O
número de tartarugas-verdes, outrora ameaçadas de extinção, aumentou 28%, desde
os anos 70, apesar das ameaças persistentes à sua população. Assim, a
sobrevivência destes répteis foi oficialmente reclassificada de “em perigo”
para “pouco preocupante”, devido a décadas de conservação marinha.
A tartaruga-verde, tartaruga-aruanã ou
só aruanã (nome científico: Chelonia mydas) é tartaruga
marinha da família dos quelonídeos (Cheloniidae), cujp nome se deve
à coloração esverdeada da gordura corporal, é o único membro do
género Chelonia. A espécie, de grande porte (a maior tartaruga
de carapaça dura), está distribuída por todos os oceanos, nas zonas de águas
tropicais e subtropicais e de qualquer altitude do Mundo, sendo encontrados os
indivíduos, habitualmente, em águas costeiras, em ilhas ou em baías, e
encontrados, raramente, em alto-mar, com duas populações distintas:
no Oceano Atlântico e no Oceano Pacífico.
Tem
o corpo achatado coberto por grande carapaça, possuindo quatro pares de
placas laterais de queratina de coloração verde ou verde-acinzentadas, marrom
com manchas negras e amareladas, quando juvenis, e dois grandes pares de nadadeiras.
Além disso, a carapaça pode variar para tons em oliva-marrom e preto, no Pacífico
Oriental. Ao contrário de outros membros da sua família, como a tartaruga-de-pente (Eretmochelys
imbricata) e a tartaruga-comum (Caretta caretta), a
tartaruga-verde é, principalmente, herbívora, após entrar na fase adulta,
enquanto filhote é, predominantemente omnívora com tendências carnívoras. Os
adultos habitam, geralmente, lagoas rasas, alimentando-se, principalmente, de ervas
marinhas.
Como
outras tartarugas marinhas, migram a longas distâncias, entre as áreas de
alimentação e as suas praias de incubação. Muitas ilhas, em todo o Mundo, são
conhecidas como ilhas das Tartarugas, por causa da nidificação das
tartarugas-verdes das suas praias. As tartarugas fêmeas saem às praias e põem
ovos em ninhos que escavam durante a noite. Mais tarde, emergem filhotes em
direção à água. Os que sobrevivem alcançam a maturidade sexual ao fim
de 20 a 50 anos e vivem até 80 anos em liberdade.
Como espécie
ameaçada, assim classificada pela União Internacional para a Conservação da
Natureza (IUCN) e pela Convenção sobre o Comércio Internacional das Espécies
Silvestres Ameaçadas de Extinção (CITES), a tartaruga-verde é protegida contra
a exploração, na maioria dos países. É ilegal a sua recolha ou dano ou matá-la.
E muitos países têm legislação para proteger as suas áreas de nidificação. Contudo,
as populações de tartarugas ainda estão em perigo, por via de diversas práticas
humanas. Em alguns países, as tartarugas e os seus ovos são caçados para
alimento. A poluição indireta prejudica as tartarugas, tanto na
população como a nível individual. Muitas morrem em consequência de terminarem
nas redes de pescadores. E a destruição do habitat é uma grande fonte
de perda de praias de nidificação.
O
ciclo de vida inclui fases oceânicas e costeiras, sendo na fase oceânica que estes
animais se encontram em águas açorianas. Em época de postura, as fêmeas fazem
múltiplos ninhos, pondo entre 110 e 130 ovos, por ninho, no Atlântico Norte, dependendo
o sexo da descendência da temperatura de incubação (sexo dependente da
temperatura). O individuo adulto, em média, exibe tamanho (carapaça) de 90 a
120 centímetros, tem peso médio de 110 a 190 quilos. A forma da carapaça é
oval, lisa e larga, sendo a sua cor verde-oliva a castanho-escuro. A cabeça é
pequena e arredondada. Apresenta quatro pares de placas laterais, uma unha nas
barbatanas anteriores e um par de placas pré-frontais (duas escamas acima dos
olhos).
