A
liturgia do 16.º domingo do Tempo Comum no Ano A mostra-nos o Deus paciente e
cheio de misericórdia, que não quer a marginalização do pecador, mas a sua
integração na comunidade do Reino dos Céus, e insta a que interiorizemos a
lógica de Deus, deixando que ela marque o olhar que lançamos sobre o Mundo e
sobre os homens.
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A
primeira leitura (Sb 12,13.16-19) fala de Deus que, a par da sua
omnipotência, é indulgente e misericordioso – mesmo quando os homens praticam o
mal. Agindo assim, Deus convida os seus filhos a serem “humanos”, isto é, a
terem um coração tão misericordioso e tão indulgente como o coração de Deus.
O
Livro da Sabedoria, que é o mais recente dos livros do Antigo Testamento
(AT), aparece na primeira metade do século I a.C. O hagiógrafo – judeu de
língua grega, provavelmente nascido e educado na Diáspora – exprimindo-se em
termos e conceções do mundo helénico, elogia a sabedoria israelita, traça o
quadro da sorte que espera o justo e o ímpio no mais-além e descreve (com
exemplos do Êxodo) as sortes diversas que tiveram os pagãos (idólatras) e os
hebreus (fiéis a Javé). Aos compatriotas judeus (mergulhados no paganismo, na
idolatria, na imoralidade), convida-os a redescobrirem a fé dos pais e os
valores judaicos; aos pagãos, convida-os a verificarem o absurdo da idolatria e
a aderirem a Javé, o verdadeiro e único Deus, porque só Ele garante a uns e a
outros a verdadeira sabedoria e a verdadeira felicidade.
O
trecho em referência pertence à terceira parte do livro (cf. Sb
10,1-19,22), em que, recorrendo, sobretudo, à técnica do midrash, o hagiógrafo
compara os castigos que Deus lançou contra os ímpios (os pagãos), com a
salvação reservada aos justos (o Povo de Deus).
Mostra
como a sabedoria de Deus se manifestou na História de Israel. E, em contraste,
descreve como Deus tratou os egípcios e os idólatras cananeus. Estes eram, na ótica
israelita, raça maldita e perversa, que cometia crimes hediondos: “praticavam
obras detestáveis, ritos ímpios, e eram cruéis assassinos dos seus filhos”.
Deus podia tê-los eliminado, mas retardou, o mais possível, o castigo,
dando-lhes várias oportunidades de se arrependerem e de mudarem de vida.
Assim,
Javé deu provas de extrema moderação e manifestou a sua bondade, a sua
misericórdia, a sua justiça. Não tinha de provar nada a ninguém, pois ninguém Lhe
podia pedir contas, mas agiu dessa forma equilibrada e moderada, porque é um
Deus justo. A justiça não é, no AT, a estrita aplicação da lei: é, sobretudo, a
fidelidade à própria essência. Ora, a essência de Deus é amor, bondade e
misericórdia. Por isso, ser justo equivale, para Deus, a revelar amor,
benevolência e bondade na sua atitude para com os homens.
O
mais significativo é que a justiça de Deus não se exerce sobre povos de Deus,
mas sobre um povo “de má estirpe” e de “maldade congénita”: é a universalidade
da salvação que assim é sugerida. Porém, há, neste comportamento justo de Deus
uma lição para Israel.
***
O
Evangelho (Mt 13,24-43) garante a presença irreversível do “Reino dos
Céus” (Reino de Deus) no Mundo. Esse Reino não é o clube exclusivo de “bons” e
de “santos”: nele todos os homens – bons e maus – encontram a possibilidade de
crescerem, de amadurecerem as suas escolhas, de serem tocados pela graça, até
ao momento final da opção definitiva.
Continuamos
com as “parábolas do Reino”. Desta feita, apresenta-se-nos mais um bloco de
três símiles ou comparações (“parábolas”) que pretendem revelar aos discípulos
e às multidões que rodeiam Jesus, o Reino de Deus
Jesus
falava em parábolas, porque a linguagem parabólica é rica, expressiva,
questionante; é uma excelente arma de controvérsia, útil em contextos
polémicos; faz as pessoas pensarem e incita-as à procura da verdade.
