Dois
investigadores portugueses da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (FCUL)
são os principais autores de um estudo, publicado na revista científica Journal
of Geophysical Research: Planets, que se propôs a “caçar” e analisar
as nuvens de Marte, para facilitar futuras missões ao Planeta Vermelho, a 225
milhões de quilómetros (Km) da Terra.
O
estudo vem ao encontro da já existente perspetivação de futuras missões
tripuladas à superfície de Marte, contribuindo para possibilitar “aterragens
mais suaves” em Marte, onde há alguns indícios da existência de vida, no
passado e quiçá no presente.
A
este respeito, a 21 de julho, a Euronews publicou um artigo intitulado “Cientistas
portugueses estudam nuvens de Marte para facilitar futuras aterragens no
planeta”, em que a jornalista Ema Gil Pires releva que o objetivo da
investigação “consistiu em medir, simultaneamente, a altitude e a
velocidade de propagação das ondas atmosféricas marcianas, que são uma
peça-chave para compreender como se transporta a energia, na atmosfera desse
planeta”.
Aliás,
o resumo fornecido pela revista, “em linguagem simples”, refere que “as ondas
gravitacionais são ondulações suaves na atmosfera rarefeita de Marte, que podem
moldar nuvens e direcionar os ventos”. Através delas, os cientistas pesquisaram
“em imagens de nuvens obtidas pela Câmara Estereoscópica de Alta Resolução
(HRSC) da Mars Express, durante os anos marcianos 34 a 37”. Primeiro, mapearam “o
formato de cada grupo de ondas, incluindo o espaçamento entre as cristas e o
tamanho do grupo”. A seguir, utilizaram “os múltiplos canais de cor da HRSC e
visualizações repetidas em intervalos de, aproximadamente, 30 minutos, para
estimar a altura e o movimento do topo das nuvens”.
Verificaram
que “a maioria das ondas apresenta espaçamento entre as cristas de cinco a 35
km e cristas quase orientadas no sentido Leste-Oeste”; que “o topo das nuvens
mostra concentração dominante, entre 15 e 40 km, e extensão menos frequente,
até 60-100 km”; que “os padrões se movem apenas alguns metros, por segundo, o
que implica em escalas verticais curtas para as ondas”; e que, juntas, tais
medições “fornecem novas restrições que podem ser usadas para aprimorar a
representação das ondas gravitacionais em modelos climáticos de Marte”.
***
É
de referir que um ano marciano é o tempo que Marte leva para dar uma volta
completa à volta do Sol. Corresponde a 687 dias na Terra, isto é, quase o
dobro do ano terrestre. O dia marciano (chamado de sol) dura 24 horas e
37 minutos. Assim, o ano de sol tem cerca de 668 sóis.
Como
os astrónomos contam os anos marcianos, a partir do ano terrestre de 1956, o Ano
38 de Marte começou em 12 de novembro de 2024.
A
Terra está na pista de dentro, e Marte está na pista de fora. Como a pista de
Marte é muito maior, ele demora quase o dobro do tempo terrestre a completar
uma volta.
***
Como
explicou o cientista Francisco Brasil, que liderou o estudo com Pedro Machado,
ambos da FCUL e do Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço (IA), tal foi
conseguido com base em dados da missão Mars Express – uma das mais longas da
Agência Espacial Europeia (AEE), em órbita, há 23 anos, e que foi
estendida até 2029 – com elementos de destaque desta iniciativa não
tripulada a terem estado envolvidos no estudo.
Esclarecendo
a importância da investigação, Francisco Brasil considerou que, “para
aterrarmos num planeta, assim como aterramos na Terra, precisamos de saber,
mais ou menos, como é que essa atmosfera está distribuída em termos de
camadas”.
Através
da caraterização das ondas atmosféricas de Marte, é possível conhecer “como
é a dinâmica da sua atmosfera, nessas altitudes específicas”, um “trabalho
que, neste caso em concreto, teve a medição das altitudes das nuvens e dos
ventos” como técnicas essenciais. Tudo isto foi possível com recurso a
uma câmara de alta resolução a bordo da sonda espacial europeia Mars
Express, “que permitiu observar, em ângulos diferentes, o mesmo local”.
