quarta-feira, 29 de julho de 2026

O que se passa no atinente à questão cipriota

 

A República de Chipre ocupa a parte Sul da ilha de Chipre, na região Leste do Mediterrâneo. A ilha, tal como a capital Nicósia, é dividida com a Turquia, ao Norte. Conhecido pelas suas praias, o país tem um interior de relevo acidentado, com regiões vinícolas. A cidade costeira de Pafos é famosa pelos sítios arqueológicos associados ao culto de Afrodite e pelas ruínas de palácios, de tumbas e de mansões repletas de mosaicos.

Chipre é a terceira maior e mais populosa ilha no Mediterrâneo e um estado-membro da União Europeia (UE), desde 2004. Está localizada ao Sul da Turquia, a Oeste da Síria e do Líbano, a Noroeste de Israel, o Norte do Egito e a Leste da Grécia. Com uma localização estratégica no Médio Oriente, foi ocupada por grandes potências, como os impérios assírio, egípcio e persa, de que o território foi anexado, em 333 a.C., por Alexandre Magno. Depois, foi dominada pelo Egito ptolemaico, pelo Império Romano e pelo Império Romano do Oriente, por califados árabes (por curto período), pela dinastia francesa de Lusinhão e pelos Venezianos, seguido de domínio otomano, por mais de três séculos, entre 1571 e 1878 (de iure, até 1914).

Ficou sob administração britânica, com base na Convenção de Chipre, em 1878, e foi anexada, formalmente, pelo Império Britânico, em 1914. Em 1960, Chipre, a Grécia e o Reino Unido assinaram o tratado de declaração da independência da ilha, ficando os britânicos com a soberania das bases de Acrotíri e de Deceleia. Makários assumiu a presidência, mas a Constituição dava aos turco-cipriotas a vice-presidência e o poder de veto, o que dificultou o funcionamento do governo. Isso afetou as relações entre greco-cipriotas e turco-cipriotas, desembocando em explosões de violência interétnica, em 1963 e em 1967. A 15 de julho de 1974, um golpe pró-helénico depôs o governo, provocando a reação da Turquia, a qual, em nome da alegada defesa dos interesses dos turco-cipriotas, invadiu a parte Norte da ilha, que ainda ocupa militarmente. Tal ocupação foi declarada ilegal pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas (ONU), cujas resoluções ordenavam a retirada imediata das tropas turcas, e não foi reconhecida pela comunidade internacional, sobretudo, após Chipre se tornar membro da UE.

Esta é a origem da autodeclarada República Turca de Chipre do Norte, um Estado de facto só reconhecido pela Turquia e pela Organização para a Cooperação Islâmica. A República de Chipre está, pois, dividida de facto em duas partes principais: a área sob o controlo da República, isto é, cerca de 59% da área da ilha, e o Norte, administrado pela República Turca de Chipre do Norte, que cobre cerca de 36% da área da ilha.

Assim, pelo direito internacional, a República de Chipre tem soberania de iure sobre toda a ilha e sobre as águas circundantes, exceto sobre o território britânico ultramarino de Acrotíri e Deceleia, administrado como zonas de soberania do Reino Unido. O país é importante destino turístico no Mediterrâneo. Com economia de alto rendimento e de muito elevado índice de desenvolvimento humano (IDH), é membro da Commonwealth, desde 1961, e foi membro fundador do Movimento de Países Não Alinhados, até aderir à UE, a 1 de maio de 2004. E, a 1 de janeiro de 2008, entrou para a Zona Euro.

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Foi a este país que chegou, na noite de 27 de julho, o secretário-geral da ONU, com o objetivo de testar a existência de condições políticas mínimas para retomar negociações substanciais sobre a questão cipriota. A ONU não via a visita como processo conducente a acordo imediato. O objetivo era discutir os esforços para relançar o processo de paz e para preservar a estabilidade na ilha, através de contactos com os líderes das duas comunidades e com outros atores. Foi a primeira visita, a Chipre, de um líder a Chipre, em 16 anos, para ver se conseguiria identificar um terreno comum de partida entre duas partes, que insistem em interpretar, de forma diferente, a conjuntura atual e os fundamentos de uma solução futura.

Antes da chegada do secretário-geral, a sua enviada pessoal para a questão cipriota, Maria Angela Holguín, reuniu-se, na manhã daquele dia, em separado, com o Presidente da República de Chipre, Nicos Christodoulides, e com o líder turco-cipriota Tufan Erhürman. Tais encontros ocorreram, após os contactos de Holguín, em Ancara e em Bruxelas, e são vistos como parte da preparação final, prévia às conversações de António Guterres. A enviada pessoal transmitiu aos dois líderes a leitura que fez das posições da Turquia e da UE, assim como registou as últimas posições das duas partes, antes do início dos contactos do secretário-geral.

O governo da República de Chipre, pela palavra do porta-voz adjunto do governo, Giannis Antoniou, afirmou-se preparado para a retoma de negociações substanciais, mas mantendo expectativas moderadas, quanto ao resultado imediato da visita.

