segunda-feira, 20 de julho de 2026

 

A liturgia do 16.º domingo do Tempo Comum no Ano A mostra-nos o Deus paciente e cheio de misericórdia, que não quer a marginalização do pecador, mas a sua integração na comunidade do Reino dos Céus, e insta a que interiorizemos a lógica de Deus, deixando que ela marque o olhar que lançamos sobre o Mundo e sobre os homens.

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A primeira leitura (Sb 12,13.16-19) fala de Deus que, a par da sua omnipotência, é indulgente e misericordioso – mesmo quando os homens praticam o mal. Agindo assim, Deus convida os seus filhos a serem “humanos”, isto é, a terem um coração tão misericordioso e tão indulgente como o coração de Deus.

O Livro da Sabedoria, que é o mais recente dos livros do Antigo Testamento (AT), aparece na primeira metade do século I a.C. O hagiógrafo – judeu de língua grega, provavelmente nascido e educado na Diáspora – exprimindo-se em termos e conceções do mundo helénico, elogia a sabedoria israelita, traça o quadro da sorte que espera o justo e o ímpio no mais-além e descreve (com exemplos do Êxodo) as sortes diversas que tiveram os pagãos (idólatras) e os hebreus (fiéis a Javé). Aos compatriotas judeus (mergulhados no paganismo, na idolatria, na imoralidade), convida-os a redescobrirem a fé dos pais e os valores judaicos; aos pagãos, convida-os a verificarem o absurdo da idolatria e a aderirem a Javé, o verdadeiro e único Deus, porque só Ele garante a uns e a outros a verdadeira sabedoria e a verdadeira felicidade.

O trecho em referência pertence à terceira parte do livro (cf. Sb 10,1-19,22), em que, recorrendo, sobretudo, à técnica do midrash, o hagiógrafo compara os castigos que Deus lançou contra os ímpios (os pagãos), com a salvação reservada aos justos (o Povo de Deus).

Mostra como a sabedoria de Deus se manifestou na História de Israel. E, em contraste, descreve como Deus tratou os egípcios e os idólatras cananeus. Estes eram, na ótica israelita, raça maldita e perversa, que cometia crimes hediondos: “praticavam obras detestáveis, ritos ímpios, e eram cruéis assassinos dos seus filhos”. Deus podia tê-los eliminado, mas retardou, o mais possível, o castigo, dando-lhes várias oportunidades de se arrependerem e de mudarem de vida.

Assim, Javé deu provas de extrema moderação e manifestou a sua bondade, a sua misericórdia, a sua justiça. Não tinha de provar nada a ninguém, pois ninguém Lhe podia pedir contas, mas agiu dessa forma equilibrada e moderada, porque é um Deus justo. A justiça não é, no AT, a estrita aplicação da lei: é, sobretudo, a fidelidade à própria essência. Ora, a essência de Deus é amor, bondade e misericórdia. Por isso, ser justo equivale, para Deus, a revelar amor, benevolência e bondade na sua atitude para com os homens.

O mais significativo é que a justiça de Deus não se exerce sobre povos de Deus, mas sobre um povo “de má estirpe” e de “maldade congénita”: é a universalidade da salvação que assim é sugerida. Porém, há, neste comportamento justo de Deus uma lição para Israel.

Em primeiro lugar, Deus não quer a morte do pecador, mas que ele se converta e viva. Por isso, fecha os olhos, ante o pecado do homem, a fim de o convidar ao arrependimento.
Em segundo lugar, ensina que “o justo deve ser amigo dos homens”, pois, se a lógica de Deus é de perdão e de misericórdia, o Povo de Deus deve adotar a mesma lógica e assumir atitudes de bondade, de amor, de misericórdia, de tolerância, nas relações comunitárias. Além disso, a bondade e a compreensão não devem ser reservadas para os que são bons, mas devem estender-se àqueles que fazem insistentemente o mal.

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O Evangelho (Mt 13,24-43) garante a presença irreversível do “Reino dos Céus” (Reino de Deus) no Mundo. Esse Reino não é o clube exclusivo de “bons” e de “santos”: nele todos os homens – bons e maus – encontram a possibilidade de crescerem, de amadurecerem as suas escolhas, de serem tocados pela graça, até ao momento final da opção definitiva.

