terça-feira, 21 de julho de 2026

As tartarugas-verdes escaparam da extinção, graças aos seus amigos

 

O número de tartarugas-verdes, outrora ameaçadas de extinção, aumentou 28%, desde os anos 70, apesar das ameaças persistentes à sua população. Assim, a sobrevivência destes répteis foi oficialmente reclassificada de “em perigo” para “pouco preocupante”, devido a décadas de conservação marinha.

A tartaruga-verde, tartaruga-aruanã ou só aruanã (nome científico: Chelonia mydas) é tartaruga marinha da família dos quelonídeos (Cheloniidae), cujp nome se deve à coloração esverdeada da gordura corporal, é o único membro do género Chelonia. A espécie, de grande porte (a maior tartaruga de carapaça dura), está distribuída por todos os oceanos, nas zonas de águas tropicais e subtropicais e de qualquer altitude do Mundo, sendo encontrados os indivíduos, habitualmente, em águas costeiras, em ilhas ou em baías, e encontrados, raramente, em alto-mar, com duas populações distintas: no Oceano Atlântico e no Oceano Pacífico. 

Tem o corpo achatado coberto por grande carapaça, possuindo quatro pares de placas laterais de queratina de coloração verde ou verde-acinzentadas, marrom com manchas negras e amareladas, quando juvenis, e dois grandes pares de nadadeiras. Além disso, a carapaça pode variar para tons em oliva-marrom e preto, no Pacífico Oriental. Ao contrário de outros membros da sua família, como a tartaruga-de-pente (Eretmochelys imbricata) e a tartaruga-comum (Caretta caretta), a tartaruga-verde é, principalmente, herbívora, após entrar na fase adulta, enquanto filhote é, predominantemente omnívora com tendências carnívoras. Os adultos habitam, geralmente, lagoas rasas, alimentando-se, principalmente, de ervas marinhas.

Como outras tartarugas marinhas, migram a longas distâncias, entre as áreas de alimentação e as suas praias de incubação. Muitas ilhas, em todo o Mundo, são conhecidas como ilhas das Tartarugas, por causa da nidificação das tartarugas-verdes das suas praias. As tartarugas fêmeas saem às praias e põem ovos em ninhos que escavam durante a noite. Mais tarde, emergem filhotes em direção à água. Os que sobrevivem alcançam a maturidade sexual ao fim de 20 a 50 anos e vivem até 80 anos em liberdade.

Como espécie ameaçada, assim classificada pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) e pela Convenção sobre o Comércio Internacional das Espécies Silvestres Ameaçadas de Extinção (CITES), a tartaruga-verde é protegida contra a exploração, na maioria dos países. É ilegal a sua recolha ou dano ou matá-la. E muitos países têm legislação para proteger as suas áreas de nidificação. Contudo, as populações de tartarugas ainda estão em perigo, por via de diversas práticas humanas. Em alguns países, as tartarugas e os seus ovos são caçados para alimento. A poluição indireta prejudica as tartarugas, tanto na população como a nível individual. Muitas morrem em consequência de terminarem nas redes de pescadores. E a destruição do habitat é uma grande fonte de perda de praias de nidificação.

O ciclo de vida inclui fases oceânicas e costeiras, sendo na fase oceânica que estes animais se encontram em águas açorianas. Em época de postura, as fêmeas fazem múltiplos ninhos, pondo entre 110 e 130 ovos, por ninho, no Atlântico Norte, dependendo o sexo da descendência da temperatura de incubação (sexo dependente da temperatura). O individuo adulto, em média, exibe tamanho (carapaça) de 90 a 120 centímetros, tem peso médio de 110 a 190 quilos. A forma da carapaça é oval, lisa e larga, sendo a sua cor verde-oliva a castanho-escuro. A cabeça é pequena e arredondada. Apresenta quatro pares de placas laterais, uma unha nas barbatanas anteriores e um par de placas pré-frontais (duas escamas acima dos olhos).