Das
três parábolas ora em causa, duas (a do grão de mostarda e do fermento)
procedem da tradição sinótica; a outra (a do trigo e do joio) só aparece em
Mateus (bem com numa antiga coleção de “ditos” de Jesus, conhecida como
“Evangelho de Tomé”). Percebe-se – nas parábolas e nas explicações que as
acompanham – a preocupação pastoral de Mateus, que exorta, anima, ensina e pretende
fortalecer a fé da comunidade cristã a que o Evangelho se dirige.
A
primeira parábola do dia é a parábola do trigo e do joio, formulada a partir de
um quadro da vida quotidiana: há um senhor que semeia boa semente no seu campo,
um inimigo que semeia o joio (erva gramínea que nasce entre o trigo e o
danifica) e servos dedicados, preocupados com o futuro da colheita. Tudo parece
normal, exceto a reação do senhor à crise, pois ordena que deixem crescer trigo
e joio lado a lado e que só na altura da ceifa seja feita a seleção do bom e do
mal, do que é para queimar e do que é para guardar nos celeiros.
A
parábola remete para o contexto do ministério de Jesus. Ele conviveu com os
pecadores, com os marginais, com os que levavam vidas moralmente condenáveis.
Sentou-se à mesa com gente desclassificada, deixou-se tocar por pecadoras
públicas, convidou um publicano a integrar o grupo de discípulos. Com o “escândalo”
de tal comportamento, quis dizer a todos que a religião oficial excluía, que
Deus os amava e os convidava a fazerem parte da sua família, a integrarem a
comunidade da salvação, a serem membros de pleno direito da comunidade do
Reino. Porém, os fariseus consideravam inaceitável a atitude de Jesus. Para
eles, quem não cumpria a Lei tinha de ser excluído do Povo de Deus e não tinha
o direito de fazer parte do campo de Deus. A lógica dos fariseus contradiz a
lógica de Deus.
Nesta
parábola, Jesus sugere que a lógica de Deus não é de destruição, de segregação,
de exclusão, mas a lógica de amor, de misericórdia, de tolerância. O Deus de
Jesus Cristo é um Deus paciente e misericordioso, lento para a ira e rico de
misericórdia, que dá sempre ao homem todas as oportunidades para refazerem a
existência e para integrarem plenamente a comunidade do Reino. Ele tem um plano
de salvação e de graça que oferece gratuitamente a todos os homens, bons e maus.
Depois, no tempo oportuno, ver-se-á quem são os maus e quem são os bons. De
resto, não é muito fácil separar o bom e o mau, porque as duas realidades
coexistem em todos os campos, em todos os corações.
O
senhor da parábola é o Deus paciente, que dá ao homem todas as oportunidades,
que não quer a morte do pecador, mas que ele se converta e viva. Os servos com
excesso de zelo são os crentes que trabalham no campo do senhor, rígidos e
intolerantes, incapazes de olharem o Mundo e o coração dos homens com a
bondade, com a serenidade e com a paciência de Deus. É a paciência de Deus que
salva o homem e é a impaciência do homem que o condena.
Já
o campo é o Mundo e a História, onde coexistem o trigo (sinais de esperança, de
vida, de amor que tornam este mundo mais belo e mais feliz) e o joio (sinais de
morte, responsáveis pelo sofrimento, pela opressão, pela escravidão); e é o
coração de cada homem e de cada mulher, capaz de opções de vida e capazes de
opções de morte.
Jesus
garante que os métodos de Deus não passam pelo castigo imediato, pela
intolerância, face às opções dos homens, pela incompreensão dos erros dos seus
filhos. Passam, antes, por deixar os homens crescerem em liberdade, integrando
a comunidade dos filhos de Deus.
Na
aplicação que o evangelista faz da parábola do trigo e do joio à vida da sua
comunidade, o eixo central da parábola original passa a ser outro. A problema
já não é se, na ótica de Deus, o trigo e o joio podem crescer juntos, mas é a
questão do juízo que espera bons e maus: Mateus insiste que, no “dia da
colheita” (que os profetas identificam com o dia do juízo de Deus sobre os
homens e sobe o Mundo), os bons receberão a recompensa e os maus receberão o
castigo.
