segunda-feira, 27 de julho de 2026

Islamismo político ameaça a sociedade aberta (?)

 

A televisão pública alemã RBB avançou a notícia de que um jovem de 21 anos, suspeito de ter conduzido um carro contra uma multidão, durante a marcha LGBT (ou CSD) de Berlim, e que, segundo as autoridades alemãs, tinha ligações a “círculos islamistas”, foi alvejado mortalmente pela polícia, em Berlim, a 25 de julho, na sequência de operação policial. O governo federal da Alemanha já classificou o incidente como “atentado terrorista islâmico”.

Segundo a RBB, o cidadão alemão de origem libanesa, foi alvejado no decurso de uma operação policial, num complexo de jardins, em Spandau, na zona OES-Noroeste de Berlim.

Friedrich Merz, da União Democrata-Cristã da Alemanha (CDU), chanceler alemão, já visitou o local da tragédia, o parque Tiergarten, onde depositou flores, acompanhado pelo ministro do Interior, Alexander Dobrindt, da União Social-Cristã na Baviera (CSU), e pela senadora de Berlim, Iris Spranger, do Partido Social Democrata (SPD). E o chanceler prestou homenagem às vítimas do incidente.

Entretanto, no âmbito desta investigação, a polícia de Berlim deteve um homem que se acredita ser do Irão e cujo papel no ataque à Parada do Orgulho não é ainda claro. De acordo com a RBB, esse homem foi acusado de vários crimes, estava sujeito a uma ordem de deportação executável e pode até já ter sido deportado.

O ataque foi perpetrado por volta das 22h00 (hora da Alemanha) de 25 de julho, nas imediações da Potsdamer Platz. Uma mulher morreu no local e, segundo o ministro do Interior, há 29 feridos. Nenhum deles tem a vida em risco, segundo a RBB.

Depois de atropelar várias pessoas no parque Tiergarten, o condutor atacou transeuntes que se encontravam próximos desta área, com uma arma branca (uma faca de mato), mas a polícia anunciou, já depois da meia-noite, que identificou o suspeito como Abdul B.

O porta-voz da polícia, Florian Nath, declarou que “o homem é conhecido pelas autoridades e associado a círculos islamistas em Berlim”. E, segundo a revista Der Spiegel, Abdul B era conhecido como apoiante do autoproclamado Estado Islâmico (EI), mesmo antes deste ataque, e já era visto como uma ameaça.

O homem terá tentado juntar-se ao EI, em 2025, mas a tentativa foi em vão. Após regressar do Líbano, foi detido na Alemanha e colocado em prisão preventiva, tendo sido libertado de um centro de detenção para jovens, em maio deste ano.

Alexander Dobrindt descreveu o sucedido como “um ataque cobarde e abjeto contra pessoas que festejavam pacificamente, acrescentando: “Choca-me profundamente.”

Friedrich Merz descreveu o atentado em Berlim como um “ato abominável”. “Centenas de milhares de pessoas de todo o Mundo celebravam, pacificamente, o Christopher Street Day (CSD). Queriam que os tratássemos bem e com tolerância uns aos outros. Isso é um ataque à nossa sociedade”, escreveu Merz, na rede social X.

O desfile do Orgulho foi interrompido imediatamente após o ataque.

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O CSD consiste em eventos anuais de orgulho LGBTQ+ realizados na Alemanha e na Suíça, entre junho e agosto. Os eventos de CSD mais proeminentes são o Berlin Pride, o CSD de Hamburgo e o CSD de Colónia, na Alemanha, e o CSD de Zurique, na Suíça.

O CSD é realizado em memória das revoltas de Stonewall, o primeiro grande levantamento de pessoas LGBT contra agressões policiais, ocorrido no Stonewall Inn, um bar na Christopher Street no bairro de Greenwich Village, em Manhattan, em Nova Iorque, nos Estados Unidos da América (EUA), a 28 de junho de 1969.