Os indivíduos juvenis passam os primeiros anos em águas oceânicas (associados a correntes e comunidades de Sargassum, no Atlântico Norte, nomeadamente, nos Açores) antes de recrutarem para habitats costeiros. Na fase oceânica, apresentam uma dieta mais oportunista, passando a herbívora, na fase costeira (alimentam-se de ervas marinhas e algas). E migram dos locais de alimentação para os locais de nidificação a cada dois a três anos.

***

Encontradas, como se disse, em águas tropicais e subtropicais em todo o Mundo, a população global de tartarugas-verdes caiu para níveis preocupantes, na década de 1980, devido a anos de caça intensiva humana. A espécie era, frequentemente, abatida para fazer sopa e outras iguarias culinárias, enquanto os seus ovos eram usados como decoração em muitas culturas.

Todavia, após mais de 40 anos na lista vermelha da IUCN para espécies em perigo, as tartarugas-verdes conseguiram um regresso dramático.

No Congresso Mundial de Conservação da IUCN em Abu Dhabi, em outubro de 2025, foi anunciado que a população global de tartarugas-verdes aumentou, aproximadamente, 28%, desde a década de 1970. Isto significa que passaram de classificadas como “em perigo” para situação “pouco preocupante”, saltando as categorias “vulnerável” e “quase ameaçada”.

A recuperação deve-se a esforços de conservação focados em proteger as fêmeas nidificantes e os ovos nas praias, em reduzir a colheita insustentável de tartarugas e de ovos, para consumo humano, e em combater a captura acidental de tartarugas em equipamento de pesca.

Apesar de escaparem ao iminente risco de extinção, as continuam “significativamente reduzidas”, em comparação com os níveis anteriores à colonização europeia. “Isto é uma grande vitória para a conservação das tartarugas e a prova de que uma ação coordenada pode reverter populações em risco de extinção,” diz Christine Madden, líder global de conservação de tartarugas marinhas do Fundo Mundial para a Natureza, advertindo que, embora este “marco importante” seja positivo, agora, não é altura de “baixar a guarda”.

Na sua ótica, os esforços de conservação devem continuar, para que as populações de tartarugas-verdes prosperem e recuperem, em áreas onde continuam sob ameaça, por emaranhamento em equipamentos de pesca, por sobrepesca e por perda de habitats.

Roderic Mast da IUCN fez eco dessa advertência: “As tartarugas marinhas não podem sobreviver sem oceanos e [sem] costas saudáveis, e os humanos também não. São fundamentais esforços de conservação sustentados, para garantir que esta recuperação dure.”

***

Enquanto as tartarugas-verdes foram retiradas da lista vermelha, os especialistas alertam que muitos outros animais continuam ameaçados.

As tartarugas, no Mar Adriático (um dos braços do Mediterrâneo, a Leste da Itália), sobretudo, no Norte, são perturbadas pelas alterações climáticas. Esta área serve de casa para a tartaruga Caretta (ou tartaruga-marinha-comum), a mais numerosa neste habitat, que se alimenta de caranguejos e de medusas. Contudo, também se avistam a tartaruga-verde (Chelonia mydas), menos comum e vista em zonas mais a Leste, bem como a tartaruga-de-couro (Dermochelys coriacea), a maior do Mundo, mas muito rara nesta região. 

Nos fins de junho de 2023, uma equipa de biólogos marinhos interveio numa praia de Cervia, na Itália, depois de uma tartaruga ter posto 91 ovos, muito perto dos veraneantes.

Elementos da Organização das Tartarugas do Adriático apanharam aqueles 91 ovos, postos pela tartaruga fêmea e levaram-nos para um novo ninho, que reconstruiram, exatamente, como o original, posicionando os ovos na mesma ordem em que foram postos. A nova localização ficou protegida por uma equipa de 130 voluntários, que se alternavam para garantir vigilância de 24 horas, por dia. E, na segunda metade de agosto, os ovos eclodiram e as pequenas tartarugas saíram para a areia. Sem pensarem duas vezes, começaram a correr para o mar.