Continuamos com as “parábolas do Reino”. Desta feita, apresenta-se-nos mais um bloco de três símiles ou comparações (“parábolas”) que pretendem revelar aos discípulos e às multidões que rodeiam Jesus, o Reino de Deus

Jesus falava em parábolas, porque a linguagem parabólica é rica, expressiva, questionante; é uma excelente arma de controvérsia, útil em contextos polémicos; faz as pessoas pensarem e incita-as à procura da verdade.

Das três parábolas ora em causa, duas (a do grão de mostarda e do fermento) procedem da tradição sinótica; a outra (a do trigo e do joio) só aparece em Mateus (bem com numa antiga coleção de “ditos” de Jesus, conhecida como “Evangelho de Tomé”). Percebe-se – nas parábolas e nas explicações que as acompanham – a preocupação pastoral de Mateus, que exorta, anima, ensina e pretende fortalecer a fé da comunidade cristã a que o Evangelho se dirige.

A primeira parábola do dia é a parábola do trigo e do joio, formulada a partir de um quadro da vida quotidiana: há um senhor que semeia boa semente no seu campo, um inimigo que semeia o joio (erva gramínea que nasce entre o trigo e o danifica) e servos dedicados, preocupados com o futuro da colheita. Tudo parece normal, exceto a reação do senhor à crise, pois ordena que deixem crescer trigo e joio lado a lado e que só na altura da ceifa seja feita a seleção do bom e do mal, do que é para queimar e do que é para guardar nos celeiros.

A parábola remete para o contexto do ministério de Jesus. Ele conviveu com os pecadores, com os marginais, com os que levavam vidas moralmente condenáveis. Sentou-se à mesa com gente desclassificada, deixou-se tocar por pecadoras públicas, convidou um publicano a integrar o grupo de discípulos. Com o “escândalo” de tal comportamento, quis dizer a todos que a religião oficial excluía, que Deus os amava e os convidava a fazerem parte da sua família, a integrarem a comunidade da salvação, a serem membros de pleno direito da comunidade do Reino. Porém, os fariseus consideravam inaceitável a atitude de Jesus. Para eles, quem não cumpria a Lei tinha de ser excluído do Povo de Deus e não tinha o direito de fazer parte do campo de Deus. A lógica dos fariseus contradiz a lógica de Deus.

Nesta parábola, Jesus sugere que a lógica de Deus não é de destruição, de segregação, de exclusão, mas a lógica de amor, de misericórdia, de tolerância. O Deus de Jesus Cristo é um Deus paciente e misericordioso, lento para a ira e rico de misericórdia, que dá sempre ao homem todas as oportunidades para refazerem a existência e para integrarem plenamente a comunidade do Reino. Ele tem um plano de salvação e de graça que oferece gratuitamente a todos os homens, bons e maus. Depois, no tempo oportuno, ver-se-á quem são os maus e quem são os bons. De resto, não é muito fácil separar o bom e o mau, porque as duas realidades coexistem em todos os campos, em todos os corações.

O senhor da parábola é o Deus paciente, que dá ao homem todas as oportunidades, que não quer a morte do pecador, mas que ele se converta e viva. Os servos com excesso de zelo são os crentes que trabalham no campo do senhor, rígidos e intolerantes, incapazes de olharem o Mundo e o coração dos homens com a bondade, com a serenidade e com a paciência de Deus. É a paciência de Deus que salva o homem e é a impaciência do homem que o condena.

Já o campo é o Mundo e a História, onde coexistem o trigo (sinais de esperança, de vida, de amor que tornam este mundo mais belo e mais feliz) e o joio (sinais de morte, responsáveis pelo sofrimento, pela opressão, pela escravidão); e é o coração de cada homem e de cada mulher, capaz de opções de vida e capazes de opções de morte.

Jesus garante que os métodos de Deus não passam pelo castigo imediato, pela intolerância, face às opções dos homens, pela incompreensão dos erros dos seus filhos. Passam, antes, por deixar os homens crescerem em liberdade, integrando a comunidade dos filhos de Deus.

Na aplicação que o evangelista faz da parábola do trigo e do joio à vida da sua comunidade, o eixo central da parábola original passa a ser outro. A problema já não é se, na ótica de Deus, o trigo e o joio podem crescer juntos, mas é a questão do juízo que espera bons e maus: Mateus insiste que, no “dia da colheita” (que os profetas identificam com o dia do juízo de Deus sobre os homens e sobe o Mundo), os bons receberão a recompensa e os maus receberão o castigo.