O governo cipriota pretende que o novo processo assente nas resoluções do Conselho de Segurança, no quadro de solução acordado e nas convergências obtidas, antes do colapso das negociações, em Crans-Montana, em 2017. Para tanto, procura ligação mais estreita do processo à UE, vincando que o acordo final deve garantir um Estado europeu funcional, com uma soberania, com uma personalidade internacional e com uma cidadania, não tendo lugar, na solução, garantias de países terceiros e direitos unilaterais de intervenção. E julga que a movimentação dos últimos meses, com a nomeação da enviada de Guterres e com a presença deste na ilha criam uma oportunidade diplomática, mas a possibilidade de avançar para novas negociações depende, em grande medida, da posição da Turquia.

Tufan Erhürman também avisou, prudentemente, que não se devem atribuir à visita expectativas que não correspondam à fase atual do processo. Num pronunciamento público, qualificou de importante a presença de Guterres em Chipre e ligou-a à continuidade dos esforços da ONU. Contudo, esclareceu que “não seria correto atribuir a esta visita o significado de uma solução, nem o início ou o fim de qualquer processo”.

O ministro turco dos Negócios Estrangeiros, Hakan Fidan, falou, telefonicamente, com António Guterres, no dia 26, dois dias depois de se ter reunido, em Ancara, com Holguín, tendo sido abordadas, segundo a agência estatal turca Anadolu, as dinâmicas regionais, a propósito das visitas de Guterres à Síria e a Chipre. E, apesar desta movimentação diplomática, a questão crítica continua a ser a base sobre a qual se pode retomar a negociação.

Nicósia insiste na solução de federação bizonal e bicomunitária, com igualdade política, prevista nas resoluções do Conselho de Segurança. Este quadro é a base oficial dos esforços da ONU. Em contraponto, a Turquia tem defendido que um novo processo deve reconhecer a igualdade de soberania e o estatuto internacional equivalente dos turco-cipriotas, ligando tal posição à lógica da solução de dois Estados. E a mudança na liderança da comunidade turco-cipriota gerou expectativa de clima diferente nos contactos, mas não é claro se traduzirá alteração substancial da posição turca ou o regresso ao quadro federal da ONU.

Chipre – composto por 80% de cipriotas gregos e 18% de cipriotas turcos – está dividido, há 52 anos. A 15 de julho de 1974, ocorreu um golpe de Estado, com o apoio da junta militar de Atenas. Cinco dias depois, a Turquia invadiu Chipre. Após a segunda fase das operações militares, em agosto, a ilha continuou dividida pelas linhas de cessar-fogo e pela zona tampão supervisionada pela ONU. A República de Chipre controla a parte Sul da ilha. No Norte, funciona, desde 1983, a “República Turca do Norte de Chipre”, reconhecida pela Turquia. E toda a ilha faz parte do território da UE, desde 2004, mas o acervo comunitário foi suspenso, nas áreas que o governo da República de Chipre não controla efetivamente.

A última tentativa abrangente de solução fracassou em julho de 2017, em Crans-Montana, na Suíça. Não houve acordo sobre as principais questões em causa, entre elas, a segurança, as garantias, a presença de tropas, a igualdade política e a repartição de poderes. Desde então, não foi retomado nenhum processo de negociação de dimensão comparável. Os meios de comunicação cipriotas e turcos têm referido a possibilidade de atualização do quadro apresentado por Guterres. Alguns utilizam a expressão “Guterres plus”, enquanto outros sustentam que o objetivo do secretário-geral é preservar o legado negocial e criar condições para nova reunião informal alargada.

Durante a visita, Guterres teve contactos separados e conjuntos com os dois líderes e reuniões com os negociadores, com as comissões técnicas bicomunitárias, com representantes da sociedade civil e com elementos da força de manutenção da paz. O desfecho, porém, não dependeria do número de reuniões nem da declaração genérica a favor da continuação do diálogo. O grande teste seria aquilatar da possibilidade de registar uma perceção comum sobre a base das negociações, se a Turquia está disposta a permitir o regresso a um processo ancorado nas resoluções da ONU e se as duas partes acordariam em passos concretos seguintes.

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A 28 de julho, o secretário-geral da ONU reiterou o compromisso de prosseguir com todos os esforços para a retomada das conversações sobre a questão cipriota, após as reuniões separadas que manteve, em Nicósia, com o Presidente da República de Chipre, Nikos Christodoulides, e com o líder cipriota turco, Tufan Erhürman.

Numa breve declaração, à saída do Palácio Presidencial, em Nicósia, afirmou: “Esta é uma visita de solidariedade para com o povo de Chipre e para mostrar o meu forte compromisso em garantirmos que possamos, finalmente, alcançar uma solução para Chipre. Isso depende, obviamente, dos próprios cipriotas, mas também das potências garantidoras, que têm um papel a desempenhar. Farei tudo o que puder para apoiar os cipriotas gregos e os cipriotas turcos, neste momento tão importante.”

Logo no início da reunião, no Palácio Presidencial, António Guterres tinha afirmado que, “se há um momento em que a resolução da questão cipriota é importante, esse momento é agora”, invocando o caos na região mais alargada e as mudanças geopolíticas que podem colocar, subitamente, Chipre no centro de desenvolvimentos indesejáveis.