A 27 de junho de 1970, marchas em Chicago e em São Francisco, nos EUA, marcaram o primeiro aniversário de Stonewall; e, no dia seguinte, ocorreram a Christopher Street Liberation Day Parade, em Nova Iorque, e a Christopher Street West Association Parade, em Los Angeles. Esses quatro eventos foram as primeiras paradas do orgulho LGBT, na História dos EUA. Para atender aos interesses dos diversos grupos participantes, o Comité do Christopher Street Liberation Day denominou o período que antecedeu a marcha como “Semana do Orgulho Gay” (“Gay Pride Week”). Agora, o “Mês do Orgulho” é celebrado, internacionalmente, em junho.

O primeiro CSD, na Alemanha, ocorreu em Berlim, a 30 de junho de 1979, reunindo 450 manifestantes. Depois, o evento expandiu-se para outras cidades alemãs.

Atualmente, quase todas as grandes cidades da Alemanha celebram o CSD, sendo os maiores eventos realizados em Berlim (Berlin Pride), em Hamburgo (Hamburg Pride) e em Colónia (Cologne Pride). Quando Colónia sediou o Europride, em 2002, atraiu à cidade 1,4 milhões de participantes e espectadores.

Os eventos do CSD nem sempre ocorrem na data histórica de 27 de junho, mas em diferentes fins de semana, entre junho e agosto. Estes eventos, frequentemente, incluem manifestações, paradas e feiras de rua. Uma parada típica do CSD conta com carros alegóricos e grupos a pé, geralmente, organizados e compostos por membros de organizações LGBT.

Estes eventos revestem-se de uma atmosfera festiva. É comum ver muitas drag queens (rainhas de arrastar: pessoas, geralmente, do sexo masculino com roupa e maquilhagem, para imitar e para exagerar os significantes do género feminino e demais papéis de géneros para entretenimento ou produção artística), muitos drag kings (pessoas do sexo feminino com roupas masculinas, com intenção idêntica às drag queens) e outras pessoas com trajes coloridos. Também costumam participar entusiastas de BDSM. Além da parada e dos atos de encerramento, muitas cidades oferecem dias ou até semanas inteiras de festivais de rua e de eventos culturais, incluindo apresentações artísticas, atos políticos, palestras, leituras, festas e outras celebrações.

O BDSM (bondage, disciplina, sadismo, masoquismo) é a sigla que abarca um conjunto de práticas de estimulação sexual consensuais, envolvendo bondage (prender, amarrar e/ou restringir, consensualmente, o parceiro para fins estéticos, eróticos e/ou sensoriais), disciplina, dominação, submissão, sadomasoquismo e outros tipos de comportamento sexual humano associados a esta subcultura.

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O ministro alemão do Interior confirmou, a 26 de julho, que uma mulher foi morta no ataque à marcha LGBT de Berlim (CSD), na noite do dia 25, e que ficaram feridas 29 pessoas, algumas em estado grave, e várias com a vida em risco. Nas imediações do evento, no chamado Tiergarten, um automóvel abalroou uma multidão, o que levou à interrupção do evento.  

Como explicou Alexander Dobrindt, numa declaração, no local do crime, no início da tarde do dia 26, o presumível autor não utilizou só a carrinha como arma, também avançou sobre pessoas com uma faca de mato. O governante afirmou estar “sem palavras e profundamente abalado”.

De acordo com o presidente da câmara de Berlim, Kai Wegner, o ataque ocorreu fora do percurso oficial do CSD. O trajeto da manifestação não terá sido diretamente afetado. Porém, a escassas centenas de metros estavam reunidas numerosas pessoas que regressavam do evento ou que ali permaneciam.

Segundo um porta-voz do hospital Charité, citado pela agência noticiosa alemã DPA, quatro feridos já tiveram alta. Outros quatro continuam internados em cuidados intensivos, embora nenhum esteja com a vida em risco.

