). Foi ao túmulo com outras mulheres: “Passado o sábado, Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago, e Salomé compraram perfumes para ungir o corpo de Jesus” (Mc 16,1). E, no Evangelho de João, a sua presença é mais pessoal: “No primeiro dia da semana, Maria Madalena foi ao túmulo de madrugada, quando ainda estava escuro, e viu que a pedra tinha sido retirada do túmulo” (Jo 20,1).

A expressão “quando ainda estava escuro” tem valor simbólico. Era noite fora e no coração de Maria, que deambulava na escuridão da perda, da dor, da incompreensão. Porém, foi. A fé nem sempre começa com clareza, mas com um passo no escuro. A Madalena vai ao túmulo, porque ama. O amor move-a, antes da compreensão. A sua fidelidade leva-a ao lugar onde o mistério será revelado. Ela é a imagem do coração inquieto de que fala Santo Agostinho, ao comentar a busca de Deus, afirmando que o coração humano permanece inquieto, enquanto não repousa no Senhor. Ela não se contenta com explicações. Não se satisfaz com a ausência. Não aceita que tudo terminou. Busca Aquele que dá sentido à sua vida. A sua força está nessa busca. Não se acomoda, ante do vazio. Vê o túmulo aberto, vê a ausência do corpo, vê os sinais, mas procura. Quem ama não desiste ao primeiro sinal de perda.

O Evangelho de João narra: “Maria estava do lado de fora do túmulo, chorando. Enquanto chorava, inclinou-se para olhar dentro do túmulo” (Jo 20,11) – uma imagem humana. Está do lado de fora e chora. Este choro não é fragilidade negativa. Na Bíblia, o choro é, por vezes, a linguagem da alma. As lágrimas expressam dor, amor, saudade, impotência e esperança. E algumas não significam falta de fé, mas profundidade do amor. Jesus chorou diante do túmulo de Lázaro: “Jesus chorou” (Jo 11,35). Se o Filho de Deus chora, as lágrimas não são sinal de fraqueza espiritual: podem ser lugar de encontro com Deus. E a Madalena chora, porque perdeu o Senhor. O seu pranto exprime o amor fiel.

A força feminina irrompe: não nega a dor; não finge estar bem; não espiritualiza a perda de modo superficial. Chora, mas não fica paralisada. Inclina-se para olhar para dentro do túmulo. Há movimento na dor. Há busca no pranto. Essa atitude é significativa: chora, mas procura. Maria Madalena representa a força feminina que não precisa de negar a própria sensibilidade para ser forte. A sensibilidade é parte da força. Ela ama com profundidade. E quem ama profundamente sofre profundamente. O amor que sofre é capaz de ir além. Maria olha para dentro do túmulo e vê dois anjos vestidos de branco e sentados onde estivera o corpo de Jesus, um à cabeceira e outro aos pés. E perguntam: “Mulher, por que choras?” (Jo 20,13). O céu interessa-se pelas lágrimas de Maria. Deus não despreza o sofrimento. A dor da mulher diante do túmulo é acolhida pela pergunta dos anjos, que não a repreendem. E a resposta revela o coração: “Levaram o meu Senhor, e não sei onde o puseram” (Jo 20,13).

Não diz que levaram o corpo, mas: “Levaram o meu Senhor”. Esta frase mostra intimidade, pertença, amor. Jesus não é lembrança distante. Ele é “o meu Senhor”. Maria fala tem uma relação pessoal com Cristo. A espiritualidade cristã nasce dessa relação pessoal. Jesus não é só doutrina a estudar, tradição a preservar ou personalidade religiosa a admirar. É o Senhor vivo, amado, procurado, seguido.

São Gregório Magno vê, em Maria Madalena, o ardor da alma que ama. Ela procura o Senhor e, porque procura com amor, torna-se digna de O anunciar. A busca de Maria é pedagógica para a Igreja: quem deseja anunciar Cristo precisa de O amar e de O procurar. Maria não se impressiona com os anjos. Eles aparecem diante dela, mas o coração dela está voltado para Jesus. Os sinais, as consolações e as experiências espirituais são importantes, mas nada substitui o Senhor. Maria não quer só experiências religiosas; quer Cristo.