Os
indivíduos juvenis passam os primeiros anos em águas oceânicas (associados a
correntes e comunidades de Sargassum, no Atlântico Norte, nomeadamente, nos
Açores) antes de recrutarem para habitats costeiros. Na fase oceânica,
apresentam uma dieta mais oportunista, passando a herbívora, na fase costeira
(alimentam-se de ervas marinhas e algas). E migram dos locais de alimentação
para os locais de nidificação a cada dois a três anos.
***
Encontradas,
como se disse, em águas tropicais e subtropicais em todo o Mundo, a população
global de tartarugas-verdes caiu para níveis preocupantes, na década de 1980,
devido a anos de caça intensiva humana. A espécie era, frequentemente, abatida
para fazer sopa e outras iguarias culinárias, enquanto os seus ovos eram usados
como decoração em muitas culturas.
Todavia,
após mais de 40 anos na lista vermelha da IUCN para espécies em perigo, as
tartarugas-verdes conseguiram um regresso dramático.
No
Congresso Mundial de Conservação da IUCN em Abu Dhabi, em outubro de 2025, foi
anunciado que a população global de tartarugas-verdes aumentou, aproximadamente,
28%, desde a década de 1970. Isto significa que passaram de classificadas como
“em perigo” para situação “pouco preocupante”, saltando as categorias
“vulnerável” e “quase ameaçada”.
A
recuperação deve-se a esforços de conservação focados em proteger as fêmeas
nidificantes e os ovos nas praias, em reduzir a colheita insustentável de
tartarugas e de ovos, para consumo humano, e em combater a captura acidental de
tartarugas em equipamento de pesca.
Apesar
de escaparem ao iminente risco de extinção, as continuam “significativamente
reduzidas”, em comparação com os níveis anteriores à colonização europeia. “Isto
é uma grande vitória para a conservação das tartarugas e a prova de que uma
ação coordenada pode reverter populações em risco de extinção,” diz Christine
Madden, líder global de conservação de tartarugas marinhas do Fundo Mundial
para a Natureza, advertindo que, embora este “marco importante” seja positivo,
agora, não é altura de “baixar a guarda”.
Na
sua ótica, os esforços de conservação devem continuar, para que as populações
de tartarugas-verdes prosperem e recuperem, em áreas onde continuam sob ameaça,
por emaranhamento em equipamentos de pesca, por sobrepesca e por perda de
habitats.
Roderic
Mast da IUCN fez eco dessa advertência: “As tartarugas marinhas não podem
sobreviver sem oceanos e [sem] costas saudáveis, e os humanos também não. São
fundamentais esforços de conservação sustentados, para garantir que esta
recuperação dure.”
***
Enquanto
as tartarugas-verdes foram retiradas da lista vermelha, os especialistas
alertam que muitos outros animais continuam ameaçados.
As
tartarugas, no Mar Adriático (um dos braços do Mediterrâneo, a Leste da Itália),
sobretudo, no Norte, são perturbadas pelas alterações climáticas. Esta
área serve de casa para a tartaruga Caretta (ou tartaruga-marinha-comum), a
mais numerosa neste habitat, que se alimenta de caranguejos e de medusas.
Contudo, também se avistam a tartaruga-verde (Chelonia mydas), menos
comum e vista em zonas mais a Leste, bem como a tartaruga-de-couro (Dermochelys
coriacea), a maior do Mundo, mas muito rara nesta região.
Nos
fins de junho de 2023, uma equipa de biólogos marinhos interveio numa praia de
Cervia, na Itália, depois de uma tartaruga ter posto 91 ovos, muito perto dos
veraneantes.
Elementos
da Organização das Tartarugas do Adriático apanharam aqueles 91 ovos, postos
pela tartaruga fêmea e levaram-nos para um novo ninho, que reconstruiram,
exatamente, como o original, posicionando os ovos na mesma ordem em que foram
postos. A nova localização ficou protegida por uma equipa de 130 voluntários,
que se alternavam para garantir vigilância de 24 horas, por dia. E, na segunda
metade de agosto, os ovos eclodiram e as pequenas tartarugas saíram para a
areia. Sem pensarem duas vezes, começaram a correr para o mar.
A
presença de tartarugas marinhas no Adriático não é ocorrência recente, mas, nos
últimos anos, parecem apreciar nadar naquelas águas, também na época invernal –
um efeito das alterações climáticas, no dizer dos peritos.