A presença de tartarugas marinhas no Adriático não é ocorrência recente, mas, nos últimos anos, parecem apreciar nadar naquelas águas, também na época invernal – um efeito das alterações climáticas, no dizer dos peritos.

Simone D’Acunto, do Centro para a Proteção do Habitat, Cestha, sustentava que, devido às alterações climáticas e às águas cada vez mais quentes, as tartarugas tendem a ficar no Adriático, por períodos mais longos, e que, historicamente, entram naquelas águas, porque o Adriático superior é uma área de nutrição, mas, agora, ficam também durante o inverno, em vez de migrarem para águas mais quentes, como faziam no passado.

A iniciativa de proteção inclui também as tartarugas adultas, que são, nomeadamente, apanhadas em redes ou lesionadas por hélices de embarcações. E, na clínica para tartarugas, havia então meia centena de espécimes.

Também em julho de 2025, um casal de tartarugas das ilhas Galápagos do Jardim Zoológico de Filadélfia (Zoo), nos Estados Unidos da América (EUA), em perigo crítico de extinção e com quase 100 anos de idade, teve filhotes, pela primeira vez. O objetivo do Zoo era que estas crias fizessem parte de uma população próspera destas tartarugas, no futuro.

Num anúncio feito adrede, o jardim zoológico afirmou estar “radiante” com a chegada das quatro crias, uma estreia nos seus mais de 150 anos de História. Os bebés são filhos da fêmea Mommy e do macho Abrazzo, os dois residentes mais antigos do Zoo.

O quarteto foi mantido em segurança na Casa dos Répteis e Anfíbios, a comer e a crescer. Pesavam entre 70 e 80 gramas, aproximadamente, o peso do ovo de galinha. O primeiro ovo eclodiu a 27 de fevereiro e outros, que ainda podiam eclodir, eram monitorizados pela equipa de cuidados dos animais do Zoo. “Este é um marco significativo na História do Jardim Zoológico de Filadélfia e não podíamos estar mais entusiasmados por partilhar esta notícia com a nossa cidade, [com] a região e [com] o Mundo”, afirmou o presidente e diretor executivo, Jo-Elle Mogerman, em comunicado, vincando: “A mamã chegou ao Zoo, em 1932, o que significa que qualquer pessoa que tenha visitado o Zoo, nos últimos 92 anos, provavelmente já a viu.”

A ideia é que estas crias façam parte de uma população próspera de tartarugas das Galápagos, no planeta, saudável daqui a 100 anos.

A Mommy é considerada uma das tartarugas das Galápagos de maior valor genético no plano de sobrevivência de espécies da Associação de Zoos e Aquários (AZA SPP), que tem por objetivo assegurar a sobrevivência da tartaruga de Santa Cruz Ocidental das Galápagos e manter uma população geneticamente diversificada.

A espécie está classificada como “criticamente em perigo” pela IUCN, com ameaças que incluem conflitos entre o homem e a vida selvagem, a introdução de espécies invasoras e a perda de habitat. “A certa altura, cada uma das ilhas Galápagos tinha a sua própria tartaruga das Galápagos, mas, infelizmente, várias delas estão, agora, extintas”, disse Rachel Metz, vice-presidente do bem-estar e conservação animal do jardim zoológico, frisando: “Estas crias não só protegem a espécie da extinção como servem de embaixadores importantes para inspirar os visitantes a salvar a vida selvagem e os lugares selvagens.”

A tartaruga é a mãe de primeira viagem mais velha da sua espécie em qualquer jardim zoológico dos EUA, de acordo com a coordenadora do SSP da tartaruga das Galápagos e guardiã do livro genealógico, Ashley Ortega, do Gladys Porter Zoo, no Texas. “Antes das crias, havia apenas 44 indivíduos de tartarugas gigantes de Santa Cruz Ocidental em todos os jardins zoológicos dos EUA, pelo que estas novas adições representam uma nova linhagem genética e uma ajuda muito necessária para a população da espécie”, explicou.

A última ninhada de tartarugas deste tipo a eclodir num jardim zoológico acreditado pela AZA foi em 2019, no Riverbanks Zoo and Garden em Columbia, na Carolina do Sul. O Zoo de San Diego, o Zoo de Miami e o Zoo de Honolulu também têm pares reprodutores.