Na tarde do dia 26, o chanceler federal Friedrich Merz participou numa missa pelas vítimas e respetivos familiares, na igreja de St. Marien, na Alexanderplatz, em Berlim. Além do chanceler, estiveram presentes a ministra da Educação, Karin Prien, da CDU, e a ministra da Justiça, Stefanie Hubig, do SPD.

Antes da celebração, o chanceler prometeu “defender a liberdade” e não permitir que “este veneno do terrorismo e este veneno contra a nossa liberdade continue a espalhar-se na sociedade” alemã. E anunciou que fará tudo para deter, o mais rapidamente possível, o autor ou os autores do ataque. Acrescentou que o governo federal irá, depois, analisar as consequências do atentado e tomar as decisões adequadas, agindo com prudência, mas com determinação. E sublinhou que a liberdade da sociedade será defendida, independentemente das diferenças partidárias.

O suspeito, Abdul B., cidadão alemão de 21 anos com origens libanesas, continua em fuga. Segundo Dobrindt, a partir de investigações do jornal Süddeutsche Zeitung (SZ), do canal de televisão franco-alemão ARD-NRD e da televisão pública Westdeutscher Rundfunk (WDR), o jovem, nascido em 2005, na Alemanha, era conhecido das autoridades por várias infrações penais.

De acordo com essas informações, os serviços de segurança classificaram-no como radicalizado e predisposto à violência, tendo tentado viajar para a Síria, para se juntar à organização terrorista “Estado Islâmico” (EI). Acrescenta-se que, em 2025, no regresso do Líbano, foi detido no aeroporto de Berlim, por suspeita de preparar um crime de terrorismo. Permaneceu em prisão preventiva, até maio deste ano.

Segundo o diário Die Welt, o presumível autor devia participar numa consulta de desradicalização. Ainda não estava decidido se o jovem de 21 anos seria integrado, de forma permanente, no programa, visto que se encontrava na fase de avaliação, em que se analisa se um acompanhamento mais intensivo é adequado.

Até agora, tinham ocorrido apenas duas conversas, e outra estava prevista para a semana seguinte. As sessões realizavam-se, numa primeira fase, de forma voluntária. De acordo com estes relatos, Abdul B. terá parecido educado e cooperante, perante os conselheiros, mas surgiram dúvidas sobre se estaria realmente disposto a envolver-se no processo de desradicalização. Numa publicação, na plataforma X, a polícia de Berlim apelou a que ninguém se aproxime do presumível autor do ataque, uma vez que poderá estar armado e ser perigoso.

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René Powilleit, presidente estadual de Berlim da associação “Lésbicas e Gays na União” (LSU), uma organização política especial dentro da CDU, a 26 de julho, na Euronews, escreveu que o atentado contra o Christopher Street Day, em Berlim, alegadamente cometido por um islamista, “é um ataque à sociedade livre ocidental”.

A este respeito, em artigo intitulado “Governo alemão: ataque em marcha LGBT de Berlim foi ‘atentado terrorista islâmico’”, publicado pela Euronews, em 26 de julho, Johanna Urbancik e Donogh McCabe escreveram: “O que começou como um dia de alegria, de liberdade e de amor no coração da nossa capital transformou-se, ao anoitecer, numa tragédia inimaginável. Centenas de milhares de pessoas celebravam o Christopher Street Day de Berlim (CSD Berlim), até que um alegado atentado islamista com uma carrinha abriu uma faixa de destruição no Tiergarten. Uma mulher perdeu a vida, muitas outras pessoas ficaram feridas, algumas em estado grave.”

Mais adiante, sublinharam que esta mudança “da alegria despreocupada para uma profunda tristeza, choque e medo” representa, “para a comunidade lésbica, gay, bissexual, trans e queer”, o desmoronamento da certeza fundamental de que “o espaço público, que deveria oferecer proteção, tornou-se, agora, um perigo mortal”.