Simone
D’Acunto, do Centro para a Proteção do Habitat, Cestha, sustentava que, devido
às alterações climáticas e às águas cada vez mais quentes, as tartarugas tendem
a ficar no Adriático, por períodos mais longos, e que, historicamente, entram
naquelas águas, porque o Adriático superior é uma área de nutrição, mas, agora,
ficam também durante o inverno, em vez de migrarem para águas mais quentes,
como faziam no passado.
A
iniciativa de proteção inclui também as tartarugas adultas, que são,
nomeadamente, apanhadas em redes ou lesionadas por hélices de
embarcações. E, na clínica para tartarugas, havia então meia centena de
espécimes.
Também
em julho de 2025, um casal de tartarugas das ilhas Galápagos do Jardim
Zoológico de Filadélfia (Zoo), nos Estados Unidos da América (EUA), em perigo
crítico de extinção e com quase 100 anos de idade, teve filhotes, pela primeira
vez. O objetivo do Zoo era que estas crias fizessem parte de uma população
próspera destas tartarugas, no futuro.
Num
anúncio feito adrede, o jardim zoológico afirmou estar “radiante” com a chegada
das quatro crias, uma estreia nos seus mais de 150 anos de História. Os bebés
são filhos da fêmea Mommy e do macho Abrazzo, os dois residentes mais antigos
do Zoo.
O
quarteto foi mantido em segurança na Casa dos Répteis e Anfíbios, a comer e a
crescer. Pesavam entre 70 e 80 gramas, aproximadamente, o peso do ovo de
galinha. O primeiro ovo eclodiu a 27 de fevereiro e outros, que ainda podiam
eclodir, eram monitorizados pela equipa de cuidados dos animais do Zoo. “Este é
um marco significativo na História do Jardim Zoológico de Filadélfia e não
podíamos estar mais entusiasmados por partilhar esta notícia com a nossa
cidade, [com] a região e [com] o Mundo”, afirmou o presidente e diretor
executivo, Jo-Elle Mogerman, em comunicado, vincando: “A mamã chegou ao Zoo, em
1932, o que significa que qualquer pessoa que tenha visitado o Zoo, nos últimos
92 anos, provavelmente já a viu.”
A
ideia é que estas crias façam parte de uma população próspera de tartarugas das
Galápagos, no planeta, saudável daqui a 100 anos.
A
Mommy é considerada uma das tartarugas das Galápagos de maior valor genético no
plano de sobrevivência de espécies da Associação de Zoos e Aquários (AZA SPP),
que tem por objetivo assegurar a sobrevivência da tartaruga de Santa Cruz
Ocidental das Galápagos e manter uma população geneticamente diversificada.
A
espécie está classificada como “criticamente em perigo” pela IUCN, com ameaças
que incluem conflitos entre o homem e a vida selvagem, a introdução de espécies
invasoras e a perda de habitat. “A certa altura, cada uma das ilhas Galápagos
tinha a sua própria tartaruga das Galápagos, mas, infelizmente, várias delas
estão, agora, extintas”, disse Rachel Metz, vice-presidente do bem-estar e
conservação animal do jardim zoológico, frisando: “Estas crias não só protegem
a espécie da extinção como servem de embaixadores importantes para inspirar os
visitantes a salvar a vida selvagem e os lugares selvagens.”
A
tartaruga é a mãe de primeira viagem mais velha da sua espécie em qualquer
jardim zoológico dos EUA, de acordo com a coordenadora do SSP da tartaruga das
Galápagos e guardiã do livro genealógico, Ashley Ortega, do Gladys Porter Zoo,
no Texas. “Antes das crias, havia apenas 44 indivíduos de tartarugas gigantes
de Santa Cruz Ocidental em todos os jardins zoológicos dos EUA, pelo que estas
novas adições representam uma nova linhagem genética e uma ajuda muito
necessária para a população da espécie”, explicou.
A
última ninhada de tartarugas deste tipo a eclodir num jardim zoológico
acreditado pela AZA foi em 2019, no Riverbanks Zoo and Garden em Columbia, na Carolina
do Sul. O Zoo de San Diego, o Zoo de Miami e o Zoo de Honolulu também têm pares
reprodutores.