Em finais do século I, já passou o entusiasmo dos primeiros anos; a vida das comunidades cristãs é marcada pela monotonia, pela falta de entusiasmo e empenho, pela mediocridade, pelo laxismo. Os cristãos aburguesaram-se e nem sempre vivem, empenhada e comprometidamente, a fé. Para despertar neles o entusiasmo inicial, Mateus usa os métodos dos pregadores epocais. Recorre à linguagem e aos símbolos da apocalíptica, para lembrar aos cristãos da sua comunidade o juízo futuro de Deus. Os símbolos utilizados (o joio queimado no fogo, a fornalha ardente, o choro e o ranger de dentes) destinam-se a impressionar os crentes, a obrigá-los a infletirem os seus esquemas de vida e a voltarem à fidelidade ao Evangelho. Portanto, longe de termos uma descrição do fim do Mundo, temos um convite urgente e emotivo à conversão, ao aprofundamento do compromisso com Jesus e com o Evangelho.

Temos ainda duas outras parábolas: a do grão de mostarda e a do fermento. São muito semelhantes no conteúdo e na forma. Numa e noutra, o quadro é o mesmo: sublinha-se a desproporção entre o início e o resultado final. O grão de mostarda é uma semente muito pequena, mas que pode dar origem a um arbusto de razoáveis dimensões; o fermento apresenta um aspeto perfeitamente insignificante, mas tem a capacidade de fermentar uma grande quantidade de massa. Estas duas comparações servem para apresentar o dinamismo do Reino. O Reino anunciado por Jesus compara-se ao grão de mostarda e ao fermento: parece algo insignificante, que tem inícios muito modestos e humildes, mas contém potencialidades para encher o Mundo, para o transformar e para o renovar. Trata-se do dinamismo de vida nova que começa como a pequena semente lançada à terra numa província obscura e insignificante do império romano, mas que lança as suas raízes, invade a História dos homens e potencia o aparecimento de um mundo novo.

Contudo, a parábola do grão de mostarda sugere também a dinâmica do acolhimento, pois, quando a mostarda se transforma em arbusto ou em árvore viçosa, as aves do céu acolhem-se nos seus ramos e cantam alegres.

Com estas parábolas, Jesus responde às objeções dos que não acreditavam que da mensagem do carpinteiro de Nazaré, pudesse surgir um estilo de vida, capaz de fermentar o Mundo e a História. Jesus garante-nos que o Reino é uma realidade irreversível, que veio para ficar e para transformar o Mundo. Escutar estas parábolas é receber uma injeção de ânimo e de esperança, capaz de levar ao compromisso sério e exigente com o Reino.

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Leão XIV, antes os fiéis reunidos para a oração no Angelus, na Praça da Liberdade, em Castel Gandolfo, comentou o Evangelho nos termos seguintes:

“Após a parábola do semeador, Jesus fala às multidões por meio de algumas imagens: o joio e o trigo, o grão de mostarda e o fermento na farinha. São três parábolas que pretendem evocar a chegada do Reino de Deus na História, a sua ação na vida dos homens, o modo como cresce, se expande e transforma o Mundo a partir de dentro. […] Jesus adverte-nos contra a tentação de pensar em Deus como figura poderosa, que se impõe pela força, que ocupa o espaço para dominar, que chega triunfante. […] Deus prefere a pequenez, sinal de seu amor discreto. Deixa-nos livres para acolhê-lo ou para rejeitá-lo, procura abrir caminho, mesmo em meio ao joio, e age, de forma oculta e invisível, como a menor das sementes, fermentando a massa, sem barulho.

“Jesus diz-nos algo importante sobre o modo como Deus opera na nossa vida e na História. Às vezes, esperamos algo espetacular, desejamos um Deus que intervenha do alto, arrancando imediatamente o joio, que é o mal. Imaginamos um Deus forte e poderoso e adequamos o nosso modo de ser cristãos e de ser Igreja a essa imagem. Em vez disso, o Reino de Deus difunde-se também no meio do joio e pede-nos um olhar capaz de reconhecer o bem que brota, mesmo nas trevas do mal, sem que julguemos tudo apressadamente. Ele vem como a menor das sementes, exigindo a paciência de saber acompanhar os processos, para que o reconheçamos na simplicidade do quotidiano e na singeleza da vida comum. Cresce invisivelmente, como o fermento na farinha, e assim nos liberta do desânimo, convidando-nos a ter confiança, ainda que nos pareça que Deus está ausente. Ele acompanha-nos continuamente e o seu amor está sempre a agir em nosso favor.