É certo que a vida desta comunidade, em Berlim, já estava, há muito, sob pressão de extremistas e de islamistas, mas o atentado marca “nova e terrível dimensão”, a ponto de muitos levantarem a dolorosa questão se ainda podem defender, tranquilamente, naquela cidade, “os seus direitos e a sua identidade”. Porém, no dizer dos jornalistas, a solução não está no recuo, “mas o medo é palpável e o sentimento de segurança ficou profundamente abalado”. Não obstante, defendem a validade do princípio: “O nosso amor é mais forte do que qualquer ódio.”

Já em 2021, em Dresden, um casal gay foi atacado por um islamista, e uma pessoa morreu. Isto aconteceu no contexto da “radicalização gradual” e a da “crescente incitação ao ódio contra pessoas queer”, alimentada por círculos de extrema-direita e por meios islamistas.

Consideram os jornalistas que, ante a passividade geral (negligente e irresponsável), estes focos ideológicos crescem. Não se trata de “casos isolados”, mas de “um clima em que ideologias radicais prosperam e atacam, deliberadamente, sociedades abertas”. Por isso, julgam urgente promover “debates honestos”, pois a democracia “implica exigência”, postulando, agora, uma “posição clara”, também a partir das “fileiras da comunidade queer”.

A dor e a solidariedade com as vítimas e com os seus familiares exigem ação com todo o rigor da lei, não bastando “ficar pela retórica da comoção sem consequências”. Ninguém pode abusar da proteção da “ordem democrática e livre para espalhar medo e terror”. Por consequência, os jornalistas entendem que “o Estado de direito deve usar todos os instrumentos de que dispõe, analisar implicações para o estatuto de integração e de residência, vigiar, de forma contínua, pessoas consideradas perigosas e, se necessário, expulsá-las”.

Não se pode confundir a crítica ao islamismo com hostilidade contra o Islão. Todavia, os críticos do islamismo político não estão, necessariamente, contra o islão, enquanto fenómeno religioso. Até podem ser adeptos do diálogo inter-religioso e ecuménico.

O artigo em referência, em nome da necessidade de “encarar a realidade”, aponta o islão político como “uma das maiores ameaças ao nosso modo de convivência ocidental, liberal e livre”, o que postula a “necessária discussão honesta e firme sobre esta ideologia e o fim de qualquer ingenuidade e de apoio a estruturas islamistas, na Alemanha”.

E termina com um enunciado patriótico: “Berlim é e continuará a ser uma cidade da liberdade. Mas a liberdade não se mantém por si: tem de ser defendida contra quem quer que a procure destruir.”

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O episódio em referência, como tantos outros do mesmo jaez, é condenável, a todos os títulos. Se não é tolerável o ferimento ou o assassinato de uma pessoa, muito menos o é o ferimento em massa e a matança de pessoas reunidas em assembleia de salão ou de praça (beco, travessa, rua ou avenida). A vida, a integridade física e a liberdade de expressão de associação e de reunião são, em países civilizados, direitos fundamentais.

Obviamente, são de aplaudir as asserções atinentes ao primado do amor contra todo o ódio e aos valores da democracia expressos no artigo de Johanna Urbancik e de Donogh McCabe, tal como se espera que a aplicação dos mesmos a todas as pessoas e a todos os grupos humanos. Todavia, parece que o artigo revela alguma tendência para a exclusão. Com efeito, é de punir, de forma proporcionada os crimes, mas é proteger todas as pessoas e grupos, se forem objeto de perseguição, mesmo que tenham abusado da proteção que a democracia propicia (“abusus non tollit usum”: “o abuso não tira o uso”). E o islamismo político, como qualquer outra ideologia política) combate-se politicamente, não pela repressão.  

Será que os Estados democráticos não conseguem, pela via democrática, nomeadamente, a via judicial, prevenir, combater e punir os crimes? Necessitarão de reprimir?

                                                                                                                                                                                                                              2026.07.26 – Louro de Carvalho

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