O texto joânico prossegue: “Dito isto, voltou-se para trás e viu Jesus de pé, mas não sabia que era Jesus” (Jo 20,14). Esta cena revela uma verdade espiritual profunda: às vezes, Jesus está perto, mas a dor impede os olhos de O reconhecerem. Ela vê-O, mas não sabe que é Ele. A ausência que sente é tão forte que não percebe a Presença diante de si. Isto sucede connosco!

Então, Jesus pergunta: “Mulher, por que choras? Quem procuras?” (Jo 20,15). À pergunta dos anjos Jesus acrescenta: “Quem procuras?” É a pergunta central da vida cristã. Procuramos apenas soluções ou procuramos o Senhor? Maria responde, pensando que Jesus era o jardineiro: “Senhor, se foste tu que o levaste, diz-me onde o puseste, e eu irei buscá-lo” (Jo 20,15).

A resposta de Maria é uma das mais belas expressões de amor. Ela está diante de um suposto jardineiro. Acredita que o corpo de Jesus foi retirado. Não sabe onde está, mas declara a sua disposição: “Eu irei buscá-lo”. Essa frase parece humanamente impossível. Maria não poderia carregar, sozinha, o corpo de Jesus, e seria duramente criticada. Porém, o amor não começa pelo cálculo, mas pela entrega. Maria não diz que não pode fazer nada, não pede ajuda, nem pede que avisem os discípulos. Diz que O vai buscar. Esta é a força feminina segundo o Evangelho: a força de quem, ante o impossível, não abandona o amor.

A frase de Maria é legível a vários níveis. Expressa o amor pessoal por Jesus, pois Maria deseja encontrar o Senhor, de modo que o seu coração não aceita a ausência. Expressa coragem, manifesta na disposição de agir, de procurar, de encontrar e de trazer de volta. Expressa fidelidade, pois, mesmo quando Jesus parece morto, desaparecido ou perdido, Maria continua a pertencer-Lhe. E expressa uma dimensão profundamente eclesial, porque Maria é figura da Igreja que procura Cristo, enquanto o Mundo tenta escondê-lo. Ou seja, representa a comunidade dos discípulos, que não aceita viver sem o seu Senhor.

“Eu vou buscá-lo” é a frase da Igreja missionária, que sai à procura de Cristo nos pobres, nos feridos, nos esquecidos, nos afastados, nos que perderam a fé, nos que estão nos sepulcros da dor.

Buscar Cristo, portanto, é também buscar os irmãos. Quem diz “eu vou buscá-lo” precisa de estar disposto a encontrar Cristo onde Ele se deixa encontrar: nos pobres, nos doentes, nos abandonados, nos que choram, nos que foram esquecidos.

O sepulcro é o lugar onde tudo parece terminar, mas, para Maria, é lugar de busca. O “sim” de Maria de Nazaré abriu espaço para a Encarnação. O “eu vou buscá-lo” de Maria Madalena anuncia a força da discípula que não abandona o Senhor. Uma acolhe o Verbo no seu ventre; a outra procura-O no jardim da Ressurreição. Ambas revelam a força feminina como disponibilidade radical diante de Deus. Maria Madalena não aceita o sepulcro como a palavra final. A sua busca antecipa a missão da Igreja: anunciar que a morte foi vencida. Essa capacidade aparece, de maneira luminosa, em Maria Madalena, cuja vida se tornou anúncio de que o amor de Deus reergue, cura, envia e transforma.

***

O momento decisivo acontece quando Jesus diz o seu nome: “Jesus lhe disse: Maria! Ela voltou-se e exclamou. em hebraico: Rabuni!, que quer dizer: Mestre” (Jo 20,16). Maria, que não havia reconhecido Jesus, viu-O, ouviu a sua voz. Tudo muda, quando Ele a chama pelo nome. Maria é a ovelha que reconhece o Pastor quando Ele a chama pelo nome. A voz do Ressuscitado atravessa a dor e desperta a fé. A mulher que procurava um corpo morto encontra o Senhor vivo. E não encontra Jesus apenas, porque O procura, mas, sobretudo, porque Ele a chama. A iniciativa última é sempre da graça. Também nós procuramos Deus, porque, primeiro, fomos procurados por Ele. “Nós amamos, porque Ele nos amou primeiro” (1Jo 4,19).

Maria Madalena ensina que a busca humana e a graça divina se encontram. O coração procura, mas é Deus quem se revela. O amor caminha, mas é Cristo quem chama pelo nome.