Garantiu ao Presidente Christodoulides que pode contar com o seu total empenho, mas esclareceu que o papel da ONU não é indicar às partes o que devem fazer. E Nikos Christodoulides afirmou que a presença do secretário-geral constitui mais um sinal claro do seu empenho na resolução da questão cipriota com base nas resoluções do Conselho de Segurança da ONU.

Pouco depois das 13 horas, terminou o encontro do líder da ONU com o líder cipriota turco, Tufan Erhürman, nos territórios ocupados do Norte da ilha. Guterres reiterou que continua empenhado na retoma das negociações. E, em declaração divulgada pelo gabinete de Tufan Erhürman, sublinha‑se que o líder cipriota turco enfatizou a forte vontade da comunidade cipriota turca em alcançar uma “solução justa e duradoura” e que, ao invés das experiências de 2004 e de 2017, a parte cipriota turca trabalha, agora, com “nova e realista metodologia”, que pode contribuir para a concretização do objetivo comum.

O porta-voz do Governo da República de Chipre, Constantinos Letymbiotis, classificou como substancial e sincera a conversa entre o Presidente Nikos Christodoulides e o secretário-geral da ONU. Saudou o forte compromisso pessoal e político de António Guterres com a resolução da questão cipriota no quadro das resoluções da ONU. Explicitou que Nicósia pretende a convocação de uma conferência alargada, onde se discuta a substância da questão cipriota. E assinalou que Guterres se referiu aos cipriotas e às potências garantidoras.

Na reunião em formato alargado, participaram responsáveis da República de Chipre e da ONU Do lado cipriota participaram o Presidente Christodoulides, o ministro dos Negócios Estrangeiros, Constantinos Kombos, a vice‑ministra para os Assuntos Europeus, Marilena Raouna, o negociador Menelaos Menelau, o porta‑voz do governo, Constantinos Letymbiotis, o diretor do Gabinete Diplomático do Presidente, Doros Venezis, e a representante permanente da República de Chipre junto das Nações Unidas, Maria Michael. E, do lado da ONU, participaram os secretários‑gerais adjuntos, Rosemary DiCarlo e Jean‑Pierre Lacroix, a enviada pessoal do secretário‑geral para a questão cipriota e o representante da ONU em Chipre e chefe da Força de Manutenção da Paz da ONU no Chipre (UNFICYP), Hasim Dian.

O programa do dia incluiu a deposição de uma coroa de flores no memorial dos soldados mortos da UNFICYP, a visita ao laboratório antropológico da Comissão de Desaparecidos e encontros com os negociadores dos dois lados, com os responsáveis das comissões técnicas bicomunitárias e com representantes da sociedade civil. E, à noite, Guterres ofereceu um jantar aos dois líderes, na residência do seu representante em Chipre, no aeroporto de Nicósia.

 

Por fim, no dia 29, houve a reunião conjunta de Guterres com Nikos Christodoulides e com Tufan Erhürman, antes da conferência de imprensa com que se concluiu a visita.

O secretário-geral da ONU concluiu a visita a Chipre, onde se reuniu com as autoridades e conversou com a população. Aos jornalistas relatou que os cipriotas querem que os seus líderes façam concessões e percorram a etapa final, rumo à solução para as divisões que persistem na ilha, localizada no Mediterrâneo.

Guterres frisou que a solução da questão do Chipre é “absolutamente crucial”, para preservar os interesses e a paz do povo cipriota, e como “fator de estabilidade numa região que está a tornar-se perigosamente instável”. Enfatizou que as ONU não pode “impor a paz”, mas está comprometida a apoiar a construção de um futuro para o Chipre, marcado pela cooperação e pelas oportunidades. E relevou que esse foi o espírito das conversas “francas e construtivas” que teve, separadamente e em conjunto, com o líderes greco-cipriota e turco-cipriota.

O líder da ONU referiu que foram alcançadas convergências e que será planeada nova reunião, após um processo de preparação focado em construção de confiança e na definição de metodologia e de conteúdo. Disse que, nos próximos meses, será realizado um trabalho conjunto com os dois lados, em Chipre, e com os países garantidores, a Grécia, a Turquia e o Reino Unido, a fim de “avançar de forma decisiva rumo a uma solução”. E pediu a cooperação de ambos os lados com a Missão de Paz da ONU, que, há mais de seis décadas, “ajuda a manter a calma e a estabilidade, num ambiente sensível”, devendo a autoridade da Missão ser respeitada, na zona-tampão e nas linhas de cessar-fogo delimitadas pela ONU.

O acordo de independência distinguia as duas comunidades, buscava equilíbrio entre os seus direitos e interesses, assegurava funções de governo e autonomia administrativa a ambas, mas as tensões continuaram. A Unficyp foi criada pelo Conselho de Segurança, em 1964, para evitar combates entre os dois lados.

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Até quando perdurará a questão cipriota, num Mundo em brasa, devido à guerra?

2026.07.29 – Louro de Carvalho

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