Francisco
Brasil enfatizou que esta descoberta “será importante, quando “a Humanidade
chegar a Marte”, pois leva compreender “as otimizações que têm de ser
feitas” nas astronaves que se propõem a chegar “à superfície” marciana, a fim
de “controlar os atritos ou as diferenças que existam na atmosfera” do planeta,
de modo a “correr tudo bem, na aterragem”.
A
razão por que esta análise poderá ter significativo impacto em futuras missões
a Marte é a sua atmosfera, “em comparação com a da Terra, é muito rarefeita”, isto
é, “tem poucas moléculas”. Por conseguinte, “a força de atrito que existe” no
Planeta Vermelho é muito inferior. “É como se estivéssemos quase em queda livre”,
exemplificou o astrofísico, vincando que é bastante diferente do que sucede na
Terra, onde “é muito difícil pôr um foguetão no espaço”.
Os
desafios a este nível, ao longo das últimas décadas, têm sido bastante
visíveis. “Tem sido muito difícil enviar rovers para a superfície
de Marte”, revelou o astrofísico. De facto, desde 1960, aproximadamente
metade das missões de exploração de Marte não correram como esperado, tendo até
ocorrido quedas na superfície do planeta, por parte destes veículos robóticos, bem
como falhas de lançamento e de órbita.
Rovers
são
veículos robóticos de exploração espacial desenhados para andarem na superfície
de outros planetas ou luas. Como laboratórios ambulantes, ajudam a estudar o
solo, o clima e a procurar sinais de vida. A NASA envia-os para lugares muito
perigosos para os humanos.
O
cientista explica as ditas falhas com base nas dificuldades de aterragem,
perspetivando uma eventual missão tripulada à superfície marciana, algo que
nunca aconteceu, até agora: “Como não tínhamos tanta informação sobre como a
atmosfera estava distribuída, eles [os rovers] acabavam por ter uma
queda livre e despenhar-se na superfície de Marte. E não queremos que isso
aconteça com os humanos.”
Entretanto,
como sustenta o especialista, esta realidade tem vindo a alterar-se, “nos
últimos anos”, no decurso dos quais a “taxa de sucesso da aterragem” em Marte
foi já bastante superior, em comparação com períodos anteriores, o que se deve também, aos
investimentos que vêm a ser feitos em matéria de equipamentos. Nos últimos
anos, “todos os rovers têm evoluído muito, na questão de amortecer essa
tal queda livre que ocorre em Marte”, diminuindo o impacto no momento da
aterragem na superfície, por via de diferentes mecanismos, como “paraquedas
muito específicos” e “sistemas de amortecimento” semelhantes a airbags.
Tal
como na Terra, há, no Planeta Vermelho, “várias estações do ano”, devido
ao facto de ambos terem um “eixo inclinado”, indicou o especialista do
Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço. Ora, esse facto releva, ao nível
da formação de nuvens em Marte. Durante o ano, “são muito esparsas”, caraterizando-se,
em particular, por uma certa sazonalidade.
Isso
resulta do facto de o planeta ter “calotes polares compostas por gelo de
dióxido de carbono (CO2) e de água (H2O) que, à
medida que se vai aproximando o verão do Hemisfério Norte, começam a evaporar”,
formando o que se apelida de Aphelion Cloud Belt, “uma zona no
Hemisfério Norte com muitas nuvens”. Por Conseguinte, “só nessa altura” do
ano marciano “é que conseguimos observar mais nuvens”, já que estas,
depois, vão “evoluindo, ao longo do tempo”, e respondendo “às várias dinâmicas
da atmosfera”. Também por isso, as nuvens de Marte são identificáveis “em
poucos sítios do planeta”. Assim, quando “a maioria das pessoas vê uma
fotografia de Marte, vê a sua superfície e quase nunca vê nuvens”.
