terça-feira, 28 de julho de 2026

Portugal não está isolado na correção digital dos exames, mas no falhanço

 

As diversas falhas verificadas na primeira experiência portuguesa de correção digital dos exames nacionais reacenderam o debate sobre a digitalização da avaliação. Portugal não é caso isolado na digitalização, mas parece que o estará nas múltiplas falhas, sobretudo, pela teimosia em errar e tentando fazer as coisas à pressa, sem aprender com os erros e com as críticas. 

A este respeito, a 25 de julho, em artigo intitulado “Portugal tropeçou na correção digital dos exames. O que fizeram os outros países?”, publicado no ECO online, Fátima Castro e Leonor Gonçalves explicitam o que se passa em vários países que “reformularam os seus sistemas de exames, seguindo ritmos e modelos distintos”. A Finlândia “demorou anos a concluir a transição para exames totalmente digitais”. A França mantém as provas em papel e só digitaliza a classificação, num modelo semelhante ao nosso. E a Suécia decidiu adiar a implementação, depois de um projeto-piloto ter sofrido falhas técnicas.

Não há, pois, um modelo único para digitalizar exames nacionais. A maioria dos países optou por processos graduais, com fases de testes, de adaptação tecnológica e de formação de professores, antes da generalização do sistema. Em Portugal, mantiveram-se as provas em papel e passou a fazer-se a classificação digital, mobilizando uma plêiade de trabalhadores para, a nível central, procederem à digitalização das provas (da maior parte das disciplinas, ficando de fora as de cariz artístico ou técnico) para o formato PDF, e convocando professores classificadores para avaliarem os itens de resposta, através de acesso à respetiva plataforma.

A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) aponta a Finlândia como um dos exemplos mais avançados de digitalização dos exames nacionais. A reforma começou em 2012, com o desenvolvimento da plataforma a Abitti pelo Matriculation Examination Board (YTL), entidade responsável pelos exames nacionais do ensino secundário.

Depois de quatro anos de preparação, os primeiros exames digitais realizaram-se em 2016, nas disciplinas de Geografia, de Filosofia e de Alemão. O processo foi alargado, progressivamente, até 2019, quando todos os exames nacionais passaram a decorrer em formato digital.

A implementação deste modelo, como acentuam as jornalistas, foi acompanhado, de perto, por Jaime Carvalho e Silva, professor de Matemática da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC), que a recomendou, quando participou na auditoria à primeira prova de aferição digital realizada em Portugal, em 2018, a de Matemática do 8.º ano, visto que a experiência finlandesa funcionava bem. “Conheço o caso da Finlândia, que tem os exames totalmente digitais e que acompanhei, ao longo dos anos, quando o sistema começou a ser testado, implementado e generalizado. Agora, todos os exames finais do ensino secundário são em formato digital”, explicou ao ECO Jaime Carvalho e Silva.

Na ótica do professor da UC, o sucesso do modelo não resulta só da tecnologia utilizada, mas, sobretudo, da preparação feita, ao longo de vários anos. Na Finlândia, professores e alunos tiveram tempo para se adaptarem ao sistema e utilizam a mesma plataforma no processo de ensino, o que reduz o impacto da realização dos exames.

Apesar de a Finlândia ser um dos casos mais avançados de digitalização dos exames nacionais, outros países optaram por ritmos e por modelos distintos.

As jornalistas referem que, na Estónia, a transição continua em curso. Segundo o Conselho de Educação e Juventude (HARNO), os exames nacionais de língua estoniana e de línguas estrangeiras decorrem em formato digital, prevendo-se a extensão do modelo a outras disciplinas, até 2027. A realização das provas é suportada pelo Sistema de Informação para Exames (EIS), a plataforma nacional que gere a aplicação e a classificação dos exames.

A Nova Zelândia avança de forma gradual. A New Zealand Qualifications Authority (NZQA), responsável pelos exames, permite que as escolas adiram ao modelo digital, à medida que reúnem as condições técnicas. A transição não é feita, em simultâneo, para todas as disciplinas ou para todos os estabelecimentos de ensino, para reduzir os riscos da implementação.

A França optou por uma solução intermédia. Desde 2021, os alunos continuam a realizar os exames nacionais em papel, mas as folhas de resposta são digitalizadas pelas escolas e corrigidas online, através da plataforma Cyclades, desenvolvida pelo Ministério da Educação. O sistema permite aos professores corrigir, anotar e validar as provas digitalmente, reduzindo o risco de perda das folhas de resposta e simplificando a gestão do processo.

A experiência da Suécia mostra que a transição para exames digitais pode enfrentar obstáculos. Em 2017, a Agência Nacional Sueca para a Educação (Skolverket) recebeu do governo a missão de desenvolver uma solução para introduzir, gradualmente, exames nacionais digitais. Durante o desenvolvimento do modelo, foram identificados problemas técnicos na plataforma e uma falha conexa com a proteção de dados pessoais, que permitiu, em alguns casos, o acesso a dados de alunos por utilizadores que não deveriam ter essa permissão. Não obstante, a digitalização dos exames continuou a ser uma prioridade para o governo. E, em abril de 2025, de acordo com o jornal Swden Herald, foi anunciado o reforço de 82 milhões de euros ao investimento já realizado no desenvolvimento da plataforma, que rondava os 700 milhões de euros.