O jardim zoológico planeou uma estreia pública dos recém-nascidos, a 23 de abril, bem como um concurso de atribuição de nomes.

A tartaruga-das-galápagos (Chelonoidis nigra) é o maior réptil terrestre do Mundo, pesando até 400 quilos e medindo dois metros. Exclusiva do arquipélago equatoriano de Galápagos, é famosa pela longevidade de mais de 150 anos e por ter ajudado Charles Darwin na Teoria da Evolução das Espécies. Possui um metabolismo lento que lhe permite sobreviver até um ano, sem comida ou sem água. A forma do casco varia de acordo com as ilhas onde habita, dividindo-se em dois tipos: forma de cúpula (em ilhas de vegetação abundante e húmida) e forma de sela (em ilhas áridas: esticam o pescoço, para atingirem catos e arbustos).

No mesmo mês, uma tartaruga marinha adulta, a Pennywise, com 137 quilogramas, foi libertada no Oceano Atlântico, após recuperar de ferimentos causados por colisão com um barco na costa da Florida. Foi encontrada encalhada em maio e passou por reabilitação no Loggerhead Marinelife Centre. Devido ao seu tamanho, foi levada a uma clínica para cavalos, a fim de realizar exames, onde se descobriu que estava a transportar ovos. E, uma vez recuperada, regressou ao oceano, durante a época de nidificação da Florida, que decorre até outubro.

O referido centro apelou aos navegadores para reduzirem a velocidade nas Zonas de Proteção das Tartarugas Marinhas, onde são mais prováveis os encontros.

Aquelas tartarugas marinhas estavam classificadas como ameaçadas ou em perigo, e os conservacionistas sublinhavam a importância de as proteger, naquele período crítico.

Há também tartarugas que são molestadas pelo frio. Assim, em fins de março de 2025, após recuperarem de hipotermia (causada pelo frio extremo na Nova Inglaterra, nos EUA), 19 tartarugas marinhas foram libertadas no Oceano Atlântico, ao largo de Jacksonville, na Florida, com ajuda da organização sem fins lucrativos Turtles Fly Too e do Johnny Morris Sea Turtle Center, em Springfield. Uma vez reabilitadas no Missouri, foram devolvidas ao Atlântico.

As tartarugas, incluindo 20 espécies da tartaruga-cabeçuda e da Kemp, foram transportadas do Aquário da Nova Inglaterra, em Boston, para o Wonders of Wildlife National Museum & Aquarium, onde foram tratadas. Embora uma tartaruga, que se encontrava gravemente doente, não tenha sobrevivido, as demais receberam cuidados contínuos para recuperarem do frio extremo, condição desencadeada por quedas súbitas na temperatura da água.

***

Além das tartarugas marinhas, também outras espécies marinhas estão em risco. Por exemplo, a foca-de-capuz passou de “vulnerável” para “em perigo”, e a foca-barbuda e a foca-da-Gronelândia passaram de “pouco preocupante” para “quase ameaçada”. Como “ameaça principal”, para estas focas do Ártico, foi citada a perda de gelo marinho, por via do aquecimento global, fazendo com que seja mais difícil reproduzirem-se, descansarem e alimentarem-se.

A atividade humana, como a caça, a sobrepesca e a exploração petrolífera, também pressiona as espécies. “As mudanças climáticas não são problema distante – estão a desenrolar-se, há décadas, e a ter impactos, aqui e agora,” diz Kit Kovacs da IUCN, avisando: “Proteger as focas do Ártico vai além dessas espécies. Trata-se de salvaguardar o equilíbrio delicado do Ártico, que é essencial para todos nós.”

***

A preservação dos ecossistemas e da biodiversidade e a boa gestão das necessidades humanas postulam a proteção das espécies e o abandono das ações que as prejudiquem. Há que salvar o planeta e a Humanidade.

2026.07.21 – Louro de Carvalho

Sem comentários:

Enviar um comentário