O
jardim zoológico planeou uma estreia pública dos recém-nascidos, a 23 de abril,
bem como um concurso de atribuição de nomes.
A tartaruga-das-galápagos (Chelonoidis
nigra) é o maior réptil terrestre do Mundo, pesando até 400 quilos e
medindo dois metros. Exclusiva do arquipélago equatoriano de Galápagos, é
famosa pela longevidade de mais de 150 anos e por ter ajudado Charles Darwin na
Teoria da Evolução das Espécies. Possui
um metabolismo lento que lhe permite sobreviver até um ano, sem comida ou sem
água. A forma do casco varia de acordo com as ilhas onde habita, dividindo-se em
dois tipos: forma de cúpula (em ilhas de vegetação abundante e húmida) e forma
de sela (em ilhas áridas: esticam o pescoço, para atingirem catos e arbustos).
No
mesmo mês, uma tartaruga marinha adulta, a Pennywise, com 137 quilogramas, foi
libertada no Oceano Atlântico, após recuperar de ferimentos causados por colisão
com um barco na costa da Florida. Foi encontrada encalhada em maio e passou por
reabilitação no Loggerhead Marinelife Centre. Devido ao seu tamanho, foi levada
a uma clínica para cavalos, a fim de realizar exames, onde se descobriu que
estava a transportar ovos. E, uma vez recuperada, regressou ao oceano, durante
a época de nidificação da Florida, que decorre até outubro.
O
referido centro apelou aos navegadores para reduzirem a velocidade nas Zonas de
Proteção das Tartarugas Marinhas, onde são mais prováveis os encontros.
Aquelas
tartarugas marinhas estavam classificadas como ameaçadas ou em perigo, e os
conservacionistas sublinhavam a importância de as proteger, naquele período
crítico.
Há
também tartarugas que são molestadas pelo frio. Assim, em fins de março de
2025, após recuperarem de hipotermia (causada pelo frio extremo na Nova
Inglaterra, nos EUA), 19 tartarugas marinhas foram libertadas no Oceano
Atlântico, ao largo de Jacksonville, na Florida, com ajuda da organização sem
fins lucrativos Turtles Fly Too e do Johnny Morris Sea Turtle Center, em
Springfield. Uma vez reabilitadas no Missouri, foram devolvidas ao Atlântico.
As
tartarugas, incluindo 20 espécies da tartaruga-cabeçuda e da Kemp, foram
transportadas do Aquário da Nova Inglaterra, em Boston, para o Wonders of
Wildlife National Museum & Aquarium, onde foram tratadas. Embora uma
tartaruga, que se encontrava gravemente doente, não tenha sobrevivido, as demais
receberam cuidados contínuos para recuperarem do frio extremo, condição
desencadeada por quedas súbitas na temperatura da água.
***
Além
das tartarugas marinhas, também outras espécies marinhas estão em risco. Por
exemplo, a foca-de-capuz passou de “vulnerável” para “em perigo”, e a
foca-barbuda e a foca-da-Gronelândia passaram de “pouco preocupante” para
“quase ameaçada”. Como “ameaça principal”, para estas focas do Ártico, foi
citada a perda de gelo marinho, por via do aquecimento global, fazendo com que
seja mais difícil reproduzirem-se, descansarem e alimentarem-se.
A
atividade humana, como a caça, a sobrepesca e a exploração petrolífera, também pressiona
as espécies. “As mudanças climáticas não são problema distante – estão a
desenrolar-se, há décadas, e a ter impactos, aqui e agora,” diz Kit Kovacs da
IUCN, avisando: “Proteger as focas do Ártico vai além dessas espécies. Trata-se
de salvaguardar o equilíbrio delicado do Ártico, que é essencial para todos
nós.”
***
A
preservação dos ecossistemas e da biodiversidade e a boa gestão das necessidades
humanas postulam a proteção das espécies e o abandono das ações que as
prejudiquem. Há que salvar o planeta e a Humanidade.
2026.07.21
– Louro de Carvalho
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