Porém, em fevereiro deste ano, a Skolverket anunciou que, até novo aviso, os testes nacionais continuariam a ser realizados em papel. O trabalho para introduzir a correção centralizada de exames digitais continuará, mas a implementação precisa de ser adaptada, para o que será apresentado um novo plano de implementação acompanhado por um calendário revisto.

Ao contrário da Finlândia, Portugal não avançou para a realização dos exames nacionais em formato digital. Os alunos continuaram a responder às provas em papel, mas cerca de 300 mil provas de exame do ensino secundário (11.º e 12.º anos), bem como as provas finais nacionais do 9.º ano, foram digitalizadas para classificação.

A 1.ª fase ficou marcada por vários constrangimentos técnicos. As falhas na digitalização das folhas de resposta e no processo de classificação (largamente denunciadas na comunicação social) obrigaram ao adiamento da divulgação das notas, à revisão de milhares de provas, devido a erros na parametrização das atrizes de classificação, ao adiamento do arranque da 2.ª fase e ao estabelecimento de uma fase especial em setembro.

A primeira experiência de digitalização de exames nacionais, em maior escala, ocorreu em 2025, com o de Filosofia do 11.º ano, para 23473 alunos. Questionado sobre falhas apontadas pelo ex-presidente do Júri Nacional de Exames (JNE), o ministro da Educação, Ciência e Inovação (MECI) disse que a informação à tutela foi de que o piloto “decorreu sem problemas de maior”; negou que a reforma é feita sem planeamento; e afirmou que a OCDE aceitou acompanhar e avaliar a transformação do sistema educativo português.

Na ótica do MECI, os principais problemas identificados estiveram relacionados com o software, nomeadamente, com a forma como a plataforma interagia com os classificadores. No entanto, defende que a decisão de manter os exames em papel evitou riscos acrescidos para os alunos, como falhas de conectividade ou interrupções de energia, durante a realização das provas. E, tendo a Suécia recuado na feitura digitados exames, que era o que estava decidido, em Portugal, em 2024, ele não teve dúvidas de que “isso era um risco enorme”.

Segundo o governante, os erros registados na Suécia resultaram, sobretudo, de o processo de digitalização das provas ter sido feito de forma descentralizada, em cada escola, e não de forma centralizada, como em Portugal; e, apesar das falhas, uma das vantagens do modelo digital é permitir identificar erros, com maior rapidez e com transparência.

Questionado sobre a possibilidade de os mesmos problemas se repetirem na 2.ª fase, Fernando Alexandre admitiu que o processo poderia ser abandonado, voltando-se ao papel, mas “seria um falhanço muito grande para o sistema educativo”.

Para Jaime Carvalho e Silva, as falhas registadas não devem servir de argumento para abandonar a digitalização dos exames, mas para corrigir os problemas identificados e aperfeiçoar o modelo. “Se é digital, mas, na realidade, é uma cópia do papel, o digital é um pouco ilusório”, afirmou, sustentando que a digitalização só faz sentido, se permitir avaliar competências que os alunos irão utilizar no ensino superior e no mercado de trabalho. E o docente lamenta que Portugal tenha aproveitado a digitalização, só para alterar o processo de classificação, sem introduzir mudanças mais profundas no modelo de avaliação, como sucedeu na Finlândia.

Joana Andrade, especialista em métrica de exames, sublinha a complexidade desta transição, frisando que o Reino Unido iniciou a digitalização da correção dos exames, em 2005, e levou vários anos a consolidar o processo. A este respeito, observou: “Estamos a ver apenas a ponta do iceberg, que é a plataforma. Na verdade, este é um processo extremamente complexo, que exige uma logística, uma organização e uma articulação muito consideráveis. Quando uma das partes falha, é como uma fila de dominós: começa tudo a cair.”

O relatório “OECD Digital Education Outlook 2023” releva que a implementação de exames digitais exige forte “aceitação do risco”, que algumas falhas são inevitáveis, durante a transição, e que parte da aprendizagem resulta da lógica de “aprender fazendo”, como revelam as experiências da Finlândia, de Israel e da Nova Zelândia. O desafio, segundo os especialistas, passa por garantir que os problemas identificados na primeira experiência servem para corrigir o modelo, e não para interromper um processo que outros países demoraram anos a construir. E é importante garantir que nenhum aluno será prejudicado e aprender com o sistema deste ano para que, no próximo, não haja nenhum problema e tudo funcione bem, porque a avaliação digital é uma evolução desejável.