Em
finais do século I, já passou o entusiasmo dos primeiros anos; a vida das
comunidades cristãs é marcada pela monotonia, pela falta de entusiasmo e
empenho, pela mediocridade, pelo laxismo. Os cristãos aburguesaram-se e nem
sempre vivem, empenhada e comprometidamente, a fé. Para despertar neles o
entusiasmo inicial, Mateus usa os métodos dos pregadores epocais. Recorre à
linguagem e aos símbolos da apocalíptica, para lembrar aos cristãos da sua
comunidade o juízo futuro de Deus. Os símbolos utilizados (o joio queimado no
fogo, a fornalha ardente, o choro e o ranger de dentes) destinam-se a
impressionar os crentes, a obrigá-los a infletirem os seus esquemas de vida e a
voltarem à fidelidade ao Evangelho. Portanto, longe de termos uma descrição do
fim do Mundo, temos um convite urgente e emotivo à conversão, ao aprofundamento
do compromisso com Jesus e com o Evangelho.
Temos
ainda duas outras parábolas: a do grão de mostarda e a do fermento. São muito
semelhantes no conteúdo e na forma. Numa e noutra, o quadro é o mesmo:
sublinha-se a desproporção entre o início e o resultado final. O grão de
mostarda é uma semente muito pequena, mas que pode dar origem a um arbusto de
razoáveis dimensões; o fermento apresenta um aspeto perfeitamente
insignificante, mas tem a capacidade de fermentar uma grande quantidade de
massa. Estas duas comparações servem para apresentar o dinamismo do Reino. O Reino
anunciado por Jesus compara-se ao grão de mostarda e ao fermento: parece algo
insignificante, que tem inícios muito modestos e humildes, mas contém
potencialidades para encher o Mundo, para o transformar e para o renovar.
Trata-se do dinamismo de vida nova que começa como a pequena semente lançada à
terra numa província obscura e insignificante do império romano, mas que lança
as suas raízes, invade a História dos homens e potencia o aparecimento de um
mundo novo.
Contudo,
a parábola do grão de mostarda sugere também a dinâmica do acolhimento, pois,
quando a mostarda se transforma em arbusto ou em árvore viçosa, as aves do céu
acolhem-se nos seus ramos e cantam alegres.
Com
estas parábolas, Jesus responde às objeções dos que não acreditavam que da
mensagem do carpinteiro de Nazaré, pudesse surgir um estilo de vida, capaz de
fermentar o Mundo e a História. Jesus garante-nos que o Reino é uma realidade
irreversível, que veio para ficar e para transformar o Mundo. Escutar estas
parábolas é receber uma injeção de ânimo e de esperança, capaz de levar ao
compromisso sério e exigente com o Reino.
***
Leão
XIV, antes os fiéis reunidos para a oração no Angelus, na Praça da
Liberdade, em Castel Gandolfo, comentou o Evangelho nos termos seguintes:
“Após
a parábola do semeador, Jesus fala às multidões por meio de algumas imagens: o
joio e o trigo, o grão de mostarda e o fermento na farinha. São três parábolas
que pretendem evocar a chegada do Reino de Deus na História, a sua ação na vida
dos homens, o modo como cresce, se expande e transforma o Mundo a partir de
dentro. […] Jesus adverte-nos contra a tentação de pensar em Deus como figura
poderosa, que se impõe pela força, que ocupa o espaço para dominar, que chega
triunfante. […] Deus prefere a pequenez, sinal de seu amor discreto. Deixa-nos
livres para acolhê-lo ou para rejeitá-lo, procura abrir caminho, mesmo em meio
ao joio, e age, de forma oculta e invisível, como a menor das sementes,
fermentando a massa, sem barulho.
“Jesus
diz-nos algo importante sobre o modo como Deus opera na nossa vida e na História.
Às vezes, esperamos algo espetacular, desejamos um Deus que intervenha do alto,
arrancando imediatamente o joio, que é o mal. Imaginamos um Deus forte e
poderoso e adequamos o nosso modo de ser cristãos e de ser Igreja a essa
imagem. Em vez disso, o Reino de Deus difunde-se também no meio do joio e pede-nos
um olhar capaz de reconhecer o bem que brota, mesmo nas trevas do mal, sem que
julguemos tudo apressadamente. Ele vem como a menor das sementes, exigindo a
paciência de saber acompanhar os processos, para que o reconheçamos na
simplicidade do quotidiano e na singeleza da vida comum. Cresce invisivelmente,
como o fermento na farinha, e assim nos liberta do desânimo, convidando-nos a
ter confiança, ainda que nos pareça que Deus está ausente. Ele acompanha-nos continuamente
e o seu amor está sempre a agir em nosso favor.