“Esse estilo de Deus deve tornar-se o modelo segundo o qual vivemos a realidade que nos rodeia, como indivíduos e como Igreja. Somos chamados a assumir um estilo evangélico, sem adotarmos, precipitadamente, a postura de oposição marcada por julgamentos arrogantes, sem nos impormos pelo poder e pela força e sem perdermos a confiança na obra de Deus. Trata-se, como dizia o então cardeal Ratzinger, de nos submetermos à lógica da semente, que não é a do sucesso e da grandeza, mas que nos pede para nos tornarmos pequenos e servirmos à vida das pessoas. Assim, tornar-nos-emos como a pequena semente do Evangelho que brota e como um fermento de amor que transforma a massa do Mundo.

“Oremos a Maria Santíssima, que soube acolher a semente da Palavra em sua humildade, para que nos sustente no nosso caminho e interceda por nós.”

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A segunda leitura (Rm 8,26-27) evidencia a bondade e a misericórdia de Deus e afirma que o Espírito Santo, dom de Deus, vem em auxílio da nossa fragilidade, guiando-nos na senda para a vida plena.

Já sabíamos que a salvação é um dom de Deus, dom gratuito que é fruto da bondade e do amor de Deus, que nos chega por Jesus Cristo e que atua em nós pelo Espírito que Jesus derrama sobre os que aderem ao seu projeto e entram na sua comunidade, a comunidade do Reino.

Paulo já nos convidou à decisão pela vida “segundo o Espírito”. Dizia-nos que essa opção terá uma dimensão cósmica e que ajudará a vencer os desequilíbrios e desarmonias que destroem a criação de Deus. Porém, é um caminho difícil, que exige padecimentos, renúncias, purificações, renovação da vida.

E o apóstolo ensina como pode o cristão fazer essa opção, percebe ele qual é o caminho e donde recebe ele a força para viver “segundo o Espírito”. É Deus que nos dá a força de viver “segundo o Espírito”, mas devemos, continuamente, pedir a Deus, nosso Pai, essa graça. Todavia, como nem sempre sabemos o que devemos pedir, pois nem sempre conseguimos discernir entre a vida “segundo a carne” e a vida “segundo o Espírito”, o próprio Espírito Santo “vem em auxílio da nossa fraqueza”.

Como é que Paulo entende a intervenção do Espírito a este propósito? O texto não é explícito. No entanto, como nós temos dificuldade em articular, devidamente, os nossos desejos e necessidades, é o Espírito que se encarrega de os formulá-los em nossa vez ou junta a sua intercessão “inefável” aos nossos gemidos, fazendo com que a nossa oração chegue até Deus.

Num e noutro caso, o Espírito é mediador eficaz no nosso diálogo com Deus. É nosso intérprete e intercessor, elevando-nos ao Deus que conhece o coração. E esta oração, que o Espírito dirige em nossa vez ou que o Espírito apoia, é sempre acolhida por Deus, pois está conforme com o planos de Deus. Por conseguinte, a sua ação é de paráclito ou consolador.

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É, pois, justo e salvífico reconhecer a paciência e a misericórdia de Deus e a sua generosidade em revelar aos pequeninos os mistérios do Reino.

“Senhor, sois um Deus clemente e compassivo.”

“Vós, Senhor, sois bom e indulgente, / cheio de misericórdia para com todos os que Vos invocam. / Ouvi, Senhor, a minha oração, / atendei a voz da minha súplica.

“Todos os povos que criastes virão adorar-vos, Senhor, / e glorificar o vosso nome, / porque Vós sois grande e operais maravilhas, / Vós sois o único Deus.

“Senhor, sois um Deus bondoso e compassivo, / paciente e cheio de misericórdia e fidelidade. / Voltai para mim os vossos olhos / e tende piedade de mim.”

 Sl 85 (86)

“Aleluia. Aleluia. / Bendito sejais, ó Pai, Senhor do céu e da terra, / porque revelastes aos pequeninos os mistérios do reino.” – Mt 11,25

2026.07.19 – Louro de Carvalho

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