Entretanto, ainda com trabalhos atinentes à 1.ª fase (15 mil pedidos de reapreciação de provas e com 170 alunos que não conhecem as notas dos seus exames), a 2.ª fase mostra falhas na plataforma a que os professores classificadores têm acesso. O JNE está a pedir aos professores que alterem as férias – o que só os diretores podem fazer, dando a ordem por escrito, para haver direito à compensação – ou que levem o computador para férias, para poderem classificar provas. E o Ministério da Educação criou uma ferramenta na plataforma, utilizada para consulta das provas em PDF nas escolas, na qual os diretores podem indicar a disponibilidade dos docentes e, em caso de férias ou de baixa médica, indicam o substituto. Também isso falha!      

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O Partido socialista (PS) enviou, a 24 de julho, ao governo um conjunto de perguntas sobre a classificação digital dos exames, após o líder parlamentar, Eurico Brilhante Dias, ter admitido avançar com uma comissão parlamentar de inquérito (CPI), se o Executivo, até ao início de setembro, não esclarecer as falhas registadas. O PS sustenta que o governo avançou para a generalização da classificação digital, apesar dos problemas identificados no projeto-piloto de 2025, e alega que o executivo tinha os conhecia.

Sobre o processo de decisão política que levou à classificação digital, pergunta: qual o fundamento técnico da decisão; qual a fundamentação para anunciar a generalização, a 11 de setembro, sem informação dos problemas ou ocultando-a; que alertas foram emitidos por estruturas envolvidas no processo de avaliação; porque e com que critérios se abandonou o caminho gradual de provas digitais para o modelo de classificação digital.

Quanto às opções técnicas deste ano, o PS pergunta em que se baseou o ministro para afirmar que não havia problemas com a digitalização, nem com a logística, apenas com a programação; em que se baseou para dizer que não havia atrasos na distribuição de itens; se os atrasos se deveram a agrafos nos QR Code e em quantas provas; em que evidência se baseou para afirmar que os problemas reportados pelos professores eram falsos; se houve provas que ficaram nas escolas e não foram entregues às forças de segurança; se os diretores cometeram erros na constituição da bolsa de classificadores; se há evidências de resistência dos professores ou de sabotagem do processo; por que foi constituído apenas um centro de digitalização; como foi salvaguardada a independência das provas, face à intervenção de técnicos, de consultoras e de entidades externas; o que aconteceu no armazém onde as provas estiveram guardadas; porque houve redução do número de agrupamentos de exames; se as falhas afetaram o trabalho dos supervisores de classificação; e quantos processos de averiguação existem.

Quanto às opções contratuais do processo, pergunta-se: porque resistiu o MECI, durante semanas, a revelar o nome das empresas contratadas; porque só refere a Blat, em 2018, e omite as contratações posteriores; quem desenvolveu a plataforma interna do EduQA; quais os valores gastos na plataforma; quais as competências de quem as desenvolveu; que mecanismos de controlo de qualidade foram implementados; que contratos há com a Deloitte associados ao processo; que tarefas tem a Deloitte desempenhado no Ministério da Educação, desde o início das funções deste ministro, e porquê; se, tendo o MECI reduzido em 50% os recursos humanos dos serviços, pode demonstrar que não substitui esses recursos por um outsorcing à Deloitte; por que faz a contratação de mais de um milhão de euros com uma empresa para a classificação digital e resolve avançar para a generalização, sem a empresa ter concluído os trabalhos; qual o cronograma das contratações ligadas ao processo, e qual a justificação para cada opção; se há fracionamento de despesa com estas empresas, incluindo a Deloitte; e como se procedeu às consultas ao mercado.

Quanto à atuação do ministro, pergunta-se que evidências teve para atribuir a culpa a tanta gente; qual foi o seu papel e o do secretário de Estado nas orientações aos serviços; como justifica o ministro ter dito que não havia constrangimentos, que só os houve nos três primeiros dias, que se criaram casos falsos, que o JNE não tinha prestado informações sobre o teste-piloto; porque não cumpriu as datas que se propôs e deixou que as notas fossem divulgadas sem a necessária fiabilidade; quem  deu a ordem ao JNE para homologar as classificações com notas suspensas; e qual base da decisão para manter inalterada a 2.ª fase.

Sobre o impacto nos alunos, pergunta-se como são resolvidas as situações de desigualdade geradas; e como garante o MECI a um aluno que a sua nota de candidatura é justa, face às dos colegas, pois, beneficiando de erros de classificação, não pedirá reapreciação.

Quanto à relação entre este processo e a reforma do MECI, pergunta-se qual o impacto da reforma do MECI nos processos que levaram a esta situação, pondo em causa os 30 anos da fiabilidade do sistema de exames; em que medida a reforma na orgânica dos serviços acautelou a qualidade do desempenho; e por que razão o MECI dirige críticas às orgânicas anteriores, nunca tendo havido um caos semelhante a este.

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O modelo não foi implementado de forma gradual. Não houve testes suficientes, não se aprendeu com os erros, não houve adequada formação de todos os intervenientes e não se fez verdadeira digitalização, até porque esta não está consolidada no processo de aprendizagem. Fará sentido aplicar a digitalização aos exames, se ela for corrente na aprendizagem, mas levando o aluno a ler e a escrever também no papel. Porém, há quem prefira a desalmada tentativa-erro.

2026.07.28 – Louro de Carvalho

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