Nestes
termos, observa a jornalista que “os dados deste novo estudo encabeçado por
Francisco Brasil e Pedro Machado poderão, hipoteticamente, influenciar o
momento escolhido para uma missão com destino à superfície de Marte, a
partir da órbita do planeta”, pois, sabendo, “à partida”, a estação do ano em
que este se encontra, a opção poderá passar por tentar levá-la a cabo, “por
exemplo, numa altura em que se tenha menos turbulência, na atmosfera, de
forma a ser feita uma aterragem mais suave”.
Questionado
sobre a relevância que o estudo da atmosfera marciana tem para a comunidade
científica do século XXI, Francisco Brasil referiu que “uma coisa também muito
interessante em Marte” é que o planeta “acaba por ser um laboratório
natural de alguns fenómenos que temos na Terra”, embora a um nível “extremamente
exagerado”. E exemplificou, salientando que ainda não são claras as razões
por trás dessas ocorrências: “Temos um fenómeno que é conhecido, que são
as tempestades globais, em Marte, que cobrem, por completo, o planeta, e ainda
não percebemos bem qual o gatilho que faz acionar essas tempestades.”
E
Ema Gil Pires refere que astrofísico elucidou as tempestades “ocorrem,
tipicamente, na primavera e no verão do Hemisfério Sul, quando Marte está
mais próximo do Sol e o aquecimento da atmosfera é máximo, gerando muita
turbulência”. Assim, o meio académico está a estudar quais serão as causas que
motivam as tempestades globais, em Marte, derivadas, muitas vezes, da fusão de
outras de menores dimensões e, por vezes, de nível local ou regional.
***
Nas
conclusões do estudo, lê-se que “as ondas atmosféricas foram detetadas,
principalmente, no Hemisfério Norte de Marte, devido ao viés geométrico de
observação das imagens OMEGA”, já que grande percentagem delas não atendia aos
requisitos para deteção da presença das ondas. Os cientistas identificaram, “de
forma semimanual, 263 pacotes de ondas, dos quais 125 foram caraterizados,
morfologicamente, de forma manual”. Para avaliar o impacto das limitações
observacionais, fizeram análise explícita de como o viés de seleção afeta os
resultados. Tal abordagem, embora necessária para garantir a fiabilidade das
observações, pode levar “à sub-representação de fenómenos atmosféricos que
ocorrem fora das condições ideais”.
A
distribuição dos pacotes de ondas detetados “varia entre as diferentes regiões”,
apresentando algumas áreas a taxa de deteção máxima de 35%, enquanto a taxa
média de deteção é de 8%, para o conjunto de dados filtrados. Embora a
cobertura de dados seja mais densa no Hemisfério Sul, devido à geometria das
observações, “as deteções de pacotes de ondas são mais frequentes no Hemisfério
Norte”. Tal disparidade “surge da geometria de observação e das condições mais
favoráveis à deteção de ondas nesse hemisfério”.
As
propriedades morfológicas das ondas gravitacionais, nomeadamente, os
comprimentos de onda horizontais, “variam de seis a 83 km”. Os cientistas encontraram
comprimentos de onda horizontais menores, “em grandes estruturas chamadas ruas
de nuvens”. Alguns pacotes de ondas têm “comprimentos de onda horizontais de seis
a oito quilómetros”.
A
distribuição espacial das ondas gravitacionais encontra-se, predominantemente,
no Hemisfério Norte, em regiões, como Alba Mons, Tempe Terra, Chryse Planitia,
Bacia de Utopia, Elysium Mons e Tharsis Montes. As ondas detetadas exibem variabilidade
espacial e temporal, ocorrendo, predominantemente, em regiões com caraterísticas
topográficas significativas, no inverno, em ambos os hemisférios e entre 13 e
17 horas LTST (Local True Solar Time). A atividade das ondas demonstra “maior
frequência durante o dia”, particularmente, na faixa de 14 a 16 horas LTST.
Além disso, a atividade das ondas é mais prevalente, no inverno, em ambos os
hemisférios, sugerindo “uma relação entre variações sazonais e a geração de
ondas de gravidade”. Durante o ano de 2028 (MY28), “a grande maioria das ondas detetadas
ocorreu pouco antes do início da tempestade de poeira global que ocorreu
naquele ano”, em Ls (list) = 260 °.