“Esse
estilo de Deus deve tornar-se o modelo segundo o qual vivemos a realidade que
nos rodeia, como indivíduos e como Igreja. Somos chamados a assumir um estilo
evangélico, sem adotarmos, precipitadamente, a postura de oposição marcada por
julgamentos arrogantes, sem nos impormos pelo poder e pela força e sem
perdermos a confiança na obra de Deus. Trata-se, como dizia o então cardeal
Ratzinger, de nos submetermos à lógica da semente, que não é a do sucesso e da
grandeza, mas que nos pede para nos tornarmos pequenos e servirmos à vida das
pessoas. Assim, tornar-nos-emos como a pequena semente do Evangelho que brota e
como um fermento de amor que transforma a massa do Mundo.
“Oremos
a Maria Santíssima, que soube acolher a semente da Palavra em sua humildade,
para que nos sustente no nosso caminho e interceda por nós.”
***
A
segunda leitura (Rm 8,26-27) evidencia a bondade e a misericórdia de
Deus e afirma que o Espírito Santo, dom de Deus, vem em auxílio da nossa
fragilidade, guiando-nos na senda para a vida plena.
Já
sabíamos que a salvação é um dom de Deus, dom gratuito que é fruto da bondade e
do amor de Deus, que nos chega por Jesus Cristo e que atua em nós pelo Espírito
que Jesus derrama sobre os que aderem ao seu projeto e entram na sua comunidade,
a comunidade do Reino.
Paulo
já nos convidou à decisão pela vida “segundo o Espírito”. Dizia-nos que essa
opção terá uma dimensão cósmica e que ajudará a vencer os desequilíbrios e
desarmonias que destroem a criação de Deus. Porém, é um caminho difícil, que
exige padecimentos, renúncias, purificações, renovação da vida.
E
o apóstolo ensina como pode o cristão fazer essa opção, percebe ele qual é o
caminho e donde recebe ele a força para viver “segundo o Espírito”. É Deus que
nos dá a força de viver “segundo o Espírito”, mas devemos, continuamente, pedir
a Deus, nosso Pai, essa graça. Todavia, como nem sempre sabemos o que devemos
pedir, pois nem sempre conseguimos discernir entre a vida “segundo a carne” e a
vida “segundo o Espírito”, o próprio Espírito Santo “vem em auxílio da nossa
fraqueza”.
Como
é que Paulo entende a intervenção do Espírito a este propósito? O texto não é
explícito. No entanto, como nós temos dificuldade em articular, devidamente, os
nossos desejos e necessidades, é o Espírito que se encarrega de os formulá-los
em nossa vez ou junta a sua intercessão “inefável” aos nossos gemidos, fazendo
com que a nossa oração chegue até Deus.
Num
e noutro caso, o Espírito é mediador eficaz no nosso diálogo com Deus. É nosso
intérprete e intercessor, elevando-nos ao Deus que conhece o coração. E esta
oração, que o Espírito dirige em nossa vez ou que o Espírito apoia, é sempre
acolhida por Deus, pois está conforme com o planos de Deus. Por conseguinte, a
sua ação é de paráclito ou consolador.
***
É,
pois, justo e salvífico reconhecer a paciência e a misericórdia de Deus e a sua
generosidade em revelar aos pequeninos os mistérios do Reino.
“Senhor,
sois um Deus clemente e compassivo.”
“Vós,
Senhor, sois bom e indulgente, / cheio de misericórdia para com todos os que
Vos invocam. / Ouvi, Senhor, a minha oração, / atendei a voz da minha súplica.
“Todos
os povos que criastes virão adorar-vos, Senhor, / e glorificar o vosso nome, / porque
Vós sois grande e operais maravilhas, / Vós sois o único Deus.
“Senhor,
sois um Deus bondoso e compassivo, / paciente e cheio de misericórdia e
fidelidade. / Voltai para mim os vossos olhos / e tende piedade de mim.”
– Sl 85
(86)
“Aleluia.
Aleluia. / Bendito sejais, ó Pai, Senhor do céu e da terra, / porque revelastes
aos pequeninos os mistérios do reino.” – Mt 11,25
2026.07.19 – Louro de Carvalho
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