Depois do encontro, Jesus envia Maria: “Vai a meus irmãos e diz-lhes: Subo para meu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus” (Jo 20,17). E Maria Madalena anuncia: “Eu vi o Senhor” (Jo 20,18). Aqui está a plenitude da sua missão. A mulher que chorava diante do túmulo torna-se anunciadora da Ressurreição. A mulher que procurava Jesus torna-se testemunha do Cristo vivo. A mulher que dizia “eu vou buscá-lo”, agora, proclama: “eu vi o Senhor”. Por isso, a tradição cristã a chamou de “apóstola dos apóstolos”, porque foi enviada pelo próprio Ressuscitado para anunciar aos discípulos a notícia central da fé cristã: “Cristo vive!”

O Papa Francisco, ao elevar a liturgia de Santa Maria Madalena (a 22 de julho) ao grau de festa, destacou-a como testemunha da Ressurreição e exemplo de evangelizadora. Nela, a Igreja contempla a força da mulher que, tendo sido curada e amada, se torna enviada.

A frase “eu vou buscá-lo” pode ser aplicada à vida espiritual contemporânea, como um programa de vida espiritual. Em muitos ambientes, Deus parece ausente. Diante disso, a espiritualidade de Maria Madalena ensina-nos a dizer: “Eu vou buscá-Lo, quando a fé esfriar, quando a oração desaparecer, quando a dor confundir a minha alma, quando a Igreja parecer ferida, quando os pobres forem esquecidos, quando a esperança parecer morta, quando eu não compreender os caminhos de Deus.

Há muitas formas de buscar Cristo, hoje. Buscamo-Lo na assembleia eclesial reunida, na Palavra de Deus, na Eucaristia, na oração, na confissão, na caridade, no silêncio, na comunidade, nos pobres, nos doentes, nos encarcerados, nos que sofrem: “Tive fome e destes-Me de comer; tive sede e destes-Me de beber; era estrangeiro e acolhestes-Me; estava nu e vestistes-Me; enfermo e visitastes-Me; preso e fostes ver-Me”. (Mt 25,35-36).

A Madalena revela três dimensões relevantes da força feminina: memória, cuidado e profecia. Lembra o Senhor, não deixando que a sua vivência com Jesus seja apagada pela violência da cruz. Vai ao túmulo, porque deseja cuidar do corpo de Jesus. E torna-se anunciadora da Ressurreição. A sua voz leva aos discípulos a notícia mais importante da História: “Cristo vive!”. A mulher que foi ao túmulo para cuidar de um morto retorna como profeta da vida.

Maria Madalena é imagem da Igreja. Como Madalena, a Igreja também atravessa noites, chora e interroga-se sobre onde colocaram o seu Senhor, quando a fé parece obscurecida. Assim, a pergunta de Jesus – “Quem procuras?” – precisa de ressoar sempre na vida eclesial. Quem a Igreja procura? Procura prestígio e poder ou procura Cristo Vivo?

Sem Cristo, a Igreja é instituição vazia, a missão é ativismo, a liturgia é formalidade, a caridade é filantropia e a palavra perde fogo. Por isso, cada cristão precisa de aprender com Maria Madalena a dizer: “Eu vou busca-Lo!”

Maria Madalena ensina-nos que a força feminina do Evangelho é pascal: nasce aos pés da cruz, atravessa o silêncio do sábado, permanece diante do túmulo e floresce no anúncio da Ressurreição. Maria Madalena continua a falar à Igreja e ao Mundo. Quando tudo parecer perdido, quando a fé parecer sepultada, quando o amor parecer vencido, quando a esperança parecer distante, é preciso escutar, novamente, a força desta mulher diante do túmulo: “Diz-me onde o puseste, e eu irei buscá-lo.” E transformar essa frase em oração:

Senhor, se eu te perdi nos caminhos da vida, eu vou buscar-Te. Se a minha fé esfriou, eu vou buscar-Te. Se a minha esperança foi ferida, eu vou buscar-Te. Se o meu coração está a chorar diante de um túmulo vazio, eu vou buscar-Te.”

Quem ama verdadeiramente não desiste de Deus. E quem procura o Ressuscitado, mesmo entre lágrimas, acabará por ouvir a sua voz chamando pelo nome.

2026.06.22 – Louro de Carvalho


Sem comentários:

Enviar um comentário