A
deteção de ondas, predominantemente, no inverno, e a sua associação ao período
diurno sugerem ainda que “os padrões sazonais de circulação atmosférica e o
aquecimento solar podem aumentar a geração e a observabilidade de ondas
gravitacionais orográficas”. Além disso, o aumento observado na atividade de
ondas, pouco antes do início da referida tempestade de poeira, aponta para o
potencial de “as ondas gravitacionais orográficas interagirem com eventos
atmosféricos de grande escala e de, possivelmente, serem moduladas por eles”.
Em
suma, o estudo ajuda à “compreensão das ondas gravitacionais marcianas e do potencial
impacto na baixa atmosfera de Marte”, tal como dá “informações sobre a
distribuição espacial e temporal das ondas gravitacionais e das suas
propriedades morfológicas”.
***
Foi
descoberta atividade química em Marte, que pode conter potenciais sinais de
vida microscópica antiga. Porém, é necessária análise aprofundada da amostra
recolhida pelo rover Perseverance da NASA – idealmente, em laboratórios
na Terra – antes de se chegar a quaisquer conclusões. E, embora reconheça que a
última análise “não é, certamente, a resposta final”, o chefe da missão
científica da NASA, Nicky Fox, disse que é “o mais próximo a que chegámos da
descoberta de vida antiga em Marte”.
A
percorrer Marte desde 2021, o rover não deteta, diretamente, vida,
passada ou presente, mas transporta uma broca para penetrar nas rochas, a fim
de guardar as amostras recolhidas em locais mais adequados para acolher vida,
há milhares de milhões de anos.
Chamando-lhe
“descoberta excitante”, cientistas que não estiveram envolvidos no estudo foram
céleres a salientar que processos não biológicos podem ser responsáveis. Tudo o
que se pode dizer é que uma das explicações possíveis é a vida microbiana, mas
pode haver outras formas de criar este conjunto de caraterísticas. E seria
espantoso poder demonstrar, de forma conclusiva, que estas caraterísticas foram
formadas por algo que estava vivo, noutro planeta, há milhares de milhões de
anos, mas, ainda que não seja o caso, trata-se de lição valiosa sobre todas as
formas como a Natureza pode conspirar para nos enganar.
A
amostra em causa provém de lamas avermelhadas, ricas em argila, em Neretva
Vallis, um canal fluvial que outrora transportou água para a cratera de Jezero,
uma grande depressão em Marte, com cerca de 45 km de diâmetro, acreditando os
cientistas que abrigou um lago e um rio, há milhares de milhões de anos. Aquele
afloramento de rocha sedimentar foi analisado pelos instrumentos científicos do
Perseverance, antes da saída da broca.
Juntamente
com o carbono orgânico, um bloco de construção da vida, os cientistas encontraram
minúsculas manchas, apelidadas de sementes de papoila e manchas de leopardo,
que eram enriquecidas com fosfato de ferro e sulfureto de ferro.
Não
há provas da existência de micróbios em Marte, mas se houvesse micróbios, no
Marte antigo, poderiam ter reduzido os minerais de sulfato, para formar
sulfuretos num lago como o da cratera Jezero. Enfim, não há provas da
existência de vida atual em Marte, mas a NASA, ao longo das décadas, tem
enviado naves espaciais a Marte, em busca de ambientes aquosos passados que
possam ter suportado vida, há muito tempo.
Até
que as amostras sejam transportadas para fora de Marte por naves espaciais
robóticas ou por astronautas, os cientistas terão de confiar em substitutos
terrestres e em experiências de laboratório, para avaliarem a viabilidade da
vida marciana antiga. Porém, 10 dos tubos de amostras de titânio recolhidos
pelo Perseverance foram colocados na superfície marciana, há alguns anos, como
reserva para o resto a bordo do rover.
***
Marte
é o quarto planeta a contar do Sol e o último dos quatro planetas telúricos (rochosos,
com metais e com superfície onde se pode caminhar). O seu núcleo é de ferro e
de enxofre, mas teve água no passado. Por isso, justificam-se as difíceis missões
ao planeta.
2026.07.21
– Louro de Carvalho
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